Conforme apontado anteriormente, o empreendedor social se configura como modelo de cultura e representação da realidade, personificado pela imagem de jovens e pragmáticos empresários em busca do bem comum, como forma de realização e encontro da felicidade. Assim como um herói aventuroso “não espera apenas o êxito final (happy end); ele o encontra na própria vida de aventuras, livre, arriscada e empreendedora. Existe a felicidade de ação de uma vida vivida na intensidade” (MORIN, 2011, p. 119), e mais, o engajamento, a resposta à mobilização, ao chamado para atuar em prol do bem comum.
É exatamente no contexto discursivo que se formam as imagens dos heróis contemporâneos, dos olimpianos. Morin já ressaltava que, “como toda a cultura, a cultura de massa produz seus heróis, seus semideuses, embora ela se fundamente naquilo que é exatamente a decomposição do sagrado: o espetáculo, a estética” (MORIN, 2011, p. 101).
Pragmáticos e dotados de características místicas, os olimpianos englobam aspectos reais e imaginários, e reforçam, no plano discursivo, seus pretensos papeis de heróis cotidianos, dotados de uma sensibilidade ímpar para enxergar os problemas da humanidade, resilientes, corajosos, indubitavelmente íntegros. Dessa maneira, há a possibilidade de se gerar grande realismo identificador com os que entram em contato com suas histórias.
Nos sites das três organizações estudadas, é possível encontrar exemplos desses modelos de cultura olimpianos que se tornaram os empreendedores sociais. No site da Skoll Foundation, há uma série de filmes dedicados a relatarem as histórias de seus
“heróis incomuns”. Dentre eles, está o relato de Vera Cordeiro28, fundadora da Associação Criança Saúde. Ela se apresenta como uma heroína visionária, que identificou problemas cotidianos em sua atuação como médica e foi capaz de resolvê-los a partir de uma solução empreendedora inovadora referente às mazelas sociais com as quais ela convivia. O filme contempla entrevistas associadas com imagens, memórias. Apesar da temática redentora e do destaque para a heroína protagonista, nota-se o pragmatismo
28 Disponível em: http://www.skollfoundation.org/entrepreneur/vera-cordeiro/. Acesso: 10 jul. 15.
67 referente à manutenção do sistema capitalista. Em certo ponto do filme, há a legitimação da Associação, por meio da fala do ex-presidente do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga. Ele assume a fala para ressaltar a atuação exemplar da organização, que é financeiramente estável, possui um modelo de atuação em larga escala e pode ser replicada em qualquer lugar do mundo.
Vera Cordeiro pode ser entendida como um ícone do empreendedorismo social brasileiro, já que transita entre diversas organizações e é porta-voz da atuação referente ao empreendedorismo social em diferentes campos29. Em sua participação no TEDx Vila Madá30, ela conta sua trajetória de vida como a fundadora da Associação Criança Saúde.
Ao longo da palestra, diversos elementos reforçam o caráter heroico da empreendedora
29 Participou do filme “Quem se importa”, de Mara Mourão; foi entrevistada em programas de grande repercussão na Globo, como “Encontro com Fátima Bernardes” e “Mais Você”, é constantemente chamada a dar palestras e já participou de pelo menos 3 TED’s.
30 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jGnXAdMoceI>. Acesso: 13 jul. 15.
Figuras 15 e 16: Imagem de uma criança doente, referindo-se ao momento anterior ao surgimento da Associação. (Dir). Exemplo dos momentos em que Vera Cordeiro é entrevistada, em que seu
testemunho e suas memórias são utilizadas para contar sua história e da Associação.
Figura 17 e 18: Fala de Armínio Fraga, destacando os resultados e dados numéricos da organização.
(Dir). Exemplo de imagem que evidencia Vera e seu relacionamento com as crianças atendidas.
68 social. Primeiramente, ela foi capaz de compreender, como chefe de pediatria do Hospital da Lagoa (RJ), que faltava a inclusão da perspectiva social ao atendimento das crianças que chegavam ao hospital. Do ponto de vista discursivo, o destaque para o termo “social”
revela a atuação inovadora e em prol do bem comum de Vera. Mais adiante, a protagonista explica de que forma implementou a ideia da organização Associação Criança Saúde.
