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OS MEIOS DE RAL: UMA ALTERNATIVA INTEGRADA

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Academic year: 2021

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OS MEIOS DE RAL:

UMA ALTERNATIVA INTEGRADA

José Domingos Limpo Trigueiros Monteiro Lopes

Orientadoras

Professora Doutora Maria de Lurdes Mesquita Mestre Rossana Martingo Cruz

Dissertação apresentada

ao Instituto Politécnico do Cávado e do Ave para obtenção do Grau de Mestre em Solicitadoria

Agosto, 2017

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OS MEIOS DE RAL:

UMA ALTERNATIVA INTEGRADA

José Domingos Limpo Trigueiros Monteiro Lopes

Orientadoras

Professora Doutora Maria de Lurdes Mesquita Mestre Rossana Martingo Cruz

Dissertação apresentada

ao Instituto Politécnico do Cávado e do Ave para obtenção do Grau de Mestre em Solicitadoria

Agosto, 2017

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A sociedade mudou, evoluiu, devido principalmente à grande revolução tecnológica ocorrida no último século. Com esta evolução verificou-se no nosso ordenamento jurídico um aumento exponencial da litigância, ao qual os meios tradicionais de justiça, sobejamente, os tribunais, não conseguiram dar resposta, tendo-se gerado uma grave crise na Justiça, e um descrédito generalizado por parte da sociedade civil nos tribunais.

No sentido de dar resposta a esta necessidade de resolver a crise na Justiça, o legislador procedeu à criação e desenvolvimento de meios extrajudiciais que permitisse retirar processos dos assoberbados tribunais.

O direito de acesso ao Direito e uma tutela jurisdicional efetiva é um dos princípios fundamentais do Estado de Direito, mas isso não significa uma obrigação de recurso aos tribunais para a resolução de litígios.

Os meios de RAL apresentam-se como alternativas aos tribunais no sentido de dar cumprimento a este princípio fundamental, apresentando-se como meios assentes em características marcadamente de desburocratização e desjudicialização de procedimentos, procurando, com isso, a tão desejada celeridade processual.

Esta alternatividade inerente aos meios de RAL assenta no objetivo de proporcionar diferentes soluções aos cidadãos para a resolução dos seus litígios.

Apesar de se tratarem de meios alternativos aos tribunais, o mesmo não significa um afastamento completo da jurisdição estadual.

Os meios de RAL apresentam-se assim como soluções integradas num sistema judicial que terá sempre como base os tribunais, havendo necessariamente, uma grande inter-relação e influência destes nos meios de RAL.

Mas será esta inter-relação existente suficiente, ou deverá ser aprofundada no futuro, por forma a

permitir que os meios de RAL ganhem o seus espaço num sistema judicial que se pretende uno.

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Society has changed, evolved, mainly due to the great technological revolution that has occurred in the last century. With this evolution, there was an exponential increase in litigation in our legal system, which the traditional mechanisms of justice, superbly the courts, have not been able to respond to, resulting in a serious crisis in Justice, and a generalized discredit on the part of the civil society in the courts.

In order to respond to this need to resolve the crisis in Justice, the legislator proceeded to the creation and development of extrajudicial mechanisms that would allow the removal of cases from the overwhelmed courts.

The right of access to the Law and effective judicial protection is one of the fundamental principles of the Rule of Law, but this does not mean an obligation to appeal to the courts for the settlement of disputes.

The ADR mechanisms are presented as alternatives to the courts in order to comply with this fundamental principle, presenting themselves as means based on characteristics markedly of de- bureaucratization and detrimentalization of procedures, thereby seeking the desired celerity of procedure.

This alternative inherent in the ADR mechanisms is based on the objective of providing different solutions to the citizens for the resolution of their litigation.

Although these mechanisms are alternatives to the courts, this does not mean a complete departure from state jurisdiction.

The ADR mechanisms are thus solutions integrated into a judicial system which will always be based on the courts, and there is necessarily a great interrelation and influence of these in the ADR mechanisms.

But will this existing interrelation be sufficient, or should it be deepened in the future, in order to

allow the ADR mechanisms to gain their space in a judicial system that is intended to be one.

(5)

Um trabalho de investigação como este e um trajeto académico como o meu, não são conseguidos sozinhos, é necessária a colaboração, participação e ajuda de muitas pessoas pelo que, não poderia deixar passar sem reconhecer esse contributo, estando a todos imensamente agradecido.

Sem querer deixar ninguém de fora, ainda assim, tenho de reconhecer e agradecer a algumas pessoas em especifico:

Às minhas orientadoras, Professora Doutora Lurdes Varregoso Mesquita e Mestre Rossana Martingo Cruz, cuja experiência, conhecimento e sabedoria foram uma grande ajuda; e especialmente agradecer pela paciência e compreensão que sempre me demonstraram.

A todos os professores pelo contributo que cada um teve na minha formação.

A todos os colegas que me acompanharam durante a licenciatura e mestrado, em especial à minha colega e amiga Maria José Vieira, por toda a ajuda e incentivo em todos os momentos de dúvida e incerteza que tive durante a realização deste trabalho.

Ao IPCA por ter sido uma “segunda casa” durante este meu percurso. Aos funcionários da biblioteca, em especial, à Dra. Maria José Neco, por toda a colaboração na pesquisa e recolha de material bibliográfico que faz parte deste trabalho.

Aos meus pais e à minha família pelo apoio, compreensão, paciência, e por estarem sempre lá nos altos e baixos. Em especial agradecer ao meu irmão pela ajuda e colaboração na conclusão deste trabalho.

Por último, mas não menos importante, não posso esquecer a minha avó, por ter sempre acreditado em mim, e cuja fé, incentivo e apoio foram fundamentais para voltar a estudar e durante todo o meu percurso académico. A quem dedico este trabalho.

(6)
(7)

Resumo ... i

Abstract ... ii

Agradecimentos ... iii

Índice Geral ... v

Índice de Figuras ... vi

Índice de Tabelas ... vi

Lista de Abreviaturas ... vii

Lista de Legislação ... viii

I. INTRODUÇÃO ... 1

II. A NECESSIDADE DE MEIOS EXTRAJUDICIAIS ... 3

III. OS MEIOS DE RAL ... 7

1. A Arbitragem ... 8

2. Os Julgados de Paz ... 11

3. A Mediação ... 13

4. Outros Meios de RAL ... 15

4.1. A Conciliação ... 16

4.2. A Negociação ... 18

5. A Alternatividade dos Meios de RAL ... 19

IV. OS MEIOS DE RAL E OS TRIBUNAIS ... 21

1. Da Competência ... 21

1.1. Previsão Constitucional ... 21

1.2. Arbitragem ... 23

1.3. Julgados de Paz ... 25

1.4. Mediação ... 28

2. Da Organização ... 29

2.1. Arbitragem ... 29

2.2. Julgados de Paz ... 32

2.3. Mediação ... 33

2.4. Remunerações e Custas ... 34

3. Das Partes ... 36

3.1. Arbitragem ... 36

3.2. Julgados de Paz ... 37

3.3. Mediação ... 38

3.4. Apoio Judiciário ... 39

4. Do Processo ... 40

4.1. Arbitragem ... 40

4.2. Julgados de Paz ... 44

4.3. Mediação ... 45

5. Da Decisão e do Recurso ... 47

5.1. Arbitragem ... 47

5.2. Julgados de Paz ... 51

5.3. O Caso Particular da Mediação ... 51

(8)

6.2. Julgados de Paz ... 56

6.3. Mediação ... 56

7. Os Tribunais e os Meios de RAL ... 57

VI. O FUTURO DOS MEIOS DE RAL ... 63

1. As Estatísticas dos Meios de RAL ... 63

2. A Solução do Tribunal Multiportas ... 71

2.1. A Arbitragem: Uma Solução Especializada ... 73

2.2. Os Julgados de Paz: O Futuro da Pequena Litigância ... 74

2.3. A Mediação: Uma Solução Integrada ... 75

VII. CONCLUSÃO ... 77

VIII. BIBLIOGRAFIA ... 79

ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1 – Evolução da Arbitragem Cível ... 65

