I. I NTRODUÇÃO
1.3 Outros iguais
1.3.1 De feiticeiro a ancestral
Durante o campo ouvi a história de Temetihü cinco vezes, quatro em kalapalo e uma em português. Eu poderia apresentar qualquer uma das versões (inclusive a em português), pois a precisão com a qual os detalhes se replicam é impressionante. Optei por trabalhar com versão aqui apresentada pelo contexto em que foi contada, durante uma conversa na qual eu havia perguntado ao narrador sobre a possibilidade dos Kalapalo e os Nahukua terem vivido juntos em uma aldeia chamada Timpa, próxima ao rio Mirassol. Eu só tinha ouvido falar de Timpa uma vez, em um texto de Basso (2001), mas este nome e esta questão foram levantados por um professor da aldeia Jagamü durante uma oficina de documentação linguística na aldeia Küngahünga40, da qual participei. A pergunta causou algum furor nas
40 A oficina, coordenada por Bruna Franchetto e Mara Santos, foi parte do projeto “Levantamento Sócio-
pessoas da casa (inclusive em outro dono de histórias que chegou no meio da conversa e em uma mulher já bem idosa), pois ninguém nunca tinha ouvido falar de Timpa, a não ser os dois donos de histórias, superficialmente.
O narrador se pôs a esclarecer que havia duas versões sobre a origem dos Kalapalo, cada uma contada por um dos dois últimos grandes chefes de Aiha, e só quem manteria a versão sobre Timpa atualmente seria, na verdade, o chefe da aldeia Jagamü. Em vários momentos, o narrador observa que com seu pai ele aprendera uma versão específica, mas que isso não excluiria a outra, pois, como ele mesmo diz, “as histórias são misturadas”. Esta história tem ainda uma peculiaridade: o personagem principal, que se muda de Amagü para abrir Kuapügü, onde se torna um grande chefe, é um homem acusado de feitiçaria. Tendemos a associar “histórias de ancestrais” a grandes nobres, pessoas importantes – mas a um feiticeiro? Justamente o antípoda da sociedade xinguana é quem se torna iho, “chefe/esteio”, de Kuapügü.
Mito 2: Kuapügü foi aberta (por Temetihü)41 Ageu Inhalü aketsange egea api ngipi uãke
Seu avô não tinha assim
Toko Tüma?
O quê?
Ageu Timpa ta benaha egei iheke
Ele está falando de Timpa
Ugise Timpate uãke kukotsogijü agetsingoi gele Jagamü ake uãke, ta iheke
Ele está dizendo que nós e os Jagamü teríamos aparecido juntos Jamiku akinhagü aketsange egei
Mas isso é história do Jamiku [chefe da aldeia Jagamü]
Ageu Jamiku akinhagüha egei
Isso é história do Jamiku
Toko Tübena egei Timpai?!
O que é isso, Timpa?!
Ageu Uge u a nhe ha e I a ahua eng ne u en g A ag na
Matipu do Alto Xingu” (executado com o apoio do Ministério da Justiça por meio de um termo de cooperação com a UFRJ-Museu Nacional).
41 Kuapügü ikenügü (Temetihü heke). Narrada por Ageu em 31 de outubro de 2009, na casa de seu sobrinho
Mas para meu pai, seu avô, dos arredores da Lagoa [Tahununu] nós viemos para Amagü
Tsetalüpengine hale Kuapügü iketa hale egei uãke lahale E aí de lá é que Kuapügü foi aberta
Amagü tongopengine Vindo de Amagü
Egea benaha angaũ g M ra geh ng nhe T a gongo eng ne Kua g ikenügü, inhalü uã e angaũ g nhe egea ha e
Era assim para seu avô, já para Müra [outro chefe kalapalo] não era assim, a partir de Timpa, Kuapügü teria sido aberta, mas não era assim para seu avô
Inhalü Não
Ipa tongopengine – luale nhigatomi uhametigüpe – Agamaniha, Agamaniha ukanetügüi Ipa ahua
Vindo da Lagoa – por favor eu vou chamar meu finado cunhado – Agamani, Agamani nos chefiava nos arredores da lagoa
I a ahua g ha o o e e hũ e Ao redor da Lagoa todos nós aparecemos
Ko o e eha e nh ĩhũgu e uhugu e nh ĩhũgu e á uhugu Kamayula
Todos mesmo, os ancestrais de outros povos foram para lá, os ancestrais de vários outros povos foram, Kamayurá também
Lá tuguha Foi assim
Kukugeha Angahuku kaenga bekuha Nossa gente foi para o Buritizal Amagünaha
Para Amagü Kukugeha helei
Ele [Agamani] era nossa gente/chefe Egea ekuaketsange api inheha
Para seu avô é assim que foi de verdade
Ugise Müra inheha Timpa gongopengine, ekü ikenügü, ige Kuapügü ikenügü?
