QUADRO 2 ESQUEMA DOS PROCEDIMENTOS ESPECIFICADORES PARA OPERADORES DE MODO
3.4.2 Davidson sobre o problema da fraqueza da vontade
O debate contemporâneo sobre o tópico tem na figura de Donald Davidson um ponto de referência e um divisor de águas. Em um artigo primeiramente publicado em 1969 intitulado How is Weakness of the Will Possible?, Davidson inaugura uma nova discussão sobre a fraqueza da vontade115, afastando-se da discussão tradicional. O
artigo de Davidson, na verdade, é uma reação a tese de Richard Hare (1952), segundo a qual, o fenômeno da incontinência não é possível. De acordo com Hare, é impossível para uma pessoa fazer uma coisa se ela genuinamente, e em um sentido mais amplo, toma que, ao invés disso, ela deva fazer outra coisa. No caso de Hare, isso é uma consequência da explicação geral da natureza dos juízos valorativos que ele defende. Hare sustenta uma tese prescritivista, conforme a qual, juízos morais como ‘eu devo fazer x’ implicam imperativos. Nos casos onde o agente julga que ele deve fazer x, ele atribui a si mesmo o imperativo ‘faça x’. Consequentemente, se o agente estiver livre para fazer x, ele irá fazer x. Os casos onde supostamente haveria fraqueza da vontade são casos em que ou o agente não julgou realmente que ele deve fazer x ou que o agente não é efetivamente livre.
115 Em geral a literatura utiliza as expressões ‘akrasia’, ‘incontinência’ ou ‘fraqueza da vontade’ quando
aborda o tema. A partir de agora pretendo utilizar, como nomenclatura para o problema, somente a última expressão, embora continuarei utilizando “incontinência” para descrever ações.
Insatisfeito com essa resposta, Davidson (2001) irá tentar mostrar que a fraqueza da vontade é um evento legítimo116. Segundo ele, a vontade de um agente é fraca se ele
age, e age intencionalmente, contra o seu melhor juízo. A característica fundamental de uma ação incontinente é que o agente não tem força de vontade para fazer aquilo que ele sabe ou acredita ser o melhor. Se um agente toma um curso de ação como sendo o melhor, considerando todas as coisas (all things considered), ou como aquilo que ele deve fazer e, ainda assim, faz outra coisa, ele age incontinentemente.
A abordagem de Davidson levará em conta a relação entre juízos valorativos e a ação intencional. Mas, principalmente, sua posição torna a classe das ações incontinentes mais ampla que a usual. Aquilo que Davidson quer discutir depende, em última instância, da atitude ou crença do agente. A sua tese forte, que o afasta de autores clássicos, é que não há nenhum propósito em se insistir na noção de conhecimento. Uma condição para uma ação incontinente é que ela pode ser realizada a despeito do conhecimento do agente de que outro curso de ação é melhor. O conceito de conhecimento não tem um papel decisivo na determinação da fraqueza da vontade.
A caracterização das ações que revelam fraqueza da vontade é dada da seguinte maneira: ao fazer y um agente atua incontinentemente se e somente se: (a) o agente faz y intencionalmente; (b) o agente acredita que exista uma ação x alternativa e aberta a ele; e (c) o agente julga, considerando todas as coisas, que é melhor fazer x do que fazer y.
Parece haver, segundo Davidson (2001, p. 22), ações incontinentes nesse sentido. O primeiro problema com essa caracterização, entretanto, é que, intuitivamente pensa- se que quando alguém realiza uma ação intencional, este alguém age com vistas a algum bem imaginado, age à luz daquilo que ele imagina (ou julga) ser o melhor. Essa visão contradiz a ideia de que existam ações incontinentes. Com o intuito de elucidar isso, Davidson (2001, p. 23) apresenta três princípios que subjazem as ações incontinentes. O primeiro princípio expressa a hipótese sobre a relação entre querer ou desejar algo e agir e é formulado como segue:
116 Grice (2001) e, principalmente, Grice & Baker (1985) concordam com várias das teses principais de
P1. Se um agente quer fazer x mais do que ele quer fazer y e ele acredita que é livre para fazer x ou y, então ele irá, intencionalmente, fazer x, se ele fizer ou x intencionalmente ou fizer y intencionalmente.
