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II. APRESENTAÇÃO DAS ENTREVISTADAS 82 

2.3 Fernanda 94 

Conheci Fernanda há alguns anos atrás por meio de amigos em comum. Como há algum tempo não tinha mais contato com eles, o mesmo aconteceu em relação a ela. Uma amiga tinha seu telefone e, sabendo que Fernanda se relacionava com mulheres, liguei para convidá-la a participar de minha pesquisa. Por telefone, ela disse que passaria em minha casa para combinarmos sobre a entrevista. Quando ela veio, sentamo-nos para conversar sobre o meu trabalho e o motivo de meu interesse em sua participação. Após explicar-lhe todos os detalhes e propor os possíveis locais para a ocorrência da entrevista, ela aceitou participar e disse que poderíamos começar naquela mesma hora. Eu já havia deixado arrumado o mesmo cômodo em minha casa, pensando na possibilidade da entrevista acontecer. Fernanda, ao acomodar-se na cadeira, não olhou muito contente para o gravador, mas eu lhe garanti que apenas eu ouviria o que fosse gravado, me comprometendo a, após a transcrição, apagar seus relatos, além de excluir qualquer coisa que me pedisse. Ela perguntou-me se o volume de sua voz estava bom, eu disse que sim, e iniciamos.

Fernanda tem 25 anos, vestia uma camiseta esportiva azul, bermuda larga e tênis. Tinha o cabelo preso e, inicialmente, respondia pontualmente às questões. Eu lhe disse que ela não precisava responder tão seriamente; que, se quisesse poderia exemplificar, contar histórias e detalhes, que era isso que eu esperava dela. Fernanda contou que mora apenas com a mãe e

trabalha como motorista. Não estava namorando nem ficando com alguém e que seus hobbies são andar de bicicleta e se reunir com amigos para conversar e beber.

Observei que ela, na maioria das vezes, repetia a pergunta que eu lhe fazia antes de responder, talvez por serem questões sobre as quais nunca havia pensado; em muitos momentos, ficava muitos segundos pensando antes de dar a resposta.

Para Fernanda, a infância é um período lúdico e sem responsabilidades. Momento imaginado como eterno, em que existe inocência e não há malícia. Para ela, na adolescência e na fase adulta pode-se viver como criança momentaneamente, ou seja, deixar de pensar nas responsabilidades e viver brincadeiras e diversões, desprendendo-se das normas sociais. Fernanda não recordava como, na sua infância, entendia a relação entre pessoas do mesmo sexo, mas lembrou que ouvia apontamentos com entonações negativas de seus pais e colegas de escola, sem justificativas. Foi nesse período que ela teve seu primeiro contato com a heteronormatividade, quando jogava bola com um irmão e um amigo deste. Ela comentou sobre uma mulher bonita, loira, que havia visto de biquíni na televisão, e seu irmão respondeu: “O que você tem que achar mulher bonita? Vou contar pra mãe!”. Fernanda não compreendeu o que poderia haver de errado em seu comentário. Foi também durante a infância, aos 6 anos, que ela teve experiências sexuais com uma vizinha da sua idade, com quem trocava beijos e fazia “brincadeirinhas” com contatos físicos. Relatou que fazia escondido, ou seja, já sentia a interdição das experimentações sexuais.

Ser adolescente, para Fernanda, é um momento de descobertas, especialmente na área afetivo-sexual. É quando ocorrem os primeiros contatos com as imposições e proibições sociais. Assim como a infância, também imaginava a adolescência uma fase eterna, como se as responsabilidades nunca fossem surgir. Aquele era um momento de vivência de prazeres: “só pensava em sair com meus amigos, sabe? Sair, beber, não queria ficar em casa, não queria ir pra escola”. Para ela, a adolescência termina quando se toma consciência que é preciso assumir algumas responsabilidades. Ela disse que, no seu caso, especialmente pela situação financeira de sua família – que ela julgava não ser muito boa – percebeu que não teria uma eterna provedora.

Fernanda relatou que nunca sentiu nada negativo em relação à homossexualidade e acreditava que isso fazia parte de sua vida, mesmo tendo medo de vivenciá-la. Ouvia mais abertamente discursos homofóbicos; a homossexualidade como sendo uma “sem-vergonhice” e “falta de respeito com a sociedade”. Ouvia, ainda, que, se uma pessoa andasse com alguém que era dito homossexual, seria suspeito de ser também.

Foi durante a adolescência que ela conheceu mulheres que se relacionavam com outras mulheres. Isso ocorreu quando passou a praticar esportes e participar de reuniões de lazer com estas. A partir desse contato, percebeu que suas amigas do futebol, em sua maioria, eram lésbicas. Disse que ela “ainda não era [lésbica]” e “as meninas todas já eram”. Todas já saiam de casa desde os 13 anos, enquanto ela começou a sair por volta dos 16. Ou seja, sair do âmbito familiar permitia vivenciar experiências fora da (hetero)norma preestabelecida. Fernanda relatou que passou a compreender que suas amigas eram lésbicas quando, em um treino do jogo, uma das jogadoras saltou sobre outra, dando-lhe uma mordida nas costas, o que gerou um comentário por parte de uma terceira: “‘Ô Robertão!’ Que veio a impressão de... pé grande”, ou seja, sapatão.

