3. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO ENTRANHADA NAS RAIZES DOS MOVIMENTOS
3.3 O Movimento Ribeirinho do Amazonas: em defesa das águas, das terras e das
3.3.2 Debates sobre educação e identidade ribeirinha
O Movimento Ribeirinho, ao lutar pela defesa do território das águas, objetivava defender a vida dos ribeirinhos, os valores e a cultura ribeirinha por meio da educação e da organização, assim como objetivava defender as fontes de alimento, o lago, o rio, a terra, o peixe e a floresta (SPÍNOLA, 1997). Em muitos momentos, esse movimento demonstrou a necessidade de se discutir e pensar uma educação a partir da realidade ribeirinha.
Na Carta dos Rribeirinhos do Amazonas (Anexo O), extraída da dissertação de Spínola (1997, p. 170), encontramos o posicionamento dos ribeirinhos sobre desenvolvimento sustentável que, para eles, significava um processo integrado das dimensões política, econômica, social e educacional. No âmbito educacional, propuseram:
[...] deve ser garantido aos ribeirinhos condições para desenvolver suas próprias técnicas de produção e diversificação da agricultura, e para que aos nossos filhos seja garantido a escolarização completa, inclusive universitária, voltada para a nossa realidade de vida e de trabalho. Nossa história e nossa cultura. Além isso, é fundamental a conscientização massiva, no campo e na cidade, a respeito da necessidade de se manter uma relação harmônica e respeitosa com a natureza.
A respeito da educação, a Carta dos Ribeirinhos do Amazonas demonstrava a necessidade de se assumir compromissos coletivos com a valorização da história, da cultura, dos modos de vida e de trabalho ribeirinho. A educação não deve ser alheia à realidade ribeirinha e limitada aos anos iniciais do fundamental também reivindicavam educação universitária.
E, condições e autonomia na elaboração de técnicas produtivas. A diversidade sociocultural experimentada pelos ribeirinhos é condição indispensável para pensar a agricultura familiar e suas atividades produtivas (NODA; NODA; MARTINS, 2006).
É importante destacar a atenção que é dada ao processo de conscientização dos sujeitos do campo e da cidade no sentido de assegurar relações de harmonia com a natureza. Enfrentar a problemática ambiental deve ser atitude de todos, de forma consciente.
A Carta dos Ribeirinhos do Amazonas, também, apresenta várias propostas de luta. Dentre elas, destacamos a luta pela demarcação de reservas para proteção dos ecossistemas formados por lagos de criação, lagos de manutenção e áreas de moradia e de trabalho dos ribeirinhos, garantindo-lhes direito de posse, questão que influencia, inclusive os modos de conservação desses recursos. Para Noda, Noda e Martins (2006, p. 186),
modificações significativas ocorrem, também, nos momentos de luta pelo acesso à terra. Dentre todos os patamares de transformação e reconstrução cultural de influência nos modos de conservação dos recursos naturais aquáticos e terrestres, os momentos de reconhecimento público e governamental sobre a questão da apropriação da terra nas várzeas foram e continuam marcantes.
O tema educação também foi debatido no 11º Encontro dos ribeirinhos de 1994, dois anos após a divulgação da Carta dos Ribeirinhos. Esse encontro apresentou preocupações em articular a educação ambiental, a educação popular e a educação pública. Continuavam a pautar a necessidade de construir uma educação a partir dos conhecimentos da realidade e necessidade do povo ribeirinho (SPÍNOLA, 1997).
Analisamos que a preocupação dos ribeirinhos nessa Carta apresentava a necessidade de articular temas que são fundamentais para a Educação do Campo, como a educação popular, que é um dos seus fundamentos. A educação dos ribeirinhos não pode receber o mesmo direcionamento das escolas urbanas, porque, assim como outros povos do campo, eles “têm uma raiz cultural própria, um jeito de viver e de trabalhar, distinta do mundo urbano, e que inclui diferentes maneiras de ver e de relacionar como tempo, o espaço, o meio ambiente” (BRASÍLIA, 2002, p. 11).
A preocupação dos ribeirinhos com a sustentabilidade do ambiente e com a educação, também, vai ao encontro do Art. 4º da Resolução de institui as Diretrizes Operacionais para Educação Básica nas Escolas do Campo, ao afirmar que:
o projeto institucional das escolas do campo, expressão do trabalho compartilhado de todos os setores comprometidos com a universalização da educação escolar com qualidade social, constituir-se-á num espaço público de investigação e articulação de experiências e estudos direcionados para o mundo do trabalho, bem como para o desenvolvimento social, economicamente justo e ecologicamente sustentável (BRASIL, 2002, p. 1).
