Estaria o nascimento de um novo Vincent relacionado à partida de outro? Será que a chegada de seu sobrinho fez Van Gogh conceber que o seu ciclo deveria terminar para que outro Vicent assumisse o seu próprio lugar?
Van Gogh foi o quinto Vincent de uma família em que este nome representava tradição e herança. E foi ele, este quinto Vincent que mudou com a sua própria história o destino de seus futuros homônimos. Historia a qual teve início antes mesmo de seu nascimento, antes da morte de seu irmão, também, Vincent, mas alguns séculos antes a partir do primeiro Vincent.
Antes mesmo que uma criança nasça, fantasias e expectativas são criadas em torno de como essa criança poderá vir a ser. Em Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914), Freud chama atenção para a atitude dos pais para com os filhos, afirmando que esta é “uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo” (p. 97). Dessa forma, “os pais têm o costume de atribuir todas as perfeições ao filho” “[...] e de ocultar e esquecer todas as deficiências dele”. O que ela se tornará? Concretizará os sonhos de seus pais ou aqueles que ela mesma imaginara? Ficará sujeita ao desejo dos pais?
Na leitura das Cartas a Theo, observa-se que durante a maior parte da vida de Vincent ele procurou corresponder às expectativas parentais, em uma tentativa, inconsciente, de reviver o narcisismo de seu pai, o pastor Van Gogh, visto que durante um período se entregou aos estudos bíblicos e decidiu se tornar um missionário: “Não estou só, pois Deus está comigo. Quero ser pastor. Pastor como o meu pai!”. (VAN GOGH, 2002, p.10).
Por meio das Cartas a Theo, constatou-se que após o falecimento do pastor Van Gogh, Vincent sela a ruptura não só com a sua família, mas também com a
Holanda, sua pátria. Em uma de suas Cartas ao irmão ele afirma que a Holanda já não tinha mais nada a lhe ensinar. Ao passo que estas mudanças aconteciam, ele trabalhava em um de seus quadros mais conhecidos, Comedores de Batatas e, ainda concomitante a esses acontecimentos, Vincent revelou a Theo através de uma carta que naquele momento ele descobrira as cores, a luz e o movimento, definindo um estilo próprio e inovador de pintar, que iria marcar suas obras e fazer escola: “Como é correto e verdadeiro. E como é importante poder fazer em sua palheta essas cores que não sabemos como chamar e que formam a base de tudo”. (VAN GOGH, 2002, p.140).
Por meio de seus quadros e das Cartas a Theo, observou-se que Van Gogh assinava simplesmente como Vincent e, não, Van Gogh. O que é paradoxalmente estranho, visto que Van Gogh era um sobrenome de prestígio no universo e comércio das artes. O que existiu por trás da não assinatura de seu sobrenome paterno? O que Vincent afirmava ou não afirmava ao assinar o seu nome próprio em vez de seu tradicional e conhecido sobrenome: Van Gogh? Existiu nessa assinatura uma recusa ao sobrenome paterno? Isso pode ser lido como uma exclusão (forclusão) do Nome-do-Pai e do pai do nome?
A análise desta pesquisa teve base na teoria psicanalítica, o que levou a pesquisadora a ler sobre um dos mais importantes escritos de Lacan no qual foi encontrado o conceito Nome-do-Pai, conceito chave e fundamental para o entendimento da teoria psicanalítica. O Nome-do-Pai é um conceito proposto por Lacan a partir de seu trabalho sobre a psicose, mais precisamente: D'une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose. Este conceito diz respeito à função paterna, função que opera como uma metáfora substituinte de um significante. Neste caso, o significante a ser substituído é o desejo da criança pela própria mãe, substituído pelo Nome-do-Pai, “como representante de um desejo materno, outro, que não o voltado para a própria criança”. (VANIER, 2005, p.67). E, ainda, como define Chemama (1995, p.148):
Produto da metáfora paterna que, designando primeiramente o que a religião nos ensinou a evocar, atribui a função paterna ao efeito simbólico de um puro significante e que, em um segundo momento, designa aquilo que rege toda a dinâmica subjetiva, ao inscrever o desejo no registro da dívida simbólica. O pai é uma verdade sagrada, da qual, no entanto, nada, na realidade vivida, indica a função, nem a dominância, pois continua sendo em primeiro lugar, uma verdade inconsciente.
O entrar em contato com este conceito lacaniano trouxe à pesquisadora uma inquietação, pois ao dar-se conta que Van Gogh adotou Vincent como assinatura, pôs-se a pensar que aí está posta a forclusão, o fracasso do Nome-do-Pai.
