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Entenderemos, conforme já apontado, a figura do empreendedor social a partir da caracterização mítica que esse ator social assume na contemporaneidade. Para tanto, discutimos o papel dos mitos para a constituição da humanidade, e de que forma ele se encontra imbricado em nossas raízes culturais. Compreenderemos o conceito do mito por meio de três marcos teóricos, que nos propiciarão entendê-lo a partir da cultura (MORIN, 1973), de seu caráter transcendente na raiz histórica (ELIADE, 1972) e enquanto linguagem (BARTHES, 2012), respeitando as particularidades de cada autor.

Edgard Morin (1973), em seu texto “Sapiens-Demens”, discorre sobre a relevância, para o homem, do entendimento da morte não só como um fato inevitável, ao qual todos estamos sujeitos, mas também como um processo de transformação. Essa tomada de consciência, que se dá a partir dos neandertalenses, aponta para a complexidade do conhecimento consciente que passa a se tornar característica fundamental do ser humano. É a partir dessa tomada de consciência sobre a perenidade da vida que “o imaginário irrompe na percepção do real e o mito irrompe na visão do mundo” (MORIN, 1973, p. 95) e que se constituiu todo um “aparelho mitológico-mágico”

(idem), para que os homens possam enfrentar a consciência da morte. Os ritos fúnebres, por exemplo, seriam formas de lidar com a experiência da morte.

Há, então, a relação entre a consciência objetiva referente à mortalidade e a consciência subjetiva que diz respeito à ideia de imortalidade ou transmortalidade. Na intersecção entre essas duas consciências se forma a chamada “brecha antropológica”

(MORIN, 1973, p. 96) preenchida por ritos e mitos:

a irrupção da morte, no sapiens, é, ao mesmo tempo, a irrupção de uma verdade e de uma ilusão, a irrupção de uma elucidação e do mito, a irrupção de uma ansiedade e de uma segurança, a irrupção de um conhecimento objetivo e de uma nova subjetividade e, principalmente, de sua ligação ambígua (idem).

Morin aponta a importância de entendermos o mito como característica fundamental para a constituição dos homens “sapientais” e do universo simbólico. A partir do surgimento do universo simbólico, passa a existir a necessidade humana de produzir narrativas, como forma de transmitir as histórias e os mitos. Mircea Eliade

52 (1972) também estuda o papel do mito, em perspectiva distinta da estudada no século XIX, em que as histórias míticas estavam atreladas a características negativas, como

“invenções”. O autor busca analisar o mito a partir das sociedades arcaicas, em que representam “’histórias verdadeiras’ e, ademais, extremamente preciosas por seu caráter sagrado, exemplar e significativo” (ELIADE, 1972, p. 7). Os mitos, como fenômenos culturais extremamente complexos, são vistos como modelos de conduta para os homens, em sua função de atribuir valor e significado para a existência humana.

O mito, fruto do imaginário, constitui-se como narrativa, que oferece modelos, valores a serem seguidos. O objetivo final seria, assim como encontramos na teoria de Morin, atribuir sentido à vida humana e sua finitude: “esse mundo ‘transcendente’ dos Deuses, dos Heróis e dos Ancestrais míticos é acessível porque o homem arcaico não aceita a irreversibilidade do Tempo” (ELIADE, 1972, p. 124). Nesse universo mítico, não há passado cronologicamente demarcado, nem futuro, então não há morte. O mito representa uma outra realidade, de outros tempos, de grandes feitos e, além de tudo

“garante ao homem que o que ele se prepara para fazer já foi feito; e ajuda-o a eliminar as dúvidas que poderia conceber quanto ao resultado de seu empreendimento” (ELIADE, 1972, p. 125). É nesse sentido que podemos entender a importância e a força da figura mítica como forma de oferecer segurança frente a cenários de incerteza.

O mito não representa, entretanto, necessariamente o “bem” ou “valores morais”.

Sua função maior, como destaca Eliade, é a de oferecer modelos e significados de mundo para a existência do homem. O autor ressalta ainda, ao falar de experiências mítico-religiosas: “quando são comunicadas através de um enredo fantástico e impressionante, conseguem impor a toda a comunidade os modelos ou as fontes da inspiração” (ELIADE, 1972, p. 130, grifo nosso). Ou seja, ao ser narrativizada, a história do mito se estabelece como inspiração, como modelo a ser seguido.

