CAPÍTULO IV O LEGADO DO SEQUESTRO RELÂMPAGO
IV.3. Retomando controle
O momento mais difícil durante o sequestro relâmpago apontado por ex-reféns (e também por ofensores) é geralmente a captura, porque ali a vítima se depara com a completa submissão ao outro desconhecido. É a surpresa de ser rendido, levado de uma rotina já conhecida, esperada e estável, é o “susto” pelo inesperado. A vítima é desapossada do seu senso de autonomia e fica submetida ao controle do outro num cenário volátil, até formular uma definição de situação e compreender minimamente o que se espera dele e o que poderá vir em seguida. “O susto da entrada, até tudo se normalizar, até eu saber para onde ele
estava indo, até eu sentir para onde estava indo, esse eu acho que foi o pior momento, o susto mesmo, a invasão” (Inácio). Durante a vitimização, estar no volante dirigindo, indicar trajetos, perceber-se em algum processo de negociação eficiente, perceber o contrato sendo mantido representam algum sentido de controle. “Eu me senti segura, porque eu estava no
volante. Em alguns momentos eu tive vontade de bater o carro, mas no fundo eu fiquei com medo”. (Tiana, 64 anos); “Enquanto eu tô dirigindo, eu tô tranquila” (Melina). Não por acaso a alternativa de ser colocado no porta-malas do veículo apavora tantos: o “susto da
entrada” se converteria em apreensão permanente, em cegueira, pois seria o bloqueio de quaisquer indícios do que se desenrolaria consigo. “Enquanto eu estava sentindo o ar, vendo
alguma coisa, pra mim ainda estava bem. Mas quando eles falavam assim ‘vamo colocar na mala do carro [...]’ Isso pra mim é pronto acabou. Aqui agora acabou.” (Brenda, 44 anos).
Com a vitimização, as pessoas colocam em cheque a noção de um mundo minimamente justo e coerente, e se dão conta que “há apenas um elo muito tênue (se é que há) entre o que homens e mulheres fazem e aquilo que lhes acontece; e que pouco ou nada se pode fazer para garantir que esse sofrimento seja evitado” (BAUMAN, 2008, p.43).
O processo complexo de enfrentamento irrompido com a vitimização circunscreve justamente a tentativa de retomada desse controle perdido outrora. Há uma busca por voltar a controlar a própria vida e a ação do outro sobre si. Tal busca é ancorada na crença que as pessoas têm de que ação e consequência são contingenciais, ou seja, que de algum modo pode-se controlar – ou pelo menos influenciar – o que acontece consigo mesmo (JANOFF- BULMAN, 1992). Elas acreditam que seus comportamentos serão recompensados e isso lhes dá sentido, num momento em que por vezes indagam-se profundamente sobre os sentidos da própria vitimização e da coerência no mundo.
É porque a gente sempre pensa: ‘ah, dei mole’. Dei mole, aconteceu isso tudo, porque eu dei mole, eu saí de casa num horário que não devia, parei na rua num horário que não devia. Se tivesse, se eu tivesse feito diferente, se tivesse acontecido isso ou aquilo. Eu fiquei me questionando muitas vezes isso. [...] Eu fico repassando coisas na cabeça, às vezes eu fico pensando o que poderia ter feito para não ter acontecido isso, entendeu?! Se a gente tivesse pulado do carro antes, se a gente tivesse voltado mais cedo da temakeria, se a gente tivesse subido ao invés de... Ou minha amiga tivesse ido embora ao invés de a gente consertar a janela naquele momento. Eu fico pensando em coisas desse tipo [...] de coisas que poderiam ter levado a não acontecer a situação.
