• Nenhum resultado encontrado

Vincent. Um nome de grande importância para a família Van Gogh, cujo lugar, a história e o destino já estavam previamente estabelecidos. O primeiro Vincent de quem se tem notícias nos Van Gogh nasceu no ano de 1729, na pequena cidade de Gogh, situada na fronteira da Holanda com a Alemanha. Foi por meio dele que a arte adentra na família, pois o mesmo era escultor. Um século se passou e na data de 30 de março de 1853, nasceu Vincent Willem Van Gogh, exatamente um ano após o nascimento de um irmão com o mesmo nome que morreu aos seis meses de vida7, cujo túmulo se localizava a poucos passos da igreja na qual o pai de Vincent era pastor. “Assim, tão logo aprendeu a ler, o pequeno Vincent pode ver seu nome como em seu próprio túmulo”. (HAZIOT, 2010, p.7).

Através da história, sabe-se que a mortalidade infantil na metade do século XIX era alta e a situação que ocorreu na família Van Gogh era frequente; ou seja, era habitual, nesta época, dar o nome do falecido filho ao que vinha ao mundo logo após. Dessa forma, a morte prematura de seu irmão permearia a historia do pintor por toda a sua existência, fazendo-o se sentir o eterno substituto daquela criança

7

Geralmente mencionado em artigos e biografias sobre Van Gogh como um irmão natimorto. Porém, de acordo com informações encontradas na cronologia disponibilizada na edição de 2002 de Cartas a

que morreu (HAZIOT, 2010, p.7), como se vivesse a vida de outro alguém ou como se estivesse morto de alguma forma.

Por meio das cartas, percebe-se que Vincent carregou um peso, algo semelhante ao sentimento de culpa, uma grande culpa em relação à morte desse irmão mais velho. Sentia-se culpado por existir, por estar vivo, como se aquele lugar que ocupava não pertencesse a ele, como se percebe em suas próprias palavras:

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. Será isto tudo imaginação, fantasia? Não creio; e então perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade? (VAN GOGH, 2002, p.50)

Estaria essa culpa sentida por Vincent relacionada aos sintomas melancólicos? Em 1915, em seguida aos seus escritos sobre o narcisismo, Freud ocupou-se em escrever sobre Luto e Melancolia. Nesta obra, o autor aborda estes dois estados, comparando-os e afirmando que em algumas pessoas “as mesmas influências, tais como a perda de um ente querido ou de algo que ocupe um lugar tão importante para um sujeito (como um país, a liberdade ou um ideal), podem ocasionar um estado de luto ou de melancolia”. Dado ao fato das causas excitantes e as influências ambientais serem as mesmas para o luto e a melancolia. (FREUD, 1915, p.249). É importante ressaltar que a perda aqui referida não é necessariamente a morte, mas sim uma perda de natureza mais ideal, como exemplo “uma noiva que tenha levado o fora”. (p. 251).

Ambos estados, luto e melancolia, apresentam os mesmos traços, com exceção da diminuição da autoestima, ausente no estado de luto, no qual o sujeito vê o mundo como algo pobre e vazio. Já na melancolia este pobre e vazio é o próprio sujeito (FREUD, 1915, p. 251), representando seu eu como algo desprovido de valor, incapaz de realizar qualquer ação, e moralmente desprezível. Os sintomas experimentados pelo sujeito melancólico são:

Um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. (FREUD, 1915, p. 250).

Sendo assim, na melancolia a insatisfação e o descontentamento destinados ao objeto externo são deslocados para o próprio eu do sujeito, tornando a pessoa monótona e sempre com a impressão de que foi tratada com grande injustiça (FREUD, 1915, p. 254), justamente o que parecia estar acontecendo com Vincent:

Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois que tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça [...] (VAN GOGH, 2002, p.47).

No quadro clínico da melancolia, o paciente descreve-se como “mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza” (FREUD, 1915, p. 252). Frequentemente este sujeito se preocupa pouco com o corpo, o autocuidado, com feiura e fraqueza, como o artista relata em uma de suas cartas, na qual fala de si através de uma analogia com um pássaro:

Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.

‘Vejam que vagabundo’, diz um outro pássaro que passa, ‘esse aí é um tipo de aposentado’. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios do sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – ‘mas’ dizem as crianças que o criam na gaiola, ‘afinal ele tem tudo o que precisa’. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. ‘Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis. Tenho tudo o que preciso. Ah! por bondade, liberdade! ser um pássaro como outros. (VAN GOGH, p. 49-50).

Outra interessante teoria sobre a melancolia foi escrita pelo filósofo e sociólogo judeu alemão Walter Benjamin e analisada em O tempo e o cão (2009), pela psicanalista e crítica literária Maria Rita Kehl, que aponta importantes discussões à concepção benjaminiana. De forma geral, para Benjamin, o que resulta na melancolia é “o desacordo entre o sujeito e o seu bem”. (KEHL, 2009, p.81). Este desacordo é gerado por uma falta de perspectiva futura de vida e o sujeito melancólico de Benjamin sente-se “desadaptado, ou excluído, das crenças que sustentam a vida social de seu tempo” [...] “sente-se abatido pelo sentimento da

inutilidade de suas ações, daí a relação entre a melancolia e o fatalismo” (p. 81), sentimentos partilhados por Vincent e recorrentemente exposto em suas Cartas a Theo, como se pode observar a seguir:

Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A quem poderia eu ser útil de alguma maneira? É por isto que antes de mais nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância conveniente, que eu faça como se não existisse. (VAN GOGH, 2002, p.40).

Seria o sujeito melancólico mais vulnerável ao fracasso? Ao se pensar em Van Gogh como um sujeito de características melancólicas, pode-se afirmar que a melancolia se apresenta como uma dimensão do fracasso, percebida através do discurso de Vincent em suas Cartas a Theo.

Em sua obra literária Ressentimento (2004), Maria Rita Kehl traz discussões sobre o ressentimento, narcisismo e melancolia. A psicanalista relembra o caso Dora de Freud e a partir dele reflete sobre a realidade social a que pertence o sujeito ressentido e sobre o lugar de vítima no qual este sujeito coloca-se. Nesta pesquisa não daremos ênfase a esta temática, mas a relação entre o sujeito ressentido e sua realidade social poderá ser um possível ponto para futuras pesquisas.

Documentos relacionados