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D. Francisco Manuel de Melo

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Academic year: 2021

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D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

O Mundo é Comédia

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Maria do Rosário Pimentel

Maria do Rosário Monteiro

(org.)

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

O Mundo é Comédia

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Biblioteca Nacional de Portugal – Catalogação na Publicação CONGRESSO INTERNACIONAL D. FRANCISCO MANUEL DE MELO, Lisboa, 2009

D. Francisco Manuel de Melo : o mundo é comédia/ org. Maria do Ro-sário Pimentel, Maria do RoRo-sário Monteiro. – (Extra-colecção) ISBN 978-989-689-125-1

I – PIMENTEL, Maria do Rosário, 1953- II – MONTEIRO, Maria do Rosário, 1959-

CDU 821.134.3Melo, Francisco Manuel de.09(042) 061.3

Título:D. Francisco Manuel de Melo. O Mundo é Comédia

Organização: Maria do Rosário Pimentel e Maria do Rosário Monteiro

Edição: Edições Colibri

Depósito legal n.º 330 653/11

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ÍNDICE

Apresentação ... 9

No Mundo da Prosa ... 11

A Saudade na Obra de D. Francisco Manuel de Melo

Andrés José Pociña López ... 13 Dom Francisco Manuel de Melo e a Picaresca: Relógios, Moedas,

Fontes e Livros Falantes

Artur Henrique Ribeiro Gonçalves ... 27 Francisco Manuel de Melo e a Cabala

Manuel Augusto Rodrigues ... 43 A Presença dos Provérbios na Obra de D. Francisco Manuel de Melo Lucília Chacoto ... 59 Proposta de Análise do Discurso de D. Francisco Manuel de Melo em Carta de Guia de Casados

Isabel Maria Rondoni M. Abranches B. Ramos ... 69

No Mundo do Teatro ... 77

A Impossível. Visita Real ao Repertório Virtual do Teatro de Francisco Manuel de Melo

José Camões ... 79 Entreditos da Corte Amorosa de Dom Gil

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Uma Farsa de Folgar – A Aprendizagem a Corteggiano no Fidalgo Aprendiz de D. Francisco Manuel de Melo

Maria José Palla... 115 O Papel da Música no Teatro Português do Século XVII

David Cranmer ... 125

No Mundo da Poesia ... 131

Amor e Sedução na Tuba de Calíope de Francisco Manuel de Melo Anabela Galhardo Couto ... 133 A Ironia Melancólica na Lírica do Melodino

António Martins Gomes ... 145 Variações sobre temas de Amor

Ana Hatherly ... 157 Glosas de Camões nas Obras Métricas de D. Francisco Manuel de Melo

Micaela Ramon ... 167 Perpetuar como Infinito o Finito: Jacob e Raquel, de Camões ao Me-lodino

Maria Graciete Gomes da Silva ... 181 Musa Hieroglífica: Norma Áulica, Subjectivação Poética, Corpo Re-fractário em Francisco Manuel de Melo

Pedro Serra ... 193

No Mundo da História ... 209

Missões Secretas e Negociação. D. Francisco Manoel de Mello e D. Francisco de Mello Manoel ao Serviço da Coroa Portuguesa

Ana Maria Homem Leal de Faria ... 211 Autobiografia e História nas Epanáforas de D. Francisco Manuel de Melo

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D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666): Vida e Obra no Contexto da Monarquia Compósita

Jaques M. Brand ... 249 Experimentos con la verdad: los discursos de personajes en la

Guerra de Cataluña de don Francisco Manuel de Melo

Victoria Pineda ... 269 La caracterización de los personajes históricos en la Guerra de

Cataluña de D. Francisco Manuel de Melo: el papel de los afectos

María del Carmen Saen de Casas ... 283 Francisco Manuel de Melo, Andanças de um Militar

Victor Lourenço ... 299 Uma leitura republicana de D. Francisco Manuel de Melo

Soledade Amaro Rodrigues ... 309 Elogio & defesa de D. Francisco Manuel de Melo por Alexandre

Herculano (1840)

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APRESENTAÇÃO

D. Francisco Manuel de Melo é um dos marcos incontornáveis do Barroco Português. Vivendo durante a Monarquia Composita, foi militar, diplomata e intelectual. Cultivou a amizade de poetas e dramaturgos, es-creveu uma vasta obra, servida pelo bilinguismo, da historiografia ao ver-so de metro variado, bem como prosa em que ver-sobressai a capacidade crí-tica.

Figura multifacetada, conheceu a glória e o cárcere, o luxo das cortes europeias e o desterro no Brasil. Foi nobre palaciano mas conheceu tam-bém a tranquilidade da vida campestre. Votado ao esquecimento durante dois séculos foi resgatado por Camilo Castelo Branco. No início do sécu-lo XX, Prestage recuperou a sua obra, num estudo ainda hoje incortoná-vel. Porém a fortuna de D. Francisco Manuel de Melo parece destinada a conhecer momentos de reconhecimento seguidos de longos períodos de esquecimento. A sua exlusão dos manuais escolares contribui fortemente para o olvido de uma personagem complexa, fruto de uma época marcada por contrastes, por luz e sombra.

O Congresso Internacional “D. Francisco Manuel de Melo – O Mundo é Comédia” realizado entre os dias 1 e 3 de Abril de 2009, na Fa-culdade de Ciências Sociais e Humanas de Universidade Nova de Lisboa, numa organização do Instituto de Estudos Portugueses, teve por objectivo reunir estudiosos nacionais e estrangeiros da criação variada de D. Francisco Manuel de Melo, tentando resgatar este criador do esqueci-mento, abordando todas as áreas em que se divide a sua obra: a historio-grafia, a lírica, o teatro, a prosa e a epistolografia. Para compreender D. Francisco Manuel de Melo é necessário integrá-lo na época de que ele é, de certo modo, uma imagem reflectida: complexo, contraditório, críti-co, sentencioso, lírico.

Chegou o momento de deixar em forma de livro os textos que foram apresentados durante o congresso. Eles surgem nas versões entregues pe-los autores.

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Em nome da Comissão Coordenadora deixamos os nossos agrade-cimentos sinceros a todos: conferencistas, músicos, colegas do Ensino Básico e Secundário, alunos da FCSH. Os mesmos se estendem aos pa-trocinadores que apoiaram este projecto. Ao editor, Dr. Fernando Mão de Ferro, agradecemos a disponibilidade para elaborar o presente volume de Actas.

As coordenadoras

Maria do Rosário Pimentel Maria do Rosário Monteiro

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A SAUDADE NA OBRA

DE D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

Andrés José Pociña López

(Universidad de Extremadura)

Na Epanáfora Amorosa, sobre o Descobrimento da Ilha da Madeira, publicada no volume Epanaphoras de Varia Historia Portugueza...1, D. Francisco Manuel de Melo incluiu uma breve, mas densa, dissertação sobre a natureza desse sentimento a que a língua e cultura galego--portuguesas sempre se têm referido com o nome de saudade. Para Edu-ardo Lourenço (Lourenço 1999: 110), as reflexões que, acerca da sauda-de, desenvolveu D. Francisco Manuel de Melo, supõem um ponto de vi-ragem no que respeita às reflexões, mais antigas, que sobre este sentimen-to se haviam escrisentimen-to em Portugal, e marcariam o começo da perspectiva-ção moderna sobre este sentimento, que achará o seu ponto cimeiro na

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O nome completo é Epanaphoras de varia historia portuguesa: a ElRey Nosso

Se-nhor D. Afonso VI: em cinco relaçoens de sucessos pertencentes a este Reyno: que contem negocios publicos, politicos, tragicos, amorosos, belicos, triunfantes por Dom Francisco Manuel. – Lisboa: na Officina de Henrique Valente de Oliueira

Im-pressor delRey Nosso Senhor, 1660. A Epanáfora Amorosa aí figura entre as pági-nas 173 [273]-348; o seu título original é Descobrimento da Ilha da Madeira, Anno 1420. Epanaphora Amorosa Terceira de Dom Francisco Manuel. Escritta a hum Amigo. Cito sempre pela edição fac-similada (Melo 1660). Os trechos que à sauda-de sauda-dedicou o nosso autor foram reproduzidos em “Apêndice” a este artigo; é por es-sa noses-sa reprodução que faremos as citações inseridas ao longo da comunicação, com a indicação apenas da página em que cada citação se encontra (o número de página remetendo para a numeração da edição de 1660, que não foi alterada no fac--simile), precedida da designação “Melo/ saud.”. Outras citações da Epanáfora Amorosa, fora das que atingem os trechos em causa, serão consignadas, segundo a regra habitual, como “Melo 1660”, seguido do número de página.

