II. NOS ARENOSOS TERRENOS DAS LOUCURAS PASSIONAIS
2. Tragicidade passional no corpo materno
2.4 Das Unheimliche e a tragicidade passional
Nestas reflexões está sendo apresentado o conto, O Homem da Areia, juntamente com sua estrutura narrativa, o tema da constituição de uma loucura passional numa temporalidade do unheimlich, sugerindo, com isso, que o enlouquecimento de Natanael se desencadeia quando o fantasma do homem da areia, constituído sob insígnias maternas, recai sobre Olímpia. Sua loucura irrompe diante do simulacro do corpo de uma mulher, representada por uma boneca de cera, um ser autômato. A mulher, nesta configuração, se
apresenta sob o espectro de um corpo morto. Isso é passível de verificar, tanto na engrenagem mecânica dos movimentos de Olímpia, quanto na paralisia de seu olhar, assim como nos seus repetitivos balbucios.
Indica-se que a tragicidade passional se produz no insuportável do inquietante, onde se agregam os desdobramentos mortíferos do corpo materno no de uma mulher. Afinal, não são também “ruídos de morte” que compõem a figura do homem da areia tal como sempre se apresentaram na existência de Natanael? Inicialmente, sob a forma de impressões; depois, sob a plasticidade da figura de Coppelius, “um monstro fantasmagórico que carregava consigo, aonde fosse, aflição, miséria e ruína eternas” (Ibidem, p. 118) e, por fim, numa configuração em que aparece a mortífera Olímpia. Esse encontro é, também, um reencontro com essa “coisa assustadora que remonta ao que é há muito conhecido, ao bastante familiar”, tal como concebeu Freud acerca do Das Unheimliche (1919/2010, p. 331). O significante “familiar”, evocado no conto, é o da morte. Este ressurge, sob a forma do real, na boneca, Olímpia. É no simulacro desse corpo de uma mulher que emergem as impressões e delineações da figura do homem da areia. Como refere Freud, “Olímpia é, digamos, um complexo desprendido de Natanael, que lhe defronta como uma pessoa” (Ibidem, p. 349).
A partir disso, é possível sugerir que o estatuto da tragicidade se aproxima do encontro com o insuportável do estranho familiar. Há o retorno, no real16, do corpo materno. No conto, verifica-se que isso emerge no real de um corpo de uma boneca-mulher. “A fronteira entre a fantasia e a realidade é apagada, quando nos vem ao encontro algo real que até então víamos como fantástico, quando um símbolo toma a função e o significado plenos do simbolizado” (Freud, 1919/1920, p. 364).
A partir dessa passagem, é possível relacionar a proposição lacaniana do estatuto da angústia produzido pelo encontro com o real. O sujeito é confrontado com a “falta da falta”, que destrói sua faculdade de desejar (Lacan, 1961-2/2005). Acaso isso não pode estar correlacionado ao que Freud propõe como “a plenitude do simbolizado no símbolo”? Um símbolo que pode ser, justamente, a forma de retorno do irrepresentável, ou seja, essa
16 Conceito lacaniano que remete àquilo que não só é impossível de representar como de transmitir, o puro não- sentido, impossível de ser simbolizado. O Real (num primeiro momento, escrito com maiúscula) está entrelaçado às categorias de imaginário e de simbólico. A primeira aparição daquele termo foi em 1953, numa conferência intitulada “O Simbólico, o Imaginário e o Real”. Segundo Roudinesco & Plon (1998), para construir aquela categoria, Lacan combinou a ciência do real (Física), a heterologia (Bataille) e a noção freudiana de realidade psíquica, e fez uma equivalência do real, o sexo feminino e a loucura. No seminário 19, “... ou pior”, ele define: “O real é o que comanda toda significância. O real é aquilo com que vocês deparam, justamente por não poderem escrever em matemática seja o que for” (2012, p. 29). Uma das definições pertinentes para esse encontro de Natanael e Olímpia é que “ao real não falta nada” (Lacan, 1962-1963/2005).
experiência de passividade radical diante de uma manifestação do real que, como refere Kehl “nos invade e nos reduz à condição de coisa” (2000, p.145).
Também acerca dessas questões, e acrescentando, o que retorna sob a forma de um delírio, a contribuição de Green (1988) coloca em evidência essa questão. Segundo ele, para a psicanálise, está implícito que todos os delírios são fruto de uma paixão reprimida (p. 221). Esse reprimido também estaria no próprio pensamento freudiano, uma vez que Freud teria abandonado o “polo da paixão”, por exemplo, nos estudos acerca da histeria. Seguindo essa ideia de Green, é possível interrogar se Freud, ao trabalhar aquele conto de Hoffmann, também não “deixou de lado” a loucura erótica evidenciada na trajetória do encontro de Natanael com o inquietante. Pois, para Freud, o tema da boneca, Olímpia, não é o único “nem o principal responsável pelo efeito incomparavelmente inquietante da narrativa” (1919/2010, p. 341), inclusive, ela serve para satirizar os excessos amorosos do jovem estudante. Assim, ele colocou como centro da história o tema do homem da areia, que arranca os olhos das crianças.
Como referido anteriormente, o encontro com o estranho familiar pode produzir angústia e, posteriormente, aproximação através da fantasia, possibilitando uma entrada na via desejante e amorosa; ou, como se apresenta n’O homem da Areia, nesse encontro pode ocorrer uma entrega imediata ao objeto, numa condição de extrema passionalidade, e uma produção delirante. Frente a uma inquietante estranheza, a defesa pode ser uma posição passional. É possível remeter à proposição de Mannoni (1980/1988) de que o apaixonado se defende do desejo, pois a condição de Natanael o impede de ascender a uma via desejante e amorosa e, consequentemente, o conduz a um estado de “coisa”, mortífero com o desejo.
Figueiredo, indicando que a alteridade não se refere a um ente-já-constituído, mas admitindo a existência de uma gênese simultânea da alteridade e do si próprio, aponta que esta é originária do que parecia mais próximo e familiar. Nessa alteridade processual, o estranho emerge na mais absoluta proximidade. “Não é a alteridade do outro que surpreende, e eventualmente assusta, mas a surpresa diante de alguém-que-sendo-parte-do-mesmo-é-outro o que constitui o outro na sua alteridade e estrangeirice” (1998, p.47). Frente a isso, uma das reações que pode ser produzida é a negação dessa proximidade: desconhecendo o outro na sua estranheza e “o incluindo numa imaginária indiferenciação”. Essa posição frente ao estranho do outro (ou de si mesmo) de “imaginária indiferenciação” é um subsídio importante à hipótese de uma condição passional diante do unheimlich.
A tragicidade comporta, nessa perspectiva, um encontro alucinatório com um objeto completo, encerrando a busca do objeto perdido, do objeto a, suporte da fantasia. Esse objeto
alucinado emerge sob o fundo de uma realidade angustiante. Portanto, como concebe Lacan (1962-1963/2005), pode ocorrer que, no lugar da ausência, se coloque uma presença que, assim, “apodera-se da imagem que o sustenta, e a imagem especular transforma-se na imagem do duplo, com o que esta traz de estranheza radical” (p. 58). Esse duplo do corpo materno é que Natanael reencontra em Olímpia.