CAPÍTULO 2 CRISE ESTRUTURAL E ATIVAÇÃO DOS
3.4 Defeitos Estruturais do Sistema do Capital
A intervenção remediadora prática do Estado, com o m de as-
segurar o funcionamento do sistema, aparece de forma mais explíci- ta quando se examinam os mecanismos de sua intervenção corretiva sobre os defeitos estruturais do sistema do capital (separação entre produção e controle , produção e consumo e produção e circulação ), conforme
exposto por Mészáros. (50-57/107-117)
Os defeitos estruturais do sistema do capital, arma Mészáros,
“são claramente visíveis no fato de serem os novos microcosmos
que o compõem serem internamente fragmentados de muitas for-
mas”, revelando uma “profunda insuciência estrutural de controle
(...) detectada na ausência de unidade ”. E mais ainda, o “caráter irreme- diável da carência de unidade deve-se ao fato de que a própria frag- mentação assume a forma deantagonismos sociais .” (48-49/105-106)
Os antagonismos sociais não podem ser eliminados porque são “estruturais”. O mesmo ocorre com relação aos três defeitos estru- turais mencionados (produção e controle, produção e consumo e produção e circulação), uma vez que “se trata de estruturas vitais e, portanto, insubstituíveis do capital, e não de limitadas contingências
Maria Cristina Soares Paniago
históricas (que o capital tem condições de transcender).” Não é por
outra razão que a ação remediadora do Estado só pode alcançar um efeito corretivo sobre a ausência de unidade se puder ser “acomoda- da no interior dos limites últimos do sociometabolismo do capital”. Esses antagonismos são “necessariamente reproduzidos sob todas as circunstâncias históricas que cobrem a era do capital, fossem qual
fossem as relações de poder dominantes em qualquer ponto deter-
minado do tempo.” (49-50/106)
No que se refere à separação e ao antagonismo estrutural entre produção e controle , a função do Estado é de “protege[r] legalmente
a relação de forças estabelecida”, permitindo às diversas “personi-
cações do capital” o domínio da força de trabalho submetida pela
“ilusão de um relacionamento ‘livremente estabelecido entre iguais’ ”,
que é até “mesmo constitucionalmente ccionada”. De acordo com
Mészáros, “a estrutura jurídica do Estado moderno é uma neces- sidade absoluta para o exercício bem sucedido do despotismo da fábrica.” E, continua ele,
“isso se deve à capacidade do Estado de sancionar e proteger o material alie- nado e meios de produção (ou seja, a propriedade radicalmente separada dos produtores) e suas personicações, os controladores individuais (rigidamente controlados pelo capital) do processo de reprodução econômica. Sem esta estrutura jurídica, até os menores ‘microcosmos’ do sistema do capital - anta- gonisticamente estruturado − seriam rompidos internamente pelos desacor- dos constantes, anulando, dessa maneira, sua potencial eciência econômica.” (50/107-108)
Com a quebra da unidade entre produção e consumo, e, por con- seguinte, com o deslocamento do “predomínio do valor de uso, ca-
racterístico dos sistemas reprodutivos autossucientes”, a possibili-
dade de expansão do capital torna-se, “em seus próprios termos de referência, ilimitada”. O consumo se desenvolve independentemen- te das necessidades humanas e ganha um “poder de consumo autoa-
rmativo”, utilizando-se de todas as formas de geração de “apetites imaginários ou articiais”. Se essa expansão desenfreada do capital
serviu à consolidação da nova ordem, tal fragmentação entre produ-
ção e consumo tem se armado numa “escala cada vez maior e cada
vez mais destrutiva”, fazendo com que a tendência que, a princípio, apontava para um desenvolvimento sem limites, esteja “destinada a
chegar ao m mais cedo ou mais tarde.” (51/109)
As mesmas características de fragmentação presentes no antago- nismo estrutural da relação produção-controle constituem uma adequa- da relação entre produção-consumo no sistema atual. E, analogamente,
Mészáros e a Incontrolabilidade do Capital
aqui também,
“o papel totalizador do Estado moderno é essencial. Ele deve sempre ajustar suas funções reguladoras em sintonia com a dinâmica variável do processo de reprodução socioeconômico, complementando politicamente e reforçando a dominância do capital contra as forças que poderiam desaar as imensas desi- gualdades na distribuição e no consumo.” (52/110)
