G → GESTÃO C → CONTROLE
5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
5.2 DAS PRÁTICAS DE ACCOUNTABILITY DE NATUREZA EXTERNA
Diante da necessidade de se identificar as práticas promotoras de accountability externa, adotadas no âmbito de uma Secretaria Estadual de Saúde para uma unidade hospitalar em regime de PPP e para uma UHAD, utilizou-se como parâmetro para o estudo os questionamentos levantados por Smith, Mathur e Skelcher (2006), em que se realizou entrevista junto ao representante PPP, bem como se efetuou pesquisa em sites para verificar as informações disponibilizadas pelas mencionadas unidades de saúde.
Pela entrevista realizada, o representante da PPP informou que a SPE tem suas Demonstrações Financeiras auditadas por Auditor Independente, de renome no mercado, além da atuação mais próxima de instrumentos promotores de accountability. Mencionou, ainda, que existem muitos olhos verificando a todo tempo o desenvolvimento da PPP, o que se coaduna com o entendimento de Bovens (2006) sobre as características da accountability.
Ademais, relatou, que toda a produção do hospital está disponibilizada no site da SPE, constando de metas quantitativas (70%) e qualitativas (30%). Além disso, as Demonstrações
Financeiras anuais, acompanhadas com o Relatório de Administração, são publicadas no DOE, sendo que a Secretaria Estadual de Saúde recebe as Demonstrações Financeiras trimestrais auditadas, acompanhadas com o respectivo relatório parcial. Acrescentou, também, que a unidade hospitalar conta com uma ouvidoria permanente, que poderá ser solicitada sobre a necessidade de disponibilizar determinadas informações. Sendo que, geralmente, recebe demandas relacionadas à assistência, embora o índice de satisfação dos usuários, medido por força contratual, varie entre 92 a 96%.
Com relação à elaboração do Orçamento, informou sobre a dificuldade de realizar previsão orçamentária para uma unidade hospitalar de saúde, principalmente por se tratar de uma unidade recente e fazer parte de um setor complexo, em que se deve considerar questões epidemiológicas e de caráter sazonal, como por exemplo, o surto de dengue. No entanto, reconheceu que já existe um grau aceitável de previsibilidade após os dois anos de existência da unidade. O orçamento elaborado para a SPE, no entanto, não é disponibilizado ao público.
No que diz respeito à administração da SPE, informou que existe um Conselho de Administração constituído por acionistas e diretores, no total de 05 conselheiros, que se reúne para tratar da direção da Unidade, analisar e aprovar as Demonstrações Financeiras e outros casos que requeiram sua convocação.
Assim, a PPP adota diversas práticas de accountability de natureza externa, merecendo destaque a disponibilização de informações no site da SPE acerca das metas de produção fixadas, qualitativas e quantitativas, e o seu grau de atendimento, e a publicação no DOE das Demonstrações Financeiras da SPE, auditadas por auditores independentes, acompanhadas de relatório da administração. Relata-se, no entanto, que todas as informações divulgadas são exigidas pelo Contrato de Concessão Administrativa, resultando em práticas promotoras de
accountability de caráter não voluntário.
A divulgação das Demonstrações Financeiras da SPE, acompanhadas do Relatório de Administração, é relevante para o conhecimento do público, pois apresentam a situação contábil-financeira em que se encontra a SPE para o atendimaneto das claúsulas contratuais, principalmente, as relacionadas ao cumprimento das metas contratuais, bem como apontam sobre as perspectivas futuras do contrato. Torna-se fundamental, também, para verificar o montante de recursos destinados pelo Estado para a parceria e se o lucro auferido pela SPE
está dentro dos limites aceitáveis da TIR, ou se, na ocorrência de prejuízos apurados, a continuidade do contrato pode ser comprometida.
Pelo exposto, as práticas de accountability externa adotadas têm forte vinculação com as práticas de governança corporativa adotadas pelo setor privado, o que foi identificado no estudo de Willems e Van Dooren (2011) e mencionado por Shaoul, Stafford e Stapleton (2012) e Brennan e Solomon (2008).
Em relação à UHAD, como não foi possível realizar entrevista com um representante da unidade de saúde, realizou-se pesquisa no seu site, no DOE e considerou-se as informações disponibilizadas pelos instrumentos promotores de accountability mencionados no âmbito desta pesquisa. Constatou-se que: a unidade de saúde não conta com total autonomia para a execução orçamentária; não disponibiliza informações que identifiquem que esteja obrigada a cumprir metas quantitativas e qualitativas; as informações de natureza contábil-financeira estão agregadas nos demonstrativos do Fundo Estadual de Saúde e no Balanço do Estado, o que não permite conhecer os recursos de natureza financeira e patrimonial disponibilizados para a UHAD.
No que diz respeito ao Orçamento da UHAD, inserido no Orçamento da Secretaria de Saúde, a definição de valores e todas as alterações ocorridas são aprovadas pelo Poder Legislativo e divulgadas na imprensa oficial. Já no que se refere à auditoria externa, a unidade encontra-se legalmente obrigada a prestar contas ao Tribunal de Contas do Estado, bem como pode ser auditada por instrumentos do próprio controle interno do SUS, como o Instrumento de Auditoria Interna.
Salienta-se, com relação ao canal de reclamação à disposição dos cidadãos e/ou usuários de serviços, que a UHAD conta com um canal diretamente interligado com a própria Secretaria de Saúde. Isso não acontece em relação à PPP, que de acordo com o representante, possui um canal diretamente vinculado à SPE, que tem atendido demandas relacionadas à assistência à saúde.
Sendo assim, constatou-se que existe um maior alinhamento das práticas promotoras de
accountability adotadas pela PPP com os pressupostos de governança relacionados à accountability externa, principalmente no que se refere à divulgação das Demonstrações
Financeiras, que contemplam os diversos instrumentos contábeis previstos em lei, e à fixação de metas a serem atingidas pela unidade hospitalar. Ao passo que, em relação à UHAD, embora exista a disponibilização de informações, elas se relacionam ao processo de execução da gestão pública, como as informações sobre licitações, contratos e as relacionadas aos recursos humanos, porém essas informações não são publicadas de forma detalhada.
Nesse sentido, pode-se afirmar que a PPP contribui para a melhoria de accountability externa, no entanto com características voltadas para o resultado, ao passo que a accountability externa promovida pela UHAD apresenta características relacionadas ao processo, não disponibilizando informações sobre os resultados obtidos pela unidade. Salienta-se, no entanto, em relação à PPP, que as Demonstrações Financeiras auditadas e publicadas no DOE não estavam disponibilizadas no site da SPE nem as informações relaciondas às alterações do Contrato de Concessão e atas, disponibilizadas no site do Conselhor Gestor de Parcerias, o que aponta para a necessidade de uma maior integração de informações na transparência e divulgação da parceria.
Diante exposto, torna-se oportuno mencionar o entendimento de Timmers (2000) a respeito da transparência dada pelo setor privado em comparação com o setor público. Segundo o autor, no setor privado, a prática se dá por meio da publicação das Demonstrações Financeiras, por exemplo, em que o lucro é apropriado e os gestores são responsáveis perante os stakeholders. Já no setor público, o governo divulga o seu orçamento, no qual as discussões direcionarão para as propostas políticas. No entanto, defende que existe a tendência do aumento da transparência em ambos setores.