Figura 2 - Evolução da Arbitragem Administrativa ... 65

Figura 3 – Evolução da Arbitragem Tributária... 65

Figura 4 – Evolução dos Julgados de Paz ... 67

Figura 5 – Evolução das Formas de Conclusão dos Processos nos Julgados de Paz ... 67

Figura 6 – Evolução Comparativa das Taxas de Eficiência ... 71

ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 - Características diferenciais entre o sistema judicial e os meios extrajudiciais ... 7

Tabela 2 - Competência Alternativa Vs. Competência Exclusiva ... 27

Tabela 3 - Competência dos tribunais estaduais: ... 43

Tabela 4 - Fundamentos da impugnação da sentença arbitral ... 49

Tabela 5 - Estatísticas da Arbitragem em Matéria Cível ... 63

Tabela 6 - Estatísticas do CAAD ... 64

Tabela 7 - Estatísticas dos Julgados de Paz ... 66

Tabela 8 - Estatística dos Tribunais Judiciais de 1ª Instância ... 68

Tabela 9 - Estatísticas do Procedimento Especial de Injunção ... 69

Tabela 10 - Comparativo de Taxas de Eficiência ... 70

(9)

APA – Associação Portuguesa de Arbitragem.

CAAD – Centro de Arbitragem Administrativa.

CC – Código Civil.

CIAB – Centro de Informação, Mediação e Arbitragem do Consumo (Tribunal Arbitral de Consumo).

CNIACC – Centro Nacional de Informação e Arbitragem de Conflitos de Consumo.

CPC – Código de Processo Civil.

CRP – Constituição da República Portuguesa.

DGCI – Direcção-Geral dos Impostos.

DGAIEC – Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos sobre o Consumo.

DGPJ – Direção-Geral da Política de Justiça.

LAV – Lei da Arbitragem Voluntária.

LJP – Lei dos Julgados de Paz.

LM – Lei da Mediação.

LOFTJ – Lei de Organização e Funcionamento dos Tribunais Judiciais.

LOSJ – Lei da Organização do Sistema Judiciário.

RAL – Resolução Alternativa de Litígios.

TAD – Tribunal Arbitral do Desporto

(10)

Código Civil – Decreto-Lei n.º 47344/66, de 25 de novembro.

Código de Processo Civil – Lei n.º 41/2013, de 26 de junho.

Constituição da República Portuguesa.

Decreto-Lei que regula a isenção de custas para o exequente em ações de execução para obter cumprimento de sentença condenatória proferida pelo tribunal arbitral dos centros de arbitragem de conflitos de consumo – Decreto-Lei n.º 103/91, de 08 de março.

Despacho que regula a remuneração do mediador de conflitos no âmbito do sistema de mediação penal – Despacho n.º 2168-A/2008, de 22 de janeiro.

Despacho que regula o Sistema de Mediação Familiar – Despacho n.º 18778/2007, de 22 de agosto.

Lei da Arbitragem Voluntária – Lei n.º 63/2011, de 14 de dezembro.

Lei da Mediação – Lei n.º 29/2013, de 19 de abril.

Lei da Organização do Sistema Judiciário – Lei n.º 62/2013, de 26 de agosto.

Lei de Acesso ao Direito e aos Tribunais – Lei n.º 34/2004, de 29 de julho.

Lei dos Julgados de Paz – Lei n.º 78/2001, de 13 de julho alterada pela Lei n.º 54/2013, de 31 de julho.

Lei do Tribunal Arbitral do Desporto – Lei n.º 74/2013, de 6 de setembro.

Lei Orgânica da Direção-Geral da Política de Justiça – Decreto-Lei n.º 163/2012, de 31 de julho.

Lei que regula os mecanismos de resolução extrajudicial de litígios de consumo – Lei n.º 144/2015, de 8 de setembro.

Portaria das Custas Judiciais nos Julgados de Paz – Portaria n.º 1456/2001, de 28 de dezembro.

Portaria que vincula a DGCI e a DGAIEC ao CAAD – Portaria n.º 112-A/2011, de 22 de março.

Protocolo de Acordo entre o Ministério da Justiça e os Parceiros Sociais que institui o sistema de mediação laboral, de 5 de maio de 2006.

Regime de Mediação Penal – Lei n.º 21/2007, de 12 de junho.

Regime Jurídico da Arbitragem em Matéria Tributária – Decreto-Lei n.º 10/2011 de 20 de janeiro.

Regulamento do Sistema de Mediação Penal – Portaria n.º 68-C/2008, de 22 de janeiro.

Regulamento dos Serviços de Mediação nos Julgados de Paz – Portaria n.º 1112/2005, de 28 de

outubro.

(11)

I. INTRODUÇÃO

“A Justiça é cega”1

A Justiça, é o principal fim ou valor fundamental do Direito, assumindo-se para este como uma bússola.

2

A Justiça deverá assim ser definida como:

"conjunto de valores que impõem ao Estado e a todos os cidadãos a obrigação de dar a cada um o que lhe é devido em função da dignidade da pessoa humana."3

Tal como enunciámos a Justiça deve ser vista como cega, simbolizando a imparcialidade, mas cega também pode ser interpretado no sentido de a Justiça poder ser obtida de diversas formas.

Será este o sentido que queremos enunciar com esta dissertação, cingindo-se esta ao papel que os meios de RAL assumem como alternativas, mas integrados no sistema judicial, daí o tema: “Os Meios de RAL:

Uma Alternativa Integrada”, pelo que, o objeto deste trabalho será analisar os meios de RAL e ver de que forma estes se integram no nosso ordenamento jurídico, nomeadamente a sua relação com os tribunais.

Numa altura em que os meios de RAL têm mais de 15 anos de experiência, esta temática revela-se deveras relevante no sentido de perceber que papéis estes assumem no nosso ordenamento jurídico, mas mais importante que papéis poderão e deverão assumir no futuro.

Para isso será importante perceber de que forma os meios de RAL se estabelecem como alternativas credíveis aos tribunais, mas também enquanto complementos a estes, num sistema judicial que se pretende uno.

Em termos de metodologia adotada e no sentido de chegar a conclusões relativamente à integração dos meios de RAL no sistema judicial, pretendemos partir das razões que levaram à criação de meios extrajudiciais de resolução de litígios, nos quais se enquadram os meios de RAL, por forma a perceber a sua necessidade na sociedade atual, passando por uma análise a cada um deles a nível conceptual e à sua alternatividade em relação aos tribunais.

Analisados estes pressupostos será importante verificar as suas relações com os Tribunais, por forma a perceber o seu enquadramento no ordenamento jurídico interno, e com isso retirar ilações relativamente à influência e participação que os Tribunais têm junto dos meios de RAL.

Retiradas essas ilações, será importante verificar quais os papéis que estão reservados aos meios de RAL no futuro, isto é, perceber qual o lugar que estes deverão ocupar no nosso ordenamento jurídico,

Sabendo de antemão que os Tribunais estão e deverão estar sempre no centro de qualquer ordenamento jurídico, servindo como última salvaguarda do sistema, cabe-nos perceber de que forma os meios de RAL deverão ocupar o seu espaço neste ordenamento, sendo este o objetivo principal de todo o nosso trabalho.

1 Provérbio popular, com bases na Grécia Antiga, onde vemos a deusa Thémis, deusa da Justiça, que na simbologia muitas vezes aparece representada com os olhos vendados a simbolizar a imparcialidade e igualdade de todos perante a Justiça; com uma balança a simbolizar o equilíbrio, a ponderação, a equidade; e com uma espada a simbolizar o poder, a ordem, a regra.

2 Cfr. AMARAL, Diogo Freitas do, “Manual de Introdução ao Direito”, 2016, p. 53 – “O primeiro e principal fim do Direito é, sem qualquer dúvida, a Justiça (…). Esta é, para o Direito, uma bússola e um farol.”

3 Cfr. idem, ibidem, p. 117.

(12)

Para cumprir com estes objetivos a que nos propusemos este trabalho será dividido em diversos capítulos.