Partiu de um sonho, em muitos momentos foi chamada de “louca”: “Vera, você enlouqueceu! Aliás, isso é comum com todos os empreendedores”. Teve até que vender seus próprios bens, móveis de sua casa para dar corpo a esse sonho. Mas, apesar de passar por momentos difíceis, o resultado alcançado foi recompensador e bem-sucedido - tanto, que a organização se tornou uma franquia, que está implementada em 23 novos locais.
Ao citar que a organização funciona como um sistema de franquias, estabelecida a partir de metas, destaca-se uma vez mais os parâmetros do mercado para a estruturação da organização.
Entretanto, o que prevalece é a narrativa heroica. A trajetória parte da constatação de problemas sociais que estão diante de todos, mas que nem todos são capazes de ouvir, terem coragem de agir. O caminho é repleto de incertezas, dificuldades. Em diversos momentos, Vera faz questão de se destacar como uma pessoa “comum”, e inspirar o público de sua palestra a tomar a iniciativa de “mudar o mundo”. Em dois momentos bastante simbólicos, ela diz esperar que todos “se levantem e se juntem a todos esses empreendedores que vocês ouviram e aos que existem nesse país”, e também para que
“nunca duvidem de um grupo muito comprometido, porque eles são capazes de mudar o mundo. Aliás, só eles podem mudar o mundo. Quem sabe, aqui, na Vila Madá, hoje, um grupo de pessoas vai mudar o nosso país e o mundo”. Ela encerra a palestra com uma citação de um poema de Goethe “A coragem contém o poder, a força e as magias”. Nesse breve exemplo, evidenciam-se importantes fatores, como o realismo identificador, o heroísmo, o discurso convocatório. Vera declara ser possível a todos a tarefa de mudar o mundo, de serem heróis e os convoca para tal tarefa.
A projeção heroica presente nas narrativas dos empreendedores sociais surge como uma forma de atribuição de sentido à vida. Diante das incoerências e desigualdades, essa imagem emerge como uma aparente solução, uma alternativa. Seria uma forma de se ajustar à “bipolaridade antagonista” presente na definição de felicidade, em que “o ideal imaginário da vida que arrisca tudo se opõe ao ideal prático da segurança contra todos os riscos” (MORIN, 2011, p. 120). A partir de suas histórias, “os olimpianos se
69 tornam modelos de cultura no sentido etnográfico do termo, isto é, modelos de vida. São heróis modelos” (MORIN, 2011, p. 101). Em termos comunicacionais, é a dimensão narrativa que ganha força, as vozes desses agentes sociais que articulam suas memórias numa “espécie de artefato socialmente irrepreensível que é a ‘história de vida’”
(BOURDIEU, 1996, p. 189).
As narrativas referentes aos empreendedores sociais se valem de recursos tanto reais quanto imaginários para se estabelecerem como modelos de cultura. Do ponto de vista do conceito de valor biográfico, mobilizado por Arfuch (2010), nota-se tanto o destaque para o valor biográfico heroico quanto para o valor biográfico cotidiano. Os empreendedores sociais são entendidos como atores que “combina[m] a paixão de uma missão social com uma imagem de disciplina similar à de um negócio, inovação e determinação”31 ou mesmo como “líderes extraordinários e suas organizações estão criando modelos inovadores que podem desencadear mudanças em grande escala para os problemas sociais aparentemente insolúveis”32. Ou seja, são heróis todos os dias, conseguem viabilizar a vocação por salvar o mundo de acordo com as práticas já consagradas na contemporaneidade. Do ponto de vista do imaginário, do valor biográfico heroico, destacam-se as qualidades como paixão por salvar o mundo, atuação extraordinária, ser capaz de resolver problemas que ninguém mais conseguiu resolver.
São características próprias de grandes heróis. Por outro lado, nos mesmos exemplos é possível notar referências claras a um “trabalho comum”, como atuação similar a de um empresário, o que pode ser visto como um valor biográfico cotidiano. Identificação com a vida “real” de um empresário e projeção a partir do imaginário salvador de um grande herói.
Conforme apontado anteriormente, a busca por autorrealização desponta a partir da modernidade, como característica emblemática do espírito do capitalismo, e diretamente atrelada ao movimento de individualização dos sujeitos. Para Morin (2011, p. 101), os olimpianos modernos “encarnam o mito da autorrealização da vida privada”.
Ou seja, simbolicamente, eles são os modelos que conseguem alcançar esse patamar, esse ícone de sucesso da contemporaneidade que é o da autorrealização.