Para Müra, vindo de Timpa foi aberta… Kuapügü foi aberta?
Ageu Ẽ
Sim
Ugise T a e e hũ e nge eha M ra nhongo T a e e hũ e geha e?
Para Müra nós aparecemos, para ele, Müra, nos aparecemos em Timpa também?
Já para seu avô, vindo de Amagü é que abrimos Kuapügü
Temetihü heke tsüha, Makala heke, Makala ititüi hale kuge ekugu
Foi Temetihü, Makala – seu nome era Makala, ele era uma pessoa verdadeira Ihütengibungu hale egei
Ele não ficava parado
Akutungube Temetihü Jali, Jali anümi hale egei
Como Temetihü não se cansava, ele ficou sendo chamado de “Anta”42
[conversa sobre outra história; o narrador prossegue:]
Ageu Tsakeha
Ouça
Egehungu aketsegei É deste jeito
T a eha e uha u Ouça, meu sobrinho
Tahununu e uã e uge be ja á e nh ĩhũgu uhugu
No Tahununu havia muitas pessoas, vários ancestrais dos povos de outras aldeias Tsetalüpengine hale egei Agamaniha sanetügüi
Lá eles eram chefiados por Agamani Agamaniha sanetügüi Agamani era seu chefe Ipa ahua
Nos arredores da Lagoa Agahahütü ipagüte Na lagoa de Agahahütü Ang ge e ha Ka a a o ĩhũgu h g e
Lá ainda existem flechas dos ancestrais dos Kalapalo
Awa heke, Ha eh he e han g u nha "ang ge e eĩhũ o eng e h g e geleha", nügü iheke
Meu tio materno, Haitsehü, contou pra mim: “ainda estão lá as coisas de seus ancestrais, suas flechas”, disse ele
Ta uãke iheke, api kita tsüha Assim ele disse, assim seu avô dizia
Itsuni huja bele atühügü leha, nügü iheke, itsuni huja hügepe atühügü
42 A raiz de seu apelido é teme, “anta” em arawak, mas às vezes ele é chamado de Jalitihü, formado a partir de
“Elas ficaram bem no meio do mato”, disse ele, as antigas flechas ficaram no meio do mato
A agoha eĩhũgu o h g e “As flechas dos seus ancestrais” Tsetatü itão tolokingunda
Lá as mulheres fizeram tolo Agahahüte atanini
No tempo de Agahahütü
Igei higei, toloi tsüha igei, ago ngipi É isso, isso é o tolo que elas têm
Aküngi ojotseko tolotega betuhuguha ihekeni Elas cantavam tolo para muitos grandes campeões Ah, tüajoko tolotega ihekeniha
Ah, elas cantavam tolo para seus namorados
Lepene lahale egei atahagatsipügüko Tahununu tongopengine Amagüna Depois disso eles se mudaram todos do Tahununu para Amagü
Amagüna Para Amagü
Egea ekutsahale uãke apa inhe hale, Kambetse inhe hale uãke É assim que foi de verdade para meu pai, para Kambetse
Müra igehüngü inha beha Timpa uanümi leha gehale, uanümi, lango aketsegei Para Müga era diferente, teríamos ficado em Timpa também, é assim
Egea tsale uãke api ngipiha Mas era assim que seu avô tinha
Api ngipiha Seu avô tinha
Tsetabe Amagüte kutsa, ah, aküngi beja!
