CAPÍTULO 2 CRISE ESTRUTURAL E ATIVAÇÃO DOS
3.3 Elementos Constitutivos da Reciprocidade Dialética
Nesse sentido, o Estado moderno não pode ser considerado um mero órgão da superestrutura, ou, nas palavras de Mészáros, como uma “ ‘superestrutura atuante’ que surge de uma ausência material estruturalmente essencial, de modo que corrija os defeitos de todo o sistema, quando se admite que o próprio sistema seja diretamente determinado por sua base material.” (61/121)
O Estado, “como estrutura de comando abrangente, temsua pró - pria superestrutura − a que Marx se referiu apropriadamente como
‘superestrutura legal e política’ − exatamente como as estruturas
reprodutivas materiais diretas têm suas próprias dimensões superes-
truturais.” É com essa nalidade que surgem as “ ‘teorias e práticas
de ‘relações públicas’ e ‘relações industriais’, ou as da chamada ‘ad-
ministração cientíca’ ”, voltadas especicamente às unidades re-
produtivas econômicas do sistema. (59-60/119)
Do mesmo modo, o Estado moderno necessita “articular sua su-
perestrutura legal e política segundo suas determinações estruturais inerentes e funções necessárias”, sempre em consonância com seu “papel vital de garantir e assegurar as condições gerais para extração
de trabalho excedente”, complementando os elementos reproduti- vos materiais do sistema do capital. Devido a essa necessidade é que a superestrutura legal e política do Estado podem “assumir as for- mas parlamentarista, bonapartista, ou até de tipo soviético pós-ca- pitalista, além de muitas outras, conforme exijam as circunstâncias
Mészáros e a Incontrolabilidade do Capital
históricas especícas”. (61-62/121)
Pode, também, dentro do próprio capitalismo, desfazer-se de “uma estrutura legal-política liberal-democrática e adotar uma for- ma abertamente ditatorial de controle legislativo e político”, sem que para isso provoque qualquer descontinuidade em sua função enquanto comando político abrangente do capital, ou mesmo nas prerrogativas acumulativas e expansionistas do sistema; muito pelo contrário, justamente altera sua superestrutura legal e política para atender às necessidades de estabilidade do sistema. De acordo com Mészáros, “basta pensarmos na Alemanha antes, sob e depois de Hitler, ou nas mudanças do Chile de Allende para o estabelecimento do regime de Pinochet e a ‘restauração democrática’, deixando Pino- chet e seus aliados no controle militar.” (62/121)
Conceber o Estado como “uma simples ‘superestrutura’ ” torna esse tipo de mudança “inconcebível”. O que se pode constatar nes- ses exemplos históricos, segundo a análise de Mészáros, é que, tanto na Alemanha como no Chile, “a base material capitalista permane-
ceu estruturalmente a mesma durante as transformações históricas,
de avanço ou recuo por que passaram as respectivas superestruturas legais e políticas.” A razão destas mudanças se encontra na “grande crise do complexo social global” que atingiu os países envolvidos. O Estado, um constituinte material fundamental e permanente dos desenvolvimentos decorrentes da crise do capital global, foi apenas solicitado a adequar, a cada circunstância histórica, suas superestru- turas legais e políticas, dirimindo, mesmo que circunstancialmente, os impedimentos políticos e legais à realização produtiva do capital. (62/121-122)
Por essas e outras razões é que, para Mészáros, “o capital chegou
à dominância no reino da produção material paralelamente ao de- senvolvimento das práticas políticas totalizadoras que dão forma ao Estado moderno.” Nos dias de hoje, podemos observar como isso se manifesta, quando vemos que a crise estrutural do capital “afeta
profundamente todas as instituições estatais e práticas organizacio-
nais correspondentes.” A crise estrutural do capital provoca uma “crise da política em geral, sob todos os seus aspectos, e não somen- te sob os diretamente preocupados com a legitimação ideológica de qualquer sistema particular de Estado.”(49/106-107)
Nesse mesmo sentido, Mészáros vai armar que é “perfeitamente
inútil perder tempo tentando tornar inteligível a especicidade do Es-