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obra de Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa. Com efeito, é em Melo que a Saudade começa a ser considerada, em palavras do próprio Louren-ço, como “desejo de eternidade e nostalgia eterna” ao mesmo tempo (Lourenço 1999: 110-111). Segundo Lourenço, “As suas páginas [de Ma-nuel de Melo sobre a saudade] mereceriam só por si um ensaio” (Louren-ço 1999: 111). Talvez esta minha comunicação seja, se não o ensaio que o mestre da Filosofia Portuguesa preconizou, pelo menos um dos ensaios que sobre essas páginas, em verdade geniais, de D. Francisco Manuel, poderão alguma vez vir a ser feitos.

Das reflexões, filosóficas ou mesmo científicas, que à saudade se têm consagrado (fica nisto de fora, ao menos de momento, a inesgotável fonte de inspiração lírica que a saudade tem proporcionado, e proporcio-na, a inúmeros poetas), terá sido El-Rei Dom Duarte (ou então, o seu con-fessor, Frei Gil Lobo, se é ele o autor do livro), o pioneiro ou precursor, com as célebres páginas inscritas no Leal Conselheiro. É esse, de facto, o principal depoimento sobre as reflexões antigas acerca da saudade – o que vale tanto como dizer, anteriores a D. Francisco Manuel de Melo. A radical diferença entre ambas as épocas, no que à saudade diz respeito, consiste numa inflexão em relação à valorização deste sentimento: nega-tiva antes, posinega-tiva depois, da viragem na perspecnega-tiva que se situa entre os “antigos” e os “modernos”. De facto, nesse prodigioso, quanto inopinado, manual de psicologia clínica avant la lettre que é o Leal Conselheiro, cuja função é servir para curar doenças mentais (ou “da alma”), num tempo em que faltavam quase quatro séculos para Sigmund Freud vir a este mundo, a saudade é, convém lembrá-lo, encarada como um mal que se deve evitar, uma doença da alma, que deve ser tratada (Lourenço 1999: 102-108). De facto, as célebres passagens em que se fala do “pra-zer” proporcionado pela saudade não nos devem induzir em erro: esse prazer deve ser considerado “morboso”, pois faz com que o homem sinta apego, ao fim de contas, por uma “paixão da alma”. Quem quiser pode ver nisto um precedente dos modernos diagnósticos sobre “inclinações maníaco-depressivas”.

A mudança de rumo – a fenda que distancia as reflexões de Melo daquelas do rei português do século XV – tem sido salientada por Eduar-do Lourenço, em palavras magistrais, que vêm muito a propósito neste ponto:

D. Francisco Manuel de Melo retoma algumas das intuições de D. Duarte, num sentido menos pessimista, mas tenta também pela primeira vez encontrar, se não uma explicação, ao menos uma base

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na vida e no destino erradio dos portugueses. A saudade é para ele um sentimento simultaneamente singular, universal e transcenden-te (Lourenço 1999: 111).

Com efeito, quer D. Duarte, quer mais tarde o seu tocaio gramático, Duarte Nunes de Leão, tinham salientado a especificidade portuguesa da palavra, que não se encontra em nenhuma outra língua; porém, nenhum deles chamara a atenção, como fará Melo, para o facto de o sentimento ser especificamente português. O nosso autor esboça, a este respeito, a teoria, depois seguida por tantos outros autores, de a saudade ser um sen-timento, se não exclusiva, pelo menos fundamentalmente português, pro-vocado pelo destino de Portugal como “povo marítimo, viajante, separado de si mesmo pelas águas do mar e do tempo”, em palavras, mais uma vez, de Eduardo Lourenço (Lourenço 1999: 91).

Do meu ponto de vista, devemos separar, na dissertação de Melo so-bre a saudade, inscrita, como dissemos, na sua Epanáfora Amorosa, duas partes principais que constituem dois parágrafos diferentes, unidos entre eles por um outro parágrafo, mais breve, porém de escassa importância. Destes parágrafos, cada um mostra uma feição diversa do sentimento saudoso; duas feições, senão mesmo conceitos, da saudade, separados e, em certo modo, opostos.

No primeiro parágrafo (Melo 1660: 289-290), a saudade, aí descrita como “esta generosa paixão”, naquilo que Eduardo Lourenço considerou uma “expressão magnífica” (Lourenço 1999: 111), é concebida no seu aspecto mais “nacional”, enquanto disposição anímica especificamente portuguesa. O que não deixa de suscitar problemas, pois que a saudade, neste trecho, é considerada, no contexto, como paixão sentida por uma mulher inglesa, Ana de Harfet, protagonista da lenda amorosa, relaciona-da com a descoberta relaciona-da Madeira, de que em seguirelaciona-da iremos falar. Ora, as saudades da Inglaterra, sentidas por uma mulher embarcada em arriscada aventura (que, de facto, acabará em desventura) e descritas primorosa-mente pelo nosso autor: “tudo em fim era lastimas, sem ver outra cousa, que hum mar nunca visto, & hum ceo desusado”, dão ensejo ao autor para introduzir uma digressão que se percebe como muito afastada do seu con-texto, mas que acaba por se revelar como um dos trechos mais sugestivos da obra em causa e, se me é permitido dizê-lo, do conjunto das obras to-das do nosso autor. Começa Melo, pois, aproveitando as aflições da dama inglesa, e lembrando imediatamente o ser a saudade um sentimento so-bretudo (mas, atenção! não exclusivamente) sentido pelos portugueses, para “tomar sobre mi [dirá Melo] esta noticia”, já que, também segundo

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as suas palavras, “parece que lhes toca mais aos Portuguezes, que a outra nação do mundo, o dar-se conta desta generosa paixão”, a que, acrescenta ainda, “sómente nòs sabemos o nome [mais uma vez, a singularidade da palavra], chamando-lhe Saudade” (Melo/ saud.: 289). No resto do pará-grafo (pp. 289-290), tentará Melo explicar as razões dessa singularidade portuguesa em sentir a saudade, fundando-se na vida histórica da Nação, com as suas viagens transoceânicas, aquelas “dilatadas viagens” que “ocasionão as mayores ausencias” (p. 290). Tópicos estes que serão re-correntes, como todos nós sabemos, na Literatura Portuguesa posterior.

Desviando-se um pouco deste pendor “nacional” do sentimento sau-doso, e depois de um parágrafo (Melo 1660: 290) de fundo mais ou me-nos “escolástico” que, seja como for, nada ou pouco adianta sobre as re-flexões em torno da saudade, começa Melo o seu segundo e longo, pará-grafo importante (Melo 1660: 290-292) que, de facto, achamos ser o nú-cleo fundamental do seu discurso. Um parágrafo em que a saudade é con-cebida como sentimento de dimensão universal, vincadamente espiritua-lista e entendido mesmo como uma via de acesso à Salvação. O parágrafo em causa (no fim de contas, aquele para que Eduardo Lourenço reclama-ria todo um ensaio) começa logo por caracterizar a saudade como senti-mento contraditório na sua essência, a dizer que “he a Saudade hûa mi-mosa paixão da alma, & por isso tão sutìl, que equivocamente se experi-menta, deixando-nos indistinta a dor, da satisfação. He hum mal de que se gosta, & hum bem que se padece” (Melo/ saud.: 290-291). Mal de que se gosta? Bem que se padece? Quem poderá não lembrar, a propósito desta percepção contraditória sobre a saudade, a visão que, do amor desta vez, plasmou Camões no seu imortal soneto, “Amor é um fogo que arde sem se ver”? Repetem-se ali caracterizações acerca do amor que “é um con-tentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer”, “é nunca conten-tar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder”, etc. (Camões 1994: 119). Preciso será recordar que, de facto, o poema camoniano foi largamente conhecido por toda a Península Ibérica, a ponto de achar um ilustríssimo parafraseador em castelhano, na figura de D. Francisco de Quevedo y Villegas, nada menos que o “pai espiritual”, se não me enga-no, de D. Francisco Manuel de Melo;2 pois Quevedo verteu o soneto para

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Sobre a importância das influências de Quevedo em Melo (lembre-se que Melo escolheu o poeta espanhol como um dos seus interlocutores nos Apólogos

Dialo-gais), e o relacionamento entre eles, cfr. a obra de Antonio Bernat Vistarini (Bernat

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castelhano no seu “es hielo abrasador, es fuego helado”; ali lembra que o amor “es herida que duele y no se siente/ es un soñado bien, un mal pre-sente”, “un descuido que nos da cuidado” (Quevedo 1988: 138), etc. Inte-ressa-nos sobretudo salientar o carácter, fundamentalmente espiritual com que a saudade é enxergada neste segundo parágrafo de Melo, onde tal estado de ânimo chega a ser mesmo visto como um “legitimo argumento da immortalidade de nosso espiritu”, pois ela nos revela que “fóra de nós, ha outra cousa, melhor que nòs mesmos, com que nos desejamos unir” (Melo/ saud.: 291).

