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3. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO ENTRANHADA NAS RAIZES DOS MOVIMENTOS

3.3 O Movimento Ribeirinho do Amazonas: em defesa das águas, das terras e das

3.3.1 O apoio da CPT: a singularidade na totalidade

A CPT, desde sua criação, em 1975, tem se defrontado com conflitos no campo e com diferentes formas de violência contra os trabalhadores e as trabalhadoras que vivem em territórios rurais e têm “no uso da terra e da água seu sistema de sobrevivência e dignidade humana” (CANUTO; LUZ; ANDRADE, 2015, p. 9). Desde sua criação, enquanto uma ação pastoral da igreja “assumiu a tarefa de registrar e denunciar os conflitos de terra, água e violência contra os trabalhadores e seus direitos” (CANUTO; LUZ; ANDRADE, 2015, p. 10). E, dessa forma, que tem contribuído com o protagonismo e com a organização dos povos do campo diante das estruturas de poder que marginalizam as pessoas mais pobres (CPT/AM, 2002).

No Amazonas, a CPT existe desde 1977. Nos arquivos dessa Comissão, localizada no município de Manaus, identificamos documentos sobre os encontros de ribeirinhas e ribeirinhos no período de 1983 a 2012 (CPT/AM, 2012). A CPT organizou a memória desses encontros por ano de ocorrência e conforme o nome de cada evento no intuito de contribuir com o registro e a identificação da mobilização dos ribeirinhos. Os documentos registram uma importante pauta sobre a articulação entre água, terra, floresta e educação, assim como as estratégias coletivas do Movimento Ribeirinho.

Essa experiência de luta se deu em vários municípios do Amazonas, dentre eles, destacamos Tefé, Parintins, Coari, Itacoatiara, Silves, Lábrea, Iranduba, Urucará, São Paulo de Olivença, Jutaí, Fonte Boa, Maroã e Tonantins. Como resultado dessa importante mobilização, no Estado amazonense, foram criadas portarias e acordos comunitários de Pesca. Também ocorreu formação de Agentes Ambientais Voluntários e a participação de ribeirinhos em diferentes espaços de luta (CPT/AM, 2012).

A CPT assume a identidade das regiões onde está localizada. No banner, a seguir, denominado “Memória dos 25 (vinte e cinco) anos de atuação da CPT”, no Amazonas, observamos um mosaico de imagens que representam histórias de luta, de participação, de mobilização e de manifestação, decorrentes de processos de formação coletiva. Essa experiência evidencia a participação dos povos do campo, do Amazonas, no grito dos excluídos, na caravana das águas, no encontro dos trabalhadores rurais e nas manifestações contra o gasoduto e contra a construção da Hidrelétrica de Balbina.

Imagem 07 - Banner memória dos 25 anos da CPT/AM

Fonte: CPT/Regional Amazonas

A imagem revela, em parte, a síntese do trabalho da CPT que se encontra comprometida com as dimensões: ética, política, pedagógica, histórica e científica que envolve a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo em situações de conflitos, violências e marginalizações.

Quanto aos conflitos por terra, a CPT/AM define que estes envolvem “ações de resistência e enfretamento pela posse, uso e propriedade da terra e pelo acesso aos recursos naturais” (CANUTO; LUZ; ANDRADE, 2015, p. 13). Os conflitos pela água abrangem

ações de resistência, em geral coletivas, que visam garantir o uso e a preservação das águas, contra a apropriação privada dos recursos hídricos, contra a cobrança do uso da água no campo, e de luta contra a construção de barragens e açudes (CANUTO; LUZ; ANDRADE, 2015, p. 14).

A CPT registra e analisa os conflitos agrários, promove assessorias, processos de formação e faz a escuta dos sujeitos a partir de um trabalho de base com os sujeitos nos seus territórios. Esse trabalho para a participante Auriédia Marques é fundamental, porque a comissão chega aonde muitos não chegam.

[...] A CPT tem isso, que é o trabalho com a base na sua estrutura, e esse trabalho é fundamental. Então, por que é importante a participação da CPT nesses espaços? Porque ela pode trazer exatamente essa voz que às vezes não chega, até por causa das dificuldades também, às vezes a pessoa até discute: “mas a CPT é mediadora?”, “Não!” “A CPT não deve ser mediadora”. Mas eu acho que ela pode levar a experiência do que ela pode viver lá com os seus agentes na experiência no campo. Daí, sim, vai chamar no campo [...] no sentido de estar lá, naquele local, naquele espaço. Então, acho que ela pode dar essa contribuição [...] ela vai estar discutindo porque as vezes têm lugares onde a CPT chega que outros não chegam, sem falar que essas pessoas ainda confiam muito no trabalho da CPT. Então tem coisas que eles falam pra CPT que não falariam pra outros e nem em outros espaços, porque não tem a acolhida (Auriédia Marques, 52 anos, ex-coordenadora da CPT/AM, em 29/09/2016).

Essa confiança no trabalho da CPT/AM fez com que, historicamente, ela ganhasse notoriedade junto aos diversos órgãos da sociedade brasileira, no sentido de socializar as escutas dos conflitos por terra, água e floresta vividos pelos povos do campo e exigir dos órgãos responsáveis ações de proteção a esses povos.

