1.5 O mestre da aventura: Design Educacional Complexo (DEC)
1.5.1 O Design Educacional Complexo (DEC)
Numa linha de educação como processo libertário, humanista e transformador, Freire (2013) apresenta o Design Educacional Complexo (DEC), ou em inglês, Complex Educational Design (CED), como um framework de design inovador que articula as necessidades de um determinado grupo de sujeitos que, juntos, têm a finalidade de construir conhecimentos. Para a autora (FREIRE, 2013, p.178), o DEC compreende:
(...) um conjunto de diretrizes que possam entrelaçar propósitos educacionais e pensamento complexo de maneira tão rizomática que possa resultar em um objetivo cuja base educacional (e não apenas instrucional) possa proporcionar aos estudantes oportunidades mais agradáveis e concretas para construir conhecimento transdisciplinar. Ao criar um modelo de design inovador, em vez de adaptar um modelo anterior, crio uma oportunidade mais tangível de reduzir a distância percebida entre escolas e sociedade, como já mencionado (tradução nossa).
O DEC, desenvolvido por Freire (2013), fornece uma resposta ao desenho de projetos educacionais que fracassaram por não considerar a relação entre sujeitos, ambientes, artefatos e, na minha interpretação, as condições culturais.
Um projeto educacional, seja uma proposta de curso, disciplina ou oficina, concebido na perspectiva do DEC, deve se basear nos seus três estágios interligados – Preparação, Execução e Reflexão – que dão base para seus elementos previsíveis.
Essas três etapas articulam-se como engrenagens que juntas provocam o movimento não-linear das atividades pedagógicas e de produção dos materiais e recursos educacionais.
Sendo um processo dinâmico, Freire (2013, p.181) destaca que, embora o DEC seja composto por três etapas inicialmente realizadas em uma certa sequência, é relevante lembrar que essas três etapas mantêm uma intensa relação recursiva, circular, dialógica e de interconexão.
Essa organização complexa de proposta educativa possibilita a criação de um projeto educacional mediado por mídias digitais “como um todo, bem como de suas subdivisões e várias partes, tendo como centro as relações humanas, estabelecidas entre estudantes e educadores” (FREIRE, 2013, p.181). Para a autora, as etapas que compõem o DEC, do início ao fim, são naturalmente orquestradas pelo professor/projetista, no entanto, “assim que a interação começa, o comando é compartilhado e as decisões são tomadas de forma colaborativa com os alunos, que também são partes importantes do processo de ensino-aprendizagem” (FREIRE, 2013, p.181).
Ao postular que o DEC permite viabilizar processos educacionais centrados nas relações estabelecidas entre estudantes, professores e ambiente, a proposta coloca esses elementos como indissociáveis do processo de design educativo, colocando todos os sujeitos como responsáveis pelos caminhos, decisões e rotas a serem seguidas no processo de aprendizagem.
Do ponto de vista das possíveis contribuições do design educacional para o desenvolvimento de design de experiências de aprendizagem, ao estudar o DEC proposto por Freire (2013), Freire e Sá (2020, p. 101) destacam a necessária distinção desta proposta de design educacional dos modelos tradicionais de design instrucional:
...] o DEC pode ser concebido como um referencial, mas não como um modelo, pois, embora vise orientar o design de propostas educacionais em qualquer modalidade, exige que o designer tenha, necessariamente, uma concepção complexa de ensino-aprendizagem. Desse modo, as noções de
framework, ou mesmo de design de experiência de aprendizagem também podem ser coerentes com essa proposta.
Considerando a perspectiva do DEC que Freire e Sá (2020) destacam, conforme ilustro na citação acima, a possibilidade de desenhar experiências de aprendizagem tendo como base esse design permite uma série de inserções de outras perspectivas da noção de design como concepção e não como modelo. Assim, neste trabalho de pesquisa que investiga as experiências lúdicas de educadores numa proposta formativa, ao lançar mão do DEC como uma proposta de design base para um design educativo, foi possível articulá-lo com alguns princípios do design de jogos, em especial, do design de elementos do RPG.