O segundo princípio, por sua vez, conecta os juízos do que é melhor fazer com motivações, ou querer, e é formulado como segue:
P2. Se um agente julga que seria melhor fazer x do que y, então ele quer fazer x mais do que ele quer fazer y.
Esses dois princípios juntos implicam que se um agente julga que seria melhor para ele fazer x do que fazer y, e ele acredita ser livre para fazer x ou y, então ele irá intencionalmente fazer x, se ele fizer x intencionalmente ou fizer y intencionalmente. Esta conclusão, segundo Davidson, parece demonstrar que o terceiro princípio é falso. O terceiro princípio diz o seguinte:
P3. Existem ações incontinentes117.
Assumindo esses três princípios, é possível identificar duas posições sobre a tríade P1-P3: ou a tríade é inconsistente ou a inconsistência/contradição é apenas aparente. O primeiro caso é mais explícito e, à primeira vista, parece ser a conclusão mais óbvia. Se o agente julga que um dado curso de ação é melhor do que outro, quer intencionalmente efetuar esse curso de ação e acredita ser livre para isso, então não é possível, racionalmente, aceitar o princípio P3. Se as nossas hipóteses levam a uma contradição, não resta dúvida de que há um erro envolvido e, nesse caso, a fraqueza da vontade não passaria de um pseudoproblema filosófico. A maioria das tentativas de solução dessa inconsistência opta por abandonar um ou outro princípio, normalmente o
117 Os três princípios no original:
P1. If an agent wants to do x more than he wants to do y and he believes himself free to do either x or y, then he will intentionally do x if he does either x or y intentionally.
P2. If an agent judges that it would be better to do x than to do y, then he wants to do x more than he wants to do y.
segundo, uma vez que a relação entre julgar e querer parece ser bastante fraca. Algumas dessas tentativas procuram eliminar o problema por meio de uma análise da linguagem utilizada. Termos como ‘julgar’, ‘melhor’, ‘querer’, ‘intencional’ e outros são substituídos ou definidos de um modo em que sejam retiradas as possíveis ambiguidades. Entretanto, de acordo com Davidson, o problema se mantém.
Consequentemente, ele irá tentar demonstrar que P1-P3 não leva a uma contradição e que, assim sendo, não é necessário abandonar um dos princípios. Além disso, ele também procura explicar o motivo que nos leva a pensar que há uma contradição envolvida na problemática.
A solução de Davidson (2001, p. 34) consiste em distinguir dois diferentes tipos de juízos valorativos: por um lado, temos os juízos do tipo ‘x é o melhor’, os quais ele chama de incondicionados, e, por outro lado, juízos do tipo ‘prima facie, considerando todas as coisas, x é melhor do que y’, chamados de condicionados. No primeiro caso há um comprometimento com a superioridade da opção em questão. Já no segundo, não temos o melhor simpliciter, mas o que é melhor em vista das razões que nos são disponíveis – há um caráter relacional, portanto, no segundo caso118. Essa distinção é crucial para
Davidson com vistas à solução do problema da fraqueza da vontade, em especial a introdução da expressão ‘considerando todas as coisas’ (all things considered). De acordo com Davidson, essa expressão refere-se apenas as coisas conhecidas, acreditadas ou tomadas pelo agente, a soma de seus princípios relevantes, opiniões, atitudes e desejos.
