• Nenhum resultado encontrado

A nível internacional, as Nações Unidas adotam, em 1959, a Declaração dos Direitos da Criança, resultante da revisão da Declaração dos Direitos da Criança adotada em 1924 pela Sociedade das Nações. À semelhança da anterior, esta declaração chama a atenção para a circunstância de a criança necessitar da pro-

teção dos adultos para o exercício dos seus direitos. Por conseguinte, prevalece a representação da criança como um ser frágil e que necessita de proteção dos adultos, estando a perspetiva da criança ou ausente ou assumida como integrada na perspetiva dos adultos (Van Bueren, 2007). Considera-se o menor mais como objeto da intervenção protetora do Estado do que como sujeito de direitos.

Em Portugal, em 1962, procedeu-se à reforma dos Serviços Tutelares de Me- nores justificada, pela necessidade de compilar e sistematizar a legislação avulsa e dispersa, de rever princípios básicos do sistema e de eliminar vestígios do espírito repressivo do anterior regime, face à dualidade de estabelecimentos em que o internamento dos menores podia ser efetuado (reformatórios e colónias correcio- nais) (Marreiros 2001). Contudo, foi intenção do legislador “manter, em toda a sua plenitude, o carácter tutelar e educativo do novo direito criminal de menores”, como se refere no Relatório da Reforma, no âmbito da qual foi aprovada, pelo Decreto- -Lei n.º 44287, de 20 de abril de 1962, a Organização Tutelar de Menores (OTM), em consonância, de resto, com a tendência internacional.

Os “tribunais de menores”, designação dada às “tutorias da infância” em 1944, passaram a designar-se “tribunais tutelares de menores”, esclarecendo o legisla- dor que esta nova denominação se destinava “a acentuar a natureza especial da jurisdição da infância”, aludindo, no entanto, que o fim das medidas aplicáveis aos menores “não é o de punir ou intimidar a criança, nem sequer o de reprovar socialmente a conduta do menor”, porque “do que fundamentalmente se trata é de proteger o menor contra o meio ambiente que o cerca ou contra as más tendências ou inclinações que o solicitam, é de reeducá-lo ou prepará-lo eficazmente para a vida”. Nos termos do artigo 1.°, “os tribunais tutelares de menores têm por fim a proteção judiciária dos menores, no domínio da prevenção criminal, através da aplicação de medidas de protecção, assistência e educação (...)”, medidas estas enunciadas no artigo 21.°, que o tribunal aplicará de acordo com o critério de adequação (artigo 16.°, n.º 2). Estas medidas aplicam-se a menores de 16 anos, em geral72 (artigo 17.°), mas também a menores de 18 anos que se mostrem gra-

72. A Organização Tutelar de Menores, de 1962, considera quatro categorias de menores, cuja situação pode dar causa à intervenção do tribunal, para aplicação de medidas de prevenção criminal: a) menores em perigo, quanto à saúde, segurança ou formação moral; b) menores que revelem tendência ou dificuldade séria a adaptar-se a uma vida social normal; c) menores que se entreguem à mendicidade, vadiagem, prostituição ou libertinagem; d) menores que sejam agentes de facto qualificado pela lei como crime ou contravenção.

vemente inadaptados à disciplina da família, do trabalho, ou do estabelecimento de educação ou assistência em que se encontrem internados (artigo 18.°). As medidas de prevenção criminal projetam a representação da criança como um ser indefeso, que é preciso proteger, pelo que esta reforma consistiu no aperfeiçoamento do modelo de intervenção adotado em 1911 (Marreiros, 2001).

O modelo da OTM de 1962 manteve-se, em Portugal, com escassas altera- ções, até 1999, tendo resistido às grandes transformações sociais e políticas posteriores a 1974, que determinaram a revisão da generalidade das leis, es- pecialmente daquelas com mais forte repercussão nos direitos dos cidadãos e na família. De acordo com Gersão (2001), a perceção de que o sistema tutelar, sob a sua capa protetora e benfazeja, era, na realidade, uma prática opressiva e violadora dos direitos das famílias e das crianças acompanhou, em 1974, o eclodir da democracia. Mas o relatório apresentado pela comissão constituída para estudar o funcionamento das instituições judiciárias e administrativas de menores “perdeu-se” com a instabilidade política de então e a discussão à volta do tema morreu quase à nascença.

A revisão da OTM que viria a ser levada a efeito em 1978, pelo Decreto-Lei n.º 314/78, de 27 de outubro, seria, assim, uma reforma de continuidade, onde se reafirma e reforça mesmo a crença na “bondade” do carácter “protetor” da jurisdição tutelar” (Gersão, 2001). Aos tribunais de menores, qualificados como tribunais de competência especializada, compete agora “a proteção judiciária dos menores e a defesa dos seus direitos e interesses mediante a aplicação de medidas tutelares de proteção, assistência e educação” (artigo 2.°).

De acordo com Marreiros (2001), uma alteração significativa foi o formalismo processual que o diploma veio consagrar, embora, ainda, de forma simplificada. Porém, considerando a específica natureza desta jurisdição, ao menor não eram reconhecidos direitos ou garantias próprios dos sujeitos do processo criminal, apenas se previa o seu interrogatório em instrução (artigo 53.°) e a sua audição, sempre que possível, em audiência, a qual ocorreria quando se presumisse a aplicação de medida tutelar de colocação institucional (artigo 61.°). A audiência só teria lugar quando se tratasse de menor a quem fosse previsível a aplicação de uma medida institucional (colocação em lar de semi-internato, em instituto médico-psicológico ou em estabelecimento de reeducação) ou de menor entre os 16 e os 18 anos relativamente ao qual o tribunal de menores mantenha a competência, por estar a cumprir medida tutelar.

A reforma de 1978 da Organização Tutelar de Menores, em Portugal, é um dos últimos bastiões de uma era que se prolongou até 1979, Ano Internacional da Criança, votada ao protecionismo na área da delinquência juvenil, na Europa.