4 ANÁLISE DA FUNÇÃO EXTRAFISCAL DOS IMPOSTOS EM RELAÇÃO A CRISE ECONÔMICA MUNDIAL
4.1 MEDIDAS UTILIZADAS
4.1.2 Decreto nº 7.567, de 15 de setembro de
O artigo 5º da Medida Provisória 540/2011 já exposta acima, permitiu ao poder Executivo a regulamentação da redução de alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados, a seguir:
Art. 5º As empresas fabricantes, no País, de produtos classificados nas Posições 87.01 a 87.06 da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados - TIPI, aprovada pelo Decreto no 6.006, de 28 de dezembro de 2006, observados os limites previstos nos incisos I e II do art. 4o do Decreto-Lei no 1.199, de 27 de dezembro de 1971, poderão usufruir da redução das alíquotas do IPI, mediante ato do Poder Executivo, com o objetivo de estimular a competitividade, a agregação de conteúdo nacional, o investimento, a inovação tecnológica e a produção local. [...]
Art. 6º A redução de que trata o art. 5º aplica-se aos produtos de procedência estrangeira classificados nas posições 87.01 a 87.06 da TIPI, observado o disposto no inciso III do § 1o do art. 5o, atendidos os limites e condições estabelecidos em ato do Poder Executivo.21
19 DOMINGUES, José M. SCHOUERI, Luis Eduardo. Direito tributário e reação a crise global. Disponível em: <http://ibetbrasil.com.br/noticias/index.php?option=com_content&view=article&id=6751:direito- tributario-e-reacao-a-crise-global&catid=1:noticias&Itemid=3> Acesso em: 24 out. 2011.
20 IMPRENSA ACOMAC. A crise global e o direito tributário. Disponível em:
<http://acomacpp.com.br/index.php?topicos=page/single&topico=276> Acesso em: 24 out. 2011. 21 BRASIL. Medida Provisória nº 540, de 2 de agosto de 2011. Disponível em:
Por conseguinte, em razão da necessidade de regulamentação desta redução por parte do Executivo, é que adveio o Decreto nº 7.567, de 15 de setembro de 2011,22 para definir as alíquotas e demais regulamentações de veículos estrangeiros.
Como delineia o art. 6º da Medida Provisória, as posições 87.01 a 87.0623 são produtos, de maneira geral, classificados como veículos para transporte de pessoas, mercadorias, ou para usos pessoais.
Este decreto aumentou os valores das alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados dos veículos importados em 30%, o que pode gerar aumento no valor final dos produtos de 25% a 28%.24
Assim, no art. 10 do Decreto nº 7.567, de 15 de setembro de 2011, é que se verifica alteração do Anexo V, onde constam as alíquotas com acréscimo de 30% do valor anterior:
“Art. 10. Ficam alteradas para os percentuais indicados no Anexo V, até 31 de dezembro de 2012, as alíquotas do IPI, conforme a TIPI.”25
Para classificar um veículo como importado, conforme o decreto, a indústria precisa observar requisitos, como demonstra notícia:
Não terão aumento de IPI os produtos de montadoras que, entre outras coisas, façam investimento local em tecnologia; usem 65% de componentes feitos no Mercosul; e cumpram ao menos seis de 11 etapas de produção no Brasil, entre elas, estampagem, pintura, fabricação de trem de força (motor e câmbio) etc.26 (Grifo do autor)
Deste modo, há possibilidade de que as montadoras de veículos utilizem etapas de produção no Brasil, recebendo a redução das alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados. Portanto, a medida tomada objetiva incentivar a produção em meio nacional, desfavorecendo a importação dos veículos.
22 BRASIL. Decreto nº 7.567, de 15 de setembro de 2011. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7567.htm> Acesso em: 31 out. 2011. 23 BRASIL. Seção XVII – TIPI. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-
2006/2006/decreto/anexos/AND6006/secaoxvii.htm> Acesso em: 24 out. 2011.
24 MARTELLO, Alexandro. Decreto presidencial regulamenta aumento do IPI para carro importado. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2011/09/decreto-presidencial-regulamenta-aumento- do-ipi-para-carro-importado.html> Acesso em: 24 out. 2011.
25 BRASIL. Decreto nº 7.567, de 15 de setembro de 2011. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7567.htm> Acesso em: 31 out. 2011. 26 SOUZA, Claudio de. Governo aumenta o IPI dos carros importados e atinge marcas chinesas. Disponível
em: <http://carros.uol.com.br/ultnot/2011/09/15/governo-aumenta-ipi-dos-carros-importados-e-atinge-marcas- chinesas.jhtm> Acesso em: 24 out. 2011.
Desta forma, “o objetivo da medida, segundo informou Mantega [...], é proteger os fabricantes nacionais em um momento de aumento da concorrência com os produtos importados.”27
Consequentemente, este decreto, regulamentando a medida provisória n. 540, insere-se em um conjunto de atitudes do governo para proporcionar mudanças econômicas no Brasil. Traduz em forma clara de intervenção nas importações, neste caso do setor automobilístico.