Nesta dupla vertente das suas ideias em torno da saudade, o trecho de Melo pode e deve, em nossa opinião, ser considerado um precedente do discurso saudosista do autor talvez mais importante entre aqueles que consagraram a sua vida às especulações sobre a saudade: Joaquim Teixei-ra de Vasconcelos, universalmente conhecido por seu nome literário, co-mo Teixeira de Pascoais. Neste últico-mo, achareco-mos plenamente desenvol-vidas as duas vertentes do pensamento saudoso, id est, a saudade enquan-to peculiaridade nacional da alma lusíada, e a saudade enquanenquan-to senti-mento universal que liga a alma à Divindade. Não será preciso ir à procu-ra de exemplos: estas duas vertentes repetem-se constantemente na obprocu-ra do exímio poeta amarantino. Há, sim, uma diferença fundamental: a de ser Melo um escritor mais conhecido, talvez, pela sua obra em prosa do que por aquela que escreveu em verso, ao passo que Pascoais, que bastan-te prosa escreveu, é sobretudo um grande poeta, mesmo nas suas prosas. Todavia, a lírica de Pascoais revela toda uma concepção de fundo vaga-mente filosófico (digo “vagavaga-mente” apenas porque tudo em Pascoais é, conscientemente vago, difuso, enigmático), forjada arredor do seu pen-samento especulativo sobre este sentimento. Além disto, o discurso de Melo não passa, no fundo, de um esboço de teoria sobre a saudade, a con-trastar com a Teoria Saudosista amplamente desenvolvida nos escritos pascoalianos, assente esta numa concepção dinâmica, agonística, sobre a saudade, de matriz claramente vitalista (mais virada, sem dúvida, para o Vitalismo de Bergson, marcado pela sua tese sobre o élan vital, do que para o Vitalismo nietzschiano) e que explica este estado anímico como resultante de uma tensão, criadora e espiritual, entre as forças opostas da Lembrança e do Desejo.

Frisemos ainda uma outra diferença, talvez mais aparente do que verdadeira: a novidade de o poeta do Tâmega ter sido o primeiro escritor na História (talvez com a única excepção da Menina e Moça, de Bernar-dim Ribeiro), a construir todo um universo mítico em que a saudade en-carna. Uma História Mítica a explicar, de maneira poética e fabulosa, as

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origens, a vida e a imortalidade da Saudade. Esta História Mítica, quase que História Sagrada da religião pascoaliana, exprime-se sobretudo no Regresso ao Paraíso e, maximamente, na sua grande epopeia saudosa, o Marânus (Pascoais s.d.: 161-303). Queremos, porém, lançar aqui a se-guinte pergunta: será que Pascoais foi deveras o primeiro (salvo o ensaio precursor de Bernardim) a ter tentado construir uma autêntica e completa mitologia da saudade, para usarmos (porém no sentido mais estrito do termo “mitologia”) a expressão de Eduardo Lourenço?

A nossa interpretação da Epanáfora Amorosa, que aqui tentaremos defender, visa a compreensão desta obra de Melo, no seu conjunto, e no-meadamente na sua primeira parte, como um relato tecido, do mesmo modo que o Marânus pascoaliano, com o intuito consciente de estabele-cer uns aliestabele-cerces míticos a servir de base para a ideia da existência do sentimento saudoso. Para isto, porém, será preciso contextualizar devi-damente o trecho de Melo na obra em que ele aparece.

A reflexão de D. Francisco Manuel de Melo sobre a saudade insere--se numa obra de tipo histórico, a Epanáfora Amorosa, terceira das cinco Epanáforas de Vária História Portuguesa escritas pelo nosso autor. A Epanáfora Amorosa destina-se a historiar a descoberta da ilha da Madei-ra. Falando sobre as Epanáforas, e mais concretamente sobre a Epanáfo-ra Política e sobre a EpanáfoEpanáfo-ra Bélica, o investigador Bernat Vistarini declara que “para Melo, la historia es el género noble por excelencia” (Bernat Vistarini 1992: 120). Só que, diversamente às restantes, a Epaná-fora Amorosa não é apenas uma obra histórica, tratando-se antes de uma obra compósita. Com efeito, podemos dividi-la em duas partes: uma pri-meira, de tipo lendário, sobre os amores de Roberto Machim e Ana de Harfet, e uma segunda, esta sim, de teor propriamente histórico, sobre os factos verídicos referidos à história da descoberta da Madeira; dessas du-as partes, a primeira reveste-se de muito maior interesse literário (Cdu-astro s.d.: 23). Deveremos, pois, separar esta primeira parte, de tipo romanesco (poderíamos mesmo crismá-la de “romântica avant la lettre”), onde se contêm as passagens objecto do nosso estudo, da segunda, muito menos interessante do ponto de vista literário. De resto, esta bipolaridade assenta nas duas faces que a respeito do descobrimento da Ilha da Madeira, têm influenciado as obras literárias de diversos escritores portugueses, através da História da Literatura: a face lendária, com a história de Machim e Ana de Harfet, e a histórica, com o episódio marítimo protagonizado por Gonçalves Zarco, ou Zargo (Correia 2008: 118).

Para José Manuel de Castro (Castro s.d.: 21), a Epanáfora Amorosa é uma das obras de maturidade de um “grande escritor barroco”(o que faz

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lembrar a consideração com que o erudito lusitanista espanhol, José Ares Montes, se referira também ao nosso autor (Ares Montes 2003: 249 e ss.)). Datada à volta de 1654, só veio a ser publicada em 1660, juntamen-te com as outras quatro, no livro Epanaphoras de varia Historia Portu-gueza... (Prestage 1914: 297). A Epanáfora Terceira tem suscitado sem-pre um vivo interesse, muito maior do que as restantes quatro. Tal inte-resse deve-se sobretudo ao “ambiente sensacional em que se inseria o descobrimento da Madeira”, em palavras de José Manuel de Castro, razão pela qual esta Epanáfora beneficiou muito cedo de traduções para francês e inglês (Castro s.d.: 22). Do ponto de vista historiográfico, porém, a sua originalidade é muito fraca ou mesmo nula (ao invés das outras quatro, ou da narração sobre a Guerra da Catalunha), o autor tendo baseado os seus dados históricos, ao que parece, numa única fonte, que seguiu quase sem alterações, segundo pôs de manifesto, entre outros, Joel Serrão (Serrão 1977: XXXVIII): essa fonte terá sido a Relação de Francisco Alcoforado sobre a Descoberta da Madeira.3 Também pode ser na obra de Alcofora-do que Melo terá achaAlcofora-do as referências ao relato de Machim e Ana, narra-tiva esta que, porém, Melo elaborou literariamente, demonstrando a enorme capacidade da sua imaginação criadora.

Porque é, de facto, a narrativa concernente ao par inglês que mais tem atraído, e com razão justificada, a atenção dos leitores da obra que aqui andamos a estudar, chegando-se ao ponto de Estruch Tobella ter de-clarado que a Epanáfora Amorosa é basicamente uma “recreación litera-ria de la leyenda que atribuía el descubrimiento de Madeira a dos amantes ingleses” (Estruch Tobella 1996: 47), asserto que já tinha exprimido mui-to antes, por outras palavras, Edgar Prestage (Prestage 1914: 297).

Contudo, não foi Melo o primeiro autor português a explorar as vir-tualidades literárias que a história de Machim e Ana concentra. O autor açoriano, Gaspar Frutuoso (1522-1591), tinha já dedicado o Livro II das suas Saudades da Terra ao “descobrimento da Ilha da Madeira e suas adjacentes”, com 51 capítulos dos quais um, o quarto, narra a “história mais verdadeira e particular como o Ingrês Machim achou a ilha da Ma-deira” (Correia 2008: 120), trecho breve, mas que constitui um preceden-te de Melo no que diz respeito à elaboração lipreceden-terária da lenda. Esta preceden-teve

3

Segundo João David Pinto Correia, D. Francisco Manuel de Melo afirmava ter na sua posse o manuscrito de Francisco Alcoforado sobre a descoberta da ilha da Ma-deira, que teria sido a sua fonte principal para a Epanáfora Amorosa (Correia 2008: 121).

