1. INTRODUÇÃO
1.4 O contexto hospitalar
1.4.1 De contexto adverso a contexto de desenvolvimento
O adoecimento de um indivíduo configura-se sempre como uma ruptura nos padrões desenvolvimentais esperados e, ao ocorrer na infância, torna-se ainda mais inesperado. Este adoecimento, quando se associa com uma hospitalização, conduz a criança a uma nova e dura realidade em que há uma considerável restrição de controle sobre os eventos (Motta et al, 2015; Vasques, Bousso, & Mendes-Castillo, 2011).
A hospitalização infantil parece configurar uma experiência estressante para a criança visto se tratar de um encontro com o desconhecido, com o estranho. Ela é inserida em um ambiente totalmente diverso daqueles experimentados previamente, como a sua casa, escola e creche (Martins & Paduan, 2010). No seu entorno, agora, encontram-se aparelhos, fios, soros, tubos e máscaras de oxigênio (Salgado et al., 2011).
Normalmente,a rotina de uma criança é organizada em períodos específicos para as atividades, tais como o horário das refeições, da escola, do lazer, do sono, entre outros. Ao adentrar no hospital, a criança traz sua experiência de vida, os seus hábitos, as suas rotinas, contudo, com o internamento, alteram-se todos estes ciclos habituais. Novas configurações se impõem decorrentes do processo de hospitalização (Oliveira, Dantas, & Fonsêca, 2004), causando uma quebra considerável do ritmo de vida da criança.
Oliveira (1993) pontua, porém, que, algumas das rupturas provocadas pela hospitalização, são resultados da lógica de pensamento sobre os processos de saúde e doença assim como pelos próprios arranjos das instituições de saúde, voltados primordialmente para o corpo biológico. É o que Salgado et al.(2011) e Souza, Camargo e Bulgacov (2003) nomeam de destituição do sujeito.
Acredita-se que o internamento provoque uma debilidade no quadro emocional da criança em decorrência do afastamento da sua casa, familiares, amigos, objetos, animais de estimação, escola, brinquedos, além da submissão a procedimentos dolorosos e a dietas alimentares imprescindíveis ao tratamento, a restrição das atividades, entre outros (Gonçalves, 2009; Sloper, 2000). O internamento submete as crianças a uma passividade e a um convívio com pessoas estranhas, muitas vezes, representantes da dor e do sofrimento (Oliveira et al., 2004).
Com a hospitalização, a criança se vê em contato, de uma forma mais incisiva, com o aspecto deficitário do seu corpo, com o adoecimento e o sofrimento de outras crianças e com a morte - a própria e a dos outros pacientes (Saccol, Fighera, & Dorneles, 2004).
Deste modo, o internamento pode ser visto como demandando da criança uma capacidade de adaptação que, muitas vezes, ultrapassam os seus limites (Doca & Costa, 2007). Ao provocar essas experiências intensas e complexas para as crianças, a hospitalização pode consistir em fator de risco para o desenvolvimento.
A vivência hospitalar é vista, por exemplo, como provocando regressões psíquicas significativas (Lima, 2004). Para Martins e Paduan (2010), as crianças, no internamento, começam a se relacionar com o seu responsável através de padrões comportamentais aquém daqueles que já tinham sido desenvolvidos. Outras repercussões adversas relacionadas à hospitalização são as alterações do humor e do comportamento social, os transtornos do sono, os transtornos alimentares, a agressividade, entre outros (Carnier, Rodrigues, & Padovani, 2012; Ghabeli, Moheb, & Nasab, 2014; Magalhães, Gusmam, & Grecca, 2010; Mesquita, Silva, & Rocha, 2013).
A vulnerabilidade, a qual a criança pode ficar exposta no internamento, é influenciada por outros fatores, como: a patologia em si e a sua gravidade, os efeitos colaterais dos tratamentos, as restrições impostas pelas terapêuticas, o estigma social da doença, a presença de suporte familiar, a idade da criança e a sua personalidade, entre outros (Doca & Costa, 2007).