Eliade (1972) destaca que os “comportamentos míticos poderiam ser reconhecidos na obsessão do ‘sucesso’, tão característica da sociedade moderna, e que traduz o desejo obscuro de transcender os limites da condição humana” (p. 160). Assim, percebemos que os mitos fazem parte da estruturação cultural do homem e ainda prevalecem como modelos paradigmáticos a serem alcançados, além de oferecerem ancoragem simbólica para o enfrentamento da realidade humana. Esse é um aspecto muito importante para compreender de que forma a figura mítica guarda relação com os discursos das narrativas

53 de vida dos empreendedores sociais, faz com que as pessoas se reconheçam nas histórias, emocionem-se, admirem essas figuras tidas como heroicas e as tenham como modelares.

Roland Barthes aborda a temática do mito em seu livro “Mitologias”, que reúne textos escritos entre os anos de 1954 e 1956 e estuda o mito como linguagem: “o mito depende de uma ciência geral e extensiva à linguística, que é a semiologia” (BARTHES, 2012, p. 201). O autor já parte do princípio de que o mito é um sistema de comunicação, um modo de significar (2012, p. 199). Assim, “tudo pode constituir um mito, desde que seja suscetível de ser julgado pelo discurso” (idem). O autor reforça a possibilidade de que tudo possa se converter em mito, e que, apesar de haver mitos muito antigos, é a História que determina a permanência discursiva do mito como tal, a mitologia não teria como “surgir da ‘natureza’ das coisas” (BARTHES, 2012, p. 199). O autor localiza o estudo do mito a partir da semiologia, para que seja possível entender o sistema de significações a ele atrelado. Do ponto de vista semiológico, o significante é o termo final do sistema linguístico, chamado de sentido, e o termo inicial do sistema mítico, chamado forma (grifo nosso). O significante do mito é, ao mesmo tempo, sentido e forma.

Enquanto sentido, ele se encontra repleto de significações, “postula um saber, um passado, uma memória, uma ordem comparativa de fatos, de ideias, de decisões”

(BARTHES, 2012, p. 208). Já enquanto forma, “o sentido afasta sua eventualidade;

esvazia-se, empobrece, a história evapora, permanece apenas a letra” (idem). Ou seja, ao se tornar forma o mito se consolida e restringe o sentido.

É a partir dessa perspectiva que se demonstra que a forma do mito esvazia o sistema de valores contido no sentido: “a forma não suprime o sentido, apenas o empobrece, afasta-o, conservando-o à sua disposição. Cremos que o sentido vai morrer, mas é uma morte prorrogada: o sentido perde o seu valor, mas conserva a vida, que vai alimentar o mito” (BARTHES, 2012, p. 209). Nesse movimento de esvaziamento de sentido, o mito se consolida e permanece. O leitor de um mito não percebe essa relação.

Para ele, há uma espécie de relação direta entre significante e significado. Segundo Barthes (2012): “o consumidor do mito considera a significação como um sistema de fatos: o mito é lido como um sistema factual, ao passo que é apenas um sistema semiológico” (p. 223). Assim, o mito representa uma fala despolitizada.

Por ser parte de um processo de naturalização, a instauração de um mito endossa a manutenção da ideologia vigente. O mito fala sobre as coisas, mas as naturaliza, dando a impressão de ser algo que “sempre foi assim”:

54 Passando da história à natureza, o mito faz uma economia: abole a complexidade dos atos humanos, confere-lhes a simplicidade das essências, suprime toda e qualquer dialética, (...) organiza um mundo sem contradições, porque sem profundeza, um mundo plano que se ostenta em sua evidência, e cria uma afortunada clareza: as coisas, sozinhas, parecem significar elas próprias (BARTHES, 2012, p. 235).

A partir do momento em que naturaliza o sentido dos discursos, torna-se mais difícil o questionamento, a reflexão sobre o que já está arraigado na sociedade. Como já apontado anteriormente, o capitalismo é um sistema que se encontra naturalizado. Assim, os mitos que se constroem ao redor da lógica de mercado corroboram para a sua manutenção e para que não haja tensionamentos e críticas referentes a ele. Os discursos em torno da figura do empreendedor social, imbuída de uma aura mítica, representam esse processo. Assim, o mito é apropriado em função do interesse de institucionalidades específicas, para a eficácia de seus discursos, dissimulando os interesses e ideologias em jogo.

