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DE GUIA DE CASADOS

No documento D. Francisco Manuel de Melo (páginas 69-77)

Isabel Maria Rondoni M. Abranches B. Ramos

(CHC/Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa)

A presente intervenção tem por objectivo “ler” as palavras de D. Francisco Manuel de Melo inseridas num determinado contexto e a sua intenção comunicativa, ao organizar o seu discurso.

Com efeito, a obra a que nos referimos, a Carta de Guia de Casados, foi escrita para um seu grande amigo que pretendia casar-se, como refere o texto introdutório do impressor, e dedicada a seu primo, D. Francisco de Melo, Alcaide-Mor de Lamego. Estamos perante um estudo do autor baseado em preceitos e regras de toda a espécie (ética, moral, económica) e dedicado a homens casados, solteiros e viúvos. Contudo, o objectivo desta espécie de preceituário é chamar a atenção dos homens casados pa- ra o seu novo estatuto e todas as mudanças que ele implica e, neste enten- dimento, há muitas formas de interpretar o papel da mulher. Mas a nossa leitura seguirá por outras vias, mais relacionadas com a parte material da linguagem, pelo menos do ponto de vista da partida.

Trata-se, de facto, de uma aposta em saber como funciona o discurso de D. Francisco Manuel de Melo ao construir um espaço de comunicação com o seu interlocutor, através das virtualidades da língua. Mas não só. É também através da interacção entre o linguístico e o discursivo que emerge o interdis- curso aqui em foco, bem como o dialogismo sempre presente. Como refere Bakhtine, “todo o discurso, através das suas palavras, é envolvido no interior de um imenso rumor “dialógico” (Maingueneau, 1993:152).

Iremos, pois, centrar-nos, em aspectos ligados à enunciação, às mar- cas linguísticas do seu modo de dizer e de interpelar o interlocutor, com o propósito de evidenciar toda a intenção comunicativa ao serviço de uma

argumentação. Isto é, quanto mais persuasiva for a linguagem e o modo de apresentar os conselhos, mais facilmente estes serão absorvidos e acei- tes por parte do interlocutor e outros interlocutores na mesma situação de aspirantes a casados.

Em primeiro lugar, deve referir-se o modo como o autor assume o seu próprio sujeito e, ao mesmo tempo, como é evidente o diálogo com o interlocutor. Vejamos como começa o estudo referido:

Em meio estou, Senhor N., daquelas duas coisas mais poderosas com os homens: Amor e Obediência. Amo a V. m. Manda-me V. m. (…) Como podemos verificar, a propósito dos aspectos acima enuncia- dos, o autor fala sempre em nome próprio, ou seja, eu ou modalização do

eu, como por exemplo, diz-me V. m., e dirige-se directamente a seu pri- mo, aqui um permanente interlocutor, através de uma linguagem viva, coloquial como se ele estivesse ali presente. Este recurso resulta curioso porque se entrelaça com uma construção sintáctica algo rebuscada, aliada à evocação de figuras célebres da Antiguidade Clássica, o que lhe atribui o carácter erudito.

A fim de pôr em prática a metodologia apresentada para a análise, e tendo em conta a extensão do texto da Carta, resolvemos cingir o corpus do nosso trabalho a um excerto que julgamos ser suficientemente elucida- tivo, até porque o teor do nosso trabalho é de natureza semântico- -linguística e, portanto, o referido exemplo funcionará por amostragem.

Em suma, pode complementar-se a ideia, dizendo que os recursos utilizados por D. Francisco Manuel de Melo na elaboração dos seus pre- ceitos e avisos sucederam-se de modo regular e constante e a organização do seu discurso manteve, ao longo do texto, de modo coeso, esse carácter argumentativo e expositivo já mencionado.

A propósito do tipo de análise que escolhemos, fundamentada na pragmática e especificamente, em aspectos da enunciação, apresentamos exemplos referidos por Maingueneau, no contexto do discurso represen- tado pelos textos do “humanismo devoto” em França, desde os fins do séc. XVI até meados do séc. XVII. Não deixa de ser curioso como toda a prática discursiva de D. Francisco Manuel de Melo se vai encaixar dentro dos limites deste “cânone”, como iremos ver de seguida.