Késia, 22 anos, entrevistada 3 dias após SR
O relato de Késia traduz o que muitas outras vítimas vivenciam, questionam-se “o que eu poderia ter feito de diferente”. Embora muitos reconheçam racionalmente que não têm culpa pela ação do algoz (rotulados como bandido perverso, necessitado, vagabundo, etc.) ou que poderia ter acontecido com qualquer um (“eu estava no lugar errado, na hora errada”), há um sentimento de culpa sutil embutido nos discursos quando relatam acreditarem que poderia ter acontecido de forma diferente se procedessem de outra maneira:
Meu vacilo foi não atentar para aquelas duas pessoas que estavam numa rua com pouca gente, na minha direção e achar que o fato de estarem conversando, não iam me pegar. Eu não pensei, nunca que eles eram assaltantes, não pensei num assalto, então eu vacilei, porque se eu estivesse ligada, deixe eu fingir aqui pra ver qual é desses caras, não vou parar o carro [...] Eu fui uma presa muito fácil, por isso eu fui assaltada!
Sempre tive, mas nessa semana, nessa noite como eu te falei, eu estava muito cansado, trabalhei o dia todo, e tive mais três horas de reunião, eu estava estafado, assim... então eu acho que eu não estava raciocinando direito, essa minha capacidade de proteção, o instinto de proteção não funcionou, eu não senti essa pressão, fiquei parado.
Teodoro, 41 anos, entrevistado 9 anos após SR.
Suspeito de todo mundo, [...] se eu ver um taxi, eu vou suspeitar. Seu eu ver um outro carro, pode ser uma Mercedes, uma BMW, eu vou suspeitar... porque eu criei na minha cabeça, eu sei que eu não deveria estar sentindo isso, mas querendo ou não eu acabo tendo um sentimento de culpa, pois eu acho que poderia não ter sido dessa maneira. Se eu estivesse mais alerta... se eu pensasse... porque eu sei a forma correta de pensar, mas por enquanto, eu penso assim, que poderia ter sido evitado se eu suspeitasse mais das coisas, se eu ligasse logo o carro e tivesse saído.
Larissa, 22 anos, entrevistada um mês após SR.
Eu acho que foi uma combinação de falta de prevenção e observação de minha parte. [...] Tanto é que quando eles identificam que a pessoa já sabe, eles já têm um receio, já tem um pé atrás.
Jonas, 26 anos, entrevistado 10 meses após SR
Na pós-vitimização, há o temor dessa perda de controle, de ser novamente submetido a circunstâncias sobre as quais se imagina não poder agir e se proteger. Por isso, as vítimas comumente se questionam sobre o que poderiam ter feito de diferente e desenvolvem defesas (FELSON, 2006) como resposta a situações que acreditam serem de risco (conforme apresentamos na seção IV.1).
Janoff-Bulman (1992) propõe que o senso de auto-culpabilização vivido por muitas vítimas seria uma tentativa de fazer sentido da experiência. Ela explica que a auto- culpabilização seria uma forma de as pessoas recuperarem um mundo pressuposto que faz sentido, onde os acontecimentos não são tão aleatórios. Como vemos nos excertos acima que evidenciam os “e se” das vítimas, na medida em que elas se questionam sobre o que poderiam ter feito para impedirem a própria vitimização, elas recuperam o sentido de causa e consequência de um mundo que deixa de ser tão incerto. “Embora a crueldade dos perpetradores possa diferir, sobreviventes de vitimizações danosas induzidas pela ação humana repentinamente se confrontam com a existência do mal e questionam a confiabilidade das pessoas. Elas experienciam humilhação e impotência e questionam seu próprio papel na vitimização” (JANOFF-BULMAN, 1992, p. 78).
A nosso ver importa destacar também que a expressão da auto-culpabilização, uma repercussão bastante comum em pessoas que passaram por eventos vitimógenos, é coerente
com a tecnologia neoliberal de responsabilização das vítimas e abdicação do papel do Estado em garantir segurança aos cidadãos. Vive-se o “salve-se quem puder”.