No primeiro capitulo iremos analisar a necessidade de criação de meios extrajudiciais de resolução de litígios, onde se enquadram os meios de RAL.

Partindo da incapacidade do sistema judicial em dar resposta às necessidades cada vez mais complexas de uma sociedade em constante evolução, e percebendo a importância da criação de meios extrajudiciais que permitissem a redução da morosidade judicial que se tem instalado nos tribunais.

Será neste sentido de ajudar um sistema judicial em descrédito que surgem os meios de RAL, estes apresentam-se com diversas soluções alternativas aos tribunais.

Como veremos no segundo capítulo sendo a alternatividade uma característica geral destes meios, ainda assim, estes apresentam características diferentes entre si e os tribunais, mas com um denominador comum a todos que é o de servir os cidadãos.

Ainda que os meios de RAL se apresentem como alternativas aos tribunais, isso não significa um afastamento completo da jurisdição estadual, isto porque, no âmbito dos meios de RAL encontrámos uma grande inter-relação entre os meios de RAL e os tribunais, nomeadamente, no âmbito da sua competência, da organização, das partes, da decisão e recurso e ainda da execução.

Os tribunais enquanto a base de todo o sistema judicial terão necessariamente uma influência presente nos meios de RAL, sendo mesmo esta influência um pressuposto essencial para a unidade do sistema judicial como um todo.

Será esta relação entre os meios de RAL e os Tribunais que iremos analisar no capítulo terceiro.

Por fim, cumpre-nos compreender qual o futuro dos meios de RAL, sendo este o tema sobre o qual nos iremos centrar no capítulo quarto.

Esta problemática de qual o próximo passo para os meios de RAL é fundamental de forma a que estes ganhem o seu espaço no nosso ordenamento jurídico, enquanto soluções integradas num sistema judicial que se pretende uno.

Mais do que fazer uma análise global ao nível conceptual dos meios de RAL, o objetivo deste trabalho prende-se com apresentar estes meios enquanto soluções integradas num sistema judicial global, e levantar questões quanto ao aprofundamento desta integração.

.

(13)

II. A NECESSIDADE DE MEIOS EXTRAJUDICIAIS

Os tribunais são os órgãos de soberania a quem compete administrar a justiça em nome do povo.

4

No entanto como é sobejamente reconhecido pelos “agentes judiciais”, e não só, o nosso sistema judicial não tem conseguido dar resposta às necessidades de uma sociedade cada vez mais exigente.

Isto devido a um sistema judicial caracterizado pela morosidade e por procedimentos burocráticos complexos que afastam os cidadãos dos tribunais, existindo uma grande distância entre o cidadão e o juiz, formando-se uma barreira invisível que os separa, o que dificulta uma Justiça efetiva e provoca uma descrença cada vez maior por parte dos cidadãos na efetiva resolução dos seus conflitos através do sistema judicial.

Um dos fatores que mais contribui para esta cultura de morosidade que caracteriza o sistema judicial é a excessiva carga e falta de estabilidade legislativa existente, apesar de ter de se reconhecer que o mesmo se deve em grande parte às mudanças ocorridas nesta “sociedade moderna”, tanto a nível social, económico e tecnológico.

5

Esta excessiva carga legislativa agarrada a procedimentos burocráticos, inúteis ou meramente dilatórios dificulta a condução dos processos de forma célere e eficaz.

Já a falta de estabilidade legislativa existente, com as constantes alterações legislativas verificadas, cria uma grande incerteza jurídica, que afeta a previsibilidade legal de quem procura estabilidade para a realização de negócios e contractos,

6

e consequentemente afasta ou retrai a iniciativa de investimento.

7

Isto origina um sentimento de desconfiança e insegurança nos cidadãos e nas empresas,

8

e um consequente repúdio pelos órgãos judiciais.

9

Outra razão que origina esta “cultura de morosidade” prende-se com a excessiva carga de processos judiciais pendentes nos tribunais, devido às evoluções ocorridas na sociedade, que por ser uma sociedade de consumo, tem tendência a ser uma sociedade mais litigiosa, com o aumento da litigância em massa.

4 Nos termos do previsto no artigo 202º n.º 1 da CRP.

5 Cfr. AZEVEDO, Belmiro Mendes de, “O Impacto Económico da Morosidade Judicial: Reflexões para uma Reforma Urgente”, 2007, p. 266 – “A estabilidade no quadro legislativo é necessária para o normal curso da actividade económica, embora não deixe de reconhecer que a diversificação, especialização e evolução tecnológica a ela associadas, em escala cada vez maior, não facilita a estabilização do enquadramento legal.”

6 Cfr. idem, ibidem, p. 276 – “Com as reconhecidas morosidade e falta de previsibilidade na obtenção da tutela dos direitos contratuais, os agentes económicos retraem, naturalmente, a sua exposição ao risco e à iniciativa económica.”

7 Cfr. idem, ibidem, p. 268 – “Enquanto não for ventilada uma imagem de uma economia mais eficiente, menos agarrada a

procedimentos inúteis e meramente dilatórios da materialidade que lhe está subjacente, enquanto o Estado não consolidar e refrear a sua prática legislativa, o nosso espaço económico não estará dotado da necessária capacidade de seduzir o investimento português e estrangeiro na necessária escala.”

8 Cfr. CORREIA, João, “Reformar o C.P.C., Para Quê?”, 2012, p. 131. – “Imaginemos um País onde a legislação nuclear sofre de grande volatilidade, onde os Juízes, Advogados e Ministério Público sofrem as vicissitudes dessas conjunturais mutações legislativas e cedo compreendemos que nem os cidadãos, nem as empresas podem estabelecer uma relação de confiança e um sentimento de segurança perante quaisquer órgãos que administram a Justiça.

E este País é o nosso.”

9 Cfr. idem, ibidem, p. 131-132 – “… a conjuntura legislativa tem prevalecido, a prolixidade mantém-se, a morosidade agrava-se, a insegurança acentua-se e o repúdio pelos órgãos judiciais é cada vez maior.”

(14)

Os valores pagos no acesso à justiça são também outro fator que gera desconfiança na sociedade civil, sejam os montantes pagos em custas judiciais, sejam os valores pagos a “agentes judiciais” no âmbito do patrocínio judiciário.

Devido a todos estes fatores surgiu uma suspeição e desconfiança generalizada em relação ao sistema judicial.

Para tentar combater estes problemas, verificou-se por parte do legislador uma tendência legislativa de criação de mecanismos de desjudicialização, através de meios extrajudiciais de resolução de litígios, por forma a dar resposta a duas necessidades fundamentais: retirar alguns processos dos tribunais e prestar um serviço diferente aos cidadãos.

A sociedade mudou, a chamada “sociedade moderna” obriga a Justiça a adaptar-se e a procurar novas formas de resposta às necessidades desta.

10

Os cidadãos procuram/esperam de um Estado de Direito, assente neste princípio fundamental, que este seja capaz de responder/assegurar as suas necessidades, através de um sistema caracterizado pela clareza, acessibilidade e estabilidade legislativa;

11

e em que as instituições a quem compete administrar a Justiça tenham capacidade de resposta em tempo útil às questões/situações que lhes são apresentadas.

12

A principal razão para a criação de meios extrajudiciais prendeu-se, e prende-se ainda, com a necessidade de dar resposta a um princípio fundamental do Estado de Direito, que é o princípio de acesso ao Direito e a uma tutela jurisdicional efetiva, previsto no artigo 20º da CRP.

13

Este princípio constitui uma garantia imprescindível da proteção de direitos fundamentais.

14

Apesar de a CRP reconhecer a todas as pessoas o direito de obter dos tribunais uma tutela jurisdicional efetiva, sendo esta uma garantia de natureza universal e geral, isso não significa, nem impõe a obrigatoriedade de recurso aos tribunais para a resolução dos litígios.

