PARTE I: VISIBILIDADES
1.5. O debate que não existiu
O projeto Belo Monte e a luta das comunidades da região de Altamira e da Volta Grande do Xingu entra, a partir do governo Lula, em uma nova fase. Isso foi bastante visível. Belo Monte passou a ser tratada abertamente por membros do governo com um importante projeto para o desenvolvimento económico brasileiro. A Eletrobrás e a sua subsidiária Eletronorte começam a investir fortemente eu um lobby em favor do projeto. Ainda no início dos anos 2000, a Eletronorte havia instalado um escritório na cidade de Altamira, que foi o primeiro passo para a criação do Consórcio Belo Monte, reunindo os Prefeitos dos onze municípios atingidos pela construção da usina hidroelétrica.
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Fizeram contato, propondo barganhas e compensações para as entidades de classe, as organizações populares, as comunidades indígenas, e os dirigentes de órgãos públicos, com o claro objetivo de romper com qualquer ação de resistência ao projeto de barragens no rio Xingu.
A Eletronorte articulou o apoio do comércio local, através da ACIAPA - Associação Comercial Agropastoril de Altamira, da AMEALT - Associação dos Micro-empresários de Altamira, e do CDL - Clube de Dirigentes Lojistas, do Sindicato Patronal dos Produtores Rurais, e da AMUT - Associação dos Municípios da Transamazônica, e também o apoio dos Vereadores da Região, principalmente os ligados ao PSDB e PMDB. Os então prefeitos Domingos Juvenil - Altamira (PMDB), Anselmo Hoffman - Vitória do Xingu (PT), Gerson Campos - Porto de Moz, (PSDB), Mário Lobo – Uruará (PSDB), João Escarpario - Placas (PSDB), e Antonio Lorezoni – (Brasil Novo) congregaram-se no chamado Consórcio intermunicipal Belo Monte, que foi articulado pelo ex-presidente da Eletronorte José Antonio Muniz Lopes e outros políticos do grupo Sarney (Melo, 2005).
O objetivo da Eletronorte era vender a ideia do projeto Belo Monte. Primeiramente, aproximou políticos da região. Depois, buscou o apoio de associações de comerciantes. Também houve iniciativas direcionadas para comunidades indígenas, movimentos sociais e escolas, na tentativa de convencer a opinião pública de que Belo Monte era o caminho para o desenvolvimento da região e que a oposição ao projeto representava o atraso e a pobreza.
Logo a seguir à criação do Consórcio Intermunicipal Belo Monte, a Eletronorte instalou na orla do cais de Altamira, às margens do Xingu, um centro cultural com uma enorme maquete do que seria a usina hidroelétrica. Muitas comitivas de políticos, turmas de escolas e lideranças comunitárias foram convidados para visitas guiadas (com transporte, alimentação e estadia em hotéis pagos pela empresa) à UHE Tucuruí15, obra apresentada pela Eletronorte como um exemplo do desenvolvimento que seria levado à Altamira e região (Sevá, 2005).
Mas nem todos compraram tal ideia. Em meio à crescente pressão do poder público (capitaneado pelo Governo Federal), em conjunto com setores da construção civil e da indústria mineradora (que são invariavelmente parte dos consórcios empresariais envolvidos nas construções das usinas hidroelétricas no Brasil), os movimentos sociais e indígenas que historicamente se opunham à construção de barragens na Amazônia também intensificaram a sua luta. Estava declarada a guerra.
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Uma série de encontros foram realizados entre movimentos sociais, ONG´s socioambientais, movimento sindical, lideranças indígenas e associações de comunidades locais. Essas entidades seguiram enviando cartas aos agentes do poder público expondo suas preocupações e críticas aos projetos de barramentos nos rios da região, em especial no que diz respeito ao rio Xingu e à Belo Monte (Fleury, 2013).
O diálogo, entretanto, foi inexistente. O governo ignorou completamente tudo o que foi falado e escrito por essas entidades. A obra foi incluída no Plano Plurianual e, em seguida, no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) como uma obra prioritária. Tudo com financiamento do BNDES. Belo Monte já não dependia mais de financiamento direto internacional e ficava assim menos sujeita a pressões externas (como no caso da denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que será abordada logo a seguir).
A partir de então, o projeto Belo Monte andava a passos largos. A realização do Estudo de Impacto Ambiental foi determinada pelo governo. O passo seguinte foi a realização da licitação para determinar qual o consórcio empresarial que iria gerir a obra e a usina, depois de construída.
Entretanto, no lado invisível (para o governo e empreendedores) desse debate, somaram-se aos movimentos sociais e populações indígenas que já estavam na luta desde a década de 1980 algumas associações acadêmicas, cientistas e o Ministério Público Federal. Diversas publicações de cientistas questionavam a viabilidade da obra, tanto do ponto de vista técnico e económico quanto do ponto de vista social. Já no que diz respeito às questões jurídicas, o Ministério Público Federal propôs uma série de ações contestando a obra.
