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I. TRÍBADES NA HISTÓRIA 46 

1.2 Mulheres e homoerotismo no Brasil 67 

1.2.1 De 1500 a 1700: as sodomitas do período colonial 67 

Os relatos encontrados no Brasil sobre as mulheres com relações/práticas homoeróticas são escassos. Portanto, a história sobre elas no país é dada de forma mais pontual, por meio de casos específicos de algumas personagens marcantes. Os ideais europeus de como pensar as relações/práticas sexuais entre mulheres marcaram o contexto nacional, que acompanhou as transformações ocorridas no exterior, apresentando poucas variações.

Na primeira década de 1500 no Brasil, antes de sua efetiva colonização, já havia registros, dos primeiros visitantes da Terra de Santa Cruz, sobre índias que se casavam com outras. Elas adotavam o papel masculino, vestiam-se e cortavam os cabelos como os homens,

guerreavam, caçavam etc., sobretudo nas aldeias Tupinambá. (MOTT, 1987). Eram as chamadas Çacoaimbeguiras, do Vocabulário da língua brasílica dos Jesuítas, de 1621, que traduz este termo como: “machão, mulher que não conhece homem e tem mulher, falando e pelejando como homem” (MOTT, 1987, p. 11).

Possivelmente devido ao não reconhecimento das índias e índios enquanto seres civilizados, uma atuação da religião e da moral européia não se deu de forma marcante para essas pessoas. Entretanto, muitas portuguesas e luso-brasileiras, devido à presença da Igreja católica nos primeiros séculos de colonização, foram reconhecidas como praticantes do pecado nefando:

Pode-se caracterizar, pois, a colônia brasileira, no seu primeiro século de existência, como um contexto complexo onde coexistiam elementos muitas vezes conflitantes: licenciosidade e um certo espírito religioso, caráter paradisíaco e infernal aos olhos do colonizador, entrechoque de autonomia e dependência em relação à metrópole, presença de espiritualidades diversas. É nesse espaço social matizado e fluido que, no final do século XVI, surge a Inquisição, prometendo, no momento da chegada, a conquista do céu com as fogueiras. (BELLINI, 1989, p. 14)

A partir de 1591, foi enviada ao Brasil a Primeira Visitação do Santo Ofício da Inquisição. Os relatos eram transcritos nos livros das Denúncias e Confissões, que dispunham de mais informações sobre as mulheres sodomitas residentes na nova Colônia. Com isso, “a Inquisição portuguesa, visando pôr fim às transgressões cometidas, acabou paradoxalmente preservando a história dessas mulheres para estudos posteriores, com seus relatos minuciosos, únicos registros que temos delas” (BELLINI, 1989, p. 20).

As sodomitas mais conhecidas foram Paula de Sequeira, Maria Lourenço, Guiomar Pinheira, Maria Rangel, Maria Peralta, Ana Fiel, Catarina Quaresma e Felipa de Souza, essa última a mais conhecida. Era casada e foi uma das únicas a sofrer realmente as penas impostadas pela Inquisição, principalmente pelo fato de não confessar seus pecados nefandos – de ter se relacionado com várias mulheres, muitas delas também casadas — ao inquisidor (MOTT, 1987; TORRÃO FILHO, 2000):

[Eram] mulheres que pertenciam predominantemente a um grupo social intermediário entre as camadas mais altas e [...] o grupo dos escravos e marginais; eram, em sua maioria, esposas ou filhas de artesãos, lavradores, pequenos proprietários de terra; brancas vindas de Portugal e mestiças [...] E o que [os] registros deixam entrever são mulheres empenhadas em realizar anseios ou exigências de sua vida, cada um sugerindo uma história bastante singular. (BELLINI, 1989, p. 22)

