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IV. OS MEIOS DE RAL E OS TRIBUNAIS

3. Das Partes

As partes são um pressuposto essencial de qualquer litígio pois, são estas que estão na base do conflito,

quer seja do lado ativo

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, quer seja do lado passivo.

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No que diz respeito aos meios de RAL, como vimos, o acordo das partes em submeter a resolução do

litígio a estes meios, e o consequente afastamento dos tribunais judiciais, é essencial.

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Posto isto, é importante referir que no que diz respeito às partes a principal questão que se levanta

prende-se com a representação destas.

Sendo que, uma das vertentes principais do princípio de acesso ao Direito e a uma tutela jurisdicional

efetiva assenta no direito assegurado a todos ao patrocínio judiciário e a fazer-se acompanhar por advogado

perante qualquer autoridade.

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O patrocínio judiciário assenta o seu fundamento no mandato judicial que será o ato pelo qual se

atribui poderes ao mandatário para representar a parte em todos os atos e termos do processo judicial, podendo

ser este atribuído a advogado, advogado estagiário ou solicitador, conforme o caso.

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Assim, e no que diz respeito aos tribunais judiciais, o patrocínio judiciário constitui um elemento

essencial na administração da justiça.

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Levantando-se a questão de perceber qual o seu papel nos meios de

RAL.

3.1. ARBITRAGEM

A autonomia da vontade das partes, como vimos, é um princípio fundamental que caracteriza a

arbitragem, estando na disponibilidade destas o acesso à arbitragem, bem como o poder de estabelecerem as

regras do processo arbitral.

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No que diz respeito ao patrocínio judiciário é curioso verificar que a LAV nada prevê relativamente a

esta matéria, ao contrário do previsto para o processo civil, em que, em determinados casos é mesmo obrigatória

a constituição de mandatário.

181 Lei n.º 21/2007, de 12 de junho.

182 Portaria n.º 68-C/2008, de 22 de janeiro.

183 Enquanto autor, demandante, exequente, etc.

184 Enquanto réu, demandado, executado, etc.

185 Salvo as situações referentes aos julgados de paz que vimos no capitulo IV, ponto 1.3, relativamente à competência destes.

186 Nos termos do previsto no artigo 20º n.º 2 da CRP.

187 Nos termos do previsto no artigo 1157º do CC e dos artigos 40º e 44º do CPC.

188 Nos termos do previsto no artigo 12º e 15º da LOSJ.

Assim, e tendo em conta a falta de previsão da LAV em relação ao patrocínio judiciário, conjugado

com facto de caber às partes definir as regras do processo arbitral, para além do que é um principio fundamental

do processo arbitral que as partes devem ser tratadas com igualdade e deve ser-lhes dada a oportunidade

razoável de fazerem valer os seus direitos,

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pode-se inferir que apesar de não haver uma imposição de

constituição de mandatário, esta decisão caberá às partes.

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Estando na disposição das partes a decisão sobre a constituição ou não de mandatário, será de bom

senso que quando se encontrem perante um litígio que envolva questões eminentemente jurídicas, deverem as

partes constituir mandatário para melhor defenderem os seus direitos,

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podendo ainda em questões mais

técnicas optar por apenas se fazerem acompanhar por técnicos especializados dispensando a constituição de

mandatário.

No entanto esta falta de previsão explicita é difícil de perceber, pois sendo um pressuposto processual

geral essencial dos processos judiciais, também no âmbito da arbitragem deveria este encontrar-se

especificamente regulado.

Ainda assim, apesar da falta de previsão da LAV, podemos encontrar algumas referências ao

patrocínio judiciário em outras disposições arbitrais, nomeadamente nos regulamentos dos diversos centros de

arbitragem.

No Centro de Arbitragem da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa – Centro de Arbitragem

Comercial, por exemplo, o seu regulamento prevê no artigo 17º que as partes podem mandatar quem as

represente e podem nomear quem as assista.

Já o regulamento do CIAB – Tribunal Arbitral de Consumo, por sua vez, prevê no seu artigo 14º n.º

4 que as partes podem fazer-se representar ou ser assistidas por terceiros, nomeadamente por advogados,

associações de consumidores ou associações empresariais.

Também no âmbito do consumo a Lei n.º 114/2015, de 8 de setembro, que regula os mecanismos de

resolução extrajudicial de litígios de consumo, prevê no seu artigo 12º n.º 1 alínea b), como princípio a respeitar

nos procedimentos de RAL, que às partes deve ser assegurado o direito de se fazerem representar ou

acompanhar por advogado ou outro representante com poderes especiais, ou o direito de serem assistidas por

terceiros em qualquer fase do procedimento.

