• Nenhum resultado encontrado

Embora no texto introdutório faça referência a um projecto de regulamento enviado em 1937 pelo Governador de Angola para o Ministério das Colónias, que serviu de ponto de partida para o trabalho que resultou no presente decreto, o âmbito da sua aplicação foi extensivo às colónias continentais de áfrica.

Este Diploma obedeceu, na sua generalidade, a dois intuitos, que em diploma desta natureza se avantajam a quaisquer outros: sistematização das disposições e simplificação de trâmites e procedimentos. Não obstante, o legislador vem afirmar que este regulamento não encerra matéria completamente nova19; alude à caducidade das

concessões definitivas e ao estabelecimento de zonas de extensão, destinadas a garantir o alargamento de certas concessões.

Tal como nas anteriores legislações, estabeleceram-se os princípios da imprescritibilidade, inalienabilidade e da dominialidade do Estado, reivindicando todos os bens imobiliários situados nas colónias que não pertencessem, por título legítimo, a outra pessoa, singular ou colectiva (artigo 1.º do Regulamento).

Contrariamente ao preceito acima referido, o Acto Colonial e a Carta Orgânica do Império Colonial Português dispuseram de modo diferente. Com efeito, nos termos do artigo 39.º do primeiro diploma, eram considerados propriedade de cada colónia os bens mobiliários que, dentro dos limites do território, não pertencessem «a outrem». A Carta Orgânica dispôs de modo semelhante: eram considerados propriedade de cada colónia os bens mobiliários ou imobiliários que, dentro dos territórios, não fossem «propriedade privada» (artigo 154.º, n.º 1)20.

18 Publicado no Diário do Governo em 22 de Junho de 1944 e no Boletim Oficial da Colónia de Angola em 31 de Agosto de 1944, sendo pronunciado pela Lei n.º 2001 de 16 de Maio de 1944, de que é regulamento. Foi suspenso pelo Decreto n.º 34 597, de 12 de Maio de 1945, ainda antes de completar um ano de vigência, porém, a portaria ministerial n.º 12 de 8 de Setembro de 1945 ordenou que continuassem em vigor as disposições do artigo 256.º e os parágrafos do regulamento de 1944. 19 Preâmbulo do Decreto.

20 SANTOS, Eduardo dos, Regime de Terras no Ex-Ultramar Português: Evolução da Política Legislativa até 1945, Universidade Técnica de Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Centro de Estudos Africanos, Lisboa, 2004, p. 355.

34

Relativamente à classificação dos terrenos, manteve a mesma fórmula do Decreto n.º 5:847-C de 1919, tipificando três classes: a dos terrenos abrangidos pelas povoações classificadas, incluindo as áreas dos respectivos subúrbios e desde que as povoações fossem consideradas de carácter europeu; a dos terrenos não classificados na primeira nem na terceira classe; e a dos terrenos que servissem para uso exclusivo das populações indígenas (artigo 3.º). Neste sentido, sublinha José Armando M. Guerra que «mais intensificada e expressa a ratio legis, esta classificação dos terrenos assenta numa ideologia racista e discriminatória»21.

De acordo com o critério da possibilidade de concessão, a lei distingue três grupos de terrenos:

— «Terrenos concedíveis»: os de primeira e de segunda classes, livres, para europeus e pessoas de cultura europeia não de raça branca, e os de terceira classe para indígenas, dentro dos limites de áreas estabelecidas no regulamento. Assim como nas demais legislações, aqui é notória a carga discriminatória do legislador da época;

— «Terrenos não concedíveis»: os destinados a serviços públicos, os reservados pelo Governo Central ou pelos governadores coloniais, enquanto conservassem essa classificação, as servidões indispensáveis à utilização de quaisquer bens do Estado, os prédios urbanos e anexos a eles que fossem considerados indispensáveis aos serviços públicos e os de terceira classe; — «Terrenos só ocupáveis por licença especial»: compreende uma lista taxativa

de terrenos como as ilhas, ilhotas ou mouchões formados e os que se formassem junto à costa marítima, na foz de quaisquer rios ou ainda nos leitos nas correntes navegáveis e flutuáveis, na clássica faixa de oitenta metros, os das margens de lagos ou lagoas num quilómetro, os compreendidos nas faixas das linhas férreas, os terrenos livres de segunda classe que fossem julgados indispensáveis a instalações industriais de reconhecida utilidade para a economia da colónia, os terrenos livres de primeira ou de segunda classe ou ainda os alagados pelo mar, adequados à indústria salineira, que para tal fim fossem requeridos (artigo 4.º).