No campo dos valores culturais, o Movimento Ribeirinho tenta “resgatar os valores culturais que o ribeirinho foi perdendo ao longo dos anos no contato com o sistema capitalista, por exemplo: o trabalho em conjunto (puxirum)” (SPÍNOLA, 1997, p. 94). Esse resgate depende das organizações de base popular, dos movimentos sociais e ambientais, em diálogo com a educação e a identidade ribeirinha.
O debate identitário ganhou força nos XX e XXI Encontro de Ribeirinhos e Ribeirinhas em que houve o I e o II Seminário sobre a Identidade Ribeirinha, ocorridos respectivamente em 2003 e 2004, em Manaus (AM) (CPT/AM, 2003, 2004).
No II Seminário, constam relatos sobre a construção de uma identidade ribeirinha. Com base no relatório do evento de 2004, identificamos as seguintes afirmações:
„para nós, ribeirinho, é toda aquela pessoa que depende da água para viver‟, „Nós construímos nossa identidade quando nos organizamos para lutar pela vida, pela terra e pela água.‟, „O povo da floresta de hoje continua com a prática de usar os recursos naturais de várzeas e de terra firme.‟, „O povo ribeirinho não conhece sua própria identidade. A gente não precisa só de peixe e farinha, mas de incentivo, de educação.‟, „O ribeirinho vive na partilha, na agricultura. O ribeirinho produz para viver, diferente dos pescadores e madeireiros que trabalham para ter resultado no comércio‟ (CPT/AM, 2004).
A discussão sobre a identidade ribeirinha é complexa e continua a desafiar diferentes pesquisadores interessados no assunto. A identidade ribeirinha pode significar “uma perspectiva de afirmação social e política de quem depende não só dos rios, mas das florestas e matas para manter as condições necessárias de vida” (VASCONCELOS; ALBARADO, 2015). Para Fraxe (2004), os ribeirinhos revisitam sua própria identidade que é dinâmica, histórica e em transformação e dialoga com a vivência nos seus territórios das águas, das terras e das florestas e com os valores do trabalho que produz vida no território.
Dessa forma, esses relatos nos indicam que a preocupação dos ribeirinhos com sua identidade é a preocupação com seus territórios de produção de vida, de valores e de
organização política e social, que é acentuada diante da questão ambiental, conforme explica Almeida (2013, p. 28):
o advento nesta última década e meia de categorias que se afirmaram através de uma existência coletiva, politizando nomeações da vida cotidiana tais como índios, seringueiros, quebradeiras de côco babaçu, ribeirinhos, castanheiros, pescadores, extratores de arumã e quilombolas dentre outros, trouxe a complexidade de elementos identitários para o campo de significação da questão ambiental [...] O sentido coletivo destas autodefinições emergentes impôs uma noção de identidade à qual correspondem territorialidades específicas, cujas fronteiras estão sendo socialmente construídas e nem sempre coincidem com as áreas oficialmente definidas como reservadas.
A definição ribeirinha a partir do sentido da autodefinição dos coletivos de resistência política nos próprios territórios ou território comunitário16 é uma trama complexa que a cada tempo acrescenta elementos novos, como no caso, o elemento ambiental. O território das comunidades ribeirinhas enquanto espaço social e político depende do uso e da gestão que os sujeitos fazem dos recursos das várzeas e das terras-firmes. Souza (2013), em estudos, defende que o currículo da escola ribeirinha precisa dialogar com o cotidiano e os saberes tradicionais, uma vez que o lugar vivido é lugar de produção de saberes, logo, de construção de identidades coletivas.
A identidade é território de luta e de partilha, ou seja, de valores e de educação. No II Seminário, de 2004, os ribeirinhos debateram os desafios de um movimento social ribeirinho organizado e representativo, e esbarraram nos desafios de um movimento autônomo. Para alguns participantes, só por meio do movimento serão respeitados e valorizados e poderão lutar pela garantia de seus direitos, à água, à terra, à floresta e à educação. Outros afirmaram que não se sentiam preparados para assumir um movimento sem a compreensão real da identidade ribeirinha (CPT/AM, 2004). Esse encontro foi marcado por questionamentos da própria afirmação identitária do Movimento Ribeirinho, que até então ocorria com o apoio da CPT/AM.
Após o XXI encontro, os ribeirinhos e as ribeirinhas só voltam a se encontrar, em nível estadual, em 2012, com a temática: “Retomada dos Encontros de Ribeirinhos do Estado do Amazonas”. Nesse evento, fizeram a memórias aos 20 anos de encontros de ribeirinhos e de ribeirinhas. Relembraram algumas situações que instigaram a criação do movimento.