[Na] primeira visitação, sete mulheres confessaram a sodomia feminina, envolvendo cerca de vinte outras praticantes do lesbianismo, esporádica ou freqüentemente. Causa espanto não a quantidade de casos envolvendo mulheres, mas o silêncio que se abateu sobre elas durante tantos anos, aparentemente fazendo coro à idéia da Rainha Vitória, que dizia que o lesbianismo era tão infame que sequer era possível que existisse. (TORRÃO FILHO, 2000, p. 228)

Entre 1600 e 1700, “nem mesmo as mulheres estavam ausentes das relações homoeróticas entre senhores e escravos. Maria de Lucena, de 25 anos, [...] foi denunciada na Primeira Visitação de Pernambuco por dormir carnalmente com as escravas da casa” (TORRÃO FILHO, 2000, p. 235). Entretanto, em 22 de março de 1646 “o Conselho geral da Inquisição de Lisboa decidiu que ‘o Santo Ofício não devia tomar conhecimento dos atos sodomíticos entre mulheres’” (MOTT, 1987, p. 31), salvando as sadomitas das punições da Inquisição:

Em Portugal, diferentemente do que ocorria em vários tribunais da Inquisição espanhola, estipulava-se que somente pertencia à jurisdição do Santo Ofício a sodomia perfeita, configurada pela penetração e derramamento do sêmen dentro do vaso posterior, ficando fora dos seus conhecimentos os pecados da bestialidade e da molície. Este último [...] compreendia uma série de atos lascivos considerados de menor gravidade. O mais simples exame desses critérios já nos leva a supor pelo menos parte das causas de tantas dúvidas e afirmações confusas sobre a sodomia cometida por mulheres. Um dos meios pelos quais os teólogos e doutores consideravam que o corpo feminino se instrumentalizava para cumprir o requisito da penetração era o uso de instrumentos inanimados. [...] vários autores – e também a opinião geral – consideravam verdadeira sodomia o sexo entre mulheres utilizando instrumentos de couro, vidro, madeira ou outro material fabricado segundo o modelo do membro viril. (BELLINI, 1989, p. 65)

Entretanto, muitos inquisitores da época argumentavam que “entre mulheres, só poderia haver penetração por meio de instrumento; mas que, mesmo com o seu uso, seria impossível derramar semente, donde tais atos não podiam exceder a espécie de molícies” (BELLINI, 1989, p. 66-67). Outros, afirmavam que “somente pertenciam ao conhecimento do Santo Ofício os atos cometidos ‘por meio de instrumento pelo vaso posterior, o qual é somente o ordinário por onde se comete o crime de sodomia, e não pelo vaso dianteiro’” (BELLINI, 1989, p. 67). Havia também os que concluíam que “em nenhum caso as relações entre mulheres eram da competência do Santo Ofício, pois não conhecia ‘senão propriíssima

sodomia, a qual somente acontece quando membrum virile mittitur in vas preposterum41’”

(BELLINI, 1989, p. 67).

Assim como na Europa, não sendo duas mulheres capazes de realizar uma sodomia perfeita, com penetração anal e derramamento de semente, as mulheres que tinham práticas sexuais entre si no Brasil eram punidas pela religião, pelo pecado da molice, definido no artigo 964 das Constituições primeiras do arcebispado da Bahia, editadas em 1707 como: “termo com que os teólogos rotulavam antigamente tanto a masturbação quanto os demais atos lúbricos que não fossem a cópula anal e a fornicação” (MOTT, 1987, p. 31).

A despeito de, nos regimentos e discussões teológicas, as penas previstas serem draconianas, em geral os visitadores e a instituição se mostraram indulgentes para com os réus acusados de sodomia, em particular com as mulheres. A impressão de benevolência, no entanto, só adquire sentido tomando-se em conta estritamente as penalidades aplicadas e comparando-as às prescritas na legislação. Se, em vez disso, pensarmos o Santo Ofício como agência encarregada de praticar uma ‘pedagogia do medo’, instaurando um clima de culpa, vigilância e delação, então iremos inferir que ele cumpriu precisamente os objetivos a que veio, mesmo considerando-se apenas as transgressões no campo da moral. (BELLINI, 1989, p. 16)