Afirma o Ministro Guido Mantega, sobre quais as primeiras reações que o decreto gerou: “Depois que anunciamos a medida, observamos dois efeitos. As empresas já instaladas no Brasil passaram a anunciar novos investimentos e empregos. Além disso, empresas que estão importando também manifestaram o desejo de instalar fábricas no país.”28
Deste modo, os efeitos esperados pelo governo podem realmente estar sendo eficazes. Porém, existem posições desfavoráveis à medida protetiva.
A medida pode dar margem a questionamento na Organização Mundial do Comércio (OMC), que não permite alíquotas diferenciadas para produto nacional e importado nos tributos cobrados internamente. [...]Além de sepultar a ideia inicial de forçar uma redução no preço dos carros mediante a desoneração do setor, a medida acabou por propiciar o pior dos cenários para o consumidor. Diante do inevitável encarecimento dos carros importados, abriu-se uma margem para as montadoras beneficiadas elevarem seus preços e ainda se manterem competitivas diante da concorrência estrangeira. 29
Desta forma, também é considerada a hipótese de que as indústrias nacionais ou nacionalizadas que se beneficiam com o decreto, utilizem da oportunidade para dominar o mercado e estagnar a concorrência.
Importante também ressaltar que o Decreto nº 7.567, em seu art. 16,30 determina o início do vigor na data de sua publicação. Porém, precisa observar o princípio da noventena, descrito no art. 150 da Constituição Federal:
27 MARTELLO, Alexandro. Decreto presidencial regulamenta aumento do IPI para carro importado. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2011/09/decreto-presidencial-regulamenta-aumento- do-ipi-para-carro-importado.html> Acesso em: 24 out. 2011.
28 DIÁRIO COMÉRCIO INDÚSTRIA E SERVIÇOS. Aumento de IPI ajudou indústria nacional, diz Mantega. Disponível em: <http://www.dci.com.br/Aumento-de-IPI-ajudou-industria-nacional_-diz- Mantega-6-395916.html> Acesso em: 25 out. 2011.
29 QUEIROZ, Guilherme. A volta a era das carroças. Disponível em:
<http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/66635_A+VOLTA+A+ERA+DAS+CARROCAS> Acesso em: 25 out. 2011.
30 Art. 16. Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. BRASIL. Decreto nº 7.567, de 15 de juho de 2010. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7567.htm> Acesso em: 21 out. 2011.
Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
[...]
III - cobrar tributos: [...]
b) no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou;
c) antes de decorridos noventa dias da data em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou, observado o disposto na alínea b;
A alínea b, do inciso III, constitui o princípio da anterioridade, sendo exceção o Imposto sobre Produtos Industrializados. Porém, necessário o respeito ao princípio da alínea c, o princípio da noventena, a qual o Decreto nº 7.567 não observou.
Ao declarar a vigência na data da publicação, o Executivo não respeitou os 90 dias a que a Constituição exige.
Deste modo, o Supremo Tribunal Federal, em razão da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4661, concedeu medida liminar para suspender a vigência imediata, a que alude o art. 16 do Decreto, que não respeitava os noventa dias, prorrogando sua validade dentro dos 90 dias subsequentes à publicação.31
A ação foi proposta pelo Democratas (DEM), que considerava o decreto inconstitucional. O relator do caso no STF, ministro Marco Aurélio Mello, reconheceu que a mudança na tributação deve respeitar ‘o princípio da anterioridade nonagesimal’, previsto na Constituição Federal.32
Porém, em razão de diversos consumidores já terem pago por esta diferença, os valores recolhidos terão que ser devolvidos ao consumidor.
“O aumento do IPI em 30 pontos percentuais foi entendido pela maioria dos analistas como uma medida protecionista, que interessava principalmente às quatro maiores fabricantes ‘nacionais’ de veículos [...].”33
O decreto, desta forma, obteve diversas críticas e dúvidas, quanto a sua eficácia, vantagens e desvantagens. O importante a destacar, é que integra o grupo de instrumentos para intervenção econômica na situação que vive o país, no contexto mundial.
Demonstra a participação do Executivo na tributação, no que tange a função extrafiscal dos tributos, e de que forma o governo está reagindo frente à crise econômica mundial.
31 SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Informativo STF. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/arquivo/informativo/documento/informativo.htm#Majoração de alíquota de IPI e princípio da anterioridade nonagesimal - 1> Acesso em: 03 nov. 2011.
32 AGÊNCIA BRASIL. Justiça suspende o aumento do IPI até 15 de dezembro. Disponível em:
<http://carros.uol.com.br/ultnot/2011/10/20/justica-suspende-o-aumento-do-ipi-ate-15-de-dezembro.jhtm> Acesso em: 25 out. 2011.