Desta forma, conjetura-se que crianças portadoras de doenças crônicas convivem com as repercussões do adoecimento de uma forma diferenciada, visto que, no seu cotidiano, há a presença de visitas constantes ao médico, submissão sistemática as terapêuticas e até mesmo hospitalizações frequentes (Castro & Piccinini, 2004). Para esses autores, a doença crônica exige das crianças um compromisso com um regime complexo de assistência e de longa duração.
Essas crianças parecem encontrar problemas e limitações significativas na sua vida social e familiar em decorrência da rede de cuidados vinculada ao seu adoecimento. Identificam-se restrições no convívio social, atrasos nas escolas e um aumento das tensões familiares (Nobrega, Collet, Gomes, Holanda, & Araújo, 2010; Pinquart, 2013).
A existência da doença, as internações frequentes e a autoimagem prejudicada acarretam dificuldade nos relacionamentos dessas crianças no contexto social em que estão inseridas, principalmente no tocante aos relacionamentos na escola com outros colegas e com os profissionais que trabalham na área. Evidencia-se também que o preconceito pode levar ao isolamento social (Nobrega et. al, 2010, p. 429).
Entende-se, assim, que as alterações de comportamento não se limitam ao contexto hospitalar, podendo persistir por tempos expressivos após a alta hospitalar ou permanecer durante toda a vida da criança, a depender da sua interferência no desenvolvimento infantil.
Barros (1998) considera, porém, que o panorama do internamento hospitalar tem se alterado radicalmente nos últimos anos, conferindo assim novos ares para a experiência de hospitalização. A criação de serviços especializados de Pediatria, atendimentos em consonância com a clientela, reformulações dos espaços e práticas profissionais e inclusão de outras categorias, como a dos professores, por exemplo, encontram-se entre as mudanças registradas (Paula, 2007).
Diante de uma experiência reconhecidamente complexa, Barros (1998) pondera e abre espaço para que se discuta também sobre as consequências positivas advindas da hospitalização. Considera-se importante enfatizar que a autora não tem a intenção de descrever o hospital como um espaço sem dores, porém de identificar as suas potencialidades também no desenvolvimento das crianças já que este consiste num processo ininterrupto, aberto, dinâmico e multifacetado (Lima & Bhering, 2006).
Segundo Paula (2007), os ambientes de aprendizado não se encontram restringidos a espaços familiares e escolares. A ampliação dos locais pedagógicos possibilita a inclusão de inúmeros ambientes como lócus de ensinamento, dentre eles, os contextos hospitalares. Estes permitem às crianças o aprendizado de um conjunto de estratégias para confronto do medo, da ansiedade e da dor (Barros, 1998).
Para Saccol et al. (2004), através da relação com as outras crianças, também doentes, há um intercâmbio das dificuldades enfrentadas, mas também das maneiras de enfrentamento, o que possibilita um aumento do repertório comportamental diante das situações adversas.
Esses outros olhares sobre a experiência de hospitalização apontam para uma concepção atual em que dimensões educativas e potencializadoras do desenvolvimento humano são localizadas nas situações de crise provocadas pelo internamento. Desta forma, marcam-se possibilidades de aprendizado a partir da vivência hospitalar (Oliveira, Gabarra, Marcon, Silva, & Macchiaverni, 2009).
Nesta linha, Moreira e Macedo (2009) destacam uma carência de estudos que identificam o hospital como um espaço de encontros e interações sociais. Esse ambiente, além do seu aspecto curativo, também se configura como um espaço de
socialização para as crianças. No hospital, elas convivem com os seus acompanhantes, representados, em sua maioria, pelos pais, pares, profissionais de saúde, regras, rotinas, entre outros. As crianças, apesar de doentes, neste contexto, seguem como sujeitos de suas vivências, logo, a instituição hospitalar pode ser incorporada na sua experiência de vida.
O posicionamento de Moreira e Macedo (2009) convoca a pensar sobre outros contextos de socialização das crianças. Frequentemente, a família e a escola são destacadas como espaços primordiais da infância, o que demonstra a consideração apenas de cursos desenvolvimentais ideais e a não inclusão de contextos de vida diversos. Notadamente, para as crianças portadoras de doenças crônicas, o hospital é “uma instância importante no intercâmbio de valores” (Moreira & Macedo, 2009, p. 647). Tais trocas funcionam, por exemplo, como mediadoras na construção dos significados das crianças sobre a sua própria experiência de adoecimento.