Com relação aos cientistas, merece destaque o livro Tenotã-Mõ: Alerta sobre as consequências dos projetos hidrelétricos no Xingu (2005). Organizado por Oswaldo Sevá, Professor da Faculdade de Engenharia Mecânica e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, o livro reuniu uma série de artigos de acadêmicos, ativistas e juristas. Nessa obra, discute-se a viabilidade económica, jurídica e social da obra.
No primeiro capítulo, Sevá (2005), apresenta simulações considerando os registros de vazões do rio Xingu dos períodos de 1931 a 1996 para argumentar que,
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diferentemente do que vinha sendo divulgado pelo Governo Federal, a usina dificilmente seria capaz de produzir energia na quantidade prometida.
Esses argumentos não foram objeto de debate, e o governo deu seguimento ao Estudo de Impacto Ambiental. O Ministério Público Federal propôs uma série de ações apontando irregularidades. Apenas no que diz respeito ao processo de licenciamento ambiental foram 10 as ações judiciais. Uma batalha jurídica envolvendo uma disputa entre o Ministério Público Federal e o Governo Federal foi assim travada, dos Tribunais Regionais Federais ao Supremo Tribunal Federal16.
Em dezembro de 2007, o Ibama emitiu o Termo de Referência – TR – definitivo para orientar a elaboração do Estudo de Impacto Ambiental e seu respectivo Relatório de Impacto Ambiental – EIA/Rima.
Posicionando-se de forma crítica, um grupo de 38 cientistas vinculados a diversas instituições de ensino e de pesquisa publicou um documento chamado Painel de Especialistas: Análise Crítica do Estudo de Impacto Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Belo Monte (Magalhães & Hernandez, 2009). Estes especialistas identificaram e analisaram, conforme a sua área de atuação, graves problemas e sérias lacunas no EIA de Belo Monte.
Na medida em que o projeto avançava nos trâmites da burocracia brasileira, a luta contra o mesmo se intensificava no campo social. No ano de 2009 foram convocadas e realizadas quatro audiências públicas sobre a UHE Belo Monte. O Ministério Público Federal apresentou recomendação de que mais treze audiências públicas fossem realizadas. Essa recomendação não foi seguida, e não houve mais audiências públicas.
Como não foi seguida tal recomendação, foi proposta nova ação judicial, que resultou na concessão de uma decisão liminar suspendendo o processo de licenciamento da obra enquanto não fossem realizadas as audiências públicas de forma a abranger toda a população atingida. Meses depois, a decisão liminar foi revogada pelo Tribunal Regional Federal, e seguiu-se o processo de licenciamento ambiental (Fleury, 2013).
16 O Supremo Tribunal Federal é a última instância de julgamento de causas envolvendo violações à Constituição Federal Brasileira, enquanto os Tribunais Regionais Federais são a segunda instância de julgamento dos processos no âmbito de competência da Justiça Federal.
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Ainda em 2009, o projeto Belo Monte foi denunciado em audiência pública da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington – EUA. Posteriormente, o caso Belo Monte foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos – CIDH – da Organização dos Estados Americanos – OEA –, que expediu uma ordem para que fosse detida a construção até que se cumprisse a consulta aos povos indígenas prevista pela Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho)17.
O governo brasileiro, já durante o mandato de Dilma Roussef, reagiu violentamente à referida determinação, deixando pela primeira vez na sua história de comparecer a uma reunião de trabalho da OEA, e suspendendo a sua contribuição anual à entidade como forma de retaliação.
Contrariado pela decisão que determinava a paralisação das obras da Usina Hidrelétrica Belo Monte, o governo da presidente Dilma chegou a cogitar se desligar da OEA. A diplomacia brasileira – que raramente se pronunciava nos debates sobre o sistema interamericano, reformas do regulamento – assumiu desde o ano passado uma postura agressiva de ataque à Comissão Interamericana, principalmente no sentido de limitar as Medidas Cautelares. O mal estar criado pelo Brasil com relação às medidas cautelares de Belo Monte serviu como sinal verde para que outros países – que tradicionalmente vêm tentando enfraquecer o sistema interamericano, como Colômbia, Venezuela e Equador – tomassem posições ainda mais pesadas (Justiça Global Brasil, 2012).
Em 1º de fevereiro de 2010, o Ibama, apesar de todas as controvérsias, emitiu a Licença Prévia – LP18 – para o Aproveitamento Hidroelétrico Belo Monte, atestando a viabilidade ambiental da obra e estabelecendo cerca de quarenta condicionantes a serem cumpridas para a emissão da próxima licença, a Licença de Instalação – LI19.