É inegável o valor transcendente do mito para a constituição do homem e seu enraizamento na cultura, conforme apontaram Morin (1973) e Eliade (1972). Entretanto, o mito se pretende como um sistema factual, conforme aponta Barthes (2012) e possui grande força ao naturalizar os sistemas ideológicos.

2.2. Valor biográfico e histórias de vida exemplares

A valorização da figura do empreendedor social como herói mítico se dá a partir das narrativas de vida desses atores sociais. Nesse processo, conforme apontado anteriormente, por meio de Boltanski e Chiapello (2009) e Giddens (2002), valoriza-se a individualidade. No mesmo sentido, Arfuch (2010) aponta a valorização da subjetividade a partir da modernidade, e destaca que esse processo se deu por meio das narrativas de vida que se tornaram, culturalmente, objetos temáticos. Como resultado, temos uma maior presença midiática de histórias que ressaltam as individualidades, até o consumo de produtos atrelados ao tema, como livros de autoajuda e o gênero biográfico/autobiográfico (idem).

Para compreender o fenômeno do discurso biográfico de forma mais ampla, Arfuch partiu do conceito de espaço biográfico de Lejeune (2008), mas o atualizou, a fim de contemplar uma maior gama de leituras culturais. Para Lejeune, espaço biográfico

55 refere-se à “narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza especialmente sua história individual, em particular a história de sua personalidade” (p. 49). Já Arfuch reconhece as limitações dessa conceituação, e se vale de outros referenciais teóricos para entender “espaço biográfico” como

uma espacialização (...) onde conflui[em] num dado momento formas dissimilares, suscetíveis de serem consideradas numa interdiscursividade sintomática, por si só significantes, mas sem renunciar a uma temporalização, a uma busca de heranças e genealogias, a postular relações de presença e ausência (ARFUCH, 2010, p. 22).

E, além dessa nova perspectiva de entendimento de espaço biográfico, a autora atenta para as inovações midiáticas características da contemporaneidade. A finalidade permanece a mesma, compreender a relevância do relato biográfico, a importância “de dar conta da espessura do social (...)” (ARFUCH, 2002, p. 24), do contínuo interesse “na voz e na experiência dos sujeitos e com a ênfase no testemunhal, essa verdadeira obsessão da memória que os marcos simbólicos do novo século e milênio não cessaram de estimular” (idem). O interesse nas histórias de vida abarca tanto celebridades quanto pessoas “comuns”, já que ambos os perfis promovem as relações de identificação e autorreconhecimento e mais, revelam as características do cenário cultural em que estão inseridas tais narrativas.

Todo gênero discursivo está atrelado a um momento histórico, o que implica em uma “valoração do mundo” (ARFUCH, 2010, p. 68). Esse conceito bakhtiniano revela que os diferentes vieses de um enunciado estão diretamente atrelados a uma ética. Nesse mesmo sentido, toda ordem narrativa também pressupõe uma orientação ética. Ou seja, a escolha discursiva, por si só, revela importantes referenciais, especialmente os valores éticos relativos à sociedade e ao momento histórico vivido. Trata-se de um elemento fundamental para entender o que as narrativas nos contam para além de suas histórias. No nosso caso, compreender o que as trajetórias de vida dos empreendedores sociais, contadas nos sites das organizações a que pertencem, revelam sobre o espírito do nosso tempo.

As narrativas biográficas, de acordo com Bakhtin, constituem-se a partir de três tipos de valor biográfico: “um valor heroico, transcendente, que alimenta desejos de glória, de posteridade; outro cotidiano, baseado no amor, na compreensão, na imediaticidade; e ainda é possível um terceiro, como (...) inacabado, cambiante”

56 (ARFUCH, 2010, p. 70). Narradas a partir da combinação dessas formas de valor biográfico, as histórias se constituem não como acontecimentos casuais ou randômicos.

Elas possuem significado e mais, passam a constituir modelos, a partir da tessitura entre essas diversas formas de valor biográfico.

Milly Buonanno (2011, p. 70) discorre sobre a figura do herói de todos os dias.

Representados a partir de “pessoas comuns”, são heróis incidentais:

os únicos que parecem ser reconhecidos e exaltados pela cultura anti-heroica de hoje em dia, embora tal reconhecimento das virtudes heroicas seja tão amplamente conferido que acaba diminuindo-as – como praticamente todos são heróis, mesmo que heróis de todos os dias, obviamente ninguém é um herói (idem).