O hospital não deve ser compreendido simplesmente como um espaço físico concreto e com fins apenas terapêuticos. Ele se configura também como um contexto no qual relações são estabelecidas e desenvolvidas, podendo inclusive ser considerado, para as crianças com doenças crônicas, como um dos principais lócus de socialização e aprendizado.
Para as crianças portadoras de doenças crônicas, o hospital se torna um espaço de sociabilidade, enquanto um território de domínio comum, de encontros e desencontros, de referência e visibilidade de outras crianças e famílias com diagnósticos, tratamentos, temores e dúvidas semelhantes. Essa proximidade permite um compartilhamento e confronto de experiências... (Moreira & Macedo, 2009, p. 648).
Este outro olhar sobre a instituição hospitalar subverteria a sua representação, praticamente única, de contexto adverso, e também subverteria as tipificações e as rotulações das crianças hospitalizadas. Deste modo, elas deixariam de ser reduzidas meramente a um aspecto deficitário e adoecido e seriam vistas como atores sociais, sujeitos que constroem e são construídos nos seus múltiplos encontros e interações sociais, onde quer que estes ocorram (Moreira & Macedo, 2009).
Comumente, as crianças são encontradas explorando e se relacionando com o seu meio de forma contínua desde que lhe sejam ofertadas oportunidades para tanto. O ambiente hospitalar também pode ser um espaço estimulante para as crianças, principalmente diante da implementação de práticas de assistência para além da enfermidade (Pinto & Gomes, 2016; Valladares & Carvalho, 2006; Valladares & Silva, 2011).
A classe hospitalar, espaço destinado ao atendimento pedagógico-educacional de crianças e adolescentes hospitalizados, aparece como um dos exemplos de reformulação das práticas assistenciais (Holanda & Collet, 2011; Zombini, Bogus, Pereira, & Pelicioni, 2012). Supõe-se, a partir da existência da classe, uma tentativa de inclusão e validação do sujeito na instituição hospitalar.
A criação das classes hospitalares parte do princípio de que as crianças não devem ter o seu vínculo com a escola interrompido e, tampouco, devem perder o direito à escolarização em decorrência da hospitalização. Garantem-se às crianças, através das classes, a vivência da experiência pedagógica, mesmo que hospitalizadas. Nestas, estimula-se a cognição e o seu desenvolvimento bem como os contatos interpessoais (Holanda & Collet, 2011; Zombini et al., 2012).
Desta forma, a classe hospitalar representa um espaço dentro do ambiente hospitalar em que as crianças são incentivadas a desenvolverem as suas potencialidades e competências, e não apenas a se limitarem a condição de doentes.
Zombini et al. (2012) identificam uma transformação do ambiente hospitalar a partir das atividades escolares realizadas. Para os autores, as classes hospitalares tentam superar os obstáculos do modelo biomédico, cujo cuidar da saúde configura-se apenas como um processo de intervenção no corpo biológico. Elas apoiam o cuidar através da inclusão das outras necessidades infantis, psicológicas e pedagógico-educacionais, por exemplo, vinculando sempre a existência da criança hospitalizada a uma experiência prévia e futura de vida. As classes hospitalares sustentam, na verdade, a existência e a continuidade de um sujeito acima de tudo.
O hospital não deve se limitar, portanto, a um ambiente de dor, de sofrimento e de intervenções e técnicas exclusivamente médicas (Holanda & Collet, 2011). A criação de espaços com fins pedagógicos, recreacionais e lúdicos na instituição hospitalar tem o
potencial de transformá-la, por exemplo, em um ambiente estimulador2 e, por conseguinte, de incluí-la como uma experiência significativa na vida das crianças (Bortolote & Brêtas, 2008).
A próxima seção abordará, mais detalhadamente, uma das possibilidades de inclusão das necessidades infantis na instituição hospitalar: o espaço do brincar.