O presente decreto instituiu uma sistematização e regulamentação de reservas, definindo-a como «tracto de terreno de uma colónia destinado e classificado pelo

21 Cf. GUERRA, José Armando Morais, Temas de direito fundiário e de direito do ordenamento territorial, cit., p. 36.

35

Governo Central ou pelo da colónia para um fim determinado de utilização». Assim se classificavam as reservas para colonização e reservas especiais.

Dentre as reservas para colonização, o regulamento dividia-se em diversas espécies: a) reservas para povoações; b) reservas para colonização europeia nacional; c) reservas para colonização europeia; d) reservas para zonas e estações de cura; e) reservas indígenas; e f) reservas para fins filantrópicos, de instrução, de assistência e de recreio.

Vejamos agora as espécies que integram as reservas especiais: a) as reservas florestais; b) as reservas de fronteiras; c) as reservas de parques de protecção da fauna e flora; d) as reservas para aproveitamento hidráulico; e) reservas dos terrenos destinados a serviços públicos; e f) reservas dos terrenos marginais a massas de água ou a vias de férreas.

Do regime das concessões, pese embora a possibilidade da transferência definitiva de terrenos do Estado por aforamento ou arrendamento, as concessões atribuídas seriam sempre a título provisório até prova do aproveitamento útil do terreno dentro do prazo estipulado.

A concessão dos terrenos de segunda classe por aforamento, quer definitiva quer provisoriamente, destinava-se a fins agrícolas, agro-pecuários ou industriais, podendo neles ser feitas as construções ou instalações necessárias. Caso fosse para fins de exploração florestal, a forma de concessão seria de arrendamento.

Aos indígenas era permitido ocupar terrenos incultos e devolutos onde não recaíssem direitos exclusivos de propriedade oficialmente demarcada, sendo que esta ocupação cabia aos terrenos por eles agricultados e de pascigo dos seus gados (artigos 226.º e 227.º). Certo é que a concessão alheada aos indígenas se limita a reconhecer o princípio da ocupação nestes terrenos estabelecendo uma presunção juris tantum. Tal como nas legislações anteriores, por morte do titular ocupante, os terrenos transmitiam- se aos seus herdeiros, observando-se na sucessão os costumes.

O artigo 228.º prevê a possibilidade se serem titulados os terrenos ocupados por indígenas e em que estes exercem uma exploração agrícola contínua. É ainda reconhecida aos indígenas a ocupação gratuita dos terrenos necessários para edificação das suas habitações e respectivas dependências, nos subúrbios das povoações classificadas, em locais ou bairros que o administrador do conselho ou circunscrição lhes tivesse determinado para esse fim (artigo 229.º).

Ao Governo-geral competia ceder à pessoa singular ou colectiva uma área máxima de 5000 hectares, e ao Governo Provincial uma área de 2500 hectares. Certo é

36

que os terrenos gratuitamente cedidos pelo Estado não podiam nunca ser hipotecados ou alienados sem a sua autorização, estando sujeitos a formalidades legais.

Relativamente à capacidade de receber concessões, repetiu-se a exigência de os estrangeiros declararem a sua submissão às leis, autoridades e tribunais portugueses e a renúncia, nas suas questões no Estado, a qualquer foro ou forma de processo judiciário diversos dos estabelecidos para os nacionais (artigo 78.º).

Contudo, o legislador tinha razão quando na introdução afirmou não ser o regulamento completamente novo. Na verdade, limita-se à (re)formulação de velhos princípios oriundos do regime antigo.

15. Decreto n.º 43 894, de 6 de Setembro de 1961 — Regulamento da