Sendo assim, a auto-culpabilização, impulsionada pela estrutura neoliberal, firma-se como manifestação psicossocial, pois reflete um modo de ser e saber partilhado socialmente e localizado culturalmente. Dogmas religiosos, códigos legais, normas morais, saberes e práticas da cultura ocidental fundamentam o discurso hegemônico segundo o qual atos dos indivíduos serão retribuídos (com recompensas ou punições). Toda dinâmica do contrato coercitivo-cooperativo reflete esse discurso de causa e consequência, que exemplificamos com a fala de um dos ofensores de Teodoro: “Faça tudo direito se não a gente te mata, se a
gente quiser, a gente te detona... A gente acaba com a sua vida, não faça nada errado”. Este é um discurso representativo e potencializador da crença compartilhada por muitos sobre a relação linear entre causa e consequência, ao se depararem com situações da própria vida. Tal discurso se correlaciona ao pressuposto nomeado por Janoff-Bulman (1992) como “mundo significativo”, ou mundo que faça sentido, que dá senso de estabilidade aos sujeitos viventes e despotencializa as incertezas sobre a existência.
Assim, com base em reflexões sobre a própria experiência traumática – reflexões essas que, embora engendradas no psiquismo do indivíduo, são derivadas de sentidos construídos na interação com outros – as vítimas, impulsionadas pelo medo, raiva e vulnerabilidade latentes, tentam retomar o senso de segurança e controle perdido com a vitimização através dos comportamentos de evitação:
Eu fiquei bem mais precavido, bem mais! Aquela pessoa que se preocupa com tudo. Hoje quem vai levar meu filho na escola sou eu ou em qualquer lugar sou eu, não deixo mais a mãe levar sozinha. Então eu estou me dando mais, estou me dedicando mais, porque eu tenho mais medo de sair, de deixar minha esposa sair sozinha com meus filhos. [...] Minha esposa ela se preocupa comigo, mas ela vê assim um excesso de preocupação, ela diz: em qualquer lugar a gente pode ser assaltado e tal. É mas em qualquer lugar você pode ser assaltado, mas se você se prevenir, fica mais difícil, torna mais difícil.
Dirceu, 52 anos, entrevistado seis meses após SR.
Prevenir-se não é novidade para nossos informantes. Em geral, eles já exerciam comportamentos de defesa e prevenção, pois reconheciam viver em meio à elevada criminalidade urbana. Entretanto, após a vitimização, os cuidados são multiplicados. “Antes
eu tinha cuidado, agora eu tomo cuidado em excesso” (Melina, 56 anos). São tentativas de reestabelecer controle sobre o que lhes cerca para não se sentirem tão impotentes. “Eu não
estou tão vulnerável, nem tão acessível, é o que eu mais penso, na minha acessibilidade, quanto menos acessível eu puder ficar, eu acho que me dá um conforto maior” (Inácio). A mudança de certos comportamentos não garante a não revitimização, mas garante um conforto às vítimas por elas acreditarem que, com isso, podem fazer alguma diferença (JANOFF- BULMAN, 1992). “Hoje eu não fico no carro, ele [um dos ofensores] me deu uma lição
(risos), me deu aulas bem práticas assim de como me comportar na rua e vou seguir a risca os conselhos que ele me deu” (Eleonora, 28 anos).
Nessa tônica, as vítimas se autodenominam “paranoica”, com “neura”,
“desconfiado”, com “olho atrás da cabeça” e se percebem hipervigilantes. Todo mundo é suspeito e se pode ser abordado a qualquer momento, em qualquer lugar – especialmente em espaço público e com o veículo.
Não ficar parado no carro; jamais em lugar nenhum, atenção o tempo todo, sempre que você for sair de casa, na rua, sempre olhar de um lado, de outro... olhar sempre pra os carros que estão próximos na rua... sempre olhar movimento de sombra... porque a qualquer momento pode acontecer alguma coisa, Salvador está uma cidade muito violenta.
Teodoro, 41 anos, entrevistado 9 anos após SR.
Uma vez uma moto parou no meu carro, o cara meteu a mão aqui assim. Na cintura entre a calça e o cós da calça e a barriga, e aí como se fosse... Eu quase bato o carro, porque eu tomei um susto tão grande que deixei a embreagem como se eu fosse bater no carro de trás, porque estava enladeirado. A sensação é que ele ia sacar o revolver como o outro fez no dia do assalto.