tado em termos da categoria da ‘autonomia ’ (especialmente quando se
Maria Cristina Soares Paniago
Não pode haver autonomia entre o Estado moderno e o capital por- que ambos “são um só e inseparáveis”37. (60/119) Tanto um como o
outro se constituiu na história em uma relação de “co-determinação”, em que a estrutura de comando político surge para complementar (“no nível de abrangência apropriado”), em vista dos defeitos estru- turais do sistema, os elementos reprodutivos materiais, sempre de acordo com a dinâmica expansionista do sistema do capital. Não cabe na dinâmica desse desenvolvimento, portanto, a “categoria de ‘em consequência de’, mas (...) do ‘em conjunção a, sempre que se deseja tornar inteligíveis as mudanças no controle sociometabólico do capital que emergem da reciprocidade dialética entre sua estrutu- ra de comando política e a socioeconômica.”(59/119)
A relação de “co-determinação” entre as unidades reprodutivas materiais diretas e o Estado é ainda melhor compreendida se anali- sarmos a questão da “temporalidade” do processo de constituição desse modo de controle sociometabólico. Ela se caracteriza pela ca- tegoria da “simultaneidade”, na qual não tem sentido considerar-se nem o “antes” nem o “depois” na análise do surgimento das partes constituintes do sistema como um todo. Há uma relação de recipro- cidade dialética entre o Estado moderno e o capital, na medida em que nenhum poderia existir sem a presença do outro.
Mas isso não signica que o Estado seja “redutível às determi-
nações que emanam diretamente das funções econômicas do capi-
tal. Um Estado historicamente dado contribui de maneira decisiva
para a determinação − no sentido anteriormente mencionado de
co-determinação − das funções econômicas diretas, limitando ou am- pliando as possibilidades de algumas contra outras.”(60/119) Nem mesmo pode se conceber o Estado como “uma parte subordinada”, enquanto dimensão política, da própria estrutura de comando do capital como tal, pois o Estado contribui de modo substantivo para a formação, consolidação e funcionamento de “todas as grandes estruturas reprodutivas da sociedade”. Da mesma forma, o capital
“exerce sua inuência sobre tudo” que diz respeito ao Estado: desde
“os instrumentos rigorosamente repressivo/materiais e as institui-
ções jurídicas do Estado, até as teorizações ideológicas e políticas
mais mediadas de sua raison d’être e de sua proclamada legitimida- de.”(64-65/125)
Portanto, não cabe na análise dessa relação, de acordo com
37 Pensamos ser mais adequada a esta passagem, sobre a autonomia entre Estado
e capital, a seguinte tradução do inglês: “mantém uma relação inextrincável de um com o outro”. (“it happens to be inextricably one with the latter”). (60/119)
Mészáros e a Incontrolabilidade do Capital
Mészáros, a categoria da autonomia ou da determinação unidirecio- nal de um sobre o outro, mas sim de “determinação recíproca”, cuja inter-relação é caracterizada pela ação de complementação.
No sistema do capital há um fundamento comum que dá o senti- do objetivo dessa necessária relação de complementaridade, na qual estão envolvidas “todas as práticas vitais (...) do sistema do capital
− desde as atividades reprodutivas diretamente econômicas até as mais mediadas funções reguladoras do Estado −, é o imperativo
estrutural orientado para a expansão do sistema”. E a condição ma- terial necessária para isso “é a constante extração de trabalho exce- dente de uma forma ou de outra, de acordo com as mudanças das
circunstâncias históricas.” Só mediante tais realizações pode sobre-
viver o sistema do capital. (60/120)
A função de complementação do Estado moderno ao modo de controle do capital vem atender à necessidade de impedir “o impac- todesintegrador das insuperáveis interaçõesconitivas ” das suas partes constituintes. Nesse contexto, os defeitos estruturais do sistema do
capital contribuem de maneira decisiva, pois expõem à superfície as
diversas fraturas que o capital, em sua evolução histórica, teve que consolidar com a ajuda do Estado moderno.