CAPÍTULO 2 – A CONCEPÇÃO DE RACIONALIDADE EM GRICE
2.1.2 Racionalidade flat e racionalidade variável
A primeira distinção73 proposta por Grice é entre racionalidade ou raciocínio flat e
racionalidade ou raciocínio variável. Essa distinção funda-se na possibilidade de tratamento da estrutura da razão de duas maneiras diferentes: por um lado, teríamos uma noção de racionalidade que é denominada de racionalidade variável. Esse tipo de racionalidade, como o próprio nome sugere, admite graus, ou seja, a estrutura da razão é fragmentada, sendo que não existe uma espécie de edifício de racionalidade. Não haveria, assim, uma racionalidade fundamental de onde outras formas de racionalidade seriam derivadas. Aquilo que temos é um conjunto de diferentes racionalidades operando no mesmo nível, fragmentadamente. A racionalidade, ou raciocínio não variável (flat), por sua vez, é caracterizada, como não admitindo diferenças de grau. Nesse sentido, temos, como contraponto à racionalidade variável, uma racionalidade básica, última com respeito a outras formas de racionalidade e que não permite ser definida em termos
destas. Ela seria, como consequência, uma racionalidade central ao ser racional, em sentido aristotélico, subjacente a qualquer outro tipo de razão.
O ponto de discussão é acerca de qual tipo de racionalidade realmente é mais fundamental. Prima facie, somos levados a imaginar um primeiro quadro, no qual racionalidade flat seria básica e racionalidade variável simplesmente um desdobramento desta, um incremento de excelências. A racionalidade variável, nesse sentido, seria obtida por meio da derivação, segundo métodos apropriados de inferência, da racionalidade flat. Esse primeiro quadro caracterizaria uma especificação das competências mínimas do ser racional. Uma analogia proposta, a fim de exemplificar o primeiro quadro, é com o jogo de xadrez. A racionalidade flat pode ser imaginada meramente como as regras que possibilitam que algum indivíduo jogue xadrez, que ele saiba o posicionamento e movimento das peças. A racionalidade variável, por sua vez, é pensada como jogar xadrez bem. O conhecimento das regras do jogo é condição necessária, mas não suficiente para que possamos ser bons jogadores e vencer disputas de xadrez. A racionalidade variável é pensada, consequentemente, como acréscimos a esta noção essencial de racionalidade.
Contudo, contrapondo este primeiro quadro, temos outra posição, um segundo quadro. Nesse segundo quadro, em vez de termos racionalidade flat como primária, temos, em seu lugar, racionalidade variável. Um conceito de racionalidade flat não seria básico, mas na verdade, ele teria origem na racionalidade variável por meio de uma limitação da última. Esta segunda possibilidade de abordagem do problema não teria como necessidade determinar que exista uma competência mínima em todo ser racional, algo requerido pela primeira possibilidade.
Grice, ao analisar os dois quadros, chega à conclusão que ambos são problemáticos. O primeiro, por exemplo, tem dificuldades em especificar quais são as competências mínimas do ser dotado de racionalidade e, principalmente, como derivamos racionalidade variável de racionalidade flat. Já o segundo quadro, não é capaz de determinar as fronteiras da racionalidade variável, ou seja, de estipular um grau mínimo de racionalidade. Com isso em vistas, Grice (2001, p. 34) refuta as duas possibilidades e constrói um terceiro quadro para tentar dar uma resposta razoável à problemática. O terceiro quadro leva em conta elementos dos anteriores, mas supõe,
basicamente, que racionalidade consiste em uma tentativa, uma procura, de ser racional. Há a suposição de um padrão paralelo entre os dois quadros anteriores. Por um lado, alguém é racional se exibe algum grau de racionalidade e, por outro lado, se há a exibição de uma espécie de proto-racionalidade. Os dois padrões paralelos do terceiro quadro são os seguintes:
Padrão A
1. X exibe racionalidade se e somente se x exibe algum grau de racionalidade variável;
2. Não há nenhum grau mínimo (determinado) de racionalidade
Padrão B
1. X exibe racionalidade se e somente se x exibe proto-racionalidade74;
2. Pode haver graus de proto-racionalidade, mas para ser racional, x não tem que exibir algum deles; ele pode cair fora da escala da proto-racionalidade, mas ser racional (racionalidade não variável), desde que ele esteja buscando cair na escala da proto-racionalidade. Aquele que não tem nenhuma proto- racionalidade pode ainda ser racional, uma vez que racionalidade é uma questão de procurar proto-racionalidade75.
A noção de proto-racionalidade pode ser pensada como uma tendência para ser racional. Em Reply to Richards (1986, p. 83-84), Grice explicitamente afirma que uma das
74 Grice não define em que consiste esse conceito de ‘proto-racionalidade’, mas é plausível arriscar e
assumir que por proto-racionalidade ele entende uma capacidade mínima do ser humano de desenvolver certos graus de racionalidade.
75 No original, Grice (2001, p. 34) apresenta a seguinte estrutura:
Pattern A (Picture (2))
(a) X exhibits rationality iff x exhibits some degree of [variable] rationality. (b) No minimum (determinate) degree of rationality.
Pattern B (Picture (1))
(a) X exhibits rationality iff x exhibits proto-rationality.
(b) There may be degrees of proto-rationality, but to be rational x does not have to exhibit any of these; he might fall off the scale of proto-rationality, but fall within (non-variable rationality) since he is seeking to fall on scale or proto-rationality. [One who has no proto-rationality may still be rational, since rationality is a matter of seeking proto-rationality].
características da razão é operar em estados pré-racionais. Um exemplo análogo ocorre quando nós produzimos proferimentos sintático/semanticamente satisfatórios, conforme as regras gramaticais de uma língua, sem que isso seja derivado conscientemente de alguma teoria sintático/semântica. Assim, analogamente, não é necessário exibir graus de racionalidade para ser racional. A habilidade de efetuar transições de um grupo inicial de proposições para uma nova proposição, através de uma regra de inferência, não exige que tal racionalização esteja necessariamente presente em um estado consciente. “(...) requere-se, no máximo, que nossa propensão para produzir essas transições seja dependente de algum modo de nossa aquisição ou posse de de uma capacidade de raciocinar de forma explícita” (GRICE, 1986, p. 84)76.