Nós estávamos lá na grande Amagü, ah!, éramos muitos mesmo Aküngi beha kutsa beha
Muitos de nós ficavam lá
Tsetalüpengine hale egei, inke mukeapa ande etinkgane Mas lá, veja só, acusações começaram
Etinkgane Acusações
Akago inkgataha take hutühügü itsaeni
Üngele beha jali toho Temetihü
Aquele que era chamado de Anta, Temetihü Makala bahale ititüi
Mas seu nome mesmo era Makala Makala ekuhale sukugetegoho ititüi
Makala era seu nome verdadeiro, o que fazia dele gente
[continuação da história]
Em Amagü havia um homem chamado Kahunuma, o grande Kahunuma. Um dia ele foi para o mato e encontrou o espírito Nhahügü (uma mulher itseke que vive na mata). Assustado, Kahunuma fugiu, mas a mulher o seguiu. “Kahunuma, me espere! Por que você está fugindo de mim? Eu estou esperando para te contar que seu irmão te pegou com um feitiço bem aqui, na sua barriga”. Então ela passou a unha sobre a barriga dele, tirou o feitiço e se tornou sua esposa. Ela o levava para vários lugares e ensinava seus nomes. Ela o levou até para as aldeias dos brancos, para debaixo da terra e para dentro das árvores, ensinando a ele o nome de tudo. Na grande Amagü, havia muita muriçoca e ninguém conseguia dormir. Por isso, as pessoas iam dormir no meio do mato e só voltavam para a aldeia quando o sol já estava nascendo. Então o grande Jukagi, chefe de Amagü, disse para Temetihü: “Pergunte a nosso irmão Kahunuma se nossa avó lhe mostrou algum lugar chamado de Kuapü” (“não se sabe como Jukagi já conhecia aquele nome!”, o narrador observa com espanto). Temetihü perguntou a Kahunuma se havia um lugar bom para eles trabalharem, que disse que sim, que havia visto um lugar chamado Kuapügü. Era um lugar muito grande, de muita terra preta43, no meio do campo, e que Temetihü poderia ir pra lá. Antes que Temetihü partisse, Kahunuma foi com sua esposa Nhahügü para deixar marcas no caminho. No local definitivo, próximo a um córrego, eles deixariam galhos quebrados. Ele lhe disse então o nome de todos os lugares de Kuapügü até Amagü: começou pelo córrego Hotogi, ao lado de Kuapügü; de lá para Amagü, ele marcaria os lugares Euẽ Akegü, Takeinhü, Tahugape, Ogoko e a plantação de bambu de flechas de Ahagi.
No dia seguinte, seus sobrinhos pediram para que seu tio fosse dar uma olhada. Temetihü era viúvo e sem filhos, tinha cinco sobrinhos uterinos que, junto com suas esposas, cuidavam dele. Ele então foi seguindo o caminho indicado por Kahunuma. Quando chegou a Euẽ Akegü, viu que havia muitas flores bonitas de ipê amarelo no campo, e logo pensou em se mudar para lá,
de tão bonito que era. Em seguida andou até encontrar os galhos quebrados perto do córrego Hotogi. Lá havia muitos peixes trairões (Hoplias lacerdae) que, de tão grandes, pareciam com os pedaços de madeira usados como peso para as redes de embira. Quando viu aquilo, ele teve certeza que ali seria sua aldeia. Preparou seu mingau, pegou suas flechas e matou cinco trairões. Acendeu uma fogueira, assou seus peixes e ficou ali comendo, em um acampamento improvisado. Ele colocou os trairões que sobraram em um ha (espécie de “mochila” feita do oco de um tipo de palmeira) e veio embora. No dia marcado para seu retorno, a esposa de um de seus sobrinhos pediu que ele fosse procurar seu tio, que estava demorando. Ele foi com seu filho e encontraram Temetihü no caminho. Lá eles se sentaram um pouco, e ele contou a seu sobrinho que havia encontrado um lugar muito bonito e com muitos peixes.
Ilango tsale egei Pois é assim mesmo
Lá, lá aketsange Assim, é assim
Api inhongo taketsegei ungihatanümi Eu estou contanto como era para seu avô
Api Seu avô
Tetsualü benaha akinhai Histórias são misturadas
Teloha egei ngipi akinha, teloha egei, ilango benaha akinha higei Outros têm histórias diferentes, assim mesmo é que são as histórias
Quando chegou em casa, Temetihü contou a seus sobrinhos. O mais velho disse que eles deveriam se mudar para lá, pois em Amagü seus irmãos estavam falando mal deles, acusando- os de feitiçaria. Temetihü foi para Kuapügü mais uma vez, agora com seus sobrinhos, e foi mostrando a eles o caminho, repetindo os nomes contados por Kahunuma. Lá eles mataram muitos trairões e acamparam. Dormiram tranquilos, pois não havia muriçocas como em Amagü, e acordaram com o canto dos papagaios. Depois de dois dias, voltaram para Amagü para buscar as esposas de seus sobrinhos e massa de mandioca, para começar a abrir a aldeia, e
passaram muitos dias em Kuapügü. Começaram a limpar o lugar de sua roça de mandioca e de sua casa.
