I. HISTÓRIA CLÍNICA DE UMA LOUCURA PASSIONAL
2. História clínica de Rosa
2.3 Das crises às narrativas
2.3.2 Do despedaçamento corporal à boneca do pai
Após essa internação hospitalar numa ala psiquiátrica de um hospital geral, ela retornou ao CAPS e aos seus atendimentos. Os fenômenos alucinatórios cessaram, entretanto o delírio passional se manteve. O modo como se manifestou essa formação delirante é um olhar onipresente de Alfredo sobre o real do corpo de Rosa. Ela se via, o tempo todo, como se
estivesse sendo vista por ele: os fios de cabelos brancos, sua pele exposta à lei da gravidade, seu corpo no movimento do tempo. Numa aproximação com o mito de Sibila, ela pareceu ter pedido aos deuses amor eterno, esquecendo de ter pedido, também, eterna juventude.
O tratamento comigo, nesse momento, servia como suporte de uma imagem que se despedaçou, facilmente, no espelho imaginário do olhar de Alfredo; também, um sustentáculo diante da insuportável recusa do Outro, pois, diante desse espelho imaginário para o real de seu corpo, ela padece.
Como uma criança que se jubila frente a uma guloseima oferecida por um adulto, ela se deliciava com os dropes e caramelos que degustava durante as sessões. Como uma boneca despedaçada, ficou entregue à sua loucura. Essa referência às balas e à boneca se deve ao fato de Rosa vangloriar-se de ser a única filha que ganhou uma boneca do pai e, também, de ele ter sido um fabricante e vendedor de balas. Juntamente com isso, se enaltecia pelo fato de ter sido porta-voz dos desejos da mãe para com o pai. “Se minha mãe queria um sofá novo ela me falava para eu pedir para meu pai”, comentava Rosa. Regozija-se disso, desconhecendo o que está em causa na construção dos enredamentos de sua fantasmática passional. Naquele enunciado, situavam-se indicativos da forma como Rosa se coloca – e foi colocada - na relação com o materno. Ou seja, na medida em que ela teve acesso direto aos pedidos da mãe, e poder sobre eles ante seu pai, foi aderindo a um lugar fálico na demanda materna. Através dessas marcas, Rosa foi assumindo um lugar de objeto do desejo do Outro.
O estado de deslumbramento infantil de Rosa, pelo fato de ter tido tal privilégio e de ter sido a única filha a ter ganhado uma boneca do pai, a impediu de perceber que, assim, aderia a um lugar de uma boneca falante, servindo como porta-voz dos pedidos da mãe para com seu pai. Inebriada, ela não podia reconhecer que se fixa numa posição de extrema satisfação libidinal materna, numa passionalidade primordial. Essa servidão a acometeu por
quase toda uma vida e, na relação passional com Alfredo, conduziu-a a uma loucura de dimensão quase mortífera.
Quando Rosa foi presenteada, pelo seu pai, com aquele brinquedo infantil, houve indicativos de que ela acaba ocupando um lugar de verossimilhança com a boneca. Porém, isso acontece numa versão identificatória imaginária mais próxima de um brinquedo do que como uma possibilidade de identificação com o feminino que tal objeto pode portar, pois, na acepção dessa palavra, encontram-se tanto definições quanto uma figura que imita uma forma feminina e serve como brinquedo de criança ou enfeite como, numa linguagem conotativa, uma mulher excessivamente enfeitada e/ou de corpo pequeno e bem-feito.
Dessa forma, Rosa, próxima a ser “a boneca do pai”, encontrou-se num lugar de
joguete do pai para a mãe e vice-versa e, não, entre o pai e a mãe6. Nessa configuração, conjectura-se o materno posicionado não como exclusivamente do lado da mãe, mas também do pai, uma vez que não aparece a versão “pai-homem” que deseja uma “mãe-mulher”, podendo, assim, Rosa se inserir numa rivalidade fálica. Ou seja, o Outro materno estava diluído, tanto no lugar do pai como no da mãe. Nessa vertente, tentar-se-á mostrar que o materno se colocou, justamente, porque a diferença sexual – o que estabelece os lugares – estava precarizada ou, como será concebido, houve dispositivos estruturais de recusa daquele significante do sexual. Uma das hipóteses centrais é a de que uma loucura passional contém marcas constituintes de uma relação primordial materna. Tal passionalidade pode proceder da experiência de recusa do sexual, mais propriamente, recusa da inexistência unívoca de um representante do falo materno. Como refere Lacan, a diferenciação simbólica entre os sexos ocorre quando está em causa a função simbólica do falo (1956-57/1995, p. 155).