Fernanda disse que, inicialmente, estranhou o fato de suas amigas relacionarem-se com mulheres, mas se acostumou com isso e sentia que: “aquele era o meu mundo”. Contou que sempre se viu tendo relacionamento com mulheres, entretanto não se via tendo uma experiência física, porque “tinha receio, medo. Mas eu sabia que eu tinha vontade”; e que ficou com homens por influência social, mas nunca se viu relacionando ou vivendo com um homem. Essas relações aconteceram quando começou a sair de casa para passear com a prima, a qual ficava com rapazes, e, quando algum queria algo com Fernanda, ela “ficava por ficar, pra não ficar pra trás”. Mas nunca namorou um homem nem teve relação sexual. Nessas experiências tinha “um pouquinho” de vontade, mas “Ah, aquela vontade não!”.

Certo dia, quando estava junto a essas novas amigas, em um evento de lazer, uma garota quis ficar com ela, ao que, inicialmente, ela a rejeitou: “Comigo? Nem rola. Não, nem rola”. Mas mudou de idéia e foi com a garota ao banheiro feminino, onde não podiam ser vistas por outras pessoas. Quando a garota se aproximou para beijá-la, Fernanda se afastou, chegando a subir em cima do vaso sanitário, mandando-a parar: “‘Não, pára, eu não quero. Eu não sou assim’”. Mesmo não tendo havido contato físico, disse que ficou pensando na garota por três dias seguidos: “Então, a partir desse momento, eu falei: ‘Puxa vida, alguém [uma mulher] se interessou por mim. Alguém gostou de mim’”. Foi procurar tal garota, por quem se apaixonou, um “amor de adolescente que você deita no sofá e começa a pensar, pensar, pensar e vem na sua cabeça e você quer ir atrás”, mas não houve outra oportunidade de estarem juntas.

Em outro momento, em um churrasco com suas amigas, outra garota quis ficar com Fernanda, e ela, mesmo com certo receio, se permitiu viver essa experiência. Nesse dia, durante a noite, ela ficou pensando, surpresa consigo mesma: “Nossa! Por que que eu fiz

isso? Fiquei com mulher!” – todavia gostou da experiência, sentindo como se estivesse realizando um sonho ou cumprindo uma meta.

Em relação a sua família, Fernanda disse que, diferente da maior parte das pessoas que conhece, a descoberta de sua orientação sexual aconteceu “naturalmente”. Sua irmã começou a perceber o desejo homoerótico de Fernanda ao ver que ela só saía com mulheres – muitas já conhecidas como homossexuais; que dificilmente saía com homens e rejeitava possíveis pretendentes; e que havia a presença contínua de uma mesma garota ao seu lado (quando estava namorando): “Daí ela pegava no meu pé. Eu tinha medo dela. [Tinha medo do quê?] Eu tinha medo dela contar pra minha mãe. Da reação da minha mãe”.

Fernanda disse que sua mãe não comentava nada, mesmo que provavelmente percebesse a situação. Ela disse, ainda, que nunca contou ou conversou sobre a questão com a mãe, que também nunca lhe perguntou. Fernanda disse que acha que sua irmã contou ao pai, mas este nunca a tratou de forma diferente. Afirmou que chegou a ter uma discussão com a irmã, dizendo que ela cuidasse de sua própria vida. Esta lhe respondeu que apenas queria o seu bem e nunca mais comentou o assunto. As namoradas de Fernanda sempre foram tratadas como amigas, nunca como namoradas.

Fora a irmã, as únicas dificuldades que Fernanda passou foram na escola – pelo medo de colegas descobrirem e a tratarem mal – e, no trabalho – pelo medo do patrão despedi-la por lesbofobia. Fernanda assume-se como lésbica principalmente em lugares freqüentados por homossexuais, contudo não é algo que ela deixe velado, pois se alguém questiona se ela gosta de mulheres, ela responde que sim, algo que não fazia antes, por receio de julgamentos negativos ou de a pessoa sentir medo de ficar perto dela (no caso de mulheres heterossexuais, tinha medo que achassem que poderia flertar com elas). Disse que seu círculo de amizades é tanto hetero quanto homossexual, sendo que todos sabem de sua orientação sexual.

Diferentemente de Marina e Eduarda, quando perguntei sobre o que ela ouvia as pessoas falarem da mulher lésbica ou da relação lésbica, ela me relatou coisas neutras, positivas e não-estereotipadas. Contou que as pessoas comentam sobre quem namora quem e que, um dia, uma moça que trabalha com ela lhe disse: “‘Eu acho legal a forma de vocês se assumirem, acho legal’. Acha a gente guerreira, que não fica com o pé atrás e tal”. Mas quando questionei pela segunda vez, ela colocou que

[...] tem gente que acha que é sem-vergonhice, acha que é uma falta de respeito contra eles, heteros, contra a sociedade. Tem gente que acha que homossexual não presta, que homossexual é tudo drogado, que é um mau

exemplo [...] Que a gente só anda com má companhia, que a gente não vai oferecer nada de bom pra alguém.

Fernanda acha que essa forma de pensar a homossexualidade é um atraso, um conservadorismo: “Eu acho careta, né? [...] quando eu era criança era mais, não se ouvia falar tanto, as pessoas não comentavam. Hoje em dia é normal”.

Ela tem planos de fazer faculdade e se tornar professora, abrir um negócio e encontrar alguém para viver junto. Pretende ter filhos, mas apenas se estiver estabilizada financeiramente, e não gostaria de gerar a criança – disse que não se vê grávida e sentindo dor. O filho seria adotado ou gerado por uma parceira, a partir de uma inseminação artificial, mas não por uma relação sexual heterossexual. Sobre ela mesma engravidar a partir de uma inseminação, falou que talvez um dia mude de opinião.

Fernanda, ao fim da entrevista, disse que estaria disponível para outras entrevistas e que gostou muito. “Foi legal, é meio assim, umas perguntas que se for parar pra pensar, no cotidiano a gente não fica pensando. É interessante”.