16
Ver esse conceito em Pereira (2014, p. 127). Para ele, “Em uma análise geográfica é preciso compreender as diferentes geográficas da comunidade, ou seja, como os agentes constroem seu espaço, constitui um território; como geram e gerem, significam seu território enquanto território comunitário. Nessa perspectiva, cabe analisar como os diversos agentes sociais ribeirinhos constituem suas territorialidades enquanto comunidades ribeirinhas”.
[...] Depredação dos lagos, SUDEPE sem critérios para encaminhar os trabalhos problemas, assistência precária e controladora não ajudava, não tinha recursos financiamento para os pequenos pescadores. As leis das colônias não era à favor dos pescadores e nem a lei funcionava. Em Coari - 1983 a 1985, o tabelamento do pescado era pela Prefeitura. Em Manacapuru não existia mais peixe nos rios, Tabatinga - escassez elevado dos preços dos peixes, o Gelo era de difícil acesso, Monopólio dos Frigoríficos e auto custo do „combustível‟ (CPT/AM, 2012).
Além de relembrarem essas problemáticas, traçaram caminhos para a retomada de suas lutas, por meio das seguintes propostas: ampliar e promover mais encontros, oficinas e cursos de formação para fortalecer as comunidades; ampliar a quantidade de lagos preservados; fortalecer o trabalho de sensibilização nas comunidades ribeirinhas; mapear e sinalizar os lagos; apoiar o processo de formação e o trabalho dos agentes ambientais voluntários; lutar pela regularização fundiária nas áreas de várzea; promover o fortalecimento e a orientação jurídica aos Comitês de Pesca e de Bacias; lutar pela Reforma Agrária na Amazônia (CPT/AM, 2012).
O evento de 2012 não foi apenas uma forma de resgatar os demais encontros de ribeirinhos e ribeirinhas, mas de denunciar a crescente desmobilização política deste movimento (CPT/AM, 2012), cujo reflexo foi a estagnação desses encontros em nível de estado, após 2012.
Analisamos que este processo de desmobilização não afeta apenas os ribeirinhos e as ribeirinhas, mas outras frentes de lutas no Brasil. Em todos os campos da sociedade, o início do século XXI foi marcado por processos veementes de retrocessos que atacam direitos humanos e importantes estratégias de luta por dignidade e respeito a diversidade humana, ambiental, sociocultural e territorial, porque mais uma vez, o capitalismo se transforma e intenta suplantar todas as formas alternativas de vida e experiências fora dos parâmetros da geração de lucro, competitividade e individualismo como, por exemplo, os movimentos sociais, que têm sido constantemente criminalizados pelos setores dominantes da sociedade.
Mesmo com esses ataques, os movimentos sociais representam formas de resistência que acompanham as transformações da sociedade no tempo e no espaço. Eles também se transformam e propõe novas pautas e novas motivações. Na aparência, ocorrem recuos, mas na essência ocorrem construções/reconstruções de novas estratégias para atender ao tempo/espaço atual de enfrentamento às múltiplas e complexas formas de exploração e subjugação da vida.
No caso do Movimento Ribeirinho, os estudos de Pereira (2004) e Albarado (2016) indicam que esse movimento continua acontecendo localmente, nas comunidades ribeirinhas onde continuam a defesa dos lagos, das florestas e das terras e a pauta das demandas sociais.
Eu quero dizer que essas atividades ainda têm em alguns lugares, como eu estou colocando, em Itacoatiara, eu acredito que em Tefé também têm experiências. Em Tefé foi muito forte o movimento na época e foi interessante mesmo, porque eles já não enfrentaram os mesmos conflitos que se enfrentou aqui no primeiro momento, que foi no alto Solimões, no município de Tocantins. Eles criaram o movimento de preservação, escolheram os lagos pra preservar e todas as comunidades se envolveram, pelo menos dos lagos que eles fizeram a escolha pra ser lago de procriação, tudo como determinava. Tinha lago de santuário e lago de manutenção (Auriédia Marques, 52 anos, ex-coordenadora da CPT/AM, em 29/09/2016).
Esse movimento continua, e, ainda que não realize encontros em nível estadual, as estratégias de luta tem se dado em nível local, nos município. Dentre esses movimentos, abordamos a participação do GRANAV, cujos representantes participaram dos encontros de ribeirinhos do Amazonas, mas que hoje continuam atuando em Parintins na defesa dos territórios e da construção da Educação do Campo.