O Estado moderno vai, assim, atuar diretamente na dinâmica reprodutiva do sistema como comprador/consumidor direto, pri- meiro ao assumir a responsabilidade de atender aos requerimentos da reprodução social, tais como educação, saúde, segurança social, habitação e infraestrutura, e segundo, de forma não menos impor-
tante, na atenuação (mas não resolução) das contradições inerentes
à fragmentação entre produção e consumo, ao satisfazer ‘apetites arti- ciais’ gerados pelo seu imenso aparelho burocrático-administrativo
e executivo legal, ou corporicados no complexo militar-industrial “imensamente desperdiçador, ainda que diretamente benéco para
o capital”. (52-53/110)
O terceiro defeito estrutural do sistema do capital analisado por Mészáros refere-se aos antagonismos entre produção e circulação. Jun- to à expansão sem limites, condição imposta pelo incessante pro- cesso de acumulação do capital, a eliminação das barreiras locais ou regionais ao crescimento dos mercados sempre foi um requisito básico do capitalismo, estando presente de forma mais imperativa em sua fase plenamente desenvolvida. Ocorre que “historicamente as estruturas corretiva global e de comando político do sistema do capital se articulam como Estados nacionais , embora como modo de reprodução e controle sociometabólico (com seu imperativo de cir-
culação global), seja inconcebível que tal se conne em tais limites.”
(53/111)
Esse meio de remediar as contradições internas das unidades
produtivas e a necessidade de expansão do capital para além de suas fronteiras nacionais, sem que implique em ameaça à reprodução do sistema como um todo e, ao mesmo tempo, possibilite a circulação em escala global, dá sustentação a um “sistema internacional de do- minação e subordinação”, no qual estabelece-se “uma hierarquia de Estados nacionais mais, ou menos, poderosos que gozem - ou pade- çam - da posição a eles atribuída pela relação de forças em vigor (...) na ordem de poder do capital global”. (53-54/111)
O antagonismo estrutural entre produção e circulação, através da ação do Estado como agente totalizador e facilitador só pode en-
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contrar “um equilíbrio estritamente temporário - e não a esperada resolução − do conito.” Na existência de conitos entre Estados
dominantes ou internamente entre unidades produtivas isoladas, acabam por predominar os interesses do capital como força con- troladora global, e o que era visto como um equilíbrio de forças resulta “a qualquer momento (...) na imposição/aceitação da relação vigente de forças, ao mesmo tempo em que busca a sua derrubada, assim que as circunstâncias o permitirem.” Pois, o que continua a vi- gorar, lembremos, enquanto modus operandi do sistema do capital, é o “axioma dobellum omnium contra omnes ”, uma vez que, “como sistema de controle sociometabólico, ele está estruturado de maneira antagônica das menores às mais abrangentes unidades socioeconômicas e polí- ticas.” (55/114)
Para Mészáros o Estado está, portanto, inteiramente imbricado no complexo de defeitos estruturais do sistema do capital, na medi- da em que “não surgeapós a articulação das formas socioeconômi- cas fundamentais nem é mais ou menos determinado por elas”, mas resulta de uma relação de co-determinação, vindo remediar, desde seu surgimento, os defeitos estruturais das unidades reprodutivas do sistema do capital. Não pode, desse modo, ter um destino dife- rente de todo o complexo do sistema estruturado antagonicamente, ou mesmo desempenhar um papel de independência em relação ao todo, como sugerem as ideias de o Estado ser capaz de promover a “verdadeira reconciliação” ou de construir a “paz perpétua” kantia- na. Lembremos que a “base socioeconômica do capital é totalmente
inconcebível separada de suas formações estatais.”(58/117)
Entretanto, Mészáros acentua, com respeito ao Estado, que “é certo e apropriado falar de ‘correspondência’ e ‘homologia’, apenas em relação às estruturas básicas do capital historicamente constituí- das”. Não se pode tirar dessa relação de co-determinação algo como