15

10 Cfr. TEIXEIRA, Paulo Duarte, “Os Pressupostos Objectivos e Subjectivos do Procedimento de Injunção”, 2006, p. 212 – “… a sociedade mudou e com ela o sistema processual terá de mudar sob pena de o direito ser, cada vez mais, um dever ser que, afinal nunca ou raramente é. A multiplicação de litígios, fruto da sociedade moderna “obrigam” o sistema jurisdicional a abandonar a solenidade em favor da eficácia e as exigências formais em favor de uma maior rapidez.”

11 Cfr. CORREIA, João, “Reformar o C.P.C., Para Quê?”, 2012, p. 131 – “Para se apurar o grau de eficiência da Justiça, em qualquer País, temos de averiguar se as leis são claras, acessíveis, estáveis e se os cidadãos confiam nelas e nas instituições que as mandam aplicar.”

12 Cfr. AZEVEDO, Belmiro Mendes de, “O Impacto Económico da Morosidade Judicial: Reflexões para uma Reforma Urgente”, 2007, p. 265 – “A “eficiência” de um sistema judicial (o sistema encarregue da aplicação da lei), entendendo tal eficiência como a sua capacidade de dar resposta, em tempo útil, aos problemas que lhe são colocados, constitui um pilar de essência para a sustentabilidade de um moderno Estado de Direito;”

13 O artigo 20º n.º 1 da CRP prevê que “A todos é assegurado o acesso ao Direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos.”, já o n.º 4 do mesmo artigo define que “Todos têm direito a que uma causa em que intervenham seja objeto de decisão em prazo razoável e mediante processo equitativo.”

14 Cfr. CANOTILHO, J. J. Gomes e MOREIRA, Vital, “CRP - Constituição da República Portuguesa Anotada – Artigos 1º a 107º”, 2014, p. 408 – “O direito de acesso ao direito e à tutela jurisdicional efectiva (n.º 1 e epígrafe) é, ele mesmo, um direito fundamental constituindo uma garantia imprescindível da protecção de direitos fundamentais, sendo, por isso, inerente à ideia de Estado de direito.”

15 Cfr. SERRA, Manuel Fernando dos Santos, “A arbitragem administrativa em Portugal: Evolução recente e perspectivas”, 2010, p. 19 –

“A nossa Constituição reconhece a todas as pessoas o direito de obter dos tribunais uma tutela jurisdicional efectiva dos seus direitos e interesses legalmente protegidos. Mas isso não implica que todos os litígios devam, forçosamente, passar pelos tribunais ou que neles tenham de encontrar a sua resolução.”

(15)

A vida moderna não suporta a demora da justiça estadual e a insuficiência dos mecanismos judiciais.

Daí o surgimento da necessidade de criar alternativas/complementos à justiça judicial tradicional.

Os meios extrajudiciais de resolução de litígios surgem assim, e podem ser definidos como meios legalmente admitidos de resolução de litígios fora da esfera jurídica do tribunal e da sua função jurisdicional em sentido estrito.

Assim, por reconhecer e tentando resolver esta necessidade de celeridade processual e de outras formas de resolução de litígios, o legislador recorreu a diversas soluções:

Por um lado, para responder à necessidade de celeridade processual criou diversas formas legais de obtenção de títulos executivos que permitissem avançar diretamente para a ação executiva sem necessidade de uma ação declarativa.

16

Por outro, para resolver a necessidade de soluções diferentes, o legislador procedeu à criação dos meios de RAL.

17

No entanto, ainda que a lei admita a resolução extrajudicial dos litígios, isso não significa um

“afastamento” do direito de recurso aos tribunais,

18

nem tão pouco uma obrigação de recurso a estes meios extrajudiciais.

19

16 O artigo 703º n.º 1 d) do CPC prevê que são títulos executivos os documentos a que, por disposição especial, seja atribuída força executiva. Podem-se incluir nestes o procedimento de injunção (regulado pelo Decreto-lei n.º 269/98), o procedimento europeu de injunção de pagamento (regulado pelo Regulamento (CE) n.º 189/2006), o procedimento especial de despejo (previsto no artigo 14º – A da Lei n.º 6/2006 aditada pela Lei n.º 31/2001), a acta da reunião da assembleia de condóminos (prevista no artigo 6º n.º 1 do Decreto-lei n.º 268/94), a obrigação de depósito ou entrega da prestação devida no âmbito da execução (previsto no artigo 777º n.º 3 do CPC) e a nota discriminatória de honorários e despesas do agente de execução (prevista no artigo 721º n.º 5 do CPC).

17 Entre os meios de RAL, que analisaremos em seguida, a doutrina tem consensualmente definido a arbitragem, os julgados de paz e a mediação, aos quais podemos acrescentar a conciliação e a negociação.

18 Cfr. CANOTILHO, J. J. Gomes e MOREIRA, Vital, “CRP - Constituição da República Portuguesa Anotada – Artigos 1º a 107º”, 2014, p. 408 – “De qualquer modo, ninguém pode ser privado de levar a sua causa (relacionada com a defesa de um direito ou interesse legítimo e não apenas de direitos fundamentais) à apreciação de um tribunal, pelo menos como último recurso.”

19 Cfr. idem, ibidem, p. 409 – “Apesar de ser uma garantia de natureza universal e geral, o direito de acesso aos tribunais não exclui (…) nem a obrigatoriedade de meios preventivos de resolução extrajudicial, como, por exemplo a conciliação ou mediação ou recurso administrativo (não jurisdicional).

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III. OS MEIOS DE RAL

A morosidade do sistema judicial com o aumento de pendências processuais centradas nos tribunais judiciais, que não conseguem dar resposta às necessidades de uma sociedade cada vez mais plural e complexa, é uma das razões mais apontadas por diversos autores para a criação dos meios de RAL. A criação destes surge assim, juntamente com outras medidas por parte do legislador, como uma forma de descongestionar, desburocratizar e impulsionar um sistema de Justiça em descrédito, e com isso proporcionar aos cidadãos uma forma mais célere de resolução dos seus litígios.

Mas mais do que uma tentativa de descongestionamento dos tribunais, os meios de RAL apresentam- se como meios diferentes dos tribunais assentando em características que os distinguem destes, tendo com isso o objetivo de prestar um serviço diferente aos cidadãos, e com isso ajudar na melhoria do acesso à justiça.

20

Os meios de RAL nascem sob o signo da desjudicialização, criando uma multiplicidade de respostas

21

e procurando com isso promover uma justiça de proximidade com os cidadãos.

Os meios de RAL apresentam um conjunto de caraterísticas, em sentido amplo, que os distinguem dos tribunais. Em seguida apresentámos uma tabela que elenca essas diferenças:

Tabela 1 - Características diferenciais entre o sistema judicial e os meios extrajudiciais

22

Sistema Judicial Meios Extrajudiciais

Sistema público. Sistema (tendencialmente) privado.

Modelo impositivo, obrigatório ou unilateral. Modelo voluntário ou bilateral.

Inflexibilidade de procedimentos. Flexibilidade de procedimentos.

Incapacidade de adaptação ao caso concreto. Capacidade de adaptação ao caso concreto.

Menor grau de confidencialidade. Maior grau de confidencialidade.

Controlo endógeno do resultado. Controlo exógeno do resultado.

De referir que compete à DGPJ promover a criação e apoiar o funcionamento de centros de arbitragem, julgados de paz e sistemas de mediação, nos termos do previsto no artigo 4º n.º1 alínea t) da Lei Orgânica da Direção-Geral da Política de Justiça.

Os meios de RAL reconhecidamente aceites pela generalidade da doutrina são: a arbitragem, os julgados de paz e a mediação. Em seguida procederemos à análise de cada um deles.

20 Cfr. FERREIRA, António Casimiro, “Trabalho procura Justiça: os tribunais de trabalho na sociedade portuguesa”, 2005, p. 75 – “…

As suas vantagens podem contribuir para a redução da designada crise dos sistemas judiciais. Por exemplo, pode considerar-se que os mecanismos alternativos à via judicial desempenham um papel chave na melhoria do acesso à justiça.”