Por alcançar esse lugar no Olimpo, a figura do empreendedor social não somente se estabelece como modelo de cultura, mas também como modelo de conduta. Para
31 Descrição realizada pela Standford Business School presente no capítulo um.
32 Definição dos empreendedores sociais a partir da Skoll Foundation, também presente no capítulo um.
70 Ehrenberg (2010), a natureza heroica se torna essencial a partir da modernidade. E mais, na contemporaneidade, “quando a salvação coletiva, que é a transformação política da sociedade está em crise”, o que prevalece é a salvação pessoal (p. 13). E é exatamente
na figura do empreendedor e no desenvolvimento ao mesmo tempo recente e rápido dos modos de ação dos empreendedores, que o heroísmo encontra sua forma dominante. O empreendedor foi erigido como modelo da vida heroica porque ele resume um estilo de vida que põe no comando a tomada de riscos numa sociedade que faz da concorrência interindividual uma justa competição (idem).
O autor parte do contexto francês para explicar a perda de relevância do papel das empresas e do Estado (crise do segundo espírito do capitalismo), que simbolizavam os códigos de conduta, para explicar como o empreendedor se torna uma figura heroica e modelo cultural de massa. Ehrenberg descreve esse processo como “heroinização” (p.
48), no qual empreender “simboliza uma criação pessoal, uma aventura possível para todos (grifo do autor) ” (idem). Os heróis, o espetáculo, deixam de se restringir aos palcos e passam a estar em todos os lugares, como também afirma Morin (2011
):
“precisamente, a mitologização é atrofiada; não há verdadeiros deuses; heróis e semideuses participam da existência empírica, enferma e moral” (p. 103).O herói mítico passa a ser uma possibilidade cotidiana (EHRENBERG, 2010, p.
50). Nesse processo, a existência de um ideal coletivo dá espaço para um ideal individual.
Ser bem-sucedido é “poder inventar seu próprio modelo, desenhar sua unicidade, ainda que idêntica à de todos os outros” (idem). Para se ter visibilidade, é preciso ter a legitimação de quem? Como saber se você se tornou você mesmo? A partir de indagações como essas, o autor aborda a questão da conquista da identidade (você se tornar alguém) e da ascensão pública (ser reconhecido por outros): “dinâmica dupla de exteriorização do íntimo – isso seria sua ‘publicização’ – e de incorporação do social – isso seria sua
‘privatização’ – que forma a trama da ambição contemporânea” (ibidem).
Ao observarmos a dinâmica das organizações de empreendedorismo social, percebe-se a valorização das narrativas de vida dos empreendedores sociais, o que corresponderia ao movimento acima descrito. Entretanto, há um ponto a se destacar: os empreendedores sociais se encaixam na dinâmica apresentada pelas organizações, que preveem a manutenção do sistema vigente apesar de se remeterem ao discurso retórico de construção de um novo projeto de sociedade.
71 As instituições dão destaque às narrativas biográficas dos empreendedores sociais para que se possa valorizar o modelo do empreendedorismo social: “o empreendedor satisfaz as condições para ser um herói popular porque ele encarna o homem voltado ao futuro, que enxerga o incerto, está engajado na ação arriscada, subverte as hierarquias instituídas” (EHRENBERG, 2010, p. 61). O autor faz referência à figura do empreendedor e não do empreendedor social. Até agora entendemos uma correlação direta, mas há que se fazer uma distinção. Apesar de ser um modelo de cultura e de conduta que ganha destaque em nossa sociedade, o empreendedor social ainda não possui o destaque do empreendedor regular, que já tem seu papel reconhecido pela sociedade:
Suas histórias são tão convincentes que eles sobem ao palco com um prestígio conquistado, análogo àquele do campeão, e não com o privilégio do bem-nascido. Eles trocam a ilegitimidade da hereditariedade pela legitimidade da meritocracia (EHRENBERG, 2010, p. 61).
Há dois pontos importantes a serem ressaltados a partir dessa passagem. O primeiro é a forma como o empreendedor é observado de um ponto de vista meritocrático, um “modelo igualitário” (idem). E a outra questão se refere à legitimidade atribuída a esse ator social, às suas conquistas. Não basta ser um bom empreendedor, é preciso ser reconhecido. No caso dos empreendedores sociais, apesar de sua crescente relevância, ainda há a necessidade da legitimação por outros campos (BOURDIEU, 2005) para além do seu próprio. E é nesse sentido que cada vez mais as histórias de vida desses atores sociais são divulgadas pelas organizações, para que eles possam ser reconhecidos como heróis e se estabelecer como modelos de conduta em uma gama ainda maior de campos.