uma relação de equilíbrio. O fato é que “as funções metabólicas particulares de uma estrutura não corresponde às determinações e
exigências estruturais diretas da outra. Tais funções podem se con-
trapor vigorosamente umas às outras, pois suas estruturas internas vão se ampliando durante a expansão necessária e a transformação adaptativa do sistema do capital.” A “constituição interdependen- te” entre os órgãos metabólicos, inclusive o Estado, não elimina a
existência de contradições entre eles. “Se assim não fosse - chama a
atenção Mészáros - a iniciativa emancipadora socialista estaria con- denada à inutilidade” na medida em que a “homologia de todas as
estruturas e funções básicas, que sempre prevalece, e que corres-
Mészáros e a Incontrolabilidade do Capital
do sociometabólico do capital, produziria uma verdadeira ‘gaiola de ferro’ para todo o sempre (...) da qual não haveria como escapar”. (58/117)
De fato, “paradoxalmente, a ‘homologia das estruturas’ surge primeiro de umadiversidade estrutural de funções cumpridas pelos dife- rentes órgãos metabólicos (inclusive o Estado) na forma absoluta- mente única da divisão social hierárquica do trabalho desenvolvida ao longo da história.”(58/117) No caso do Estado moderno, o qual “exibe a mesma divisão estrutural-hierárquica do trabalho que as
unidades reprodutivas econômicas”, duas funções vitais são exerci-
das no sistema do capital. Por um lado, “o Estado é essencial para manter sob controle (sem, porém, eliminar inteiramente) os anta- gonismos que constantemente se srcinam da dualidade dilacerante
dos processos de tomada de decisões socioeconômicas e políticas”.
Em conformidade com isso, por outro lado, assegura a condição de que o “trabalho livre” seja destinado ao “cumprimento de fun-
ções rigorosamente econômicas numa posição incontestavelmente
subserviente”, reforçando tanto a dualidade de produção e controle
como a divisão estrutural hierárquica do trabalho. Torna-se o “a-
dor geral do modo de reprodução insanavelmente autoritário do capital”, avalizando a sua “tirania nos locais de trabalho” na forma capitalista e de tipo soviético. (62/122)
O Estado tem que transformar num sistema coerente, que possa realizar as “potencialidades positivas da dinâmica irrestringível do capital”, as unidades reprodutivas básicas isoladas incapazes de “co- ordenação e totalização espontânea”. Essas unidades reprodutivas têm um domínio da direção interna do metabolismo produtivo “ir- refreável”; porém, dada sua própria natureza estrutural centrífuga, o caráter dessa direção “poderia também ser inteiramente destrutivo e autodestrutivo” para o capital, prejudicando, assim, a potenciali- dade produtiva irrefreável do capital. É a falta de uma “estrutura
de comando totalizadora adequada − rmemente orientada para a
extração de trabalho excedente”, que possa fornecer ao sistema do capital com a “coesão positiva” ausente nos microcosmos socioeco- nômicos constitutivos do capital, que coloca a exigência de uma “di- mensão política do controle do sociometabolismo do capital” em separado, função a ser exercida pelo Estado moderno. (63/122-123) O Estado pode cumprir sua função positivamente e auxiliar o sistema do capital a “ir em frente”, maximizando as potencialida- des dinâmicas dos microcosmos reprodutivos materiais enquanto os “recursos e escoadouros para a expansão e a acumulação” estiverem
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consequências numa escala mais longa de tempo.” Nesse caso, “se puder manter tal dinâmica expansionista, não há necessidade doLe - viatã hobbesiano”. Ou negativamente, quando uma crise estrutural se instala e a “ordem estabelecida de reprodução socioeconômica colide com obstáculos criados por sua própria articulação dualis- ta, de modo que a tríplice contradição entre produção e controle, produção e consumo e produção e circulação não pode mais ser conciliada”. O papel remediador do Estado, dadas as circunstâncias, deve ser enormemente restritivo, fazendo com que novos controles devam ser “‘aceitos’ pela sociedade devido a constrangimentos ine- vitáveis da economia.”(62-64/122-123)