Os heróis reúnem, além do valor heroico, também o valor cotidiano. Entretanto, tal aproximação é de certa forma incongruente, se levarmos em consideração a definição de heroísmo de Featherstone:

o heroísmo requer coragem, implica sofrimento, expõe a perigos e exige o teste supremo de encarar e superar o medo da morte; enquanto a vida diária adota desejos por uma existência feliz, guiada pelos prazeres de práticas lúdicas e consumistas, recompensada pelas satisfações de relações amorosas e atividades sociais e, acima de tudo, o mais protegida possível dos acontecimentos perigosos que lembram os seres humanos de sua intolerável condição de imortalidade (BUONANNO, 2011, p. 69).

Nesse sentido, a atuação “heroica” dos heróis de todos os dias é questionável, visto que se confunde, muitas vezes, com a realização de tarefas diárias de forma honesta.

Como resultado, “o que surge é um descaso ou uma recusa em identificar, em qualquer lugar, a distinta diferença – em termos de valores, objetivos e motivações – entre vida e ações heroicas” (BUONANNO, 2011, p. 70). A partir do momento que todos são heróis, não há de fato heroísmo, como aponta a autora. Percebe-se ser essa uma maneira de dar voz a um discurso vazio, incapaz de promover reais transformações.

Banalizado, o conceito de herói é facilmente atrelado a diversas formas de atuação. No caso do empreendedorismo social, temos alguns exemplos bastante claros.

No site da Skoll Foundation, os vídeos referentes aos projetos dos empreendedores sociais estão localizados em abas chamadas “Uncommon heroes” (“Heróis incomuns”) e “The new heroes” (“Os novos heróis”), em uma alusão à atuação heroica dos empreendedores sociais da instituição. Outro exemplo bastante interessante é o da organização

57 previamente citada no capítulo anterior: The New Heroes. Além do nome da instituição, que já diz muito sobre a apropriação dos valores heroicos para definir a atuação dos empreendedores sociais, dedica-se uma parte específica do site para diferenciar o que seria o conceito “tradicional” do termo e como os empreendedores sociais o ressignificam:

O que é um herói? O American Heritage Dictionary define como herói

"uma pessoa notável, capaz de realizar proezas, de coragem ou nobreza de propósitos, especialmente que arrisca sua vida ou a sacrifica".

Os heróis que vai encontrar nestas páginas e nesses filmes são diferentes daqueles das páginas da maioria dos livros de história (...). Também conhecidos como "empreendedores sociais", eles desenvolvem inovações que trazem ferramentas e recursos de mudança de vida para as pessoas desesperadas por soluções viáveis25 (tradução nossa).

Há uma diferenciação entre os heróis dos “livros de história” e os empreendedores sociais que seriam “heróis de todos os dias”. As narrativas enaltecem o valor biográfico heroico e evidenciam a possibilidade de ser um herói sem deixar de lado o conforto e a segurança de uma vida “comum”, bem estabelecida.

Assim como Bourdieu (1996) afirmou sermos “vítimas” da ilusão biográfica, Arfuch (2010) retoma Bakhtin e seu conceito de fabulismo para dizer ser o objeto narrativo de uma biografia ou autobiografia uma verdadeira fábula. As narrativas biográficas, entretanto, oferecem aos seus receptores uma espécie de ordenamento da vida:

São laços identificatórios, catarses, cumplicidades, modelos de heróis,

‘vidas exemplares’, a dinâmica mesma da interioridade e sua necessária expressão pública que estão em jogo nesse espaço onde o texto autobiográfico estabelece com seus destinatários/leitores uma relação de diferença: a vida como uma ordem, como um devir da experiência, apoiado na garantia de uma existência ‘real’ (ARFUCH, 2010, p. 71).

25 Original em inglês: What is a hero? The American Heritage Dictionary defines the word as "a person noted for feats of courage or nobility of purpose, especially one who has risked or sacrificed his or her life."

The heroes you'll meet on these pages and in these films are different from those in the pages of most history books. They are not famous politicians or legendary soldiers — yet they have improved the lives of millions of people and made the world more secure. Their 'arsenals' are not of weaponry, but of creative ideas, dogged determination and a deep belief in their power to change the world. Also known as "social entrepreneurs," they develop innovations that bring life-changing tools and resources to people desperate for viable solutions.