Essa articulação foi possível, por exemplo, a partir do reconhecimento de que dentre as concepções de design aplicada ao desenvolvimento de jogos que Salen e Zimmerman (2012 a, p.56 ) apresentam, destaco a noção de design que esses autores resgatam a partir de Schön e sua obra sobre educar os profissionais numa perspectiva reflexiva:
Donald Schön se refere ao design como uma conversa material com as formas, substâncias, e conceitos de um problema de design, como eles estão sendo usados. Sua abordagem de design é baseada em processos e reflexiva, enfatizando as qualidades interativas do design. Em um bom processo de design, essa conversa é reflexiva...o designer faz uma 'reflexão em ação' sobre a construção do problema, as estratégias de ação ou modelo dos fenômenos, os quais estão implícitos seus movimentos.
Seguindo as contribuições de Salen e Zimmerman que destaco na citação acima, é possível identificar que essa concepção de design é coerente com um dos elementos de design do DEC, a fase da Reflexão, que segundo Freire (2013) é uma fase que envolve a construção reflexiva e conjunta de todos os sujeitos envolvidos no processo educativo.
Ainda sobre outras formas de concepção da palavra design na relação entre design educativo e design de jogos que o DEC permite estabelecer, reforçando ainda uma perspectiva que coloca o humano na centralidade do processo, Schell (2011, p.4) vai defender que a habilidade mais importante para um designer de jogos é o ouvir:
“Com o ouvir, não me refiro apenas a ouvir o que é dito. Quero dizer um profundo ato de ouvir, escutar conscientemente”.
A partir da contribuição de Schell que destaco na citação acima, o ouvir, como uma habilidade do designer de jogos é um elemento que, sem dúvida, também é necessário ao educador que empreender um design educativo na perspectiva do DEC.
Dessa maneira, argumento que um dos princípios do DEC é a possibilidade de negociação e é, nesse ponto, que a habilidade de ouvir os/dos sujeitos no processo educativo precisam ser estimulados para além de feedbacks didáticos; é necessário a construção de uma rede afetiva de comunicação a ser pensada no processo do design educativo, como destaca Finseth (2018). Nessa mesma linha de pensamento, desenhar uma proposta educativa on-line baseada em design educacional e RPG, também demanda a proposição de construção de combinados de convivência e, principalmente, de formas de se estabelecer as relações entre os sujeitos e o ambiente.
O RPG é o tipo de jogo que tem um potencial cooperativo que pode ser potencializado se articulado com o DEC para promover uma experiência lúdica educativa. Experiência lúdica que na perspectiva que Brotto (2013) e Schell (2011) emerge do lúdico que também pode promover um certo nível de transcendência, para situar-se além do jogo pelo jogo, como por exemplo, o aprender algo que não se espera ou não se planejou.
Ainda que necessite de um aprofundamento sobre a relação entre as concepções de design vindas do campo do design de jogos com a concepção advinda do design instrucional ou educacional, essa relação já pode ser sentida quando a alta procura pela utilização de elementos lúdicos em projetos educacionais on-line.
E possível encontrar uma busca pela utilização de elementos lúdicos em projetos educacionais on-line, em especial, no pós-pandemia. Uma autora que apresenta essa necessidade é Kenski (2022, p.39) que ressalta: “deverá considerar o surgimento desses e outros tantos profissionais — como designers de aprendizagem, designers de games educativos, designers de interação e outros perfis”. Diante dessa possibilidade apresentada por Kenski (2022), para o educador, designer educacional, é pertinente ampliar seus conhecimentos teóricos e práticos, estabelecendo relações entre os saberes do design de games com o design educacional.
Assim, o DEC proposto por Freire (2013), por suas características complexas, principalmente, ao privilegiar as relações como um elemento central do processo de design educativo, é uma proposta de design educacional que se apresenta como um design que permite a experimentação da articulação entre elementos de jogos e elementos de design.