CAPÍTULO IV O LEGADO DO SEQUESTRO RELÂMPAGO
IV.1. Defesas
A literatura internacional confirma que após um evento de vida traumático, as pessoas apresentam comportamentos instrumentais para evitar pessoas, lugares e coisas associadas com tal evento (LURIGIO, 1987; JANOFF-BULMAN, 1992; KENNEDY, SACCO, 1998; ECHEBURÚA, CORAL, AMOR, 2003; FELSON, 2006), o que também observamos no nosso conjunto de relatos. Vítimas de crimes tendem a tomar várias medidas preventivas e de evitação, como a compra de armas, cursos de autodefesa, instalação de alarmes, mudança de travas na porta de casa, mudança de telefones, emprego, residência, além de reduzir as
atividades noturnas e sociais (LURIGIO, 1987), como uma tentativa de evitar situações ansiogênicas (JANOFF-BULMAN, 1992).
No sequestro relâmpago, as defesas (FELSON, 2006) mais comuns são evitações (afastamento de locais de risco ou da exposição), camuflagem (tentativa de manter-se incógnito), defesas físicas (obstáculos físicos) e defesas grupais. As evitações geralmente se relacionam ao uso do veículo, pois este é visto, comumente, como uma extensão dos algozes, um símbolo rememorativo do trauma vivido e ainda um elemento de risco para novas vitimizações. Também apresentam evitações relacionadas aos modos de circulação na cidade, a evitação de pessoas e local da captura, restrições ao uso de determinados objetos e desejo de mudar-se de endereço ou cidade:
- Veículo e circulação urbana: sobretudo o ritual hipervigilante e veloz de entrada e saída
do veículo (“eu passei a ficar muito mais observador, muito mais cuidadoso para sair daqui,
para entrar no carro.”, Telmo); venda do automóvel; troca de veículo por outro modelo que se acredita ser “menos visado” ou que não traga “lembranças” (“trocar por outro para
engatilhar a vida”, Bento); deixar de usar o veículo que foi o cárcere; deixar de dirigir
veículos em geral por algum tempo (“eu fiquei com medo de dirigir, então eu estava fazendo
meus trajetos de transporte coletivo. Eu saltei de seis ônibus. Assim oh de pegar num ponto cismar com [alguém]... e saltar.”, Bento); ser acompanhado por alguém dentro do veículo; colocar película nos vidros; não consertar veículo batido para se tornar desinteressante para futuras abordagens; manter vidros fechados; travar portas imediatamente; esconder bolsa;
disfarçar-se com boné para potenciais ofensores não perceberem ser mulher (Claudia); sair dirigindo imediatamente após entrar no veículo; evitação de espaços públicos (“ficava com
medo de sair às ruas e acontecer tudo novamente”, Dirceu); não parar em semáforos à
noite; não circular dia e/ou noite; estacionar em lugares fechados (estacionamentos) e/ou
pagos (“eu sempre coloco no estacionamento pago, se eu estou sozinha”, Tiana) e evitar
estacionar na rua. Deixar de circular na rua, se resumir a residência e shoppings (os
“enclaves fortificados” da cidade segregada, segundo Caldeira, 2000). Na circulação pela cidade, alguns têm medo mais específico relacionado ao uso do veículo se comparado a andar como pedestre (“não tenho medo de estar andando na rua, e tenho medo de estar dentro de
um carro na rua”, Inácio); não ficar parado dentro do veículo (“hoje em dia você não deve
ficar 10 segundos parado dentro de um carro. [...] Eu arrodeio um quilometro se precisar, gasto gasolina, mas eu não paro”, Teodoro); não parar o veículo no destino pretendido
(exemplo, próprio prédio) se achar que está sendo seguido. Fazer diferentes trajetos para o local que vai com frequência.
- Local de captura: deixar de frequentar o local onde foi capturado (“no local que eu fui
abordado eu nem olho, eu nem olho para lá. Nunca mais eu vou parar meu carro no lugar, nunca mais.”, Bento; “nunca mais na minha vida eu pisei os pés ali”, Melina; “Eu jamais
voltei para o salão.”, Lavínia); grande apreensão quando precisa ir ao local (“fiquei com
um pouco de trauma de ir na casa dela [...] demorei para ir lá sozinha de domingo. Peço
para alguém ir comigo”, Talita); evitação de outros lugares que se considera de risco, mesmo não havendo relação direta com o seu episódio (“Eu nunca vou a um posto que está
vazio”, Murilo; “Se tiver que pegar um dinheiro eu geralmente pego depois que abre o
estabelecimento, eu não pego no caixa eletrônico”, Dália).
- Evitação de pessoas e aglomerações: que representem o estereótipo do algoz, em geral negros e jovens: “Ah, mais intolerante, talvez um pouco mais preconceituosa também,
porque... em relação ao estilo das pessoas, por exemplo, os três eram negros, sabe?! Fiquei com mais medo das pessoas que seguiam esse padrão. Mas como já tem um ano e meio já sinto que está ficando um pouco mais leve” (Talita); “Teve um paciente que chegou aqui.