O autor, sobre o assunto, refere que uma das características impor- tantes do discurso acima referido é que os seus autores se representam como integrantes das instituições religiosas e estão associados a destinatá- rios igualmente inscritos em organizações sociais, como chefes de família, magistrados, soldados, etc. Na sequência deste facto, os textos humanistas

devotos apresentam-se como conversas amenas, cultas entre pessoas de bem. Deste modo, na sua maior parte, eles estão ligados de modo particular aos géneros dialógicos mundanos: especialmente cartas e conversações. Por isso, “este estatuto de sujeitos enunciadores e dos seus presumíveis destinatários é inseparável dos géneros de discurso utilizados.” (Main- gueneau, 1993:39) Assim, tomamos como ponto de partida o início do tex- to e o discurso dedicado aos que vão casar, como propõe o autor:

Pois vejamos o que se lhe dá a um casado, a troco dessa liberdade, que eles tanto alegam que deixam (p. 23)

E é nessa sequência que nos basearemos, onde se apresentam e ca- racterizam os vários tipos psicológicos de mulheres, prováveis compa- nheiras dos tais maridos.

Em primeiro lugar, iremos referir as coordenadas mais importantes da cena enunciativa para o exemplo agora em foco. Elas constituem o conjunto de referências articuladas do seguinte modo:

EU <> TU – AQUI – AGORA

No entanto, iremos dar a primazia às instâncias que estão subjacen- tes ao dialogismo, isto é, ao discurso decorrente da comunicação entre D. Francisco Manuel de Melo e o seu interlocutor na Carta, isto é, a toda a conversa que decorre entre o eu e o tu, o qual se entende como o recep- tor directo dessa mensagem.

Vejamos desde logo o início do texto:

Em meio estou, Senhor N., daquelas duas coisas mais poderosas com os homens: Amor e Obediência. Amo a V. m. Manda-me V. m. E suposto que me manda uma coisa bem dificultosa; a Obedi- ência e o Amor, que já fizeram impossíveis não se negarão hoje a vencer dificuldades. (p. 19)

Um facto salta à vista e consiste em que o sujeito da enunciação, ou seja, o próprio D. Francisco Manuel de Melo se assume como o respon- sável pelo que diz na 1ª pessoa do singular, quer se trate de enunciar atra- vés de pronome pessoal sujeito, quer de pronome complemento.

Ex: Em meio estou; Diz-me, pergunto: (p. 36)

Por outro lado, tendo em conta o aspecto relacionado com o tu, ob- serva-se que D. Francisco se dirige ao outro, utilizando as seguintes ex- pressões: Senhor N. e V. m., ao longo de todo o texto. Neste diálogo, cujo segundo elemento não está em presença, mas é o alvo da mensagem, há

também marcas de um dialogismo explícito que se manifesta por expres- sões de natureza coloquial expressiva.

São exemplo disso, imagine “V.m, Quer V.. ver quão leve é …”; “Ora alvíssaras, Senhor N., que já lá vai tudo isto”, ou “Digo eu que fa- çamos Senhor N. (…)”

Mas verificam-se também outras alternativas relativamente a essa in- terpelação, através de modalização de formas do sujeito. Assim, em vez de se expressar nas formas de eu ou de tu, o autor utiliza algumas vezes a primeira pessoa do plural, (com o nós implícito) como forma de congre- gar e de partilhar ideias, iniciativas, e de reiterar do modo mais convin- cente possível as suas propostas de princípio, os seus conselhos, os seus avisos. Servirá de exemplo a frase que, quanto a nós, consiste na tese do excerto em causa:

Pois vejamos o que se dá a um casado, a troco dessa liberdade, que eles tanto alegam que deixam”, ou ainda, “Provemos a ver que será possível dar alguma regra ao amor; (…) Armemos-lhe, se quer, as redes; (p. 25)

Outro aspecto que contribui para o tipo de discurso referido é a utili- zação frequente de figuras de estilo, a acompanhar uma já elaborada construção sintáctica, como forma de confirmar, exemplificar, reiterar o objectivo de convencer o interlocutor a seguir os preceitos apresentados. O autor, a propósito da apresentação deliberada de um estilo “alegre e fácil”, como ele refere, evoca uma série de nomes clássicos como um exercício de estilo, uma forma de enriquecer a sua retórica:

Darão licença os Sénecas, Aristóteles, Plutarcos e Platões; nem fi- caremos mal com as Pórcias, Cassandras, Zenóbias e Lucrécias; (…) (p. 20)

Mas, para além do dialogismo decorrente da relação eu-tu, atrás apontado, observa-se, toda uma série de aspectos, quer linguísticos, quer semânticos, a convergir na organização do discurso argumentativo, o qual procuramos evidenciar neste excerto da Carta.

Comecemos por ver o inventário de situações que o autor elabora, a fim de pôr em destaque alguns traços significativos das variadas espécies de mulheres, como a dar força à sua perspectiva. De facto, como o texto nos vai deixando entrever, as mulheres são sempre seres dos quais se de- ve desconfiar no contexto do matrimónio.

