5. PROFISSIONAIS DE CUIDADOS PALIATIVOS DE FRENTE PARA O FIM: A
5.3 O Fim e seus significados para os profissionais de CP
5.3.3 De frente para o fim: a experiência de perder um paciente paliativo
5.3.3.2 Das primeiras perdas: As mudanças no lidar com a morte
Nossos entrevistados, revelam mudanças no modo como lidaram com suas primeiras perdas, os primeiros pacientes que morreram, ao modo como vivenciam hoje. A insegurança, o medo e o anseio se fizeram presente neste contexto de iniciação no contato com a partida de pacientes. Contudo, afirmam, lidarem melhor atualmente, percebendo as mudanças no trato com o morrer, e que isso foi sendo construído à medida que foram sendo preparados, por suas vivências próprias e busca por formações.
“No início isso me assustou, porque eu vinha de uma residência, porque eu fiz clínica médica depois eu fiz parte de pneumo, que morria assim, um paciente por ano. E às vezes chegava num dia e faleceu cinco. Então... e aí na hora que
falecia, mudava o leito e já tinha outro. Você virava também, ou vinha de tarde,
e já tinha outro paciente. O paciente assim, era um qualquer. Teve dias de
falecer três num mesmo leito. Como é que falecem três pessoas no mesmo leito,
né? E parecia guerra. A sensação era essa, de guerra. Mas aí quando eu comecei a estudar mais, eu comecei a cuidar mais, a me envolver mais um pouco com esses familiares, eu vi que ali foi um final que foi fechado”. (Fragmento de entrevista de Lya Luft – Médica)
Vindo de uma realidade profissional onde a morte era pouco presente no cotidiano, Lya Luft se surpreendeu ao deparar-se com uma realidade de mortes consecutivas, inclusive
no mesmo leito, passando a sensação de guerra, sem individualidade. Percebemos que quanto mais mortes ocorrem, mais comum a morte parece ser, podendo ocorrer uma banalização da morte nos hospitais (Martins et al, 1999). Afetou-se com aquele “rodizio” de pacientes, e precisou recorrer a formação como forma de tentar lidar com o contexto de uma maneira mais tranquila. Com o tempo, passou a se permitir o contato com os familiares, e foi mudando o sentimento que tinha sobre a morte.
“Muito, muito, muito, muito, muito. Muito melhor hoje. De novo, quando a gente foi... eu fui sendo preparado, né? Eu fui sendo preparado, eu fui sendo preparado. Eu me preparei pra ser um super médico socorrista. Super. Eu fiz
todos aqueles cursos aeromédico, de rua, ATL... eu fiz todos. Todos, todos, todos, todos. Eu fui coordenador das ambulâncias no Einstein lá em São Paulo.
Eu era um super socorrista. Mas dentro da UTI, com essa visão que eu fui
pinçado do paliativo, aí é que começou. E aí eu fui começando a me treinar pro outro lado. Pro lado do acolhimento. Então eu acho que eu melhorei muito sendo treinado.” (Fragmento de entrevista de Carlos Drummond – Médico)
Vindo também de uma formação voltada para cura, Carlos Drummond, foi sendo preparado para cuidar do paciente no objetivo da cura. Hermes e Lamarca (2013) apontam que há carência de disciplinas que tratam da temática da morte nos currículos profissionais da área da saúde, ocasionando, por conseguinte, barreiras estruturais e formativas que se colocam frente ao cuidado de pacientes em processo de morte e morrer. Frente a essas barreiras, necessitou ir redirecionando seu fazer, sua formação, para o acolhimento, afirmando que em consequência disso, foi lidando melhor com a morte. Afirma hoje, conseguir lidar de um
“A gente é treinado, assim, eu fui treinada, e meu pensamento às vezes também fica ainda muito limitado nisso, que eu posso ter tirado cinco dias de vida, mas aí hoje em dia eu já tento, assim, antes eu ficava muito nisso: o quê que eu poderia fazer pra que ele não falecesse? Hoje em dia eu já percebo que não. Que às vezes tirar uma medida aqui, tirar uma coisa, mas na verdade eu posso até não ter um ganho de cinco dias, mas eu tenho uma qualidade gigante. Eu faço com que os meses, os dois meses antes, ele possa passear, viajar, possa estar com a família, acordado, conversando, do que internado no hospital. Na verdade eu não ganhei cinco dias, eu ganhei dois meses com a família. E não fez dois meses no hospital. Aí muda um pouco. Mas se a gente é... porque a morte, pra mim assim, é o final de uma coisa, e quando a coisa é boa como a vida, você quer sempre um pouquinho mais, né? E hoje em dia, o meu olhar que eu tinha antes quando o paciente falecia, é o quê que eu podia ter feito diferente pra ele não morrer. Já hoje em dia eu já penso em ter feito diferente pra ter aliviado mais o sofrimento. Eu percebi que ele foi, mas ele reclamou de dor 48 horas antes, o quê que eu poderia ter feito”. (Fragmento de entrevista de Lya Luft – Médica)
