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CAPÍTULO V – IMIGRANTES E A ESCOLA

5.3 DE ONDE VIM, PARA ONDE VOU: TERRITÓRIO E PERSPECTIVAS

Neste item serão apresentados alguns aspectos referentes ao conceito de território que foram empregados na análise dos discursos dos entrevistados.

Ícaro já se sente estabilizado no Brasil e com raízes fincadas na nova terra, principalmente em razão do casamento e das filhas. O Brasil significa a casa deles, depois que casaram, ela do Cabo Verde e ele da República Democrática do Congo, não veem outro lugar para viver senão o país das filhas.

Segundo ele, um ponto positivo do Brasil é a liberdade de ele ser quem é e de expressar sua cultura, fazer as festas africanas, o que chama atenção das pessoas. Elas ficam curiosas, querem saber mais e buscam participar. O território dele é onde ele está, no Brasil ou seja onde for, pois aonde vai ele leva consigo seus costumes e “identificação cultural” (HAESBAERT, 2005), pois não vê impedimento de ser quem é, um africano que se orgulha em manifestar sua cultura materna.Fica realizado quando recebe convite de escolas para falar sobre as suas origens, sobre a sua terra.

Da mesma forma se sente Martinho, que até um projeto está escrevendo para apresentar na prefeitura. A inspiração veio depois de dar uma palestra numa escola municipal de João Pessoa e sentir quanta falta de informação as crianças mais pobres e negras da periferia têm acerca do mundo e, principalmente, do continente africano.

Martinho tem saudade de seu país, da forma de viver a cultura, mas não se vê mais morando lá, pois assim como Ícaro, seus filhos o fizeram um pouco brasileiro, e da mesma forma, eles trouxeram um pouco da África para o Brasil quando nasceram. Mas ele é um cidadão do mundo, não se prendendo a fronteiras, mas aprendendo com elas, que a diferença traz conhecimento, e assim como seus pais lhe ensinaram ele quer passar para seus filhos: “depois que tive meus filhos eu sinto que quero ficar aqui, conseguir um bom trabalho, para poder ajudar eles, apoiar, para mandar eles para fora do Brasil também, estudar, conhecer o mundo como meus pais fizeram pra mim. Eu também quero realizar isso pra eles”.

Diferente de Martinho, Mohamed se sente muito distante do seu território, e não sente tanta liberdade em manifestar a sua cultura, como se fosse uma ilha e o Brasil um oceano que formasse um hiato entre ele e suas origens. Além disso, ele não vê o país que o recebeu como algo a mais do que um espaço de transitoriedade, onde ele e sua família encontraram refúgio durante uma tempestade.

Já para João e Maria, a primeira ideia era ir para um país da Europa ou Estados Unidos, no entanto, a política migratória desses países era muito restritiva e o processo longo, o que a urgência do momento não permitia. Então os olhos se voltaram para a América do Sul.

A primeira opção foi Equador, pela semelhança no idioma, e pela facilidade de reconhecimento ou revalidação do diploma. No entanto, havia dois problemas: para obter um visto no Equador exigia um processo mais longo e mais caro, e eles tinham medo da instabilidade política e econômica, por ser um pouco parecido com seu país. Então, dentre todos os países para os quais poderiam migrar, o Brasil oferecia as melhores condições legais por dispor de política destinada à recepção desses novos fluxos migratórios. Durante a entrevista, Maria declarou:

Eu fui conhecer Equador, e a legalidade com eles era um pouco mais complexa e um pouco mais cara para obter, só que é um país mais aberto que o Brasil no caso das revalidações do diploma. Mas, na verdade, preferimos vir para cá, porque estava mais claro o processo de legalidade, com a resolução 126 que deram para os venezuelanos, estava mais estruturada, né! E eu senti um pouco de medo, que Equador é um país muito pequeno. A economia, tinha mais ou menos o problema político da Venezuela.

Quando fala em resolução 126, Maria se refere à Resolução Normativa Nº 126 de 3 de março de 2017, do Conselho Nacional de Imigração18, a qual dispõe sobre a concessão de residência temporária ao nacional de país fronteiriço.

Apesar da distância da língua, o Brasil foi a opção que mais os atendia naquele momento, oferecendo legalidade num curto espaço de tempo. Além disso, a família já conhecia o país por meio de algumas viagens a turismo.

De acordo com João, todos os países da América do Sul têm uma política bastante parecida, mas o Brasil tem uma economia forte, tem grande produção interna, e que, apesar da desigualdade nas regiões, tem várias cidades desenvolvidas, ao contrário da,

18

Disponível em: < http://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/BDL/2017/11016.pdf>. Acesso em: 28 ago. 2018.

Venezuela e do Equador, que são países menos desenvolvidos e que dependem muito de produtos que vêm de fora.

Pelos relatos, nota-se que se trata de uma família com bom capital cultural, um bom conhecimento de mundo e se interessam por temas como política e economia, e viam no Brasil um país com maior chance de terem oportunidade de desenvolver a vida.

No entanto, a condição de imigrante no Brasil, segundo a família, é uma situação temporária. Eles não se consideram imigrantes por opção, pois fugiram de um problema social que o país enfrenta, e que eles julgam como temporário. O desejo deles é que a população retome o país e que ele volte a ser o mesmo, para que a família retorne a sua vida de antes, especialmente pela questão profissional.

No caso de Apolo, o relato deixa claro que eles têm tanto o Brasil quanto a Alemanha como casas para sua família, já que a esposa e o filho têm dupla cidadania, brasileira e alemã, mas que neste momento a primeira casa está passando por uma reforma, pois estava inabitável e que é momento de viver na casa nova, a qual é mais evoluída e que lá eles irão viver de forma mais digna.

Carlota por sua vez não falou em fronteiras, mas em possibilidades e condições objetivas, como a questão financeira, que afasta ou aproxima de oportunidades como a que ela viu de imigrar na Alemanha. Além disso, o conhecimento da língua também não era barreira para ela. Segundo Bauman (2001), neste mundo “globalizado” o indivíduo se aproxima daquilo que mais o coloca em condições de igualdade com o nacional. Não é o que ele deseja, mas é o que mais o integra socialmente. O ser que vive por projetos, como está definido por Bauman (2001) na modernidade líquida planeja o mais viável para sua sobrevivência em um território até certo ponto hostil.Sendo assim, território é o mundo inteiro, ou seja, é onde ela pode estar e se relacionar, onde a comunicação e a vontade lhe permitem entrar.

Por outro lado, para Amélia, o seu território é dividido, numa relação na qual, ao mesmo tempo em que possibilita uma nova vida com mais qualidade, lhe distancia de suas raízes, das pessoas com as quais ela construiu boas relações durante uma vida.

Helena demonstrou em seu relato que sua noção de território está ligada aos projetos que ela põe em prática, que pode ser planejado e estruturado de acordo com boas oportunidades e que, por essa razão, não tem raízes fixas, mas se constitui numa forma mais ampla na qual a mobilidade é um conceito possível e aplicável a qualquer momento.

Essa ideia de território, como coloca Haesbaert (2001), está muito ligada também com a noção de identidade que o sujeito carrega, tanto de si quanto da relação que ele tem com os espaços. No item a seguir, está colocada a questão da identidade dos sujeitos, em alguns momentos como um complemento do que foi apresentado neste item de território.