Lavínia, 48 anos, entrevistado 4,5 anos após SR.
Hoje, mesmo quando eu estou no celular, eu fico observando as pessoas ao redor, fico sempre alerta pra tudo que acontece ao meu redor.
Jonas, 26 anos, entrevistado 10 meses após SR.
Eu me lembro que se tornou bastante desconfortável algumas situações. [...] durante alguns meses eu fiquei muito mais tenso. Os primeiros dias foram péssimos. Dia claro [...] chegando em casa e alguém andando atrás de mim e eu completamente nervoso, arrepiado da cabeça aos pés. Era uma coisa que acontecia muito. Qualquer movimento estranho, muitas vezes nem estranho, eu tô andando na rua, tô entrando na rua de casa de noite, alguém aparecia eu já arrepiava todo. Isso era bem típico. Ficava todo arrepiado de medo, bem tenso. Mas isso mesmo durou intensamente a primeira semana, depois foi passando. Em uns dois meses eu ainda tinha muito essa resposta.
Elias, 27 anos, entrevistado 3,5 anos após SR.
Eu acho que a maioria das pessoas acha que eu sou paranoica. Minha namorada mesmo.. ela é muito ligada, com ela fico menos paranoica porque ela fica ligada, ela não para, ela sai do banco com a carteira na bolsa. Às vezes eu saio contando
dinheiro do banco, sabe, e ela já é muito mais ligada assim. Mas ela acha que eu sou um pouco paranoica, apesar dela ser bem ligada. Mas ela fala que eu tô certa e tal, mas a maioria das pessoas acha que eu sou paranoica. [E você se sente paranoica?] Acho! Sou um pouco paranoica! Diante da realidade, acho que sou um pouco paranoica! Não acho que é uma coisa ‘aahh eu sou paranoica’.. eu acho que o mundo está cruel mesmo para todo mundo e eu tenho medo, então eu fico um pouco paranoica. [...] Eu acho que é um pouco desnecessária porque me faz mal, porque eu suo, porque eu tenho ansiedade, porque meu coração acelera, porque eu fico querendo voltar às vezes de um lugar... eu peguei um engarrafamento no domingo, estava tendo um evento no parque de exposições [e a estrada bastante engarrafada]. Eu chorei muito dentro do carro. Eu tive uma crise de pânico. Eu chorava, chorava, chorava. Eu não conseguia pensar o que eu podia fazer, se eu podia voltar, se eu podia parar o carro e pedir ajuda. Eu estava com minha namorada, e ela também chorou, a gente não chorou de medo, mas de desespero de estar tão parado naquela situação, vulnerável. Os caras passando de bicicleta, assaltando, sabe, de estar sem saída. Isso me dá ansiedade, estar num engarrafamento, num sinal parada, se eu estiver sozinha na rua e vir alguém andando em minha direção, olhando muito pra mim, eu fico meio cabrera assim..
Eleonora, 28 anos, entrevistada seis anos após SR.
O nível de tensão é mais elevado logo após a vitimização, mas tende a permanecer, pois a sensação é de que outro evento pode ocorrer a qualquer momento (SANTOS, 2007). Por isso, as vítimas ficam em estado de prontidão constante e reagem fisiologicamente ao medo que as abastece (JANOFF-BULMAN, 1992). Bauman (2008, p.9) contribui nessa discussão quando afirma que “uma pessoa que tenha interiorizado uma visão de mundo que inclua a insegurança e a vulnerabilidade recorrerá rotineiramente, mesmo na ausência de ameaça genuína, às reações adequadas a um encontro imediato com o perigo.” A hipervigilância deriva do medo que move e mobiliza, e se apresenta como forma de resguardar o indivíduo, diante da impossibilidade de se evitar plenamente a sensação de insegurança e risco iminente.