À medida que se permite, consegue realizar um cuidado mais humanizado. Este é um aspecto inclusive apontado pela literatura, nos processos de educação para a morte. Lima e Buys (2008), e Santos e Bueno (2011) trazem o aprofundamento do contato com quem está morrendo, bem como os medos, as alegrias, as dores e as necessidades do paciente; e a imersão de discussões sobre a morte, como movimentos que direcionam os profissionais a serem educados para morte. Nesse sentido, consideramos a proposta de uma educação para a morte (Kovács, 2005) como uma tentativa de encontrar estratégias que facilitem o trato com a
temática. Kovács defende que a educação para a morte busca o desenvolvimento pessoal de uma maneira mais integral, visando a encontrar o sentido que esta pode oferecer à vida. Portanto, tal educação é uma forma de preparar os profissionais de saúde para lidar com a morte nas suas histórias pessoais e com a morte daqueles que estão sob seus cuidados. Essa educação não é realizada através de receitas prontas ou doutrinação, mas no cotidiano do trabalho em saúde, envolvendo aspectos cognitivos e afetivos, com os profissionais tendo a oportunidade de refletir sobre suas práticas, revisando sua práxis para um cuidado mais humanizado (Kovács, 2005)
No fogo cruzado entre estas ordens antagônicas, encontra-se a equipe de saúde (Kovács, 2010). No início da experiência com as primeiras perdas, nossos entrevistados trazem também a insegurança, com angústia, na preocupação se foi feito tudo o que era possível.
“Porque eu acho que o meu ciclo também se fecha quando eu digo “o quê que
eu pude fazer por esse paciente e pela família dele, o paciente e a família até onde eu estava aqui?” Ó, eu saio... eu saio... pensando, “ah, o quê que eu posso fazer ainda? Eu posso fazer alguma coisa?” Eu reflito. Mas não é nada que me
atrapalhe a vida lá fora. Eu reflito.” (Fragmento de entrevista de Cora Coralina – Psicóloga)
“Até também, pra a gente ver o que a gente podia ter feito diferente mesmo.? Ou então a família se desorganizou muito, né? Aí assim, a gente teve recente uma paciente que a avó não deixava as técnicas fazerem os remédios, e elas se perguntavam o quê que a gente poderia ter feito diferente, e daí você começa... pra que isso não se repita. E as coisas boas possam ser levadas aos outros, a
gente termina discutindo isso.” (Fragmento de entrevista de Adélia Prado – Psicóloga)
O sentimento de tristeza, parecia também presente nos primeiros momentos:
“Primeiro eu ficava triste porque é entendia que ela tava doente e que ela ia partir mas que aquilo fazia parte do processo. Então pra mim que era recém saída da faculdade, ainda não era bem estabelecida aqui, não aceitava algumas”. (Fragmento de entrevista de Cecília Meireles – Enfermeira)
“No início, que eu comecei a trabalhar aqui, eu não conseguia meio que olhar
muito. Né? Pra situação, assim... eu meio que me desorganizava, então eu
achava melhor... ou eu era oito ou eu era oitenta, sabe? E hoje eu acho que eu já consigo lidar melhor. Né? Entendo que é um processo, entendo que muitas vezes não tem cura e a gente precisa cuidar, dar o conforto e tal, mas eu já acho que eu consigo mediar melhor”. (Fragmento de entrevista de Alice Ruiz – Assistente Social).
Cecília Meireles também revela mudança, revelando sentir mais tristeza no inicio, quando ainda não aceitava a morte com naturalidade. Alice Ruiz nos fala do desenrolar da sua relação com a morte. De um inicio atribulado, em que sua presença trazia mobilização que desorganizava até o hoje, em que sente que lida melhor. Para Penha (2009) paulatinamente, com o percurso profissional, vai-se alterando a forma de encarar a morte, vivenciando-a com menos ansiedade o que necessita de ser apreendido através da consciencialização de si, através de um processo de autoeducação, será possível obter mais serenidade para lidar com as
significações arcaicas da morte, transformando a proximidade desse instante numa oportunidade evolutiva, como dita por Alice Ruiz.