21 Cfr. PEDROSO, João, “Percurso(s) da(s) reforma(s) da administração da justiça – uma nova relação entre o judicial e o não judicial”, p. 39 – “O novo sistema integrado de resolução de litígios, tem como consequência a assunção e reconhecimento pelo Estado duma política pública de justiça, que inclui os tribunais judiciais e o denominado “pluralismo jurídico e judicial”, ou seja, que reconhece também aos meios não judiciais legitimidade para dirimir litígios. A informalização da justiça e a desjudicialização, incluindo todo o movimento ADR, constituem, assim, caminhos da reforma da administração da justiça desde que defendem a igualdade das partes e promovam o acesso ao direito. Só deste modo esta multiplicidade de processos pode tornar a justiça mais democrática.”

22 Tabela elaborada com base na tabela apresentada por CEBOLA, Cátia Marques, “La Mediación”, 2013, p. 54.

(18)

1. A ARBITRAGEM

A arbitragem assume-se como um meio de justiça privado de resolução de litígios, legalmente admitido, enquadrando-se como um sistema alternativo em relação aos tribunais estaduais, isto na medida em que da mesma forma que no processo judicial a decisão cabe ao juiz, na arbitragem a decisão do litígio compete a um terceiro imparcial (árbitro).

À arbitragem está subjacente a autonomia da vontade das partes em submeter um determinado litígio à decisão de um terceiro (árbitro), a quem compete decidir a questão de forma imparcial, é nesta vinculação das partes à decisão proferida pelo árbitro que assenta a natureza adjudicatória desta.

23

A arbitragem constitui assim um meio de resolução de litígios com duas características principais:

uma característica voluntária e outra adjudicatória, na medida em que compete às partes decidir recorrer à arbitragem para dirimir o seu conflito, no entanto uma vez que o façam atribuem a decisão do mesmo a um terceiro, o árbitro.

24

Uma das vantagens da arbitragem em relação aos tribunais judiciais é, como em geral todos os meios de RAL, permitir alcançar uma decisão de forma mais célere que no processo judicial, sendo que no caso da arbitragem esta celeridade processual assenta também na irrecorribilidade da decisão arbitral, como veremos mais à frente.

Uma característica fundamental da arbitragem é a sua confidencialidade,

25

sendo esta uma característica muito apetecível entre as grandes empresas multinacionais, que pretendem manter em segredo os seus negócios e consequentemente os litígios emergentes dos mesmos.

Outra característica principal do processo arbitral, e que está na sua génese, é a convenção de arbitragem, pois é através desta que as partes dão expressão à autonomia da sua vontade, isto é, é através da convenção arbitral que as partes determinam o recurso à arbitragem para resolução do seu litígio, afastando- se, assim, da tutela dos tribunais judiciais.

26

Importa ainda referir que a convenção arbitral pode revestir duas formas: compromisso arbitral ou cláusula compromissória.

27

Sendo que o compromisso arbitral tem por base um litígio atual, isto é, as partes perante um conflito, decidem atribuir a um tribunal arbitral a resolução do mesmo. Já na cláusula compromissória estamos perante um litígio eventual, isto é, as partes no âmbito de uma relação jurídica (contratual ou extracontratual) determinam que se no âmbito dessa relação surgir um litígio, esse litígio será decidido com recurso à arbitragem.

23 Cfr. BARROCAS, Manuel Pereira, “Manual de Arbitragem”, 2013, pp. 31 e 32 – “A Arbitragem constitui um modo de resolução de litígios entre duas ou mais partes, efectuada por uma ou mais pessoas que detêm poderes para esse efeito reconhecidos por lei, mas atribuídos por convenção das partes.”

24 Cfr. GOUVEIA, Mariana França, “Curso de Resolução Alternativa de Litígios”, 2015, p. 119 – “A arbitragem é, assim, um meio de resolução alternativa de litígios adjudicatório, na medida em que a decisão é proferida por um ou vários terceiros. E essa decisão é vinculativa para as partes.”

25 O dever de sigilo das partes encontra-se previsto no artigo 30º n.º 5 da LAV.

26 Cfr. MIRANTE, Daniela Filipa Calado, “Os Efeitos da Anulação da Sentença Arbitral”, 2009, p. 7 – “A celebração da convenção arbitral é o verdadeiro momento voluntário da arbitragem: as partes têm a faculdade de celebrar ou não uma convenção de arbitragem.

Contudo, caso decidam celebrá-la ficam vinculadas ao seu conteúdo, não podendo afastar-se unilateralmente do acordado.”

27 Nos termos do previsto no artigo 1º n.º 3 da LAV.

(19)

Desta dicotomia entre a vontade das partes e a tutela jurisdicional surge a questão: exercem os árbitros poder jurisdicional? Ou este cabe exclusivamente à esfera do Estado?

Várias teses relativamente à natureza da arbitragem têm surgido: A tese contratualista, a tese jurisdicional e a tese mista.

Os defensores da tese contratualista defendem que a arbitragem tem natureza contratual, na medida em que esta assenta num negócio jurídico (convenção arbitral) no qual as partes estabelecem voluntariamente o recurso à arbitragem para a resolução do seu litígio.

28

Esta tese assenta na ideia que é nas partes que se encontra o poder de recurso à arbitragem, bem como de escolha do árbitro ou árbitros, cabendo a estes apenas agir em conformidade com a vontade comum das partes.

Já os defensores da tese jurisdicional, assentam a sua ideia na função do árbitro, que tratando-se de um terceiro imparcial a quem compete presidir o processo arbitral e proferir decisão para o litígio, vê-se investido de verdadeiro poder jurisdicional, da mesma forma que um juiz, ganhando com isso autonomia em relação às partes.

29

Esta tese defende que não é na escolha dos árbitros pelas partes que assenta arbitragem, mas sim no poder jurisdicional exercido pelos árbitros que ganham, após a sua escolha, autonomia em relação ás partes para presidirem e decidirem o litígio.

Por sua vez, os defensores da tese mista fazem a ligação entre as duas teses anteriores, defendendo que numa primeira fase a arbitragem é contratual, na medida em que compete às partes, voluntariamente determinar o recurso à arbitragem, mas uma vez determinado este, estas atribuem ao árbitro um poder jurisdicional, para presidir o processo e decidir o litígio, sendo essa decisão vinculativa para as partes.

30

Esta tese parece-nos a mais sensata na medida em que à arbitragem estão subjacentes duas características principais: uma característica contratual que assenta na autonomia da vontade das partes, cabendo a estas, para além da determinação do recurso à arbitragem, a escolha do árbitro ou árbitros que irão presidir à resolução

31

e, ainda, a definição das regras de processo aplicável, e ainda a definição das regras de processo aplicável; e uma característica jurisdicional na medida em que o árbitro ou árbitros após a sua escolha

28 Cfr. PINA, Pedro, “Arbitragem e Jurisdição”, 2008, p. 137 – “A tese contratualista radica-se e radicaliza-se nesta consideração. A arbitragem é um simples contrato através do qual se delega num terceiro a solução da controvérsia. Os árbitros não passarão de mandatários comuns das partes concretizando na sua decisão a vontade comum destas quanto ao futuro do litígio.”

29 Cfr. idem, ibidem, p. 138 – ““A relação jurídica substantiva é aquela que vai ser objecto de uma decisão a que se chegará mediante um processo presidido por um ou mais terceiros imparciais, os árbitros. Estes, apesar de não constituírem um órgão estadual, vêem-lhe ser atribuídos verdadeiros poderes jurisdicionais, em abstracto, pelo próprio Estado e, em concreto, pelos contraentes da convenção de arbitragem.

O contrato não pode, pois, ser o ponto de partida para aquilatar da natureza jurídica do instituto. Importa analisar a própria actividade dos árbitros e o seu resultado. Mais do que mandatários, com cuja função não se identificam, os árbitros são verdadeiros julgadores.”

30 Cfr. FOUCHARD apud PINA, Pedro, “Arbitragem e Jurisdição”, 2008, p. 139 – “A arbitragem, tendo génese contratual que limita a intervenção dos árbitros em face dos concretos poderes de disponibilidade dos direitos das partes, desenvolve-se pela acção de juízes privados que exercem uma função pública com resultado dirimente de conflitos em termos potencialmente definitivos e susceptíveis de execução.”

