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1. INTRODUÇÃO

1.4 O contexto hospitalar

1.6.2 Lugares para crianças e lugares de crianças

Rasmussen (2004) incentiva a investigação dos distintos espaços em que o brincar ocorre, propondo uma diferenciação daqueles planejados pelos adultos dos escolhidos e criados pelas crianças. Conforme o autor, as crianças passam um tempo significativo em escolas e instituições recreativas, incluindo aqui o hospital visto ser este uma realidade na vida de crianças portadoras de doenças crônicas, e tais espaços tendem a possuir locais projetados para as mesmas, como os de brincadeira. Por conta disso, deve-se tentar identificar como as crianças vivenciam suas experiências nesses espaços onde dispendem grande parte do seu tempo.

Rasmussen (2004) apresenta assim dois conceitos partindo dessa premissa: o de

lugares para crianças (places for children) e o de lugares de crianças (children’s places).

Os lugares para crianças consistem em ambientes criados pelos adultos voltados para as crianças, como os espaços recreativos. São projetados de acordo com o que se entende, pelo viés adulto, como necessário para o desenvolvimento ideal e bem- estar das crianças, e tendem a direcionar o modo e o local destas gastarem o seu tempo visto a oferta de determinados serviços (Rasmussen, 2004).

Em suma, são locais institucionalizados na sociedade que contam com o envolvimento de arquitetos e outros profissionais para construí-los e torná-los especiais às crianças (Rasmussen, 2004).

Atualmente, a sociedade, por exemplo, discute os espaços ideais infantis, principalmente os de brincadeira, visto o processo de urbanização das cidades e a retirada das crianças das ruas para protegê-las dos perigos e violência. A rua, que antes era um espaço privilegiado de brincadeiras, torna-se vetada agora para as crianças. Desse modo, pais, profissionais e poder público tem se dedicado a projetar espaços seguros para as brincadeiras (Bichara, Modesto, França, Medeiros, & Cotrim, 2011; Santos, Nascimentom & Pinto, 2014), a projetar lugares para crianças.

As crianças, porém, relacionam-se não apenas com os locais oficiais oferecidos pelos adultos, mas também com lugares informais, que normalmente são despercebidos

pelo mundo adulto (Rasmussen, 2004). Cotrim et al. (2009) realizaram, inclusive, pesquisa nesses espaços informais, que eram demarcados pelas crianças como locais de interação em Salvador, como canteiros, rótulas e terrenos baldios6.

Os lugares de crianças consistem em ambientes apropriados pelas crianças e que se tornam significativos para as mesmas, sendo pouco visíveis para os adultos. Representam lugares que as crianças se agrupam e têm experiências especiais, logo lhe são atribuídos significados igualmente especiais e estar/falar deles despertam sentimentos (Rasmussen, 2004).

Essas sensações possibilitam que um espaço seja codificado com significados, tornando-o assim um ambiente simbólico na experiência. Assim, um espaço se torna

lugar de criança quando a criança se conecta física, psicológica e emocionalmente com

o mesmo (Rasmussen, 2004). Essa conexão pode durar um curto período de tempo ou até anos segundo o autor.

Acredita-se que seja importante agora diferenciar espaço e lugar. O primeiro é um conceito mais amplo, abstrato, indiferenciado. Já lugar refere-se a um local reconhecido, investido, com significados e atributos especiais, dotado de valor (Tuan, 1983 citado por Menezes, 2014).

Partindo dessa distinção, Menezes (2014) afirma que os conceitos trazidos por Rasmussen (2004), mais especialmente os lugares de crianças, vão além dos contornos geográficos, alcançando um status de investimento, de significado.

Há situações em que os lugares para crianças e os lugares de crianças são congruentes, têm interfaces, porém em outras – em sua maioria - não. Conforme Rasmussen (2004), as crianças mostram, através dos lugares de crianças, que precisam de locais diferentes dos projetados pelos adultos. Uma das crianças entrevistadas pelo autor na Dinamarca, por exemplo, não reconhece o pátio pertencente ao bloco de apartamentos como bom. A mesma, na verdade, identifica várias possibilidades de melhoria nele. O pátio localiza-se, deste modo, como não suprindo as necessidades infantis embora tenha sido projetado para tal fim.

6 As autoras perceberam que estes espaços informais eram ocupados por crianças de

famílias de baixa renda já que estas não tinham disponíveis para si locais institucionalizados. Isto remete que o afastamento das ruas acontece prioritariamente com as crianças de maior nível sócioeconômico.

Ouvir estas crianças possibilita descobrir as contradições e restrições existentes dentro dos lugares para crianças (Rasmussen, 2004).