3.2. JULGADOS DE PAZ

Já nos julgados de paz, como vimos, um dos princípios estruturantes do seu processo é a participação

cívica dos interessados na administração da Justiça.

Esta participação cívica dos interessados torna-se visível na obrigação de as partes terem de

comparecer pessoalmente, podendo fazer-se acompanhar por advogado, advogado estagiário ou solicitador.

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190 Nos termos do previsto no artigo 30º n.º 1 alínea b) da LAV.

191 Cfr. BARROCAS, Manuel Pereira, “Manual de Arbitragem”, 2013, p. 394 – “Assim, é livre, em Portugal, a constituição ou não de advogado num processo arbitral, salvo convenção em contrário das partes.”

192 Cfr. idem, ibidem, p. 394 – “Por razões de bom senso e de utilidade prática é lógico que sempre que o litígio envolva questões jurídicas ou a sua resolução tenha um determinado enquadramento jurídico é elementar a necessidade de constituição de advogado.”

Esta obrigação de comparência pessoal das partes é também expressa na audiência de julgamento em

que estas são ouvidas.

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Assim, o patrocínio judiciário assume um carácter voluntário, adotando a forma de assistência aos

interessados, ao contrário do que sucede, por norma, no processo civil. Contudo, convém ressalvar que no

próprio processo civil nem sempre é obrigatório o patrocínio judiciário.

No entanto, esta não obrigatoriedade de patrocínio judiciário encerra um perigo ou dificuldade, que

será as situações em que uma das partes recorre ao patrocínio judiciário e a outra não, podendo originar um

desequilíbrio quanto à defesa dos interesses das partes, nomeadamente na elaboração dos articulados e mesmo

na audiência de julgamento. A capacidade de alegação que um advogado ou solicitador poderá trazer à parte

que representa, poderá deixar a outra parte numa situação de inferioridade, devendo nestas situações o juiz

apreciar a necessidade de patrocínio judiciário pela parte que dele prescindiu.

Ainda de referir que, caso o processo seja objeto de recurso já será obrigatória a constituição de

advogado.

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3.3. MEDIAÇÃO

No que diz respeito à mediação, a LM salvaguarda no seu artigo 18º, que as partes podem comparecer

pessoalmente ou fazer-se representar nas sessões de mediação, podendo ser acompanhadas por advogado,

advogado estagiário ou solicitador.

A assistência por advogado

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poderá ser a única forma de serem garantidos os direitos das partes, ao

mesmo tempo que, poderá ser uma forma de controlo do papel do mediador, pois, como vimos, não é

obrigatório o mediador ter formação numa área do Direito.

Apesar de sermos da opinião que só com o patrocínio judicial poderá ser garantido às partes a defesa

dos seus direitos legalmente estabelecidos,

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causa alguma admiração que o mesmo artigo 18º da LM preveja

que as partes podem fazer-se representar, não sendo obrigatória a sua comparência pessoal nas sessões de

mediação, ao contrário do previsto nos julgados de paz, pois se para as pessoas coletivas fará sentido, para as

pessoas singulares já não,

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uma vez que, sendo a mediação um meio de resolução de litígios caracterizado

pela proximidade, até que ponto a representação poderá garantir essa proximidade entre as partes.

No entanto, quer seja no âmbito da assistência ou da representação, fundamental será o papel que o

advogado deverá assumir na mediação, pois terá de ser obrigatoriamente diferente do papel deste em tribunal,

pois na mediação o papel principal deverá caber às partes e não ao advogado.

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194 Nos termos do previsto no artigo 57º n.º 1 da LJP.

195 Nos termos do previsto no artigo 38º n.º 3 da LJP e do artigo 40º n.º 1 c) do CPC.

196 Apesar de se referir o advogado, o que se referirá relativamente a este também se aplicará ao advogado estagiário e ao solicitador.

197 Cfr. SIMAC, Srdan, “Attorneys and Mediation”, 2009, p. 10 – “It is particularly advisable for a party to be represented by an attorney in mediation wich involves complex legal issues and requires expert legal knowledge;”

198 A não ser, claro está, em situação de impossibilidade manifesta da parte de comparecer pessoalmente.

199 Cfr. GOUVEIA, Mariana França, “Mediação e Processo Civil”, p. 7 – “O papel do advogado numa sessão de mediação é muito diferente daquele que desempenha em tribunal judicial ou arbitral. Desde logo, na mediação não é necessário convencer ninguém quanto aos factos ou ao direito, em mediação são as partes que têm o papel principal, não o advogado.”