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uma grande fortuna literária, pois será repetida, depois de Gaspar Frutuo-so, em todos os escritores que nas suas obras se têm debruçado sobre a história da descoberta da ilha, tais como Manuel Tomás, na sua Insulana (Correia 2008: 125), publicada em 1635 (anterior, pois, à obra de Melo) ou, já nos inícios do século XIX, na Zargueida, de Francisco de Paula Medina e Vasconcelos, poema épico publicado em 1806 (Correia 2008: 132-134). Coube, porém, a D. Francisco M. de Melo, com a sua Epanáfo-ra Amorosa, a honEpanáfo-ra de ser o escritor português que fez entEpanáfo-rar na LiteEpanáfo-ra- Litera-tura, (com maiúsculas), de expressão portuguesa (Correia 2008: 122), a fábula do casal inglês, completando-a com a relação do descobrimento histórico do arquipélago por Zarco, Bartolomeu Perestrelo e Tristão Vaz Teixeira, que o autor foi colher à narrativa que destes mesmos assuntos fizera Alcoforado, e que conservamos no manuscrito de Vila Viçosa (Correia 2008: 122).

A lenda conta como dois amantes ingleses, Roberto Machim e Ana de Harfet, fugiram da corte de Eduardo III de Inglaterra, atravessaram os mares e chegaram às costas da Madeira, onde, primeiro ela, depois ele, ambos encontrariam a morte; os seus companheiros de viagem rumaram à costa africana, onde encontraram um marinheiro espanhol, José de Mora-les, que teria comunicado o achamento da ilha aos portugueses (Correia 2008: 122-123). Na época em que D. Francisco Manuel de Melo escreve, os britânicos, aliados de Portugal durante e após a Guerra de Restauração, pretendiam conseguir dos portugueses a Ilha da Madeira. Ora a lenda de o casal inglês ter arribado às costas madeirenses antes dos portugueses, e o facto de Melo repetir essa estória na sua Epanáfora, terá provocado as duras críticas de alguns intelectuais portugueses, que nisso viram uma suposta atitude “antipatriótica”; críticas, de resto, absolutamente gratui-tas, segundo Edgar Prestage (Prestage 1914: 297 e ss.). De facto, a histó-ria dos amores de Machim e Ana tem entrado em todas as obras literáhistó-rias sobre a descoberta da Madeira, e isso, segundo João David Pinto Correia, porque o assunto foca temas fundamentais da Literatura Universal, como sejam – segundo as suas palavras – “o Amor fiel articulado com a Morte, [...] a Aventura no Desconhecido ou, se quisermos, a Aventura no Tene-broso Desconhecido” (Correia 2008: 118), causa esta – ainda segundo Pinto Correia – para os escritores portugueses (e Melo entre eles) terem incluído o assunto nas suas obras, “sem sequer se perguntarem se tal his-tória pretenderia pôr em causa os nossos direitos [id est, de Portugal] ao arquipélago” (Correia 2008: 118). Para além disso, o ambiente madeiren-se, com a sua natureza selvagem e vicejante, representava um marco idí-lico a perfazer o quadro romântico de amores desgraçados, apaixonados e votados a uma arriscada aventura além dos mares (Castro s.d.: 23).

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Com este material, Melo constrói uma história de paixões que não se compara a nenhuma outra obra saída da sua pena. José Manuel de Castro chegou ao ponto de sublinhar as semelhanças registáveis entre a Epaná-fora Amorosa (na sua primeira parte) e as tragédias gregas, pela presença nela da ananke (o fatum latino, donde procede a palavra portuguesa fado, no seu sentido primitivo de “destino”) ou pela estória amorosa de Ma-chim e Ana, com os seus excessos, a sua hybris, que acabam por tornar a narrativa numa espécie de mythos, de fábula mítica a simbolizar o destino cruel dos amores desgraçados (Castro s.d.: 24).4 Ora o conceito desse amor desmesurado e excessivo devia chocar grandemente com a ideia de Melo sobre como deve ser o amor conjugal, ideia que aparece reflectida maximamente, no contexto da sua obra, na Carta de Guia de Casados (obra esta que se deve ler, do nosso ponto de vista, pela modelar edição de Pedro Serra (Melo 1996)).5 Os conselhos de Melo acerca do bom ca-samento centram-se sempre em recomendações de moderação e, sobretu-do, de prudência (Quiroga 1999: 1233-1234), tudo isso muito longe do furor trágico-amoroso desta narrativa trágico-marítima, com que Melo, homem ponderado e discreto, pode mesmo chegar a surpreender-nos. E, mesmo assim, Melo soube dar uma leitura “espiritual” ao relato do casal inglês. E conseguiu isto, precisamente, através da sua reflexão sobre a saudade, aí inserida.

Uma tragédia grega! Uma tragédia a ressumar ananke! Ou antes, uma tragédia portuguesa, a ressumar saudade? Já tivemos a ocasião de

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É claro que só parcialmente se pode subscrever este asserto de Castro. Como a Pro-fessora Evelina Verdelho muito plausivelmente assinalou durante a discussão poste-rior à leitura desta comunicação, existe uma importante diferença a afastar a ideia grega de tragédia, em relação à ideia de tragédia moderna, recolhida por Melo: a mudança da fatalidade (a ananke grega) pela responsabilidade individual, como motor principal do trágico; ideia que Melo recolhe ao dizer que fado é sobretudo aquele que o homem se faz. Nisto, a interpretação trágica de Melo mostra-se coe-rente, de resto, com o sentido trágico moderno, pelo menos desde Shakespeare, as-sente na responsabilidade pessoal e não num fatum sobrenatural. É, de facto, por isso que eu, no início do parágrafo seguinte, prefiro falar da Epanáfora Amorosa como “tragédia portuguesa”, em vez de “tragédia grega”.

5

Muito antes desta, tinha sido publicada a edição, também fundamental, de Edgar Prestage (Melo 1923). Interesse especial representa esta obra para o relacionamento entre as Literaturas das duas nações ibéricas, pois que, segundo tem assinalado o próprio Pedro Serra num seu artigo, a Carta de Guia de Casados beneficiou de lar-go sucesso na vizinha Espanha, nos séculos XVII a XIX, maior do que alcançou em qualquer outra nação do mundo (Serra 1999).

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sublinhar como as considerações de Melo entraram como que à força, como que uma digressão afastada do contexto, quase gratuita, nas páginas da Epanáfora Terceira. Ou talvez não? O facto de uma inglesa sentir saudades num barco que vai deixando para trás a pátria, talvez não seja motivo suficiente para elaborar, a partir daí, toda uma digressão sobre a saudade, mesmo caracterizando-a como sentimento genuinamente portu-guês. Porém, podemos ler o texto numa óptica totalmente diferente: os parágrafos sobre a saudade seriam o fulcro, o cerne da história dos amo-res de Machim e Ana. A saudade, no fim de contas, seria o “mistério” básico (numa perspectiva religiosa) a dar um sentido, uma via de reden-ção ao casal que morre tão saudosamente nas praias da formosa pérola do pessoano Mar Português. O par britânico está a encenar um mythos, uma história que pretende explicar, em termos míticos, a origem deste senti-mento. Ou será que algum de nós pensa que Melo considerava a história de Machim e Ana, como história “verdadeira”? Tanto como Camões acreditava na realidade das suas assembleias de deuses! Uma história, pois, sobre as origens míticas de uma “paixão da alma” que se quer por-tuguesíssima, porém, através de uma história protagonizada por ingleses? Ora, devemos lembrar neste momento que os tais ingleses são dois fugi-dos, por isso mesmo, apátridas, a sua vagabundagem por sobre as ondas do mar faz lembrar o “destino erradio da nação portuguesa” a que se refe-re Eduardo Lourefe-renço; enfim, eles são dois namorados que vivem num país ideal, fora do mundo. A descoberta da Madeira por tão singulares amantes, e a sua comunicação a um marinheiro espanhol que, por sua vez, o transmite aos portugueses que, graças a isso, podem acabar con-quistando e colonizando a Ilha, talvez não seja, nesta perspectiva mítica, a única oferta que Portugal recebeu dos desventurados náufragos. Com as notícias da descoberta da Ilha e da morte trágica do casal, talvez os por-tugueses tivessem também recebido o presente do sentimento que se quer o “mais português do Mundo”, e que os compatriotas dos amantes, preci-samente por os terem obrigado ao exílio, não mereceram conhecer.