O empreendedor social é impulsionado a esse “Olimpo” por meio do próprio campo (BOURDIEU, 2005). Não está na sociedade, está no discurso. São as instituições, como agenciadoras, que constroem esse agenciamento.
Além da construção do processo de legitimação por meio de campos diversos, que será detalhada no próximo tópico, podemos também observar um processo essencial para a valorização da retórica discursiva do empreendedorismo social: o discurso competente de outros agentes sociais. De acordo com Marilena Chauí, “o discurso competente se instala e se conserva graças a uma regra que poderia ser assim resumida: não é qualquer um que pode dizer qualquer coisa a qualquer outro em qualquer ocasião e em qualquer lugar” (2007, p. 14). Somente os que são classificados como “competentes” são, de certa forma, autorizados a falar de determinados assuntos. Entretanto, para entender o conceito
72 de discurso competente, é preciso entender que há uma diferença fundamental entre o processo do saber e o discurso competente.
O processo do saber implica em uma barreira inicial, ele não é facilmente desvendável. Chauí vê esse como um mecanismo real e válido, que não deve ser confundido com uma suposta forma de saber simplificada e comunicável para todos,
“pois essa imagem de plena comunicação e da absoluta transparência dos produtos da cultura é o que permite sua banalização pelos meios de comunicação de massa” (idem).
A crítica que é feita é em relação ao acesso “exclusivo” da cultura, “sua condição de privilégio ‘natural’ dos bem-dotados” (ibidem), que está atrelado à forma como se prolifera o discurso competente.
Para desvendar o discurso competente, Marilena Chauí retoma o conceito de ideologia, como mecanismo de representação que orienta nossa forma de conhecer e agir em sociedade. O discurso ideológico tem por pretensão minimizar as diferenças, unificar o modo de pensar e agir dos sujeitos sociais, universalizando a proposta social da classe dominante. Dessa forma, há um perigoso esvaziamento de possíveis contradições, e a ideologia ganha força e se naturaliza. A ideologia se afirma para além da história e do tempo, e elimina qualquer tipo de questionamento possível.
Diferentemente do saber, o discurso competente “pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro ou autorizado (estes termos agora se equivalem) porque perdeu os laços com o lugar e o tempo de sua origem. Assim, não é paradoxal nem contraditório em um mundo como o nosso” (CHAUÍ, 2007, p. 19). É um discurso que reforça a linguagem já autorizada pela ideologia vigente.
No caso do empreendedorismo social, percebemos a referência direta às vozes do discurso competente de outros campos para proporcionar a validação da atuação do modelo proposto pelas organizações. É possível compreender que o discurso competente se veicula a partir de agentes sociais validados para proferir tal discurso. Ou seja, o empreendedorismo social passa a ser valorizado por representantes reconhecidamente competentes de outros campos e, em última instância, todo esse processo ajuda a naturalizar e legitimar o sistema ideológico vigente, apagando ainda mais os possíveis questionamentos ou tensões.
Giddens destaca que, a partir da modernidade e da situação de desencaixe que ela desencadeou, houve o surgimento dos “sistemas especializados” (2002, p. 24). Como é
73 característico da modernidade, esse tipo de sistema não leva em consideração a relação entre tempo e espaço, e pressupõe que o conhecimento técnico é válido, independentemente de seus praticantes ou usuários. Ou seja, um médico terá seu diagnóstico validado pelo fato de ser um médico, e o paciente o aceitará, por ser paciente, não ter a mesma especialização educacional de um médico. Esses “sistemas penetram em virtualmente todos os aspectos da vida social nas condições da modernidade” (idem) e se baseiam na relação de confiança pré-estabelecida e estimulada pelo caráter especializado desse arranjo social.
Grandes empresários, banqueiros, governantes, especialistas de diversas áreas depõem a favor das iniciativas dos empreendedores sociais, ressaltam sua importância para a sociedade, resultados alcançados, eficácia e outros argumentos capazes de demonstrar ser essa uma ótima opção de sistema social. Como consequência, temos a reiteração ideológica do sistema capitalista e o apagamento de questões fundamentais relacionadas à causa das desigualdades sociais.