Andeha kuge Akukute gehale kukuge geleha Havia gente também em Akuku, nossa gente
Kukuge gehale Nossa gente também
Kukugele tsüha ahütü tsüha engühüngü Nossa gente mesmo, não eram outros
Kukuge lango bale, kukuge Eles são nossa gente, nossa gente
Kagaketühügü tsüha Os que se separaram de nós
Ah, eles cresceram muito! Mas sempre voltavam para Amagü para buscar ramos e massa de mandioca. Sempre que eles estavam em Kuapügü matavam muitos trairões. Começaram a queimar o lugar de sua roça, plantaram muita mandioca e cultivaram muita comida. Fizeram uma casa provisória, que cobriram com palha de ahũaga (uma planta abundante na região, principal alimento dos caracóis usados na produção de cintos e colares). Depois plantaram milho, do outro lado de sua casa. Lá eles ficaram cuidando de suas roças e, conforme foram crescendo, foram aumentando suas roças.
Aka benaha sakünginduko! Nossa, eles eram muitos! Inhüngüko etükilü
A casa deles cresceu
Ande beha – buh! - ah kuge gele Amagüte etsuhukilükoingo hegei segati leha As pessoas que ainda estavam em Amagü se mudaram para lá
Segati leha Para lá
Etsuhukilüko leha Se mudaram Tünkgülükoinha etetako
Eles foram para que pudessem dormir Üngelepe ihetunda leha tseta leha Eles ficavam gritando lá [em Amagü]
Take hüngene heke, take hüngene beja hm Por causa das muriçocas
Take hüngene heke beja tüita leha As muriçocas faziam isso
Aiha Bom
Aiha tünkgünhangoko tengalü
Pronto, as pessoas iam sempre para lá dormir Aibegehale tünkgülükonhango telü
E outra vez iam para dormir
Ah tütüki bele etsuhukilüko – buh! - nügü bele Kuapügüte leha Ah, bem devagar se mudaram para Kuapügü
Tsakeha egehungu tsaketsegei Ouça, é desse jeito
Api inhongo aketsegei ungihatanümi Eu estou contando como era para seu avô
Api inhongoha Como era para seu avô
Ungihatanümi tiha Eu estou contando
Telo naha Müra igehüngü ngipi tsake apa Timpage ta naha iheke
Para Müga era diferente, não era assim o que ele tinha, ouça, ele falava de Timpa Timpageha
Üleki naha egei uhunügü uheke Esse é o jeito que eu sei
Látsale api inhe hale Era assim para seu avô
Apunguko bahegei lahale tseta lahale Eles acabaram lá [em Amagü]
Tseta leha Lá mesmo
Üngele bele sanetügükope enügü beja inha leha
Até mesmo seu antigo chefe [Jukagi] também foi para lá Ünago beja iketinhibüngü itsa ihokoi sanetügükoi leha
Aquele que abriu a aldeia se tornou seu esteio, o chefe de todos eles Temetihü
Depois que Amagü já havia acabado, Kuapügü cresceu muito e ficou cheia de casas, não cabia mais ninguém. Como o lugar era muito bom e ninguém queria sair dali, resolveram abrir uma nova aldeia do outro lado do córrego Hotogi, no lugar chamado Asã Hugogu (“praça do veado”), e lá se tornou a aldeia de nome Kalapalo.
Ilango salegei Pois é assim
Tsekegü hegei tseta etepei
Lá era muito grande, esta antiga aldeia Kalapaluteha
Em Kalapalo
Kalapalu tongopengineha egei De Kalapalo
Inatsüha egei kumodipügüko Kunugijahütü, Kunugijahütü ititüi Nós nos mudamos para cá, para Kunugijahütü, Kunugijahütü é o nome Tana uãke api kita
Seu avô dizia
Kunugija anügü atehe tseta üle atehe Kunugijahütüi anügü
Há muita kunugija44 lá, por isso se tornou “lugar de muita kunugija” (Kunugijahütü) Tsakeha
Ouça Kapitabeha O grande Kapita
Kankgagü taketsange uãnke elei api kita naha uãke Kankgagü tepügü ingila segati Seu avô dizia que ele era Kankgagü, Kankgagü, mas que foi cedo para lá
Ülepe Kuapügü anetügüi
Depois se tornou chefe de Kuapügü Ka a ẽ Kapita, sim Tsakeha Ouça Aiha Pronto Upügü aketsegei Este é o fim
Esta narrativa tem em comum com a anterior começar focalizando um local (Agahahütü) e um chefe (Agamani), uma referência geográfica e outra sociológica. Fala-se desta aldeia ao redor do Tahununu como uma forma de contextualizar o local onde a história se passará de fato, resultado de uma migração de Agahahütü, e novamente são eleitos como referência um lugar (Amagü) e alguém que se tornará chefe (Temetihü). Não encontrei nenhuma história específica sobre a saída dos ancestrais dos Kalapalo de Agahahütü, mas o narrador comenta que isto foi depois que as mulheres começaram a cantar para os grandes lutadores e arqueiros, seus amantes. É importante notar que Agamani também era um mestre do arco, apesar disso não ser mencionado nessa história. No Alto Xingu que conhecemos, os
chefes devem ter sido, via de regra, grandes lutadores, mas a etno-história kalapalo sugere que, no passado, a condição de guerreiro era indispensável – veja-se Aküana, Tamakahi e Agamani (ou mesmo o chefe e arqueiro nahukwa Kahusala, encontrado por Ramiro Noronha e mencionado no começo do capítulo). Note-se ainda como o narrador se refere a Agamani no começo da narrativa: “Ele era nossa gente” (Kukugeha helei). Com isso ele queria dizer que Agamani era seu chefe, pois gente e chefe são sinônimos (reencontraremos essa identificação várias vezes, mas ela só será discutida a fundo no capítulo 2).