D. Francisco Manuel de Melo considera, no seu famoso parágrafo, que a saudade é, essencialmente, indício claro de puro amor: “pello que diremos que ella he hum suâve fumo do fogo do Amor & que, do proprio modo que a lenha odorifera lança hum vapor leve, alvo & cheiroso, assi a Saudade, modesta & regulada, dâ indicios de hum Amor fino, casto & puro” (Melo/ saud.: 291). Não será essa, justamente, a perspectiva de sal-vação que resta a dois peregrinos, destinados fatalmente a uma morte por amor? Precisamente porque, atingindo através da saudade o cerne do seu desejo amoroso, atingem, como propositadamente antecipa D. Francisco

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Manuel no seu célebre parágrafo, “a immortalidade de nosso espiritu” (Melo/ saud.: 291). Porque, como sabemos pelo celebérrimo final do Ma-rânus de Pascoais, “tudo, tudo há-de passar, enfim/ o homem, o próprio mundo passará,/ mas a Saudade é irmã da Eternidade” (Pascoais s.d.: 303).

Apêndice

Transcrevemos em seguida os parágrafos que D. Manuel de Melo dedicou à saudade, na sua Epanaphora Amorosa. Baseámo-nos, para tal, na edição de 1660, nas Epanaphoras de Varia Historia Portugueza..., lida em edição fac-similada (Melo 1660), como temos salientado ao longo do nosso artigo. A transcrição é feita com o máximo respeito pela ortografia da época, a modificar apenas aqueles traços gráficos seiscentistas que, quer por dificuldade de representação pelos meios informáticos, quer por empecerem demasiadamente a leitura fluida do texto, considerámos per-tinente actualizar: 1) troca de –u– consonântico por –v– e de –v– vocálico por –u-, 2) desenvolvimento de abreviaturas, ou de marcas de nasalidade vocálica perante consoante, ou em fim de palavra (sempre a usar itálicos: “que” por “q” encimado de til, “tanto” por “tãto”, etc.), 3) modernização da pontuação, e 4) deslocação do til, nos ditongos nasais, da segunda vo-gal para a primeira, segundo a norma actual (por exemplo, “união” por “vniaõ”). O til sobre “u”, que provoca certas dificuldades na execução informática, foi substituído por acento circunflexo (na palavra “hûa”); a solução não deve causar transtornos na leitura, pois que o “u” não aceita, em português, acento circunflexo (nem aceitava, ao que julgo, na época de D. Francisco Manuel de Melo).

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Discurso de D. Manuel de Melo sobre a Saudade (Epanaphora Amorosa, pp. 289-292).

E pois parece que lhes toca mais aos Portuguezes, que a outra nação do mundo, o dar-se6 conta desta generosa paixão, a quem sómente nòs sabemos o nome, chamando-lhe Saudade, quero eu agora tomar sobre mi esta noticia. Florece entre os Portugueses a saudade por duas causas, mais certas em nòs que em outra [p. 289/ p. 290] <outra> gente do mundo, porque de ambas essas causas tem seu principio: Amor & Ausencia são os pays da saudade; & como nosso natural he entre as mais nações conhecido por amoroso, & nossas dilatadas viagens ocasionão as mayores ausencias, de ahi vem que, donde se acha muyto amor & ausencia larga, as saudades sejão mais certas, & esta foi sem falta a razão porque entre nós habitassem, como em seu natural centro. Mas porque tenho por certo que fui eu o primeiro neste reparo, parece que não serà reprehensivel que me detenha algum tanto, por fazer a notomía em hum afecto, o qual ainda que padecido de todos, não temos todavia averiguado, se compete às injurias, ou aos beneficios, que do amor recebem os humanos; ou se, sem amor, tambem se pódem experimentar saudades.

Do Amor, houve quem disse: “era o unico afecto da nossa alma; porque até o Odio, que he do Amor a cousa mais dessemelhante, se afirma ser o mesmo Amor; porque he certo que ninguem póde ter Amor a hûa cousa, que não tenha odio à cousa que for contraria âquella que ama; ou de outro modo: ninguem pode odiar hûa cousa, que não ame aquella cousa contraria da que aborrece. Se esta regra fosse certa (de cuja validade não disputo) bem se seguia que, sem Amor, não póde haver saudade. Com tudo, nós vemos que muytas vezes a saudade se contrahe com cousas que, antes da saudade, não amavamos.

He a Saudade hûa mimosa paixão da alma, & por isso [p. 290/ p. 291] <isso> tão sutìl, que equivocamente se experimenta, deixando-nos indistinta a dor, da satisfação. He hum mal de que se gosta, & hum bem que se padece; quando fenece, troca-sse a outro mayor contentamento, mas não que formalmente se extinga:

6

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porque se sem melhoria se acaba a saudade, he certo que o amor & o desejo, se acabârão primeiro. Não he assi com a pena: porque quanto he mayor a pena, he mayor a saudade, & nunca se passa ao mayor mal, antes rompe pellos males, conforme sucede aos rios impetuosos conservarem o sabor de suas agoas muyto espaço despois de misturar-se com as ondas do mar, mais opulento. Pello que diremos que ella he hum suâve fumo do fogo do Amor & que, do proprio modo que a lenha odorifera lança hum vapor leve, alvo & cheiroso, assi a Saudade, modesta & regulada, dâ indicios de hum Amor fino, casto & puro. Não necessita de larga ausencia: qualquer desvio lhe basta, para que se conheça; assi prova ser parte do natural apetite da união de todas as cousas amaveis & semelhantes, ou ser aquella falta, que da devisão dessas taes cousas procede. Compete por esta causa aos racionaes, pella mais nobre porção que ha em nós, & he legitimo argumento da immortalidade de nosso espiritu, por aquella muda illação que sempre nos está fazendo interiormente, de que, fóra de nós, ha outra cousa, melhor que nòs mesmos, com que nos desejamos unir, sendo esta tal a mais subida das saudades humanas – como se dissessemos hum desejo vivo [pp. 291/ 292] <vivo>, hûa remenicencia forçosa, com que apetecemos, espiritualmente, o que não havemos visto jâmais, nem ainda ouvido, &, temporalmente, o que está de nòs remoto, & incerto; mas hum & outro fim, sempre debaixo das primissas de bom & deleitavel. Esta he, em meu juizo, a theorica das saudades, pellos modos que, sem as conhecer, as padecemos, agora humana, agora divinamente.

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DOM FRANCISCO MANUEL DE MELO

E A PICARESCA: RELÓGIOS, MOEDAS, FONTES

E LIVROS FALANTES

Artur Henrique Ribeiro Gonçalves

(Centro de Estudos Linguísticos e Literários da Universidade do Algarve)

Os pícaros vão, que por cá, aonde eu estou, não faltam pícaros. Cartas Familiares (…) y ni pedir un perdón, han querido hacer esos pícaros, tan des-arropados, como vuestra paternidad los pinta (…) ni es ya tiempo de andar con más pláticas con pícaros, como lo verá y averiguará que lo son, y muy viles. Epanáfora Política I: Alterações de Évora Apolo. Vedes isto? Mas quando vai, que se pica, também este pícaro de trovador? Ora o mundo há mister uma calda? Apólogo Dialogal III: Visita das Fontes

É sobejamente conhecida a antipatia assumida por Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666) pelos Livros Mentirosos, fossem eles de Cavalaria, de Novelas ou de Aventuras. Por diversas vezes e em distintos locais os condena veementemente com palavras revestidas de bem--disposta ironia e incontido sarcasmo. A atitude altera-se por completo quando se refere aos Livros de Pastores, que coloca sempre nos mais al-tos píncaros da República das Letras. Esta atitude benevolente do autor dever-se-á, com toda a probabilidade, à associação canónica do prosíme-tro a esta categoria literária. As formas versificadas, de facto, continua-vam a ecoar muito forte nas preceptivas estéticas de Seiscentos.

