• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 2: A APROXIMAÇÃO DA CAVERNA SECRETA 68

2.4 Decifrando o enigma: O processo de tematização

Durante o processo de interpretação, precisei voltar, várias vezes, ao trecho do vídeo para identificar, também, uma expressão no rosto de um participante, um riso, ou mesmo checar se no momento do trecho selecionado havia também algo complementar no chat, entre outras checagens.

Nesse processo, foi possível confrontar os registros textuais com o material audiovisual, com os textos de apoio, com as informações dos participantes, tudo na mesma tela, sendo possível criar nós entre as informações pertinentes e estabelecer critérios de confirmação e descarte das unidades de significado e na ressignificação dos temas.

Os temas e subtemas puderam ser codificados e organizados conforme a abordagem metodológica escolhida.

foram sendo arquivados os Excertos dos textos que eram selecionados durante o processo de leitura das unidades de significado.

Ter na mesma interface acesso dinâmico ao vídeo das gravações auxiliou no processo de checagem e confirmação de algumas expressões que poderiam ter palavras trocadas durante o processo de textualização, contexto do uso das palavras (sequências de risadas, momentos de silêncio, entonação etc.), dentre outras checagens realizadas.

Optei por convencionar os nomes dos nós, primeiro, por ciclos de leitura e identificação das unidades de significado, depois, por ciclos de leitura de refinamento e ressignificação. Nos ciclos finais, fui nomeando conforme os temas e subtemas foram sendo confirmados. Alguns nós foram nomeados conforme os ciclos de checagens intermediárias (nós de anotações, contrastes de excertos etc.).

As leituras se realizaram conforme o processo circular proposto por Freire (2007, 2012, 2017), e cada nó criado foi acessado ficando visível sempre na interface, permitindo as idas e vindas, dos nós aos textos-base e vice-versa, no recurso.

Nas figuras 6 e 7, a seguir, ilustro por meio das capturas de tela. como foram sendo identificadas e codificadas as primeiras unidades de significado, que depois permitiram a ressignificação e identificação dos temas:

Figura 6 - Identificando e codificando as primeiras unidades de significado

Fonte: Tela NVivo-10, da autora

Percebi que foi muito pertinente compreender como funcionam os nós e o procedimento de codificação para o processo de tematização, pois o processo circular que Freire (2010, 2012) propõe pode ser sistematizado com o uso destes dois recursos. Intuitivamente explorei, desde o começo dos testes do NVivo, embasada na leitura do texto de Lage (2011, p.208), em especial quando destaca que:

Sempre que um excerto de texto é codificado no NVivo, uma referência a esse Excerto fica armazenada em um ou mais nós, a critério do pesquisador e conforme o referencial teórico adotado para a análise de conteúdo, no caso desta pesquisa. Os nós podem representar categorias de análise previamente definidas ou criadas durante o processo de análise.

Como na AHFC não utilizamos categorias, prévias ou a posteriori, e as unidades de significado e os temas e subtemas emergem de um processo de leitura

circular e sistemática, fui referenciando e codificando os excertos durante a leitura, criando uma relação de nós a partir destes procedimentos.

Ao propor uma tematização que compreenda a substantivação das unidades de significado para definição dos temas hermenêutico-fenomenológicos complexos pelo refinamento e ressignificação, Freire não está propondo uma categorização. O que a autora sugere é um processo que convoca a linguagem para a inteligibilidade do que está materializado no discurso do participante, com a interpretação do pesquisador num processo linguístico que vai do sentido (materializado no texto do participante) ao significado identificado pelo pesquisador. A partir dos procedimentos de refinamento e ressignificação é que o processo interpretativo permite identificar os temas e expressá-los por meio de substantivos, um processo que vai das unidades de significado aos temas. Sobre esses processos, Freire (2012, p.10) destaca que:

A partir da identificação das primeiras unidades de significado (inicialmente, as mais claramente perceptíveis), começamos a desenvolver um procedimento que nomeio refinamento (Freire, 2006, 2007), o qual possibilita que as unidades identificadas possam ser cruzadas, confrontadas, confirmadas ou descartadas e que novas unidades possam ser reconhecidas e submetidas ao mesmo procedimento de verificação. O refinamento se associa ao que denomino ressignificação (Freire, 2006, 2007), movimento que coloca as unidades de significado em contínuo confronto, permitindo que interpretações iniciais sejam, além de confirmadas, reformuladas ou descartadas, gradualmente substituídas por nomeações mais pontuais, expressas por substantivos.

Tendo essas premissas durante todo o processo de tematização, a ferramenta de codificação do NVivo é muito útil e permite um processo dinâmico de investigação nos materiais. Na Figura 7, seguinte, ilustro o processo inicial de codificação:

Figura 7 - Codificando as primeiras unidades de significado

Fonte: Tela NVivo-10, da autora

No NVivo é possível ir criando nós ou codificando em nós já existentes, conforme processo estabelecido: identificação de unidades, refinamento e ressignificação das unidades, ressignificação e nomeação dos temas. Ilustro, na sequência, esse fluxo.

Figura 8 - Codificação criando nó

Fonte: Tela NVivo-10, da autora

Na Figura 8, ilustro o processo de criação de nós a partir da codificação de Excertos do texto que se constituem nas primeiras unidades de significado. Na Figura 9 a codificação dos excertos no processo de refinamento e ressignificação:

Figura 9 - Checagens do processo de ressignificação

Fonte: Tela NVivo-10, da autora

Para cada nó criado, é possível inserir o registro de informações que possam auxiliar no processo investigativo (checagens, observações etc.), conforme ilustro na Figura 10, a seguir:

Figura 10 - Informações no campo descrição

Fonte: Tela NVivo-10, da autora

Os temas são ressignificados em substantivos, numa relação semântica na qual o pesquisador busca compreender e nomear o material capturado do texto.

Destaco o argumento de Freire (2012, p.10) sobre essa questão:

a) tais substantivos capturam e explicitam os significados implícitos nos textos originais e, por seu sentido intransitivo, evidenciam o percurso entre a aparência e a essência, indicando os construtos que constituem o fenômeno -- os temas hermenêutico-fenomenológicos [complexos], revelando sua natureza e identidade;

b) conforme Freire propõe nesse trecho, ao final da tematização, o pesquisador terá identificado os temas e subtemas que emergiram durante os procedimentos de refinamento e ressignificação. Ao identificá-los, o pesquisador tem como premissas fundamentais a pergunta de pesquisa, que orienta e permite a

verificação da coerência dos substantivos identificados, bem como também tem os fundamentos teóricos. Neste estudo, apresento os temas identificados, ou seja, a essência do fenômeno investigado no Capítulo 4, e na próxima subseção detalho quais instrumentos de geração de texto foram utilizados

Após apresentar os procedimentos e os instrumentos utilizados no processo de investigação, seguindo na jornada, acredito ser pertinente apresentar os fatores críticos que emergiram na realização da pesquisa, em especial pelos impactos da pandemia. Escolhi nomear a próxima subseção Desafios e Fatores Críticos porque foi dessa maneira que a pandemia afetou a realização da pesquisa, não só pela necessidade de ajustes e adaptações, mas principalmente pelas emergências humanas que surgiram. Alguns participantes enfrentaram a perda de entes queridos durante o curso, outros adoeceram. Pesquisar experiências lúdicas nesse contexto teve como principal inimigo a incerteza sobre a vida e sobre a morte.