58 A partir desses preceitos, a autora discorre sobre o valor das estratégias discursivas dos relatos biográficos e autobiográficos, a forma como se dão as construções narrativas, o que se escolhe ocultar ou contar e como se escolhe contar: “não é tanto o conteúdo do relato por si mesmo – a coleção de momentos e atitudes -, mas precisamente as estratégias – ficcionais – de autorrepresentação o que importa” (ARFUCH, 2010, p. 73). O caminho narrativo também se torna significante. Ou seja, as narrativas biográficas “dão voz” a muitos elementos para além das histórias contadas. Elas revelam a ordenação ética presente nos discursos, os valores históricos do momento do enunciado, e também a forma como os enunciatários querem ser “lidos”. Todos esses fatores se manifestam nos

“modelos” socialmente apresentados e valorizados na contemporaneidade.

O empreendedor social personifica, no plano do discurso, diversos valores éticos presentes no novo espírito do capitalismo, como podemos observar por meio desse exemplo: “Jovens brasileiros apostam na carreira de empreendedor social”26, destaca a reportagem jornalística da Folha de S. Paulo:

Não é ONG, não é filantropia. A empresa social tem CNPJ, paga impostos e dá lucro. (...). As empresas sociais avançam em ritmo acelerado em todo o mundo. Em países europeus e nos EUA, já há quem diga que em pouco tempo todas as companhias nascerão híbridas, isto é, terão a vocação social em sua essência.

Ao longo desse relato midiático, é contada a história de diversos jovens empreendedores sociais. Desde o início, já se nota a presença dos valores mercadológicos e a influência socioeconômica dos países e regiões reconhecidos como mais desenvolvidos: EUA e Europa. Ao narrar a biografia de um dos empreendedores sociais entrevistados ao longo da matéria, é possível perceber a escolha do encadeamento dos fatos da história de vida de um dos protagonistas:

O ano era 2006. Tiago Dalvi começou a reparar no talento dos artesãos brasileiros, que criavam produtos de qualidade a preços competitivos.

O único problema é que eles não faziam ideia de como vendê-los (...).

Dalvi, 26 anos, lembra as dificuldades no início do empreendimento.

‘Comecei com aquela intenção inocente de mudar o mundo, tropecei muito mas aprendi com os erros’”.

26 Matéria disponível no site do jornal: <http://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/1101959-jovens-brasileiros-apostam-na-carreira-de-empreendedor-social.shtml>. Acesso: 20 de out. 2015

59 O relato apresenta uma moral que atribui significado e valor para o empreendedor social. A trajetória se inicia a partir do ideal, da vocação para a realização de um projeto social, o percurso percorrido apresenta alguns entraves e dificuldades, mas mesmo esses momentos são relatados como essenciais para alcançar o “sucesso”, para construir um novo modelo de sociedade. São selecionados os momentos mais significativos, para atribuir coerência à história contada e revelar, em última instância, o caráter ideológico do que se conta (BOURDIEU, 1996). Essa dinâmica pressupõe a cumplicidade com o

“biógrafo” (idem), nesse caso, o jornalista. Valor biográfico heroico e cotidiano se apresentam nas histórias de vida exemplares (BUONANNO, 2011) dos jovens entrevistados pela Folha de S. Paulo: “o que me faz levantar todos os dias é a possibilidade de fazer de fato algo para mudar as coisas”, afirma Tony Marlon, também empreendedor social.

Pudemos entender, a partir do conceito de Giddens (2002), que o indivíduo é um ser reflexivo, incompleto, em constante formação. Formação, aliás, que lhe é socialmente atribuída a partir da modernidade. Nesse sentido, histórias de vida tidas como exemplares revelam sua importância para a formação dos sujeitos na contemporaneidade. Arfuch (2010) parte da ideia da não existência de um sujeito essencial para discorrer sobre a formação indenitária e a influência dos relatos para o processo de subjetivação. O sujeito é “constitutivamente incompleto e, portanto, aberto a identificações múltiplas, em tensão

Pudemos entender, a partir do conceito de Giddens (2002), que o indivíduo é um ser reflexivo, incompleto, em constante formação. Formação, aliás, que lhe é socialmente atribuída a partir da modernidade. Nesse sentido, histórias de vida tidas como exemplares revelam sua importância para a formação dos sujeitos na contemporaneidade. Arfuch (2010) parte da ideia da não existência de um sujeito essencial para discorrer sobre a formação indenitária e a influência dos relatos para o processo de subjetivação. O sujeito é “constitutivamente incompleto e, portanto, aberto a identificações múltiplas, em tensão