31 O que permite que os árbitros possam ter uma componente mais técnica, situação especialmente importante em matérias altamente especializadas, como veremos mais à frente.

(20)

ganham autonomia em relação ás partes, gozando mesmo, à semelhança de um juiz de um poder impositivo, poder jurisdicional relativamente ao litígio existente.

Em relação ao enquadramento legal dado à arbitragem, a lei regula esta através da Lei da Arbitragem Voluntária.

32

O artigo 1º n.º 1 da LAV prevê que desde que por lei especial não esteja submetido exclusivamente aos tribunais do Estado ou a arbitragem necessária, qualquer litígio respeitante a interesses de natureza patrimonial pode ser cometido pelas partes, mediante convenção de arbitragem, à decisão de árbitros.

Ou seja, a LAV prevê a existência de dois tipos de arbitragem: a arbitragem voluntária e a arbitragem necessária.

No que diz respeito à arbitragem voluntária esta verificar-se-á quando o recurso à arbitragem se encontra na disposição das partes, dando forma ao princípio da voluntariedade.

Já o recurso à arbitragem necessária verifica-se quando por lei especial é determinado o recurso à arbitragem,

33

isto é, o recurso à arbitragem é imposto por lei. As partes não têm opção, pois a lei obriga a que determinado litígio seja obrigatoriamente submetido à arbitragem, sendo esta uma exceção ao princípio da autonomia da vontade das partes.

34

Quanto ao âmbito subjetivo da arbitragem, isto é, em relação aos sujeitos do litígio arbitral, este também pode gerar duas situações: a primeira será quando ambas as partes sejam particulares, a outra será quando uma das partes é o Estado.

Estando no âmbito dos litígios entre particulares a voluntariedade é característica essencial do processo arbitral, competindo às partes a determinação do recurso à arbitragem para resolução do seu litígio, aplicando-se o previsto na LAV.

Já no âmbito dos litígios em que uma das partes seja o Estado, o seu regime será diferente, na medida em que em matéria administrativa, o CPTA reserva um capitulo para a arbitragem administrativa,

35

prevendo mesmo o seu artigo 180º as matérias no âmbito administrativo em que é admissível o recurso à arbitragem.

De referir que relativamente à arbitragem administrativa, e dando cumprimento ao previsto no artigo 187º n.º 1 do CPTA, foi criado o CAAD, com sede em Lisboa, abrangendo todo o país, e com competência, tanto em matéria administrativa como fiscal, sendo também esta, a matéria fiscal, uma área em que será possível o recurso à arbitragem, encontrando-se o seu regime previsto no Regime Jurídico da Arbitragem em Matéria Tributária, estando vinculadas a esta a DGCI e a DGAIEC, nos termos do previsto no artigo 1º da Portaria n.º 112-A/2011.

32 Isto para além da previsão constitucional prevista no artigo 209º, n.º 2 da CRP, e do estabelecido em outra legislação avulsa.

33 Nos termos dos artigos 1082º a 1085º do CPC.

34 Cfr. FIGUEIRAS, Cláudia Sofia Melo, “Arbitragem em Matéria Tributária: À Semelhança do Modelo Administrativo?”, 2011, pág.

37, nota 58 – “… sendo a arbitragem entendida como um mecanismo alternativo aos Tribunais comuns para a resolução dos litígios é curioso que a mesma possa ser imposta por lei, pois, ao sê-lo, deixa de ser uma verdadeira alternativa para as partes e impõe-se como uma verdadeira obrigação. O elemento histórico permite-nos chegar a essa conclusão. Se a arbitragem, nas suas origens, teve sempre como pressuposto a autonomia da vontade das partes, é estranho que se chame arbitragem a um mecanismo que tem origem legal e que não pressupõe qualquer acto de vontade.”

35 O título IX do CPTA tem como epigrafe: Tribunal Arbitral e Centros de Arbitragem.

(21)

Em matéria administrativa referir que, a arbitragem apresenta-se como uma solução com diversas vantagens em relação aos tribunais administrativos, nomeadamente no que diz respeito à celeridade,

36

à desformalização

37

e à adequação de procedimentos, necessária neste mundo atual litigioso complexo,

38

para além do que, a arbitragem em matéria administrativa apresenta menores custos.

Suscitando, no entanto, a arbitragem em matéria administrativa e fiscal especiais cautelas,

39

uma vez que estando os órgãos públicos sujeitos à lei e ao princípio da prossecução do interesse público, não devem os seus litígios ser confidenciais, dando cumprimento ao princípio da transparência.

40

2. OS JULGADOS DE PAZ

É importante em primeiro lugar determinar a razão da criação dos julgados de paz para entender qual foi a ideia do legislador na criação das normas que determinam o processo nos julgados de paz.

“…os Julgados de Paz têm uma causa-final determinante e imediata: servir os Cidadãos.”41

Uma das razões mais apontadas por diversos autores

42

para a criação dos julgados de paz foi a necessidade de descongestionar, desburocratizar e impulsionar um sistema de Justiça em descrédito, e com isso proporcionar aos cidadãos uma forma mais célere de resolução dos seus litígios.

Estas razões parecem ter tido influência na criação dos julgados de paz, mas não poderá ser entendida apenas a sua criação pela necessidade de tratamento de um sistema judicial em crise. Os julgados de paz têm de ser entendidos de forma diferente, devendo-se salientar algumas características, como é caso do estímulo à participação cívica dos cidadãos, sendo um meio informal e acessível com custas reduzidas, trazendo uma desjudicialização e desburocratização de processos.

43

36 Encontrando-se os tribunais administrativos assoberbados de processos.

37 Uma vez que a justiça administrativa comum apresenta características excessivamente formais

38 Cfr. FONSECA, Isabel Celeste M., “Arbitragem Administrativa: Uma Realidade com Futuro?”, 2013, p. 164 – “No domínio da justiça administrativa, uma das maiores vantagens diz respeito a razões de ordem conjuntural, que tem que ver com o gigantesco atraso na apreciação e julgamento dos processos confiados aos tribunais administrativos. E uma outra razão é de tipo estrutural, prendendo-se com as dificuldades de adequação do processo administrativo face à complexidade dos problemas do mundo actual, o carácter

excessivamente formalista desse processo e a ausência de capacidade técnica especializada dos juízes (em comparação com a dos peritos).”

39 Cfr. MARTINS, Guilherme d´Oliveira, “Breve Reflexão em torno da Arbitragem Administrativa”, 2013, p. 9 – “Reconhecendo-se as potencialidades da arbitragem administrativa voluntária, afigura-se-nos que a mesma deve ser objeto de uma abordagem prudente por parte do legislador. A pluralidade de valores e de princípios que se impõem à atividade administrativa, como os princípios da prossecução do interesse público, da legalidade, da imparcialidade e da transparência, justificam especiais cautelas legislativas.”

40 Cfr. GAMA, João Taborda da, “Decisões Arbitrais Públicas (Finalmente) Públicas”, 2013, p. 30 – “É sempre ilógico que a decisão de um tribunal, judicial ou arbitral, seja secreta. É, além disso, democrática e constitucionalmente ilegítimo o segredo de atos arbitrais que, no âmbito da função jurisdicional, dirimam um litígio em que, direta ou indiretamente, esteja em causa o interesse público ou, o que é dizer quase o mesmo por outras palavras, o dinheiro dos contribuintes.”

41 Cfr. FERREIRA, J. O. Cardona, “Julgados de Paz: Organização, competência e funcionamento”, 2011, p. 14.

42 De referir CHUMBINHO, João, FERREIRA, J. O. Cardona, GOUVEIA Mariana França, VARGAS, Lúcia Dias, entre outros.

43 Cfr. VARGAS, Lúcia Dias, “Julgados de Paz e Mediação – Uma nova face da Justiça”, 2006, p. 100 – “Os Julgados de Paz nasceram sob o signo da desjudicialização, entendida numa dupla vertente, por um lado, retirar alguns processos, que a isso se adaptem, dos

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Os julgados de paz devem ser, assim, entendidos, muito mais do que uma simples forma de descongestionamento dos tribunais, mas sim, como uma forma diferente de servir os cidadãos.