A forclusão é um conceito essencial para se entender o mecanismo psíquico que origina a estrutura da psicose e seus fenômenos elementares. Para a psicanálise, a forclusão corresponde à falta de inscrição, no inconsciente, da castração. Esta experiência é crucial, visto que à medida que é simbolizada, possibilita a criança assumir seu próprio sexo e a reconhecer seus limites. Dessa forma, a falta dessa simbolização no sujeito psicótico, produzirá uma incerteza em relação a sua identificação sexual, além de uma perda no sentido da realidade. (NASIO, 1995).
De acordo com este autor, a forclusão é um termo jurídico, proposto por Lacan para traduzir a palavra alemã Verwerfung. Palavra esta que nas versões francesas da obra de Freud era transcrito por rejet, cujo significado é rejeição, repúdio. Ou seja, a forclusão corresponde a um conceito introduzido na teoria psicanalítica por Jacques Lacan para designar um “mecanismo específico que estaria na origem do fato psicótico; consistiria numa rejeição primordial de um ‘significante’ fundamental”, como por exemplo, “o falo enquanto significante do complexo de castração) para fora do universo simbólico do sujeito”. (LAPLANCHE E PONTALIS, 1994, p. 194-195).
A forclusão ou foraclusão, como também o termo pode ser encontrado, é definida por Nasio (1995, p.149) como “uma construção teórica que procura explicar o mecanismo psíquico na origem da psicose [...] é o nome que a psicanálise dá à falta de inscrição, no inconsciente, da experiência normativa da castração”.
Para entender a forclusão do Nome-do-Pai, é necessário que se fale em algumas condições: em primeiro lugar, o significante Nome-do-Pai indica a função paterna tal como é internalizada e assumida pela criança - é qualquer expressão simbólica produzida pela mãe ou pelo filho, que represente a terceira instância, paterna, a lei da proibição do incesto. Portanto, para situar o significante Nome-do- Pai é preciso verificar como a mãe situa-se em relação à lei simbólica da proibição, ou como o filho integrou em si essa proibição. (NASIO, 1995).
Em segundo lugar, o autor expõe que “o Nome-do-Pai, entendido como expressão do desejo da mãe ou do desejo do filho, é qualificado por Lacan de
metáfora paterna, ou seja, metáfora do desejo da criança perpassada pelo desejo da mãe”. (NASIO, 1995, p. 158).
Por fim, Nasio (1995) coloca que o Nome-do-Pai não é algo objetivo, que possa se nomear ou localizar, mas qualquer significante que venha ocupar o lugar da metáfora do desejo da criança ou do desejo materno, como por exemplo, um sintoma, um gesto, uma palavra, etc., que representa uma expressão singular do desejo.
Ainda de acordo o mesmo autor (1995), para se compreender o conceito lacaniano de forclusão, é necessário saber o que define o Nome-do-Pai. Neste caso, este significante será sempre uma resposta renovada a um apelo feito por um outro, e uma referência a esse terceiro que é o pai. É justamente com esse terceiro que Vincent rompe. É o pai que fica excluído na (não) inscrição da lei.
Lacan deu ênfase ao problema fundamental da psicose, a forclusão do Nome- do-Pai no lugar do outro, tal como afirma Quinet (1997, p.30):
O Nome-do-Pai não se acha aí, há um buraco na ordem simbólica do sujeito psicótico. O fenômeno psicótico é o efeito da emergência na realidade de um chamado a uma significação à qual o suejito não pode responder na medida em que esta jamais fez parte da sua estrutura.
Diante do exposto até o momento, pode-se afirmar que Van Gogh ao assinar o seu nome próprio, estaria legitimando sua psicose? Estaria Vincent em um momento de surto psicótico no episódio no qual decepa um pedaço de sua orelha e o entrega a uma prostituta? O que estava acontecendo naquele momento que contribuiu para que o pintor se desorganizasse a ponto de cortar um pedaço do seu corpo? Por que cortar um pedaço da orelha?
Em sua mais recente entrada no hospital psiquiátrico Van Gogh impressionou-se com as reações de outros internos, ouvindo sons e vozes assustadores. Teria ele, em um momento de surto, concluído que o problema estava em seus órgãos auditivos e desta forma resolveu silenciá-los? De forma concreta, ao pé-da-letra, sem metáforas, ele teria cortado a orelha como forma de cortas as vozes? Estaria operando no real, um silêncio (ausência/falta) que fracassou no simbólico? As perguntas seguirão sem respostas, mas problematizá-las, questioná- las, pode ser uma forma de avançar frente aos fracassos.
Na última carta a Theo antes do fatídico episódio da orelha, Vincent escreveu: “um aperto de mão, tenho de voltar novamente ao hospital, mas dentro em pouco sairei de vez. Sempre seu, Vincent. Escreva também uma palavra de minha parte à mãe: que ninguém se inquiete” (VAN GOGH, 2002, p.308) e, ainda: “mas sem brincadeira, o medo da loucura diminui consideravelmente ao ver de perto as pessoas por ela afetadas, como eu facilmente poderia ficar a seguir”. (VAN GOGH, 2002, p.362).