Pense numa figura amável, afável, mas ele tinha dois metros de altura, é um rasta, com o cabelo quase na cintura e negão. [...] Na hora que ele chegou, que eu vi aquele cidadão
sentado na recepção, eu perdi completamente a linha, o controle.” (Lavínia); “Eu que ia
para benção do Ilê sábado de noite de carnaval, eu não podia encostar na fila se tivesse alguém negro que eu tomava um susto” (Lavínia).
Ou evitação de pessoas em geral, em que qualquer um é suspeito, pois os ofensores se camuflam, com vestuário e comportamento de pessoas comuns em atividades ordinárias que abordam furtivamente (JACOBS, 2012; COPES et al, 2012): “Depois disso eu tô pirada,
tenho paranoia, está se aproximando de mim eu não quero nem saber que cor ele tem, que roupa ele está, eu vou querer me livrar, pode estar arrumado bem-vestido, eu não confio”
(Gabriela); “Meu olhar ficou, eu fiquei mais desconfiada, por qualquer pessoa que passava,
até hoje” (Melina); “Fiquei um pouquinho abalado uns dois, três meses. Fiquei. Tinha medo
de todo mundo. [...] todo mundo que já encostava em mim eu já achava que queria me
eu tô num ponto que eu vejo as pessoas e julgo mesmo. Penso que qualquer pessoa, independente de cor, de roupa... porque eles estavam bem vestidos.” (Larissa); “A gente
passou a olhar mais pelo retrovisor, achar que todo mundo era suspeito. Então a gente passou um tempo de alguns meses eu diria assim traumatizados mesmo.[...] Até hoje quando
entra na rua ela fala: “Olha aí se tem alguém, vê se tem alguém, vê se tem alguém.”
(Murilo); “Passei a desconfiar de todo mundo. Tranquilamente. Tem um cara lá, eu já vou
me resguardando tranquilamente” (Tiana); “Eu já olho desconfiada [...], quando eu saio pra
caminhar pela manhã já olho pra um lado, olho pro outro. A rua tá cheia, tem um monte de gente caminhando, mas se eu já vejo uma pessoa estranha porque nessa caminhada são todos conhecidos, as mesmas caras todos os dias quando aparece uma cara nova aí você já fica desconfiado, aí você já fica um pouco pra trás, já procura mudar de passeio pra ver se o cara vai te seguir. E aí minha rotina é essa agora” (Melina).
- Evitação de uso ou posse de objetos ou bens “atrativos”: como joias, carros “visados”, equipamentos tecnológicos, entre outros. “Eu não uso meu iPhone. Isso daqui, por exemplo, é
um tablet, um ipad, mas eu evito demais estar com ele na rua. Só em locais específicos. [...] Se eu não ostento eu tenho menos chance de ser assaltado” (Murilo); “quanto menos atenção
a gente chamar hoje em dia é melhor” (Dirceu); “Depois disso eu passei a usar só ouro
branco e prata. E coisas muito discretas” (Elena); “Eu quero comprar um carro novo, não
compro. Meu carro é de 2007, está novo e eu não quero comprar um carro novo porque é visado, quanto ais novo, mais visado” (Justo).
- Desejo de mudança de endereço ou cidade: Késia sofreu sequestro relâmpago na porta do seu prédio, e nesse evento chegou a ser estuprada. Deseja se mudar desse endereço e ficará temporariamente na casa de uma prima. (“Para casa [em Salvador onde fui capturada] eu
não volto mais, eu vou me mudar com certeza. E por enquanto eu vou ficar na casa de minha prima que é muito longe do lugar.” Késia). Na verdade, para algumas vítimas de sequestro
relâmpago, o lar torna-se seu santuário, pois o espaço público é onde reside o perigo. Para outros ex-reféns, aqueles abordados perto de casa ou que tiveram suas chaves residenciais levadas (e documentos com o endereço), a própria residência pode também ser um espaço amedrontador. Nestes casos, há preocupação em relação ao retorno dos algozes, como ocorrido com Brenda, Dirceu, Gabriela, Késia, Lavínia, Murilo, Uiara. A mudança de endereço pode aparecer como uma vontade imediata, mas com o tempo, o desejo de se mudar
somente em decorrência da vitimização se dissolve. Afinal, tal mudança implicaria em outras dificuldades na práxis de vida desses sujeitos, pois repercutiria nas rotinas cotidianas já estabelecidas, a exemplo das redes sociais e trabalho, além de acarretar mais custos financeiros. Até o momento da entrevista, nenhum dos nossos informantes havia mudado de endereço por conta do sequestro relâmpago, com exceção de Késia que estava hospedada na casa da prima. Essas vítimas podem recorrer a mecanismos de segurança ou defesas físicas (FELSON, 2006), das quais citou-se grades nas janelas e portas, cachorros e câmeras de vigilância, portão eletrônico e contratação de serviço de segurança privada: “Hoje minha casa
é totalmente gradeada, eu moro em apartamento também, mas todos os lugares da minha casa têm grade” (Brenda); “Eu crio dois rottweiler no fundo da casa, dois pastores alemães
na frente da casa e tenho filmadora” (Murilo). Todos produtos formulados para serem adquiridos por consumidores “amedrontados”, na esperança de afastamento dos perigos (BAUMAN, 2008).