44

Os julgados de paz tendo características muito próprias são o meio de RAL que mais se assemelha com o sistema judicial, uma vez que o litígio é decido por um juiz de paz, que tal como o juiz de direito está apenas obrigado à lei

45

, no entanto a principal diferença com o procedimento judicial prende-se com a desburocratização do processo, tornando este mais próximo e acessível para o cidadão comum, sendo reconhecido como um meio de resolução de litígios de proximidade.

Os julgados de paz podem, assim, ser entendidos como um meio de RAL, mas também como um tribunal, na medida em que a estes estão subjacentes duas fases distintas: a primeira assenta na procura de uma decisão consensual das partes, através de mecanismos de mediação e conciliação, e a segunda assenta numa decisão proferida pelo juiz de paz, gozando esta da mesma força legal das decisões dos tribunais judiciais.

Os julgados de paz definem-se como tendo uma natureza híbrida na medida em que se procura estimular, no processo, a justa composição dos litígios por acordo das partes, através de métodos não adversariais

46

, no entanto, se tal não se verificar, o processo seguirá para julgamento tendo o juiz de paz o poder de decidir a questão e proferir sentença vinculativa.

47

Relativamente ao processo nos julgados de paz este é intrinsecamente caraterizado pela proximidade com os cidadãos, procurando estimular a justa composição do litígio por acordo das partes.

48

A proximidade com os cidadãos é mesmo a característica principal dos julgados de paz, através de meios de auto-composição que procuram que as partes cheguem a uma solução por acordo.

O processo nos julgados de paz regendo-se por princípios como a simplicidade, adequação, informalidade, oralidade e absoluta economia processual,

49

apresenta muitas semelhanças com o processo nos tribunais judiciais, sendo muitos destes princípios também princípios que caracterizam o processo judicial

50

.

tribunais judiciais e remetê-los para outras vias de resolução alternativa, por outro lado, prestar um serviço diferente ao cidadão. De resto, os Julgados de Paz nasceram com o vincado propósito de se traduzirem em verdadeiros tribunais do cidadão.”

44 Cfr. FERREIRA, J. O. Cardona, “Economia e Justiça”, p. 11 – “O objectivo determinante, a causa – final dos Julgados de Paz, consiste simplesmente em servir a cidadania, ou seja, contribuir para a realização de Justiça próxima, humana, adequada, oportuna. Este serviço pode e deve ser prestado por duas formas: resolvendo, directamente, alguns problemas concretos de certas pessoas; e, aliviando, na medida das suas competências, os Tribunais Comuns, desses problemas, contribuindo para que os Tribunais Comuns, desses problemas, contribuindo para que os Tribunais Comuns, tenham mais disponibilidade para aqueles casos que terão de ir para a Justiça Comum. Claro que isto depende, quanto aos Julgados de Paz, de competências e de organização correspondente, ou seja, instalação sustentada; divulgação; competência material necessária e não simplesmente optativa.”

45 Ressalva-se aqui a possibilidade de o litígio ser decidido segundo a equidade, sobre este assunto veremos mais à frente.

46 A mediação e a concliação.

47 Cfr. VARGAS, Lúcia Dias, “Julgados de Paz e Mediação – Uma nova face da Justiça”, 2006, p. 115 – “O aspecto mais notório dos Julgados de Paz é, na verdade, a sua estrutura bipartida, que abrange, por um lado, a mediação enquanto método não adversarial de resolução de conflitos, e, por outro lado, o julgamento presidido por um juiz de paz, a quem compete decidir a questão controvertida, por via de sentença.”

48 Cfr. previsto no artigo 2º n.º 1 da LJP, a atuação dos julgados de paz é vocacionada para permitir a participação cívica dos interessados e para estimular a justa composição dos litígios por acordo das partes.

49 Nos termos do artigo 2º n.º 2 da LAV.

50 No processo judicial podem também ver-se princípios como: o princípio da simplicidade, presente nos artigos 130º e 131º do CPC; o princípio da adequação, presente no artigo 547º do CPC; o princípio da oralidade, presente ao longo do processo, nomeadamente na audiência prévia, artigo 591º do CPC, e na audiência de julgamento, artigo 604º do CPC; e o princípio da economia processual, muito presente nas alterações ocorridas recentemente ao CPC com a aprovação da Lei n.º 41/2013, de 26 de junho.

(23)

No entanto, nos julgados de paz estes princípios encontram-se mais presentes, traduzindo-se num carácter de desburocratização e desjudicialização inerente a estes.

Quanto ao enquadramento legal dado aos julgados de paz, estes encontram a sua organização, competência e funcionamento regulados pela Lei dos Julgados de Paz.

51

3. A MEDIAÇÃO

A mediação é o meio RAL que apesar de ter como objetivo tirar alguns processos dos tribunais, ainda assim, o seu surgimento visou também prestar um serviço diferente aos cidadãos, sendo que, estamos perante um meio que deixa na disposição das partes a resolução do conflito, isto é, procura aproximar as partes para que estas encontrem por si a melhor solução para o seu litígio.

“Se tu queres fazer as pazes com o teu inimigo tens de trabalhar com o teu inimigo. E então ele torna-se o teu parceiro”52

A mediação será assim um meio de RAL mais vocacionado à resolução de conflitos de proximidade, nomeadamente no âmbito familiar ou mesmo de vizinhança, em que as relações interpessoais são o centro.

53

A mediação pode ser definida como o meio de RAL através do qual as partes em litígio procuram voluntariamente alcançar um acordo com assistência de um mediador de conflitos, sendo este um terceiro, imparcial e independente, desprovido de poderes de imposição, que auxilia as partes na tentativa de construção de um acordo final sobre o objeto do litígio,

54

isto é, será um meio de resolução de litígios em que caberá às partes encontrar a melhor solução para o seu conflito, cabendo apenas ao mediador tentar aproximá-las.

55

É nesta característica de domínio das partes sobre o processo que assenta o pressuposto da mediação enquanto meio auto-compositivo e consensual de RAL, assentando no poder das partes (empowerment) a decisão para o litígio.

56

51 Aprovada pela Lei n.º 78/2001, de 13 de julho, e alterada pela Lei n.º 54/2013, de 31 de julho.

52 Frase proferida por Nelson Mandela no seu primeiro discurso de tomada de posse, proferido na Cidade do Cabo, em 9 de maio de 1994, aqui aplicada noutro contexto, mas que enquadra bem o fim principal da mediação.

53 Cfr. CARVALHO, Jorge Morais, “A Consagração Legal da Mediação em Portugal”, 2011, p. 281 – “(…) em alguns litígios, nomeadamente quando a pacificação da relação entre as partes seja o principal problema (relações de vizinhança, de família ou de trabalho), o tribunal judicial pode não ter – e normalmente não tem – capacidade para resolver a questão a fundo, sendo muito mais eficaz uma eventual solução resultante de um processo de mediação.”

54 Cfr. CEBOLA, Cátia Marques, “A mediação pré-judicial em Portugal: Análise do Novo Regime Jurídico”, 2010, p. 1 – “A mediação é comummente definida com um processo extrajudicial de resolução de conflitos, caracterizado pela intervenção de uma terceira pessoa, cujo objectivo é facilitar o diálogo entre as partes em confronto, por forma a que elas próprias possam construir a solução tida por ambas como a ideal para o seu problema.”

55 Cfr. FERNANDEZ, Elizabeth, “Um juiz de paz para a paz dos juízes (?)”, 2006, p. 22 – “A mediação é uma modalidade extrajudicial de resolução de litígios de carácter privado, informal, confidencial, voluntário e de natureza não contenciosa em que as partes, com a sua participação activa ou directa, são auxiliadas por um mediador a encontrar, por si próprias, uma solução negociada e amigável para o conflito que as opõe, o que tem subjacente a ideia de que as mesmas se consideram mais vinculadas pelo acordo, nesta sede eventualmente obtido, do que pela sentença ditada por um juiz, após a produção da prova.”