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A recusa de reconhecer qualidade poética ao género novelesco sur-ge-nos documentada um pouco em toda a sua obra, com especial relevo na Carta de Guia de Casados (Lisboa: 1651). Entre as diversas reflexões pessoais de cariz literário que endereça ao primo, Dom Francisco de Me-lo, destaca-se a visão profundamente misógina que associa a esse tipo de livros e à acção perniciosa que exerceriam nas potenciais leitoras. É o que

se passa, v. gr., quando afirma categoricamente: «Juro a V. M.ce que toda a vida me enfadaram as damas dos livros de cavalarias, porque sempre as achava acompanhadas de cachorros, de leões e de anões. Tão inimigo sou destas tais sevandilhas, que nem em livros mentirosos as sofro. Veja V. M.ce que será das coisas verdadeiras?» [p. 80]. Um pouco mais à frente, volta à carga, confidenciando:

Ainda fico com escrúpulos sobre a lição em que muitas se ocupam. O melhor livro é a almofada, e o bastidor; mas nem por isso lhe negarei o exercício deles. Estas que sempre querem ler comédias, e que sabem romances delas de cor, e os dizem às vezes entoadas, não gabo. Outras são mortas por livros de novelas; tais pelos de cavalarias. Aqui é mais perigosa a afeição que o uso. [p. 91].1

Todavia, a crítica mais mordaz que Dom Francisco Manuel de Melo profere contra as leitoras / livros de novelas encontra-se sintetizada num breve conto de cariz jocoso e exemplar, tantas vezes citado e comentado, que não resistimos a transcrever apesar da sua extensão:

Caminhava por Espanha, e entrando em uma pousada, bem cheio de neve, não houve algum remédio para que a hóspeda, ou suas fi-lhas, que eram duas, me quisessem abrir um aposento, em que re-colher-me; e quanto eu mais apertava, me desenganavam melhor do que nenhuma se levantaria de onde estava, sem acabar de ouvir ler certa novela, cuja história ia muito gostosa e enredada. E tal era a sofreguidão com que ouviam, que nem ameaçando-as com que iria a outra pousada quiseram desistir de seu exercício, antes me convidavam que ouvisse os lindos requebros que Cardénio estava dizendo a Estefânia; que tudo isto rezava a boa da novela. Enfim

1

Cf. Cristóbal de Villalón [?], El Crótalon [séc.xvi]. Ed. de A. Rallo. Madrid: Cáte-dra, 1982, ct.º v, p. 170: «(...) Porque solamente se ocupan [damas] en invençiones de traxes, justas, danças y bailes; y otras a la sombra de muy apazibles árboles no-velan, motejan, ríen con gran solaz: cual demanda cuestiones y preguntas de amo-res, hacer sonetos, coplas, villançicos, y otras agudeças en que la contia reçiben plazer».

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eu me fui apear a outra parte, e voltando em breve tempo por aque-le lugar, e perguntando pela curiosa aque-leitora e ouvintes, me disseram que muitos poucos dias depois as novelas foram tanto adiante, que cada uma das filhas daquela estalajadeira fizera sua novela, fugin-do com seu mancebo fugin-do lugar, como boas aprendizas da fugin-doutrina que tão bem estudaram. [pp. 91-92].2

Como se depreende, o que levava o redactor da Carta de Guia de Casados a reprovar a novela, de a considerar como uma literatura menor e pouco viril, centrava-se sobretudo no facto de atrair a atenção das mu-lheres (casadas e solteiras), desviando-as, por conseguinte, das activida-des então tidas como indubitavelmente femininas e que os preceitos da época recomendavam com grande empenho e espírito educativo, a «al-mofada» e o «bastidor», como ficou dito.

Uma estratégia mais subtil e eficaz consistia na ausência de qualquer tipo de menção ao género novelesco, na redução do género proscrito ao mais profundo ostracismo. A habilidade foi seguida de forma sistemática nas Cartas Familiares (Roma: 1666), em que novelas e novelistas foram pura e simplesmente ignorados, como se, de facto, não existissem ou não fizessem falta ao mundo das letras. Várias são as alusões à poesia e aos poetas, às tertúlias e certâmenes literários, às obras que iam sendo publi-cadas, as próprias e as alheias, por vezes acompanhadas de efectivas re-censões críticas do autor e conselhos aos candidatos à arte da escrita, so-bretudo aos mais jovens. Na carta dirigida «Ao Dr. Manuel Temudo da Fonseca, Vigairo Geral do Arcebispado de Lisboa», datada de 24 de Agosto de 1650 [Carta 414], Dom Francisco Manuel de Melo vai mais longe e compõe um autêntico «Catálogo de Personalidades Literárias» que deveria conduzir à publicação de uma «Biblioteca Lusitana dos Auto-res Modernos». As celebridades destacadas pululam, mesmo a de conhe-cidos novelistas, como Francisco Rodrigues Lobo, António Henriques Gomes, Fernando Álvares do Oriente ou Soror Violante do Céu. Esses nomes sonantes são referidos, é verdade, mas sempre como poetas consa-grados e no âmbito da poesia pura. O próprio Félix Machado de Silva e

2

Cf. João de Barros, Espelho de Casados, introduçam, folh. IV (ed. 1874), apud E. Prestage, D. Francisco Manuel de Mello: Esboço Biographico. Reed. fac-similada. Lisboa: Fenda, 1996, p. 62, nota 1: «Quando os mancebos começam a ter entendi-mento do mundo, gastam o tempo em livros muy desnecessarios e pouco proveito-sos para si nem para outrem, asi como na fabulosa historia de amadis, nas patranhas do Santo graal, nas sensaborias de palmeirim e primalion e florisendo e outros asi que haviam mister totalmente exterminados».

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Castro e Vasconcelos, 1.º Marquês de Montebelo, com quem Dom Fran-cisco Manuel de Melo se terá cruzado em mais do que uma ocasião nos mentideros da corte de Madrid, chega a ser referido, não como o continu-ador da Terceira Parte do Guzmán de Alfarache, não como um artífice de Livros de Pícaros, mas sim como uma autoridade nos Livros de Linha-gens da nobreza portuguesa. Entre a autobiografia dos Livros de Histórias Fingidas e a biografia dos Livros de Histórias Verdadeiras, a preferência vai directamente para a segunda hipótese. O projecto é apontado uma ou-tra vez na carta, sem data, dirigida «A[o]s varões doctos de Portugal. Pe-dindo-lhe[s] informação dos autores que escreveram, para se formar a Biblioteca Portuguesa» [Carta 558], que se tivessem destacado em «qual-quer ciência, arte, faculdade e disciplina», mas a conspiração do silêncio volta a ecoar. Sobre a novela e os novelistas nada.

O panorama não se altera por um único momento no Hospital das Letras (1657), com a agravante de a extensão do Apólogo tornar mais audível o mutismo do autor sobre o assunto, de converter as falas dos LI-VROS dialogantes (Lípsio, Bocalino, Quevedo e o próprio Dom Francisco Manuel de Melo)3 numa lídima conversa de surdos travada, pelo menos no que à ficção novelesca em prosa de amor e aventuras peregrinas se refere. Em contrapartida, não se inibem de tecer os mais rasgados elogios à poesia lírica e épica que então grassava ou à comédia versificada, «gen-til parte de toda a poesia» [p. 115], e de dedicar alguma atenção aos rela-tos de pendor pastoril, em que a prosa andava de mão dada com os ver-sos. Destacam a «celebradíssima» Diana de Jorge de Monte Maior [p. 131], acrescentam «a musa estrepitosa» de Fernão Álvares do Oriente na Lusitânia Transformada [p. 182], citam a Arcádia e a Dorotea de Lo-pe de Vega, mas omitem o bizantino El Peregrino en su patria deste mesmo novelista. De Miguel de Cervantes, limitam-se a considerá-lo co-mo «Poeta infecundo, quando felicíssico-mo prosista» [p. 135], dispensando--se de registar os títulos das obras maiores que nos deixou: El Ingenioso Hidalgo don Quijote de la Mancha, Los Trabajos de Persiles y Sigismun-da, ou, mesmo, as Novelas Ejemplares. Quanto a don Francisco de Que-vedo, a alusão à única novela que compôs é feita de forma indirecta, quando o próprio escritor castelhano, na qualidade de Autor de Livros e

3

D. Francisco Manuel de Melo, na didascália inicial do «Hospital das Letras», in

Apólogos Dialogais. Ed. de José Pereira Tavares. Lisboa: Livraria Sá da Costa

Edi-tora, 1959, vol. II, p. 81, clarifica o estatuto dos dialogantes, documentando: «Apó-logo Dialogal Quarto // Em que são interlocutores os livros de Justo Lípsio,

(31)

interlocutor do Apólogo Dialogal, a nomeia explicitamente, através da crítica feroz que dirige à «transmigração» mais conhecida do El siglo pi-tagórico y vida de don Gregorio Guadaña (1644), do novelista marrano peninsular António Henrique Gomes,4 a quem Trajano Bocalino, algumas falas antes, já havia mimado como «autor português, enchertado de mon-sieur» [p. 242].5 Mas oiçamos a forma como o mestre das letras castelha-nas, imaginado por Dom Francisco Manuel de Melo, organiza a sátira: «Esse Gomes é mais meu lacaio; do que já decidiram atrevidos entre Avicena e Escoto. Assim foi em mil partes, mas agora mais em seu Gre-gório Gadanha, em que quis retratar o meu Pablos, el Buscón, já poeta, já satírico. Dou ao pecado tal autor, por lhe não dar os pecados a ele, visto que lhe não faltam em seus escritos» [pp. 242-243].