A forma lógica dos juízos relacionais seria a seguinte: pf (x é melhor do que y, r), onde ‘pf’ é o operador prima facie, que governa todo o juízo – Grice chamará estranhamente de conetivo sentencial –, x e y são as possíveis ações e ‘r’ a razão (razões) que sustenta (sustentam) que x é melhor. Um juízo ‘considerando todas as coisas’, simplesmente será um juízo em que um curso de ação é tomado como o melhor em vista a todas as razões que o agente considera importantes. Quando um agente age incontinentemente, ele age contra esse juízo. A fraqueza da vontade, assim, seria caracterizada como uma ação contrária a um juízo valorativo condicionado e não a um
118 Essa distinção parece ser análoga à distinção de Grice, exposta na seção anterior, entre argumentos
juízo valorativo incondicionado. Se pensarmos nas aceitabilidades práticas de Grice, o agente construiu uma condicional de aceitabilidade, alcançou a conclusão, após considerar todas as premissas relevantes e, por alguma razão misteriosa, resolveu optar por outro curso de ação, ou seja, ele não agiu de acordo com a solução alcançada para o seu problema prático. O incontinente, como afirmam Stroud & Tappolet (2003, p. 04), viola o que Davidson chama de princípio da continência, isto é, a exigência de que o agente deva realizar a ação que ele julgou ser a melhor com base em todas as razões relevantes.
Para elucidar, cito algumas passagens de Davidson de How is Weakness of the Will Possible? (2001, p. 39):
Os elementos mínimos de tais raciocínios (práticos) são os seguintes: o agente aceita alguma razão (ou grupo de razões) r e toma que pf (a é melhor do que b, r) e isso constitui a razão porque ele julga que a é melhor do que b. Sob essas condições, o agente irá fazer a se ele fizer ou a intencionalmente ou fizer b intencionalmente e sua razão para fazer a ao invés de fazer b irá ser idêntica à razão porque ele julga a melhor do que b119.
e mais adiante:
O akrate é caracterizado como aquele que toma, considerando todas as coisas, que seria melhor fazer b do que fazer a, mesmo que ele faça a em vez de fazer b e com uma razão. A dificuldade lógica desapareceu, pois um juízo que a é melhor do que b, considerando todas as coisas, é um juízo relacional, ou juízo pf, e assim não pode conflitar logicamente com qualquer juízo incondicionado120.
Por meio da distinção entre juízos condicionais e incondicionais, Davidson pensa provar que a tríade P1-P3 não é inconsistente. P1 e P2 postulam uma relação entre juízos
119 No original: “The minimal elements of such reasoning are these: the agent accepts some reason (or set
of reasons) r, and holds that pf(a is better than b, r), and these constitute the reason why he judges that a is better than b. Under these conditions, the agent will do a if he does either a or b intentionally, and his reason for doing a rather than b will be identical with the reason why he judges a better than b”.
120 No original: “(...) the akrate is characterized as holding that, all things considered, it would be better to
do b than to do a, even though he does a rather than b and with a reason. The logical difficulty has vanished because a judgement that a is better than b, all things considered, is a relational, or pf, judgement, and so cannot conflict logically with any unconditional judgement”.
do segundo tipo e ações intencionais e não entre juízos do primeiro tipo e ações intencionais. Assim, fraqueza da vontade é compatível com esses dois princípios. O incontinente não chegou, pelo seu juízo, a um juízo incondicional x é o melhor, então ele não fez x. Ele julgou que x é o melhor apenas considerando todas as coisas (e fez y). A dificuldade é que o agente não concluiu que a ação que ele considerou a melhor, considerando todas as coisas, também era a melhor ação em sentido absoluto, ou incondicionado. Como diz Davidson (2001, p. 41), “(...) o akrate não assume crenças logicamente contraditórias, nem seu erro é necessariamente um erro moral. O que está errado é que o homem incontinente age, e age irracionalmente, pois isto é, sem dúvida, o que podemos dizer de um homem que vai contra seu melhor juízo”. Em última instância, o incontinente viola o princípio da continência, age contra aquilo que ele considerou ser o melhor de acordo com as razões que ele tinha à sua disposição.