Assim, no âmbito da mediação o papel do advogado deverá ser o de auxiliar a parte na procura da

melhor solução para o litígio, tendo uma intervenção secundária no processo de mediação. Nesta perspetiva, o

advogado assumirá um papel de consulta e auxilio da parte,

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servindo mais como um garante dos direitos

desta, para além do que, funcionará como meio de controlo da atividade do mediador, quer do ponto de vista

deontológico, quer da sua competência.

3.4. APOIO JUDICIÁRIO

Outro aspeto que nos parece importante abordar, no que diz respeito às partes, prende-se com o apoio

judiciário, pois, como vimos, o princípio de acesso ao Direito e a uma tutela jurisdicional efetiva assegura o

direito ao patrocínio judiciário, prevendo também que a justiça não pode ser denegada por insuficiência de

meios económicos,

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Nesse sentido foi criado o regime do apoio judiciário para garantir a todos a defesa dos

seus direitos.

O regime do apoio judiciário encontra-se previsto na Lei de Acesso ao Direito e aos Tribunais,

prevendo esta no seu artigo 1º n.º 1, que o sistema de acesso ao direito e aos tribunais destina-se a assegurar

que a ninguém seja dificultado ou impedido, em razão da sua condição social ou cultural, ou por insuficiência

de meios económicos, o conhecimento, o exercício ou a defesa dos seus direitos. Ao garantir o direito de acesso

ao Direito e aos Tribunais, este regime garante também um dos princípios estruturantes do nosso sistema,

plasmado na CRP, isto é, o principio da igualdade.

202

Em relação aos meios de RAL, a Lei de Acesso ao Direito e aos Tribunais determina, no seu artigo

17º n.º 1, que o regime de apoio judiciário aplica-se em todos os tribunais, qualquer que seja a forma do

processo, nos julgados de paz e noutras estruturas de resolução alternativa de litígios; enunciando, para esse

efeito, o anexo referido no artigo 9º da Portaria n.º 10/2008 de 3 de janeiro, quais os meios de resolução de

litígios em que é admitido o recurso ao apoio judiciário.

203

Quanto aos julgados de paz para além do artigo 17º n.º 1 da Lei de Acesso ao Direito e aos Tribunais,

o artigo 40º da LJP determina que o regime jurídico do apoio judiciário é aplicável aos processos que corram

os seus termos nos julgados de paz e ao pagamento da retribuição do mediador.

204

200 Cfr. SIMAC, Srdan, “Attorneys and Mediation”, 2009, p. 10 – “The most important function of attorneys in mediation proceedings is their consultative role, regardless of whether such consultation takes place before, during or after mediation.”

201 Nos termos do artigo 20º n.º 1 da CRP.

202 Nos termos do previsto no artigo 13º da CRP, isto é, ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão da sua situação económica.

203 Onde se incluem: os Julgados de Paz, o Sistema de Mediação Laboral, o Sistema de Mediação Familiar, o Sistema de Mediação Penal, o Centro de Arbitragem de Conflitos de Consumo de Lisboa, o Centro de Arbitragem do Sector Automóvel, o Centro de Informação de Consumo e Arbitragem do Porto, o Centro de Informação, Mediação e Arbitragem de Consumo do Vale do Cávado, o Centro de Arbitragem de Conflitos de Consumo do Distrito de Coimbra, o Centro de Arbitragem de Conflitos de Consumo do Vale do Ave / Tribunal Arbitral, o Centro de Informação, Mediação e Arbitragem de Conflitos de Consumo do Algarve, o Centro de Informação, Mediação e Arbitragem de Seguros Automóveis, o Centro Nacional de Informação e Arbitragem de Conflitos de Consumo, o Centro de Arbitragem para a Propriedade Industrial, Nomes de Domínio, Firmas e Denominações, e o Centro de Arbitragem Administrativa.

204 Cfr. COSTA, Ana Soares da, e LIMA, Marta Samúdio, “Os Julgados de Paz – Análise do Regime Jurídico”, 2002, p. 216 – “Assim, em relação a um processo que seja da competência do Julgado de Paz, não haverá qualquer obstáculo a que seja requerido apoio judiciário em qualquer das modalidades previstas na referida lei.”

Já relativamente à mediação é curiosa a referência feita, no anexo referido no artigo 9º da Portaria n.º

10/2008 de 3 de janeiro, apenas aos Sistemas de Mediação Laboral, Familiar e Penal, sendo que o legislador

nada refere relativamente à matéria civil, pelo que, esta caberá apenas no âmbito do processo nos julgados de

paz.

No documento OS MEIOS DE RAL: UMA ALTERNATIVA INTEGRADA (páginas 46-50)

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