Curiosamente, e contra tudo o que seria de esperar, ao arrolar a tota-lidade da sua obra pessoal no Hospital das Letras, Dom Francisco Manu-el de MManu-elo não se coíbe de aí incluir o nome de duas «novManu-elas», cujos títulos, em português (As finezas mais logradas) [p. 202] e castelhano (Verano en Sintra) [p. 203], nos remetem, acto contínuo, para a esfera da ficção novelesca cortesã, tão em voga na época. O carácter algo enigmá-tico das etiquetas «novela» e «novela de novelas»,6 com que o coloquian-te distingue um livro do outro, leva-nos a pensar que se trataria de subgé-neros distintos, cabendo a primeira na classe das novelas curtas ou singu-lares e a segunda na das longas ou compósitas.7 Seja como for, a

4

Sobre a nacionalidade castelhana de António Henrique Gomes, tido nas Cartas

Familiares e nos Apólogos Dialogais como português, vd. I. S. Révah, Antonio En-ríquez Gómez. Un écrivain marrane (v. 1600-1663). Édition de Carsten L. Wilke.

Paris: Éditions Chandeigne – Librairie Portugaise, 2003. 5

Cf. D. Francisco Manuel de Melo, Carta 414 dirigida «Ao Dr. Manuel Temudo da Fonseca, Vigairo Geral do Arcebispado de Lisboa», in Cartas Familiares. Ed. de Maria da Conceição Morais Sarmento. Lisboa: IN/CM, 1981, p. 414: «António Gomes Henriques [sic], que bem conhecem os tipos de França». Vd. nota anterior. 6

Cf. a etiqueta «Novela de novelas» com o curioso título Cuento de cuentos (1626) encontrado por don Francisco de Quevedo para nomear uma das suas obras de críti-ca literária.

7

A listagem de novelas inéditas poderá ser ampliada com o registo de outros títulos identificados pelos estudiosos de D. Francisco Manuel de Melo. José Pereira Tava-res, por exemplo, regista, na sua edição dos Apólogos Dialogais, vol. II, p. 203, no-ta I, a Dama Negra, já elencado por Carolina Michaëlis de Vasconcelos nas Nono-tas

relativas a manuscritos da Biblioteca da Universidade de Coimbra. Por seu turno,

Edgar Prestage, in op cit., pp. 598-600, considera: Triunfo de la Innocencia, Las

(32)

ve-ção para a produve-ção desses textos, hoje perdidos, ter-lhe-á sido com cer-teza fornecida pela própria vida de soldado, político, diplomata e corte-são, pela experiência que terá colhido na pricorte-são, no exílio, no campo de batalha, nos paços reais, nas academias literárias, nas viagens por terra e por mar, nos ambiente sofisticados da Europa e nos exóticos do Brasil. Um pouco por todo o lado, em suma. Uma outra hipótese mais verosímil poderá perfeitamente situar esses títulos na categoria dos projectos nunca concretizados pelo polígrafo.

Paradigma por excelência do universo barroco peninsular,8 a vida de Dom Francisco Manuel de Melo daria para compor uma convincente no-vela de aventuras / desventuras, em que as vertentes cortesã e pícara dis-putariam entre si o predomínio e os favores do público leitor, masculino e feminino. Se quisermos empregar a enigmática expressão supra mencio-nada, uma genuína «novela de novelas». Fixemo-nos, contudo, no episó-dio que o privou da liberdade por mais de uma década (1644-1655), quando se vê envolvido no assassinato de Francisco Cardoso e é levado a experimentar o desconforto dos cárceres portugueses e do degredo brasi-leiro. A aplicação de uma sentença tão pesada está ainda por esclarecer, mormente a tese registada por Inocêncio Francisco da Silva, no Diccioná-rio Bibliográfico Portuguez, que a atribuía a uma relação amorosa secreta mantida pelo escritor e o soberano com uma dama casada, que terminara, à semelhança das comédias de capa e espada, em duelo, quando os dois se terão inadvertidamente encontrado uma noite em frente da casa da ale-gada amante comum.9

A experiência pessoal de naufrágios, perseguições e peregrinações vários poderá explicar o interesse de Dom Francisco Manuel de Melo pela história de amor e morte vivida por Roberto o Machino e Ana de Arfert, descobridores lendários da Ilha da Madeira. Partindo da matéria

rano en Sintra, La Dama Negra (cf. supra a versão/variante portuguesa da novela)

e Las noches escuras. 8

Ménendez Pelayo, v. gr., considerava-o, na Historia de las ideas estéticas en

Espa-ña (1940), «el hombre de más ingenio que produjo la Península en el siglo xvii, a

excepción de Quevedo»; apud Joan Estruch Tobella, «Introducción Biográfica y Crítica» a Francisco Manuel de Melo, Historia de los Movimientos, Separación y

Guerra de Cataluña. Madrid: Castalia, 1996, p. 7.

9

O episódio mereceu a atenção dos mais diversos vultos da cultura peninsular, tendo sido ampliado por Camilo Castelo-Branco, estudado por Edgar Prestage, comentado por Fidelino Figueiredo e resumido por J. Estruch Tobella, in op cit., pp. 17-19 e segs.

(33)

tratada na Relação de Francisco Alcoforado, o nosso autor adapta-a ao gosto do tempo, atribui-lhe uma estrutura novelesca e insere-a nas Epaná-foras de Vária História Portuguesa (1660).10 Por outras palavras, procede à metamorfose dum Livro Mentiroso num Livro de Verdade mais que duvidosa. Não nos cabe aqui ajuizar das reais intenções que terão levado o historiador abalizado que então já era a considerar a Epanáfora Amoro-sa como um texto histórico e a afastá-lo, por conseguinte, da órbita estrita da ficção literária. Limitemo-nos a aproximar o argumento fantasioso desenvolvido no texto do esquema específico da tessitura discursiva da típica da novela exemplar barroca, aquela que se desenvolvia através da agremiação alternada de apontamentos estruturais próprios dos modelos bizantino, cortesão e sentimental. Os dois co-protagonistas vêem-se, amam-se e criam invejas e inimizades que conduzem à prisão do herói e ao casamento contrariado da heroína; encetam uma fuga conjunta por mar, enfrentam uma tempestade e naufragam; já em terra firme e desco-nhecida (a Ilha da Madeira), sucumbem aos infortúnios trágicos da vida, morrem um a seguir ao outro e são sepultados lado a lado. A crónica de amor e morte estava concluída e pronta a ser apresentada ao público lei-tor, não como um Livro de Histórias Fingidas, mas sim como um Livro de História Verdadeira. É que, tal como afirma na dedicatória «Escritta a hum amigo», se trataria de um dos mais notáveis «casos de Amor, & de ousadia» a merecer um reconhecimento universal e perpétuo que «Fran-cisco Alcaforado, escudeiro do Infante D. Henrique, fez de todo o suces-so (...) tam chea de singileza, como de verdade» [pp. 275-276, 278].

Em presença do exposto, fique-nos a consolação de que a aversão que Dom Francisco Manuel de Melo nutria pelos Livros Mentirosos em prosa não incluía a totalidade dos Livros Picarescos. Presumivelmente por serem protagonizados por seres bem reais que ele tão bem conhecia e com quem convivia no dia-a-dia. Os «pastores» novelescos já haviam sido poupados à sanha satírica do escritor e crítico literário, simplesmente por pertencerem ao mundo idealizado dos poetas que em nada se confun-dia com o mundo real dos leitores (ou leitoras, se preferirmos). Apesar de

10

Na dedicatória «Escritta a hum amigo» não identificado, com que inicia a «Epa-naphora Amorosa Terceira», D. Francisco Manuel de Melo testemunha o apreço que tinha pela história dos dois amantes ingleses, referindo textualmente: «a qual Relação original, eu guardo, como joya preciosa, vindo à minha mão por extraor-dinario caminho». Vd. «Apêndice Documental» de Joel Serrão a D. Francisco Manuel de Melo, Epanáforas de Vária História. Lisboa: IN/CM, 1977, pp. 603--615.