Amagü ficava na região conhecida como Angahuku (Buritizal), no alto curso do rio Buriti (Mirassol). Além de servir como topônimo de uma região específica, angahuku é o nome pelo qual se designa qualquer região com muitos buritis. É possível que a origem do termo “Nahukua” esteja ligada ao período de concentração dos karib naquela região, pois ao se falar de alguém que mora no Buritizal pode se dizer que mora “Angahuku kua”, onde kua é um locativo, e a semelhança sonora com “nahukwa” é tentadora. É possível que “Angahuku kua” fosse uma referencia geral aos karib daquela região, explicando a percepção de Von den Steinen de que várias comunidades falantes de karib pertenceriam a uma mesma “tribo dos Nahukuas”. Outra versão cogitada pelos Kalapalo e igualmente plausível é a de que o termo seria uma distorção da forma pela qual os falantes de arawak chamavam todos os falantes karib: Yanapukuá45. Segundo o atual chefe de Jagamü, ele ouvia seu pai e seu avô contarem que os brancos teriam começado a chama-los de “Nahukua” por encontrarem falantes de arawak em seu caminho, no rio Buriti.
Conta-se que Amagü era uma aldeia enorme, contemporânea de pelo menos outras quatro importantes aldeias karib (falantes, aparentemente, de uma mesma variante ou variantes aproximadas46): Gipangahütü, Akuku, Hagagikugu e Kankgagü. Segundo uma história Kuikuro sobre a origem do tolo, registrada por Franchetto (2007b), é possível especular que Akuku já existia antes da saída do grupo que foi para Amagü (e eventualmente outros lugares também?), pois o primeiro canto de tolo, executado ainda em Agahahütü, é sobre homens da aldeia Hagagikugu, situada no rio Mirassol, formada após uma divisão de Akuku. Hagagikugu se dividiu e deu origem a Kankgagü, no alto curso do rio Culuene, em uma região atualmente fora dos limites do Parque. Por fim, segundo um narrador, de uma divisão de Kankgagü teria se originado a primeira aldeia Angaguhütü.
45 Mehinaku (2010: 16) também faz as mesmas aproximações.
É difícil saber detalhes sobre esta aldeia, pois em Aiha a única pessoa que poderia conhecer a história do local é Kugiua, uma mulher muito idosa cuja memória já foi muito afetada pela idade e, por isso, disponho de poucas informações. Pelo depoimento que gravei com ela, seu avô paterno Javanava teria aberto Angaguhütü vindo de Akuku. Já a versão de seu genro Waja é um pouco diferente, e Javanava teria saído de Kunugijahütü para o novo local. E de acordo Ageu, na realidade, a primeira aldeia naquele lugar teria sido aberta por alguém que saiu de Kankgagü; a aldeia teria durado pouco tempo, e só anos depois Javanava teria aberto outra aldeia no local, vindo de Kunugijahütü (o que parece ser a versão mais detalhada). De qualquer maneira, o mais interessante é a relação entre Akuku e Angaguhütü:
Kugiua se diz angaguhütü e “descendente de Akuku” (Akuku unkgupügü47
), e diz o mesmo dos chefes de Tankgugu (o homem que abriu a aldeia e era seu chefe principal até 2007 tem o “nome famoso” – nome de chefe - do bisavô paterno de Kugiua).
Figura 1.1: principais aldeias do aglomerado de Akuku.
Aiha foi incluída como referência. As aldeias entre parênteses foram marcadas aleatoriamente na região que ocuparam apenas para dar uma ideia de sua distribuição.
Tanto Akuku quanto Hagagikugu foram palcos de eventos míticos centrais para o complexo ritual xinguano: na primeira vivia Jagihunu, o homem que aprendeu a festa ndühe (conhecida como tawarawanã) com os peixes; e na segunda vivia Kumagisa, um homem que