56 Cfr. GOUVEIA, Mariana França, “Curso de Resolução Alternativa de Litígios”, 2015, p. 48 – “O essencial na mediação é o pleno domínio do processo pelas partes (empowerment), princípio que é o seu fundamento e, naturalmente, uma sua característica permanente.

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O empowerment é mesmo uma característica essencial da mediação, atribuindo-se às partes, enquanto as principais interessadas na resolução do litígio, o domínio total do processo, cabendo a estas determinar, com o auxílio do mediador, a melhor solução a dar ao conflito.

57

Esta será mesmo a filosofia por trás de todo o processo de mediação, responsabilizando as partes por encontrar a melhor solução para resolver o seu conflito.

58

Esta caraterística de domínio do processo pelas partes não deverá ser vista como uma característica que torna a mediação como uma alternativa inferior aos tribunais, mas sim uma alternativa diferenciada.

59

Outra característica da mediação e que a distingue dos tribunais judiciais e dos outros meios de RAL, é o seu fim, pois uma vez que é às partes a quem compete chegar a um acordo, isso permite que estas consigam sanar o conflito e, com isso, restabelecer a paz social.

Quanto ao seu enquadramento legal, a mediação encontra a sua maior expressão na Lei da Mediação, sendo nesta que se encontram previstas todas as regras aplicáveis à mediação realizada em Portugal, esta sistematização e regulação é recente, sendo que, até aí encontravam-se os seus princípios espalhados por diversos diplomas avulsos, visto que o seu âmbito de aplicação se estende muito para além da matéria cível, nomeadamente em matéria comercial,

60

laboral,

61

familiar

62

e até penal.

63

A LM assenta a mediação em vários princípios aplicáveis a todas as mediações.

64

A voluntariedade das partes para determinarem o recurso à mediação, para a abandonar a qualquer altura e para a decisão do litígio é um princípio fundamental da mediação.

65

A mediação assenta na ideia de que é nas partes que reside a solução do problema, que é através delas – as donas do litígio – que se encontra a solução adequada e justa.”

57 Cfr. CEBOLA, Cátia Marques, e GONÇALVES, Marco Carvalho, “Da possibilidade de aplicação de medidas cautelares à executoriedade do acordo de mediação em Portugal: análise em contexto familiar”, 2016, p. 9 – “Acresce que as partes no seio da mediação são os sujeitos ativos da solução do problema. O empowerment da sua posição, traduzido na capacidade de decisão

relativamente ao acordo para o seu conflito, bem como a possibilidade de manifestarem as suas ideias e temores, conferem às partes uma postura oposta à que lhes é outorgada no âmbito do processo judicial ou mesmo arbitral.”

58 Cfr. VARGAS, Lúcia Dias, “Julgados de Paz e Mediação – Uma nova face da Justiça”, 2006, pp. 55 e 56 – “A filosofia da mediação radica no entendimento segundo o qual, as pessoas envolvidas no conflito são as que melhor capacidade terão para o resolver, pelo que os participantes devem ter um domínio absoluto do procedimento da mediação, podendo desistir dele sempre que entenderem. Ao mediador cabe o papel de estimular o diálogo e não o de decidir ou impor soluções, pois prevalece sempre a vontade das partes.”

59 Nesse sentido, a Diretiva 2008/52/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de Maio de 2008, relativa a certos aspetos da mediação em matéria civil e comercial, no seu ponto 19, prevê que a mediação não deverá ser considerada uma alternativa inferior ao processo judicial pelo facto de o cumprimento dos acordos resultantes da mediação depender da boa vontade das partes.

60 De referir que ao nível comunitário a mediação em matéria cível e comercial foi objeto de sistematização no Livro Verde da Comissão das Comunidades Europeias de 19 de abril de 2002, e na Directiva 2008/52/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de maio.

61 No que diz respeito à mediação em matéria laboral referir que o sistema de mediação laboral encontra a sua regulação no Protocolo de Acordo entre o Ministério da Justiça e os Parceiros Sociais, de 5 de maio de 2006.

62 No que diz respeito à mediação em matéria de família referir que o sistema de mediação familiar (SMF) encontra a sua regulação no Despacho n.º 18778/2007, de 22 de agosto.

63 No que diz respeito à mediação em matéria penal referir que o sistema de mediação penal encontra a sua regulação no Regime de Mediação Penal (Lei n.º 21/2007, de 12 de junho) e no Regulamento do Sistema de Mediação Penal (Portaria n.º 68-C/2008, de 22 de janeiro).

64 Nos termos do previsto no artigo 3º da LM.

65 Nos termos do previsto no artigo 4º da LM.

(25)

A confidencialidade é outro princípio fundamental da mediação a que as partes e o mediador estão obrigados,

66

e que permite que as partes possam interagir abertamente sem receios de que o que for dito possa ser futuramente utilizado em processo judicial, salvo por razões de ordem pública ou por forma a garantir a execução de acordo obtido na mediação, este princípio é essencial para gerar um espaço de confiança que permita às partes chegarem a um acordo.

67

Este será mesmo um principio essencial para a efetividade da mediação enquanto meio de resolução de litígios.

68

Outros princípios subjacentes à mediação são o princípio da igualdade, da imparcialidade, da independência, competência e responsabilidade, sendo que estes princípios dizem respeito à função do mediador, devendo este tratar as partes de forma equitativa, agindo de forma imparcial, também deverá pautar o seu comportamento pela independência, livre de quaisquer pressões.

69

Um princípio recentemente introduzido pela LM é o princípio da executoriedade que prevê a atribuição de força executiva ao acordo de mediação sem necessidade de homologação judicial.

70

A inclusão deste principio vem assim dar força à consagração deste meio como meio efetivo de resolução de litígios.

71

Mais à frente iremos ver este princípio quando analisarmos o acordo de mediação.

4. OUTROS MEIOS DE RAL

Para além destes três principais meios de RAL,

72

que a doutrina em geral reconhece como sendo os

“verdadeiros” meios de RAL, podem-se ainda referir outros meios com menor expressão como é o caso da conciliação e negociação.

Estes outros meios apresentam-se com uma natureza mais híbrida, como em seguida veremos:

66 Nos termos do previsto no artigo 5º, conjugado com os artigos 26º d), 28º e 18º n.º 3 da LM.

67 Cfr. VILLALUENGA, Leticia García, “La Mediación a Través de sus Principios.Reflexiones a la luz del Anteproyecto de Ley de mediación en asuntos civiles y mercantiles”, 2010, p. 733 – “La confidencialidad, principio esencial de la mediación, que permite generar el espacio de confianza necesario para que las partes definan sus intereses y puedan, en su caso, llegar a acuerdos, alcanza al procedimiento de mediación y a la documentación utilizada en el mismo,”

68 Cfr. CEBOLA, Cátia Marques, “A mediação pré-judicial em Portugal: Análise do Novo Regime Jurídico”, 2010, p. 3 – “Se os mediados estivessem conscientes de que todas as declarações prestadas poderiam ser utilizadas posteriormente pela parte contrária num processo judicial, tal faria com que fossem extremamente cautelosos quanto aos seus interesses e razões subjectivas, evitando divulgálos e dificultando que o mediador pudesse trabalhar um acordo satisfatório para ambas as partes. A previsão da confidencialidade contribui, assim, para a eficácia da mediação e para a confiança que as partes deverão depositar neste método.”

69 Nos termos do previsto nos artigos 6º a 8º da LM.

70 Nos termos do previsto no artigo 9º da LM.

71 Cfr. CEBOLA, Cátia Marques, “Regulamentar a Mediação: Um olhar sobre a nova Lei de Mediação em Portugal”, 2015, p. 60 –

“Aplaudimos a opção do legislador por se considerar não apenas viável à luz do nosso ordenamento jurídico, como também imperiosa à consagração da efetividade da mediação como método de resolução de conflitos.”

72 A arbitragem, os julgados de paz e a mediação.

Referências

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