17A Convenção 169 da OIT foi ratificada no Brasil pelo Decreto Legislativo nº 143, de 20/6/2002, e entrou em vigor em 2003. Esta ratificação é compreendida pelo STF como condição necessária e suficiente para a introdução da norma internacional em caráter de lei ordinária e de aplicação direta.
18 A Licença Prévia – LP – é a primeira etapa do processo de licenciamento ambiental e deve ser solicitada ao órgão ambiental competente na fase de planeamento da implantação, alteração ou ampliação do empreendimento. Tem a finalidade de aprovar a localização e a concepção do mesmo, atestando a sua viabilidade ambiental e estabelecendo os requisitos básicos e condicionantes a serem atendidos nas próximas fases de licenciamento, considerando as diferentes alternativas de projeto e eventuais propostas apresentadas pelo interessado em obter tal licença.
19 A Licença de Instalação – LI – é a segunda etapa do processo de licenciamento. Esta licença autoriza a instalação do empreendimento/atividade, possibilitando o início das obras de acordo com as especificações constantes dos planos, programas e projetos aprovados, incluindo medidas de controle ambiental e demais condicionantes detalhadas no Projeto Básico Ambiental (PBA).
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Houve uma grande pressão por parte do empreendedor e da alta cúpula do governo brasileiro sobre o órgão ambiental para que fosse concedida a LI. Como resultado dessa pressão, a licença foi concedida sem que as condicionantes fossem cumpridas em uma figura legal inexistente no ordenamento jurídico brasileiro, “criando-se” assim a chamada Licença Parcial de Instalação.
Pouco menos de um mês antes da realização do leilão para a concessão da obra, o Ministério Público Federal ingressou com duas ações civis públicas, que se somaram a outras quatro já em curso, demonstrando a ilegalidade da licença concedida. Pedia o cancelamento do certame, já que para ele ocorrer era necessário o atestado de viabilidade ambiental do empreendimento. E, nesse caso, a menos que se considerasse que os presidentes dos órgãos envolvidos são mais experts que seus próprios técnicos, ele não existiria.
Dias antes do leilão, o juiz federal de Altamira emitiu duas decisões irretocáveis, com várias laudas demonstrando, ponto por ponto, as contradições entre os pareceres técnicos e as decisões políticas. Anulou a licença, afinal, decisões arbitrárias são contra a lei. Só que essas liminares subsistiram por poucas horas. Com base numa lei que lhe permite suspender os efeitos de liminares caso as julgue ameaçadoras da “ordem pública”, sem que precise apontar qualquer equívoco jurídico do juiz de primeiro grau, o presidente do TRF 1 da Região derrubou ambas as decisões alegando, simplesmente, que a obra é importante. Corrigir o desmando administrativo de um órgão acossado politicamente pelas altas esferas do poder não lhe pareceu importante. Resguardar os direitos de populações indígenas e ribeirinhas invisibilizadas por uma mentira oficial, menos ainda.
Com o Judiciário fora do jogo, o empreendedor entendeu que o céu é o limite. Passou a pressionar o Ibama para que liberasse rápido a licença de instalação para que a obra pudesse começar. Só que para obter o documento teria de cumprir uma série de condições, várias delas complexas, como a retirada de grileiros de algumas terras indígenas ou a instalação de uma infraestrutura de saúde, educação e segurança nas cidades que receberão as hordas de migrantes. Isso leva tempo e custa caro. Por isso, seguindo o exemplo das usinas do rio Madeira, o empreendedor pleiteou a emissão de uma “licença parcial”, que não existe na legislação ambiental, mas que permite ir adiantando parte da obra – a instalação dos canteiros – enquanto “se vai cumprindo” as condicionantes. Em janeiro de 2011, a licença de instalação parcial foi emitida sem que nem mesmo as poucas condicionantes eleitas pelo Ibama como indispensáveis de ser cumpridas antes de começar qualquer obra tivessem de fato sido realizadas. Enquanto estas linhas foram escritas, se aguardava uma decisão de um juiz federal de Belém, mas com a certeza de que se ela viesse seria rapidamente derrubada no tribunal (Rojas & Valle, 2011; p.8-9).
Assim, permeado por polêmicas e disputas políticas e judiciais, com o aval do poder judiciário e do órgão de fiscalização ambiental - Ibama, iniciaram-se as obras da UHE Belo Monte. Os argumentos contrários ao projeto, embora tenham sido construídos através de debates entre as populações atingidas, cientistas, Ministério Público Federal e
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movimentos sociais, não foram objeto de qualquer discussão por parte do empreendedor nem do Governo Federal, através dos seus órgãos de fiscalização.