E, ainda que, no relato acima, da participante Auriédia Marques, prevaleça à ideia de que a CPT não deva ser mediadora, ao acompanhar as experiências e as lutas desses povos, essa comissão acaba mediando processos de protagonismos, como no caso dos debates sobre a problemática da escassez de peixe no Amazonas que ganhou visibilidade nos Encontros dos Ribeirinhos, apoiados pela CPT.

No relato de Isidório Riveris, extraído do Relatório do XVIII Encontro de Ribeirinhos do Amazonas, de 5 a 7 de agosto de 2002, destacamos o seguinte argumento sobre o debate e as ações que deram visibilidade à questão das águas no contexto amazônico:

Se esse trabalho não tivesse sido feito a Amazônia estaria muito mais espoliada do que está agora. Assim como os trabalhadores sem terra que se organizaram e conquistaram um lugar importantíssimo, através do MST. Nestas duas décadas, eu acredito que este trabalho de vocês [...] é muito importante para preservar e proteger um bem natural que está sendo rapidamente apropriado: não somente a floresta, mas principalmente a água [...] Nós, no Brasil, num curto espaço de tempo, já estamos nos defrontando com a privatização da água [...] Aqui, não será mais a questão de preservar o lago e a pesca, nós teremos que enfrentar um problema de acesso a água (CPT/AM, 2002).

Esse relato alerta para a importância das lutas do campo na Amazônia seja pela terra, seja pela floresta, seja pela água. E alerta para o grave problema do acesso à água que, no contexto atual, já é uma realidade visível no Brasil e no mundo. De certa forma, o Movimento Ribeirinho do Amazonas, também, despertou atenção para o processo de privatização desse recurso.

O avanço da privatização sobre as águas seja para a apropriação dos peixes de maneira predatória seja para silenciar os ribeirinhos e as ribeirinhas, deparou-se com a construção de um forte movimento de resistência.

Os ribeirinhos resistiam por meio das experiências dos empates que significavam uma estratégia de resistência, aprendida com os seringueiros nas suas lutas pela defesa da floresta e resistência à ocupação insana da Amazônia. “Os seringueiros estavam vendo a ocupação se acelerar pela implantação de empreendimentos madeireiros, de garimpos, agropecuários” (SOUZA, 1990, p. 117) obtendo, inclusive, permissão do governo ditatorial para queimar a floresta com fins mercadológicos e para intimidar os extrativistas que estavam criando uma “cultura de resistência ao desapossamento" (SOUZA, 1990, p. 117). Esse movimento teve como um de seus grandes líderes, Chico Mendes, que foi assassinado em 1988 por defender os povos da floresta.

O empate dos ribeirinhos consistia em obstruir/impedir os caminhos dos pescadores comerciais que tentavam colocar equipamento de pesca em área de pesca ou de preservação pertencente a uma comunidade (MAYBURY-LEWIS, 1997). Também utilizavam como estratégia o diálogo com os pescadores predadores, a vigília dos lagos e os impedimentos de entrada das embarcações pela boca dos lagos ameaçados de depredação (ALBARADO, 2016).

Outra questão marcante nesse movimento deve-se a presença das mulheres, como protagonistas das lutas em defesa dos lagos. Muitas mulheres foram para as negociações entre ribeirinhos e pescadores comerciais e, se pronunciaram por meio da técnica do empate e obtiveram êxito, frutos positivos para fortalecer o movimento (SPÍNOLA, 1997).

Esse processo de diálogos, de empates e de enfretamentos não foi passivo. Houve muitos conflitos e situações de assassinato. A imagem a seguir divulga a experiência ribeirinha sobre a preservação de lagos e homenageia Ivo Azevedo dos Santos (foto à direita do banner), que era um agente ambiental empenhado na defesa dos lagos de manutenção e de procriação, envolvido nas lutas contra a opressão vivida pelos ribeirinhos.

Imagem 08 - Banner sobre Experiência Ribeirinha (exposto na CPT/AM)

Fonte: CPT/Regional Amazonas

A memória desse mártir das águas é lembrada nos trabalhos da CPT e nas lutas ribeirinhas, porque externa a coragem desse agente ambiental voluntário e a de muitos outros defensores das águas, das terras e das florestas que foram ameaçados de morte e/ou foram expulsos de suas águas, florestas e terras. Essa realidade ainda continua se reproduzindo. Em 2015, o relatório da CPT/Nacional registrou 47 assassinatos diante dos conflitos pela terra e 135 assassinatos diante dos conflitos pela água (CANUTO; LUZ; ANDRADE, 2015).

Devemos ressaltar que a CPT assumiu a pauta das lutas pelas águas a partir da contribuição dos povos da Amazônia que reivindicaram em nível nacional demandas específicas. De acordo com Spínola (1997), os ribeirinhos reclamavam nos encontros de agricultores promovidos pela CPT espaço para debater as questões de água, a ocorrência de depredações de lagos e a pesca predatória; o problema dos ribeirinhos do Amazonas precisava ser debatido, também.