Nesse tempo do tratamento de construções narrativas sobre a “boneca do pai”, como já evocado, Rosa dispensou uma atenção constante a seu corpo, detendo-se nas declinações e degradações que o tempo imprime numa anatomia humana. Ela perguntou: “Como Alfredo vai me ver assim?”. Um enunciado que apresentava pelo menos duas direções: ela se encontrou, sim, ainda aprisionada ao olhar (desejo) desse homem (objeto alvo de sua passionalidade), mas, também, detectou mudanças, não ficando congelada num tempo de eterna juventude e amor eterno. De uma forma ou de outra, é uma pergunta que se abre sobre seu lugar no desejo do Outro, agora não mais num cunho de certeza.
Nesse contexto, Rosa começou a construir narrativas sobre sua “grande história de amor”. Houve alterações, mesmo que não tão radicais, de sua posição discursiva. Suas
6 Esse lugar é possível remeter à brincadeira infantil da “Maria Mole” ou, também, chamada de “João Bobo”. É um corpo mole e sem autocomando que vai de uma a outra pessoa que o movimentam.
palavras passam a não ser mais, simplesmente, palavras jorradas em que foi simples depositária dos acontecimentos de sua vida. Passa-se a encontrar vestígios de uma não dissociação entre a Rosa das palavras que enunciava e aquela de suas próprias lembranças. Concomitante a isso, a entonação de sua fala sofreu alterações: há pausas em sua fala e, nesses intervalos, nuanças de pensamentos reflexivos.
A seguir, enfocam-se duas dessas construções, que foram circunscritas sob a forma do primeiro encontro ou como ela conheceu e começou a “amar” Alfredo.
Como referido anteriormente, as construções narrativas acerca de sua história e sofrimento começaram a ocorrer, efetivamente, após sua internação devido ao desencadeamento de fenômenos alucinatórios e tentativas de suicídio. Numa primeira fase do tratamento, houve flashes das situações vividas, no entanto, ainda numa condição de relato. Nas suas “descrições de lembranças”, Rosa parecia não se contar, como se fosse personagem de si mesma. Somente depois que cessaram os fenômenos alucinatórios, ela pôde ir passando do relato à narrativa, ou seja, transformando o vivido em experiência.
Durante essas sessões, acolhia seus relatos, buscando introduzir pontuações (pausas) e, em outras, perguntas. Por vezes, ajudando a encontrar palavras onde, após sua internação e a saída de um estado de euforia, havia reticências que pareciam traduzir um vazio irredutível. Por vezes, as sessões eram como um quebra-cabeça. As peças estavam ali, apenas as colocava mais próximo de seu olhar para que suas mãos pudessem alcançá-las. No caso em questão, as peças eram palavras a serem ofertadas na busca de uma experiência de integração de sentido aos fatos, produzindo significações.
Também, é oportuno indicar que nesse momento, Rosa enuncia o desejo de que seu filho escreva sua biografia, pois considerava sua vida “uma grande história de amor”. Concomitante, também a esse momento, numa situação em que ela assina seu nome no prontuário de atendimento da instituição, durante o ato da escrita, ela diz: “Tenho a grafia de meu pai”.
A seguir, serão apresentadas duas situações contadas por Rosa – em que houve uma saída de seu estado delirante - de como conheceu Alfredo, o encontro com ele. São momentos originários da trajetória da sua “grande história de amor”, ou, mais precisamente, da construção passional delirante que a acometeu por longos anos de sua vida.