Assim, os lugares de crianças aparecem como lugares de ressignificação, releituras das crianças do texto cultural adultocêntrico que está marcado nos lugares

para crianças [e em tantos outros lugares], os quais são repletos de aspirações e

normatizações adultas (Menezes, 2014).

Esse conceito, lugares de crianças, fortalece a visão da criança como ativa no percurso do desenvolvimento e construção da sua trajetória. Rasmussen (2004), inclusive, salienta que as opiniões das crianças devem ser levadas em conta quando espaços relevantes para as mesmas sejam construídos, reformados ou modernizados. Aponta-se assim para a necessidade de envolver as crianças ativamente nos planejamentos e designs desses locais, dos seus espaços.

Moreira e Macedo (2009) ratificam tal concepção da criança ativa, destacando-a como um ser de ação, um ator social que se envolve nas trocas, nas interações, que confere significados e sentidos aos processos de que faz parte na sociedade. A mesma não se limita e tampouco se encontra colada ou alienada às instituições que se responsabilizam pela sua socialização. Dessa forma, ao experimentar o mundo em que vive e transformá-lo nesta experimentação, esse ator social, a criança, pode falar a respeito dele.

Rasmussen e Smidt (2003) também veem a criança como detentora de saber sobre o seu ambiente. Embora possa não utilizar de termos dos adultos, ela possui um conhecimento extensivo e detalhado sobre o seu entorno. Esses autores, por exemplo, notaram, no seu estudo, que as crianças não se utilizavam dos termos exatos e formais para se referir ao próprio bairro, mas empregavam marcas do mesmo e da vizinhança, como os blocos de apartamento, ciclovia, que foram reveladoras das suas vivências, relações e apropriações do lugar.

Pérez e Jardim (2015) verificaram na sua investigação que as crianças refletiam sobre o ambiente em que residiam, apresentando críticas sobre o que não considerava adequado para a favela e desejando melhorias. Para as autoras, a inserção do olhar da criança para os espaços interpela uma perspectiva técnica, enrijecida e racionalizada dos adultos por trazer uma visão permeada de relações afetivas e criativas com o ambiente.

O conceito lugares de crianças é um termo do pesquisador infantil para se referir aos lugares nos quais as crianças se relacionam, apontam e falam. As crianças

geralmente não falam sobre esses lugares, mas os seus corpos indicam e dizem onde e quais eles são. Apenas elas podem mostrar e falar sobre os lugares de crianças (Rasmussen, 2004).

Percebe-se, porém, que os adultos, que frequentemente interagem com as crianças, percebem os lugares criados por estas como desorganizados e desestruturados. Dessa forma, as crianças confrontam-se com proibições e repreensões dos adultos, mesmo que os seus lugares de crianças emerjam de lugares para crianças, como um parquinho ou uma brinquedoteca (Rasmussen, 2004).

Supõe-se tal desconforto dos adultos pelos lugares de crianças, especialmente quando os mesmos surgem dos lugares para crianças, pois estes últimos têm o objetivo da norma, de direcionar as brincadeiras e o uso do espaço pelas crianças enquanto que

nos lugares de crianças eclode toda a inventividade dos brincantes, fugindo do esperado

e regrado pelo mundo adulto.

Os achados de Cotrim & Bichara (2013) corroboram essa inventividade presente nos lugares de crianças já que encontraram no seu estudo um processo de apropriação e ressignificação do entorno, ruas e avenidas, pelos brincantes, transformando-as em lugares lúdicos, de brincadeiras. É importante compartilhar que essas autoras também perceberam uma normatização dos lugares para crianças para os brincantes desta pesquisa já que os mesmos tenderam a ocupar e utilizar a área conforme o planejado pelos adultos.

A necessidade do brincar faz com que as crianças superem as possíveis restrições impostas pelo seu contexto – elas não aceitam as proibições passivamente. “Ao invés disso, ocorrem constantes desconstruções e reconstruções dos ambientes quando os brincantes os exploram” (Bichara et al., 2011, p. 169).

Menezes (2014) verificou que, apesar das condições adversas, as crianças do seu estudo conseguiram assegurar as suas brincadeiras, inclusive as turbulentas no caso dos meninos. Para a autora, a construção dos lugares de crianças contou com diversas estratégias e, por meio destas, foi possível às crianças afirmarem os seus interesses e vivenciarem os seus lugares.

Embora não seja um termo preciso, o conceito lugares de crianças convoca a se estar atento e sensível aos locais que envolvem as crianças física e emocionalmente bem como estimula os profissionais que trabalham com as mesmas a fiscalizarem as suas

próprias configurações institucionais e a ampliarem o seu entendimento sobre as crianças (Rasmussen, 2004).