PARTE I: VISIBILIDADES
1.1. Um primeiro olhar: a obra
Será indispensável também tratar de toda a luta que decorre(u) desse projeto, assim como identificar os principais atores sociais envolvidos, as posições suas históricas e como elas se alteraram no decorrer dos mais de 35 anos entre os primeiros estudos e o início da construção.
O conflito sobre Belo Monte tomou proporções internacionais como um marco do socioambientalismo ainda nos anos 1980. Já nos anos 2000, o projeto de Aproveitamento Hidroelétrico Belo Monte (AHE Belo Monte) ganhou novo fôlego com o governo do Presidente Lula da Silva e um cenário económico favorável às grandes obras de infraestrutura.
Como veremos a seguir, o projeto Belo Monte nem sempre teve esse nome e em mais de 40 anos teve momentos de maior ou menor movimentação, mas nunca esteve parado.
1.1. Um Primeiro Olhar: a obra
Belo Monte é uma Usina Hidroelétrica atualmente2 em construção no Estado do Pará, na Amazônia brasileira. Esta é talvez a primeira e mais genérica definição do que constitui este “caso”. Entretanto, Belo Monte é muito mais do que isso, e pode ser abordada, como já foi dito, a partir de diversos de seus aspectos ambientais, sociais e econômicos.
Antes de delimitar o que será o meu estudo de caso, descreverei o que é a Usina Hidroelétrica Belo Monte nos moldes atuais de sua existência, dando ênfase à forma como está sendo construída no curso do rio Xingu. Esta descrição será uma introdução à história do megaprojeto e suas polêmicas.
Em janeiro de 2011, o consórcio empresarial Norte Energia S/A (que venceu a licitação da outorga de concessão para a construção da usina)3 obteve a licença ambiental
2A expressão “atualmente” refere-se ao momento do depósito da tese perante a Universidade de Coimbra. 3 A Norte Energia S.A. é um consórcio formado por empresas estatais e privadas do setor elétrico, fundos de pensão e de investimento e empresas autoprodutoras, para construir e operar a Usina Hidrelétrica Belo Monte. A sua composição acionária é a seguinte: Grupo Estatal Eletrobrás: Eletrobrás: 15,00%; Chesf: 15,00% e Eletronorte: 19,98%. Entidades de Previência Complementar: Petros: 10,00%; Funcef: 10,00%. Sociedade de Propósito Específico: Belo Monte Participações S.A. (Neoenergia S.A.): 10,00%; Amazônia (Cemig e Light): 9,77%. Autoprodutoras: Vale: 9,00%; Sinobras: 1,00%. Outras Sociedades: J.Malucelli Energia: 0,25% (Norte Energia S.A., 2015).
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de instalação (LI) e deu início às obras de terraplanagem para o acesso ao local da usina e a construção dos canteiros. Assim começou a obra da UHE Belo Monte, no rio Xingu.
A usina está sendo construída na região oeste do Estado do Pará, no município de Vitória do Xingu. No entanto, são 11 os municípios diretamente relacionados com essa obra: Altamira, Anapu, Brasil Novo, Gurupá, Medicilândia, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu.
Figura 01: A UHE Belo Monte e os municípios relacionados Fonte: ISA, 2010.
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O complexo Belo Monte consiste em duas barragens (sítio Pimental e sítio Bela Vista), uma casa de força principal (Belo Monte do Pontal), um canal de derivação4 e vários diques (volta grande do Xingu). A barragem do sítio Pimental será uma intervenção no curso do rio na área conhecida como Volta Grande, onde o mesmo será desviado através do canal de derivação para a casa de força principal localizada em Belo Monte do Pontal. Para isso, as obras estão sendo realizadas em diferentes trechos do rio, em quatro canteiros de obras localizados em áreas entre os municípios de Altamira e Vitória do Xingu.
Figura 02: AHE BELO MONTE Fonte: Rima (2008)
4Foram previstos no projeto original dois canais de derivação, como se pode ver na figura 02; entretanto o consórcio empreendedor optou por construir apenas um canal abrangendo área superior à dos dois canais previstos. Tal alteração do projeto foi realizada posteriormente ao EIA/Rima e não foi objeto de embargo pelo órgão ambiental fiscalizador, o Ibama.
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A UHE Belo Monte terá potência instalada de 11.233,1 MW, com a previsão de 4.571 MW médios de energia assegurada. Isso porque o rio Xingu apresenta grande variação de vazão entre os períodos de cheia e seca, não permitindo que se utilize toda a potência instalada durante todo o ano (Eletrobrás, 2002).
A usina visa aproveitar um desnível de cerca de 90 metros existente no curso do rio Xingu entre a cidade de Altamira e o sítio Belo Monte, e deverá operar na modalidade de nível constante chamada de “fio d´água”. Isso significa que não haverá armazenamento de água em reservatórios para o controle da geração de energia, e que a utilização das turbinas instaladas vai depender sempre das vazões naturais afluentes à casa de força. Segundo a Eletronorte, os estudos hidroenergéticos apontaram que tal modalidade apresentaria a melhor relação entre custo e benefício (Eletrobrás, 2002).
A área alagada será de 516km², sendo formada a partir da barragem do sítio Pimental. Em decorrência desse desvio do curso do rio, da construção do canal de derivação e das duas barragens acima citadas, o trecho conhecido como Volta Grande do Xingu, localizado entre o sítio Pimental e Belo Monte do Pontal, terá reduzido drasticamente o seu nível de água. Nessa região, além da grande diversidade biológica, existem duas terras indígenas demarcadas5 (Paquiçamba e Arara dos Maia) e diversas comunidades de população ribeirinha, agricultores e indígenas ribeirinhos que não vivem nas terras demarcadas. Também se trata de uma área muito rica em minérios, onde se situa a localidade conhecida como Vila da Ressaca, antiga comunidade de garimpo de ouro.
Em fins de 2014 (quando foi realizado o meu trabalho de campo) mais de 50% da obra de construção da UHE Belo Monte estava concluída, e o número de trabalhadores contratados para a execução dessa obra já superava os 25.000, sendo 87% desse total constituídos por homens (Folha de São Paulo, 2013). Apesar disso, o cronograma original sofreu um atraso de aproximadamente um ano.
A Norte Energia alega que as causas do atraso não são de sua responsabilidade, e se devem a paralisações da obra não previstas pelo cronograma, como as decorrentes de greves, protestos e ocupações da rodovia BR 230 – conhecida como rodovia
5Terras indígenas demarcadas são territórios delimitados geograficamente e legalmente protegidos com fundamento no artigo 231 da Constituição brasileira de 1988.
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