Interessante notar que não mudar-se de residência, mesmo tendo sofrido a vitimização em frente à moradia, como relatado por Larissa, pode ser recurso de enfrentamento na medida em que a vítima se percebe não permitindo que “eles” (os algozes) continuem ditando sua vida e interferindo na forma como ela se reconhece e identifica. “Então ao mesmo tempo que
eu tenho vontade, apesar de tudo que aconteceu, eu não acho justo também que eu deixe pra eles, mudar a minha vida completamente por causa deles. Eu acho que eles não merecem isso. Eu acho que eu estaria dando muita consideração para eles por causa de não viver mais” (Larissa).
Claudia (38 anos) chegou a mencionar que tem uma amiga também vitimizada por um
sequestro relâmpago com estupro e ela teria deixado Salvador para morar no interior. Entre nossos informantes-vítimas, alguns planejam mudanças de cidade, mas estas não são motivadas exclusivamente pela vitimização. O desejo é justificado como decorrente da sensação de violência generalizada na atualidade. A experiência de vitimização direta que tiveram não os impele a mudar, contudo o conjunto de experiências diretas e, principalmente, indiretas fundamenta suas insatisfações e narrativas de desejo ou planos de mudança. Nesses relatos, o interior representa menos perigo e um refúgio para uma vida mais segura e com mais qualidade. O risco está na cidade grande para Bernarda, Bruna, Eleonora e Otávia, por exemplo. “Pro interior, não para outra grande cidade, até porque eu acho que uma outra
grande cidade as coisas podem estar melhores do que aqui, porque eu acho que Salvador a gente está vivendo uma situação muito complicada. Mas eu não penso mais em morar em
cidade grande, a minha liberdade foi perdida, entendeu, eu não fico tranquila” (Eleonora, 28 anos).
Outra defesa relatada se refere às defesas grupais, aquelas cujos indivíduos recorrem a laços sociais, como andar em grupos, para prevenir vitimizações (FELSON, 2006). A ida ao banco para sacar dinheiro, por exemplo, pode passar a se realizada com algum acompanhante. Outro exemplo é trazido por Lorena ao relatar que as saídas noturnas com o grupo de amigas são realizadas sempre através de caronas. Além disso, quando ela se prontifica em ser a motorista do grupo, Lorena pernoita na residência de uma das amigas para evitar retornar sozinha a sua residência durante a madrugada.
Há lições a serem aprendidas, acreditam alguns, e ajustadas ao seu cotidiano, que provocaram o desenvolvimento de defesas contra ameaças e perigos, especialmente as individuais (PAES-MACHADO, RICCIO-OLIVEIRA, 2009). As vítimas tornam-se autoras dos próprios “manuais de segurança”, de como se prevenir.
Esse trajeto a gente acaba passando. O que tem que se pegar é a lição. [...] Fica até uma dorzinha lá, mas vai passar, eu sei que vai passar. Agora você tem que absorver a lição disso aí. Você tem que tirar alguma coisa de proveitoso, não é simplesmente daqui a dois anos colocar lá meu carro de novo e está tudo beleza. Eu aprendi o que disso? Eu aprendi as minhas lições, eu tenho de analisar como aconteceu, porque aconteceu, para poder melhorar.
Bento, 43 anos, entrevistado 2,5 meses após SR.
Eu mudei meu estilo, quer dizer eu não tenho cheque. Eu só tenho um cartão de crédito com o limite de R$800,00. Eu cancelei o limite do banco. Eu não tenho nada disso, entendeu?! Então eu pago minhas contas objetivamente. Eu não tenho mais essa... Ir para shopping, ficar cheio de sacola na mão. Eu acho que tudo isso é uma forma de ostentação. Você vai viajar e você põe a foto que você estava no Rio, que você foi à Europa, que você está fora de casa. Alguém vai saber que você está fora de casa.
Murilo, 41 anos, entrevistado 4,5 anos após SR.
Eu passei 6 meses com policial pesado armado. [...] E isso é um negócio dificílimo para mim, porque assim, eu sou aquela pessoa que não consigo deixar as coisas trancadas, sabe?! [...] No início eles andavam comigo dentro do carro e aí eu não sabia mais quem era o algoz, quem era o vilão, quem era mocinho, né?! (risos) Porque o cara está dentro do meu carro armado. Aí meu Deus [...].