A participação de Auriédia Marques nos encontros da CPT em nível nacional lhe permite relatar com propriedade empasses vividos dentro da própria entidade para levantar a bandeira das lutas pelas águas. Não foi um processo sem conflito.

Quando você é da coordenação, você não tem como não participar dos eventos. Agora é legal porque nesses eventos nacionais você vê as mais [...] diferentes realidades do próprio país e que dentro, também, da própria CPT, você enfrenta dificuldades da compreensão da diversidade que cabe a cada estado [...].

Então, eu acho que essa discussão de preservação de lagos que hoje a CPT assume sem esses problemas. Eu acho que foi uma contribuição do Norte pra lá, não tenha nem dúvida, e, principalmente, do Movimento de Preservação de Lagos. A grande contribuição foi o Amazonas, porque essa experiência daqui foi muito rica. E foi muito difícil, porque dentro da própria entidade você encontra a resistência, também, porque de forma mais geral a CPT, digamos lá nos anos 1970, 1980, principalmente, quando a CPT surge, ela surge por causa de conflitos agrários – terra! Terra mais precisamente! E aqui [no Amazonas] também, tanto que se a gente for olhar nos documentos bem anteriores da CPT vamos ver realmente a CPT fazendo levantamento da problemática agrária, de terra no estado. E isso é muito rico dentro da história da CPT.

Mas mais adiante junto com os conflitos de terra vamos ver também os conflitos de lagos. Daí que surge o Movimento Ribeirinho. Quando levamos essa discussão das águas, vamos chamar essa discussão dos conflitos de água, pra dentro da CPT, foi difícil, porque pra gente aqui no estado era, digamos assim, era comum se pensar também dessa forma, porque era essa a realidade que se enfrentava, mas pra nível nacional pensar a água quando você tem conflitos de terra foi difícil passar.

Mas, aos poucos, vieram enfrentando isso e, hoje, é muito comum pensar, por exemplo, nos eixos da CPT em meio ambiente e em águas. Já se tornou, digamos, mais comum hoje. Então, pra essa própria discussão ser levada pra âmbito do nacional também foi difícil por causa da resistência que se tem, queira ou não.

Eu acredito que o Estado aqui, e a Região Norte, têm uma grande participação nesse sentido, de fazer perceber que a CPT ela é diversa também, que ela tem características próprias em cada estado, e que ela vai pensar algumas coisas em conjunto, talvez em termos mais de concepções, eu diria. (Auriédia Marques, 52 anos, ex-coordenadora da CPT/AM, em 29/09/2016).

Esse relato, ao evidenciar como a CPT construiu um percurso histórico em nível nacional a partir de trabalhos coletivos e em diálogo com as diferentes peculiaridades socioculturais e territoriais de cada estado e, especificamente, do Amazonas, contribui para que analisemos a singularidade na totalidade da CPT. Ela experimenta a dialogicidade dos territórios das terras, das florestas e das águas, inclusive como referência para a educação, conforme relata Auriédia Marques:

sobre a proposta do movimento de ribeirinhos para a educação, não me lembro [...] não, dessa forma digamos de uma educação formal [...] porque a ideia era sempre essa que, no caso, toda forma de educação ou da própria educação escolar deveria ter muito presente essa organização, naquele momento a problemática, fora a problemática da terra que eles enfrentaram, era a questão das águas, que a gente chama de água. É tanto que a gente... é em defesa da terra, da floresta e das águas, que era até o nome de um prêmio que a CPT dava pra quem trabalhava com isso, acho que era o prêmio Jorge Masto, um dos fundadores da CPT. Essa premiação ainda durou alguns anos, mas depois não foi mais adiante. [...] E lá [na sede da CPT]

tem o símbolo onde está escrito “em defesa da terra, da floresta e dos povos que nela vivem” (Auriédia Marques, 52 anos, ex-coordenadora da CPT/AM, em 29/09/2016). Esse relato também nos revela que a CPT não dicotomiza as lutas, mas as unifica, até porque, como a participante Auriédia Marques afirmou, os ribeirinhos também enfrentavam e enfrentam problemáticas referentes à questão terra. É com a luta dos povos que a entidade se coloca em defesa da terra, das florestas e das águas.

A CPT acompanha historicamente os processos fundamentais para aprofundar o processo de escuta junto aos povos. Ela acompanha a diversidade de movimentos que lutam pelos territórios: MST, Movimento indígena, Movimento Quilombola, Movimento Ribeirinho, Movimento dos Atingidos por Barragens e Movimento dos Povos da Floresta.

No contexto amazonense reiteramos que não só a terra é pautada nas lutas, mas também a luta pelas águas, pelas florestas, pela proteção dos recursos aquáticos, pelos santuários de reprodução dos peixes, assim como a luta política pela educação. Isso contribuiu para gerar consciência de classe e uma identidade de classe (THOMPSON, 2012), porque essas lutas articularam à dimensão política, em defesa do meio ambiente, à dimensão das lutas pela educação e valorização da identidade dos povos ribeirinhos.