Aparece, neste elenco, em primeiro lugar, a mulher feia e, segundo o autor, “A feia é pena ordinária, porém que muitas vezes ao dia se pode

aliviar, tantas quantas seu marido sair de sua presença, ou ela da do mari- do” (p. 33)

Seguidamente, vem a mulher néscia, “coisa é pesada, mas não inso-

frível;” (p. 33), depois, a mulher doente, que deve “quando enferma ser

tratada de seu marido com todo o regalo possível” (…) (p. 34); a seguir, as mulheres “proluxíssimas, e de condição impertinente, cuja demasia de ordinário descarrega sobre os criados” (p. 34)

Depois, segue-se, nesta espécie de listagem, a mulher ciosa que, se- gundo o autor, “É bem ocasionada mulher para que se viva sem conten- tamento.” (p. 35)

Constam, ainda, as mulheres gastadoras “fogo perenal das casas e das famílias. Sempre foi causa de muitos males esta tal condição;” (p. 36) Seguem-se as teimosas que de D. Francisco M. de Melo enuncia com interrogação retórica: “Que direi das voluntárias, que por nome, não menos próprio, se dizem teimosas?”

E, por fim, a rematar a lista indicada, surge uma advertência sobre a

honra que deve ser apanágio de toda a mulher e não de um tipo específi- co de mulher. Diz o autor: “A honra da mulher comparo eu à conta do algarismo; tanto erra quem errou em um, como quem errou em mil. Fa- çam as honradas boas contas, acharão esta conta certa.” (p. 39)

Com as enumerações que acabámos de ler, se completa o excerto que definimos como o corpus do trabalho e, com ele, as considerações do autor sobre o assunto. Aí, ele faz uma comparação entre os inconvenien- tes relativos a mulheres com imperfeições e os “contentamentos” “que trazem consigo as boas”. (p. 40)

Para além dos aspectos já enunciados, como o entrelaçar de uma lin- guagem coloquial no meio de uma construção sintáctica rebuscada, pró- pria da época, bem como as enumerações e descrições dos tipos de mu- lher, ainda damos conta de outros tantos que vêm contribuir para uma melhor ilustração da intenção deste discurso.

Assim, observa-se uma série de figuras de estilo que se encontram em conformidade com o referido nível de linguagem utilizado, como o grande número de comparações, imagens, metáforas, oposições e contra- dições, interrogações retóricas.

Vejamos alguns exemplos:

Comparação: “… assim como aquele que sobe açodado por uma es-

cada íngreme (…); assim também subindo o homem pela escada da vida, … ou “Dissera eu, que as mulheres são como as pedras preciosas…”

Metáfora: “O marido tenha as vezes de sol, em sua casa, a mulher as

Oposições: Provemos a ver que será possível dar alguma regra ao amor; ao amor, que soe ser a principal causa de fazer os casados mal ca- sados. Umas vezes porque falta, e outras porque sobeja.

Interrogações retóricas: “Que direi das voluntárias, que por nome,

não menos próprio, se dizem teimosas? De outras que aporfiam?” ou “Quer V. m. ver quão leve é a carga deste modo de vida que toma?”

Anáforas: “Estes serão os textos, estes os livros, que citarei a V.m., neste papel;”

Existem, ainda, outros aspectos que configuram, de facto, a dimen- são substancial da vertente que nos interessa mais analisar, anteriormente enunciada. Eles podem ser considerados especificamente os “embraiado- res”, passando a expressão, do modo de organização do discurso argu- mentativo.

Um deles consiste na tese, isto é, na ideia de partida, a partir da qual se processa o restante texto. Parece-nos elucidativo o seguinte parágrafo do início do texto:

Diz-me V. m. que se casa, e que lhe dê eu, para se governar nesse seu novo estado, alguns bons conselhos. Esta é uma das coisas de que eu cuido que falta mais a quem peça, que quem a dê. (p. 19)

A partir daí, assistimos ao desenrolar dos argumentos necessários à fundamentação da proposta, o que acontece de maneira prolixa, pois o autor arranja uma variedade enorme de razões, exemplos, enumerações, citações e outros recursos, para justificar os seus bons conselhos.

Para além das interpelações em directo e do recurso à coloquialidade que já referimos, assinalam-se as descrições do tipo ladainha que impri- mem um ritmo acelerado ao texto, tornando-o objecto de uma maior atenção por parte do leitor. Veja-se um dos exemplos deste teor aqui pre- sentes: “Ponha, Senhor N., em balança a inquietação passada, os perigos, os desgostos, a desordem dos afectos, aquele temer tudo, não fiar de na- da, o queixume que dói, a vingança que arrisca…” etc.

A convergir neste propósito, a inclusão de vários tipos de ditados ou de ditos populares, como o que se observa, em determinada altura do texto, completamente assumido como tal: “Diz um antigo ditado: Quem não tem marido não tem amigo. Diz outro: Quem tem mulher tem o que há mister.”