Por fim, neste último trecho, Van Gogh parece restabelecer um contato com a realidade, reorganizando seu imaginário através da escrita para o irmão Theo. Nesta escrita ele coloca a sua loucura em significantes endereçados a este Theo (Teo) que sempre apostou que ali poderia haver um sujeito, um brilhante pintor. A aposta de Theo sobre Vincent e a escrita deste destinada a Theo pode ter operado de modo significativo para que essa “loucura” ganhasse um terreno simbólico, representacional, e isso diminuísse, ainda que de forma precária e em partes, o fracasso do Nome-do-Pai, fazendo certo controle da psicose de Vincent.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa pesquisa teve como objetivo geral analisar as dimensões do fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh à luz da teoria psicanalítica. Acredita-se que a realização deste trabalho cumpriu com o objetivo geral e os objetivos específicos nos quais a pesquisa se propôs: identificar passagens que remetem ao fracasso; investigar a importância do fracasso e relacionar o fracasso nas Cartas com a teoria psicanalítica.
Durante o processo de análise desta pesquisa, percebeu-se a dificuldade do pintor em assumir o seu sobrenome de família, visto que o mesmo assinava em suas
Cartas a Theo e em seus quadros, apenas seu primeiro nome – Vincent. Esta não
assunção deste sobrenome de família foi problematizada e discutida a partir do conceito lacaniano Nome-do-Pai.
A temática do nome próprio envolveu questões relacionadas à herança familiar, sendo esta diretamente relacionada ao narcisismo parental e às expectativas criadas pelos pais em relação aos filhos. Envolveu, ainda, reflexões acerca do lugar que Van Gogh ocupava em sua família e, até mesmo, em sua vida, visto que um ano antes do nascimento do pintor a família Van Gogh passou por uma grande perda – a morte de um filho, com seis meses de vida, também chamado Vincent.
No final da análise destacou-se a intensa relação que existiu entre Van Gogh e seu irmão Theo, a quem o artista endereçou as cartas que constituíram a obra que serviu de base para esta pesquisa. À análise da relação dos irmãos Van Gogh, foi atribuído o conceito lacaniano de forclusão – imprescindível para o entendimento da constituição da estrutura de personalidade psicótica –, visto que em diversos momentos da vida de Vincent, Theo desempenhou um papel fundamental e organizador, sendo este capaz de proporcionar ao irmão não só a realização de um grande desejo – pintar –, mas o ajuste de sua própria psicose.
Esse olhar da psicanálise sobre as dimensões do fracasso presentes em cada ponto escolhido para análise desta pesquisa justificou a mesma, uma vez que não foi encontrado em livros, artigos e pesquisas anteriores, através das consultas às bases de dados, estudos que especificassem a relação entre Van Gogh e o fracasso. Além disso, buscou-se acrescentar conteúdo teórico e contribuições a partir das reflexões aqui apresentadas, aos profissionais atuantes na clínica
psicanalítica. Espera-se, ainda, que este estudo possa contribuir de algum modo, com os apreciadores deste artista mundialmente conhecido e em futuros estudos.
Durante a realização desta pesquisa, verificou-se que outros aspectos envolvendo Van Gogh, a teoria psicanalítica e, mesmo o fracasso, poderiam ser enfatizados em futuros trabalhos. No entanto, como em toda pesquisa, existem certas generalidades e hipóteses que conduziram a pesquisadora a particularizar alguns pontos para este trabalho de conclusão de curso.
Dessa forma, compreende-se a necessidade de novas pesquisas que abordem novos temas e reflexões. Uma interessante problematização relacionada a Van Gogh seria o porquê do mesmo durante sua breve vida pintar incontáveis auto- retratos. Sabe-se que um auto-retrato tem relação com a imagem que o sujeito tem de si mesmo. Ao criar esses auto-retratos, do que estaria o pintor tentando se autorretratar? Estaria o artista, através da arte, na tentativa de reconstituir sua própria imagem corporal?
Outra interessante pesquisa a ser realizada com relação a Van Gogh seria a relação existe entre a vida e a obra do pintor. Estariam as cores utilizadas em seus quadros diretamente relacionadas a evolução de suas crises?
Em relação às facilidades e dificuldades encontradas para a realização desta pesquisa, é importante ressaltar, que o senso de escolha para os pontos analisados baseou-se sempre na tentativa de “dar conta” dos mesmos e, à medida que a pesquisa avançou e foram sendo escolhidos estes importantes pontos para reflexão e análise, muito aprendizado foi proporcionado à pesquisadora, uma vez que novas percepções e conceitos foram apreendidos por meio das leituras realizadas. Nesse sentido, acredita-se que esta pesquisa não alcançou somente os objetivos propostos, pois, além disso, favoreceu novas interpretações, experiências e conquistas.
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