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em nenhuma parte se referir aos «pícaros» com inequívoca simpatia (muito pelo contrário), também nunca os hostiliza ou ostraciza delibera-damente. Aliás, mesmo que o quisesse fazer, sentiria alguma dificuldade. Seria como se estivesse a negar a própria realidade, a trair a autenticidade histórica que tanto prezava, a cometer um erro que o seu amor à verdade jamais permitiria. Veja-se, a este propósito, as referências explícitas que lhes dispensa nas Cartas Familiares, na Epanáfora Política e na Visita das Fontes, que destacámos nas epígrafes iniciais.

Contudo, o caso mais flagrante do universo pícaro seiscentista está porventura ilustrado na «carta familiar» dirigida «A um ministro amigo. De intercessão», em que a conhecida arte e manha tantas vezes retratada pela ficção novelesca é relatada com inimitável ironia a partir de um caso colhido da própria realidade quotidiana. O argumento de uma genuína História da vida de don Diogo Catite e das suas fortunas e adversidades aí está à disposição do leitor, como se deixa ver pelo extracto abaixo:

Dom Diogo Catite, que eu já conheci sem Dom e cuido que sem Diogo, tal o tenho conhecido, vai a essa cidade em busca de «cier-tos dinerillos» (como ele diz). Não tivera ele seus debruns de co-mediante, se fora tão parvo que, havendo de ir a essa cidade, me não pedira estas regras para V. S.. Servirão de carta de crença para que V. S. crea que Catite é um grande velhaco, e tal que merece lhe mande V. S. fazer boa passagem, pois com tudo isto tem asso-mo de homem de bem, e vai de quando em quando ao Brasil e traz tabaco que lhe importa cento e mais mil réis; cujos amores o levam por terras alheas, que isso fazem os amores. Este é Catite e eu tal que lhe estou tomando a V. S. o tempo com esta relação. Toda a mercê que V. S. lhe fizer para que se lhe faça justiça (além de que a Justiça folgará muito) terei eu por muito minha, não sendo para desprezar havermos visto que se vai de Lisboa buscar ao Porto jus-tiça, mercê, graça, dinheiro. [Carta 543, pp. 523-524].

A incursão de Dom Francisco Manuel de Melo pelo universo da pi-caresca reparte-se, pois, por dois jeitos diferentes de encarar a autobiogra-fia: o pessoal, através da alusão esporádica a criados, cozinheiros e moços que foi tendo ao longo da vida (Cartas Familiares, Epanáforas de Vária História Portuguesa e Carta de Guia de Casados); e o burlesco, através da criação sistemática de verdadeiros pícaros, ainda que disfarçados de relógios, moedas, fontes e livros falantes (Apólogos Dialogais). Em qual-quer dos casos, a opção novelesca tradicional é radicalmente excluída. Desconhecemos as razões de tal atitude: se terá constituído uma

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delibera-ção intencional do ficcionista ou se terá sido fruto do mero acaso. O ca-rácter heterogéneo da obra publicada deverá afastar, todavia, a hipótese pouco crível da inépcia do polígrafo para a criação de uma lídima novela.

Depois, há sempre a possibilidade de encarar outros motivos alterna-tivos menos ortodoxos. Basta perscrutar um pouco o historial específico do próprio género, de seguir com alguma atenção o registo cronológico por que foi passando ao longo dos tempos, i. e., da sua gestação, canoni-zação e desintegração / transformação noutros paradigmas literários,11 para entendermos um pouco melhor os percursos seguidos por Dom Francisco Manuel de Melo na interpretação da matéria picaresca.

É consensual considerar La vida de Lazarillo de Tormes y de sus for-tunas y adversidades (1554)12 como a obra inaugural do novo grupo seri-al de novelas, mais tarde designadas de «picarescas», sendo também pací-fica a aceitação das diversas fontes clássicas e medievais apontadas como hipotéticas fontes seguidas pelo autor anónimo na sua composição. A feição realista utilizada por Petrónio no Satíricon (séc. I d. C.) e o carác-ter autobiográfico implementado por Apuleio na versão latina de O Burro / Asno de Ouro de (138-180)13 são geralmente apontadas como os contri-butos mais significativos. O cunho inovador da obra castelhana é entre-tanto posta em causa pelo autor anónimo de La segunda parte de Lazari-llo de Tormes y de sus fortunas y adversidades (1555), quando, contra todas as expectativas, metamorfoseia o protagonista em atum e desloca as aventuras / desventuras do autobiografado para as profundezas oceânicas. A partir daí, os cultores do novo género vêem-se compelidos a optar ou pela visão realista ou pela alegórica da ficção. Mateo Alemán, nas duas

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Dando resposta à velha questão de saber «De onde vêm os géneros?», Tzvetan Todorov propõe a seguinte solução no capítulo «A origem dos géneros», in Os

Géneros do Discurso. Lisboa: Edições 70, 1981, p. 48: «Pois bem, vêm

simples-mente de outros géneros. Um novo género é sempre a transformação de um ou de vários géneros antigos: por inversão, por deslocamento, por combinação». 12

Conhecem-se quatro versões diferentes da edição mais antiga da novela, dadas à estampa em Burgos, Alcalá de Henares, Antuérpia e Medina del Campo, o que tem levado os diversos estudiosos a ponderar a hipótese da existência de uma

edi-tio princeps mais antiga, hoje perdida. Vd. Florencio Sevilla Arrollo, La novela picaresca española. Madrid: Castalia, 2001.

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A versão latina de Apuleio é precedida em alguns anos pela grega de Luciano de Samosata (125-c. 200), súbdito do Império Romano, nascido no norte da Síria, que, por sua vez, mais não será do que uma versão «resumida» das perdidas Me-tamorfoses, texto grego atribuído pelo Patriarca de Constantinopla e escritor bi-zantino Fócio (c. 820-886) a Lúcio de Patras.

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partes de La vida del pícaro Guzmán de Alfarache, atalaya de la vida humana (1599 e 1604), e don Francisco de Quevedo, na Historia de la vida del buscón llamado Don Pablos, espejo de vagabundos y espejo de tacaños (1626), seguiram, decididamente, a primeira via referida. Miguel de Cervantes, que mais do que uma vez mostrou o seu desagrado pela «picaresca», dá-lhe um tratamento bastante sui generis em quatro das No-velas Ejemplares (1613), a via realista no Rinconete y Cortadillo, em La ilustre fregona e em La señora Cornélia, e a via alegórica em El coloquio de los perros.14 Dom Francisco Manuel de Melo, na esteira dos seus con-géneres peninsulares referidos, traçou o seu próprio percurso discursivo: manteve-se fiel ao sinal satírico do género, substituiu o modo novelesco pelo dialogado e abraçou incondicionalmente a exemplaridade alegórica.

O núcleo picaresco desenvolvido nos Apólogos Dialogais encontra--se documentado sobretudo nos Relógios Falantes (1654) e no Escritório Avarento (1655), em que nos deparamos com seres não humanos, «Reló-gios» e «Moedas», a relatarem determinados episódios da sua vida, com especial incidência na mudança de amos, que aproveitam para criticar e, com eles, as classes sociais que representavam. O quadro histórico--cultural continua a ser desenhado com toda a verve satírica a que Dom Francisco Manuel de Melo nos habituou, só que, nesta instância, os «Li-vros» e as «Fontes» falantes do Hospital das Letras (1657) e da Visita das Fontes (1657) não chegam a vestir a roupagem específica e assumida de um Lazarillo de Tormes, de um Guzmanillo de Alfarache ou de um don Pablillos de Segóvia, enquanto protagonistas das novelas que canoni-zaram o género. Mantêm acesa toda a arte de escárnio e maldizer tipica-mente ibéricas, retêm o carácter alegórico tão familiar ao espírito barroco, mas refugiam-se em modelos mais próximos dos traçados em castelhano por Fernando de Rojas [?] na Comédia / Tragicomédia de Calisto y Meli-bea (1502 e 1569), mais conhecida por La Celestina, nome da alcoviteira mais famosa das literaturas hispânicas; e em português por Jorge Ferreira

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A exclusão do El coloquio de los perros da esfera da novela pícara canónica por parte dos comentaristas deve-se, em grande medida, à circunstância de se tratar de um relato protagonizada por dois cães, Cipión e Berganza, e não por dois pícaros reais de carne e osso. O «colóquio» travado no Hospital de la Resurrección de Va-lladolid funcionará, à imagem das restantes Novelas Exemplares destacadas, como um mero pretexto de Cervantes para satirizar o género: desenvolve-o e destrói-o simultaneamente. Lembremo-nos de que os protagonistas admitem ser passageiro o dom da fala posto à sua disposição, desconhecendo se, no final do serão, ainda o manterão.

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