Também, e não menos importante para o objectivo em causa, é a in- clusão de exemplos, associações de ideias e de práticas quotidianas, a acompanhar os ditos conselhos e avisos. Ao falar das mulheres ciosas, diz o autor: “Contra as ciosas com razão, curando-se o marido da leviandade, fica a mulher curada do ciúme”. E depois, mais adiante, aparece a seguin-

te associação: “Aquele amor desordenado, mais furioso é, e assim, mais veementes seus ciúmes (como é do melhor vinho o melhor vinagre).”

Ainda, a propósito de exemplos utilizados com enorme frequência para persuadir o leitor das suas intenções (moralistas, sociais, éticas, etc.), D. Francisco M. de Melo ao abordar o tema da honra, relativa a maridos e mulheres, avisa o leitor do falso discurso destas:

É este um mero engano; por duas razões: a primeira, porque nada se lhes deve às honradas de guardarem a obrigação, em que Deus, a natureza, o mundo, o medo, as tem posto.

E, neste passo, entremeia um exemplo de uma sua estada em Ma- drid, transcrevendo a fala de uma vizinha “muito brava” e a respectiva resposta de seu marido, ambas em castelhano, a contextualizar o tom do tema inserido no diálogo, salpicado de picaresca e de “salero”. E, não resistimos a acrescentar ainda mais um dito, denominado chocarrice cas- telhana, traduzindo a opinião anónima de que ninguém sofria tanto como “quem tinha boa mulher, bom criado e boa cavalgadura”: “Buena mula, buena cabra, buena hembra, son tres malas bestias” (p. 32)

E, por fim, relativamente a este tipo de processo textual, ainda outro exemplo que dá conta de uma total interacção das duas linguagens, a cas- telhana e a portuguesa, transmitindo a vertente mais evidente da expres- são oral. Ainda em Madrid, apresenta-se uma situação de diálogo em que o próprio autor se exprime em língua portuguesa e, à mulher de um obrei- ro que atendia em sua casa lhe atribui a fala castelhana. Tudo se encontra adequado ao seu próprio contexto. No fundo, aqui ele funciona como o narrador daquela pequena história em castelhano.

Sucedeu, estando em Madrid, vir a minha casa com grande ânsia a mulher de um obreiro a pedir, que sobre dos savanas le prestasen doze reales; e perguntando-se-lhe, qual era a sua necessidade: Ai siñores, disse, que tengo concertadas a comprar media dozena de hijas de azavache lindíssimas, (…) (p. 37)

Há, apenas a acrescentar, tendo em conta a natureza sintética deste co- mentário, alguns aspectos da enunciação, a que já fizemos referência anteri- ormente, que vêm reforçar a vertente argumentativa do discurso em causa.

É o caso dos seguintes exemplos cujas marcas explícitas do sujeito e de opinião do mesmo são bem patentes:

– modalização verbal

Este afago também deve ser discreto, repartindo-o igualmente por obras e palavras.

Poderá bem ser que por isso antigos fingissem (…)

– verbos de opinião

Persuado-me, Senhor N., que esta coisa a que o mundo chama amor, não é só uma coisa, porém muitas com um próprio nome.

Eu considero dois amores entre a gente. – enumeração

O primeiro é aquele comum afecto com que, sem mais causa que sua própria violência, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem o porque amamos. O segundo é aquele, com que prossegui- mos em amar o que tratamos e conhecemos.

E finalmente, a conclusão do texto, que apesar de se encontrar para além do âmbito do excerto apresentado, parece-nos que vem contribuir para complementar a estrutura do tipo de discurso utilizado, uma vez que pertence à exposição final das ideias do autor:

– premissa de chegada e marca de enunciação do sujeito, assumindo o final da sua autoria.

Rematarei com as generalidades que, a meu parecer, avultam bem a grandeza das casas; isto como conclusão do muito que nestes pontos havia que dizer.

Já agora, dando por terminado este breve estudo, gostaríamos de co- mentar um aspecto curioso e que vem reforçar a ideia da importância da argumentação implicada no discurso de D. Francisco Manuel de Melo. É que o texto da Carta assenta, de facto, numa estrutura argumentativa e literariamente bem conseguida, mas parece ser fruto apenas de concepção teórica, pois o autor nunca foi casado.

Bibliografia

MAINGUENEAU, Dominique (1993) Análise do Discurso. Universidade Estadual de Campinas: Editora Pontes

MELO, D. Francisco Manuel de (s.d.) Carta de Guia de Casados. O Clube Internacional do Livro.

No documento D. Francisco Manuel de Melo (páginas 69-77)