Biblioteca Universitária UFSC
7. A POLÍTICA AMBIENTAL NO MUNICÍPIO DE JOINVILLE
8.2 Deficiências do processo de licenciamento ambiental
8.2.1 Falta de articulação com outros mecanismos legais
Um dos principais motivos da ineficiência do processo de licenciamento ambiental, no Estado de Santa Catarina, foi a ausência de quaisquer articulações com outros mecanismos legais. Como foi visto no caso de São Paulo a emissão da Inscrição Estadual está vinculada , por lei, à apresentação de Licença ou Parecer da CETESB. No Paraná existe um convênio com a Companhia de Energia Elétrica do Paraná ( COPEL) no sentido de só efetivar a ligação de energia elétrica, em novos empreendimentos que possuirem a licença ambiental do IAP ( Instituto Ambiental do Paraná) . Desta forma existe a obrigação legal de obter a licença ambiental antes do efetivo funcionamento da empresa.
Como instrumento que é da Política Nacional do Meio Ambiente, o licenciamento necessita de mecanismos que permitam a sua operacionalização. Dentro da esfera em que foi proposto, ele só terá eficácia se aplicado desde o momento de implantação da atividade. Para tal há necessidade de vincular a permissão de existência da atividade com o licenciamento ambiental. E claro que muitas empresas existentes antes das leis ambientais merecem um tratamento diferenciado, muito mais voltado para o caráter corretivo. Todavia a função preventiva do licenciamento ambiental ficou em muitos estados, como no caso de Santa Catarina, em segundo plano.
Se, por um lado, no início de suas atividades o trabalho de convocação de empresas pela FATMA foi intenso, do outro permitiu-se, ao longo dos anos a abertura de novas empresas quase sem restrições. Apesar da obrigação legal, a implantação de diversas atividades industriais ocorreu à margem do licenciamento ambiental. O motivo pode ser explicado justamente por esta falta de articulação com os mecanismos legais de abertura e registro de empresas . As leis existem, são muitas e bem formuladas, porém, aparentemente nasceram para não serem cumpridas.
Alguns itens da Legislação Ambiental do Estado de Santa Catarina, relacionados ao licenciamento ambiental, merecem ser discutidos.A legislação ainda frisa que em casos sem risco comprovado ao meio ambiente, o empreendimento poderá ser dispensado da Licença Ambiental de Instalação - LAI. Evidencia-se aqui a obrigação de um estudo de impacto ambiental, que
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prove a atividade não cause riscos ao meio ambiente, independente do tipo de atividade.Pode-se ver que, ao contrário da legislação do Estado de São Paulo, não há nada explicitando os casos em que não há necessidade de apresentação de Relatório de Impacto Ambiental. Em outras palavras todos os processos de licenciamento ambiental deveriam contar com o EIA/RIMA.
A legislação contradiz, de certa forma, o que pede o Memorial de Licença Ambiental de Operação para a Renovação de Licenças Ambientais. Na primeira encontramos que mudanças nos processos produtivos resultam na invalidam a licença. Já, de acordo com o Memorial por ocasião da renovação da licença devem ser informadas as mudanças nos processos produtivos da empresa. No Anexo 3 poderão ser encontrados os memoriais relativos a cada tipo de licenciamento: prévio, de instalação e de operação.
8.2.2 A abrangência da legislação
A Portaria Intersetorial que classifica as atividades sujeitas ao licenciamento ambiental, merece um destaque especial. Como parte da Legislação, para a época e situação em que foi elaborada, a Portaria pode ser considerada um bom documento. Bastante abrangente ela atinge um contingente vasto de atividades sejam elas industriais ou não, principalmente voltado ao controle da poluição dos recursos hídricos. O principal problema desta portaria é ela mesma. Pela sua forma e complexidade ela se tornou praticamente inviável. O primeiro obstáculo é caracterizado pela sua extensão.Fica a dúvida de como estaria a situação presente se houvesse o cumprimento efetivo da legislação. Porém as ações perderam-se no labirinto do próprio burocratismo responsável pela sua criação. O órgão ambiental do Estado não tinha na época, e nem tem no momento, estrutura para permitir o cumprimento de todas as suas obrigações. Principalmente recursos humanos, em quantidade com a diversidade de qualificação necessários. Se houvesse obrigatoriedade do cumprimento ( leia-se aqui alguma forma de se fazer cumprir a lei, uma vez que a mesma por ser lei é obrigatória, porém, entre a criação de uma lei e sua efetiva aplicação há um grande caminho a “talvez” ser percorrido ), a estrutura funcional da Fatma já teria entrado em colapso. Esta talvez seja a maior das deficiências do modelo burocrático: a não instrumentalização dos mecanismos criados para atingir os objetivos propostos pelas leis.
Se, para a época, onde as medidas corretivas eram fundamentais, seu conteúdo era adequado, já não se adapta a realidade atual. Os avanços tecnológicos permitem que uma empresa já surja não poluente. Os tratamentos são cada vez mais variados e mais acessíveis. Não se pode mais medir o “tamanho econômico” de uma empresa, pela sua área construída e número de empregados.
A Legislação chega a mencionar que o Poder Público deve estabelecer a criação de um sistema de benefícios visando o uso racional dos recursos ambientais. É o que pode ser visto no Artigo 15o, e deve atender as seguintes premissas:Tal sistema , como um sistema único e abrangente, inexiste .A legislação atual, por sua vez, não beneficia de nenhuma forma as empresas que procurem alterar os sistemas produtivos de forma a racionalizar o uso dos recursos ambientais.
Apontada como causa principal da ausência de atuação da Fatma, a falta de recursos merece algumas colocações . O dinheiro arrecadado como multas e com as licenças, como já foi visto, não vai para a instituição Não se pretende colocar que a permanência dos recursos gerados pela FATMA trará a solução para os problemas financeiros daquele órgão. Nem tampouco
sugerir a transformação da FATMA num órgão que vise a obtenção de lucro. Porém se a a análise e emissão de licenças são cobradas , é justo que a FATMA disponha de recursos suficientes para essas atividades. Nisto se incluem inclusive as análises laboratoriais. As regionais que “funcionam” ainda que parcialmente, Joinville e Criciúma, são aquelas que recebem recursos do exterior para programas específicos. Algumas regionais apenas existem. Além de não terem recursos financeiros e tampouco técnicos, padecem, as vezes, até da vontade de obtê-los. Acostumaram-se na sua omissão por falta, que não conseguiriam lidar com os recursos se os tivessem. Também não enxergam que esta estrutura mal montada e mal gerida durante quase toda a sua existência é responsável pelo suas próprias deficiências.
8.2.3 Apenas medidas corretivas
O licenciamento ambiental, como instrumento, beneficia o modelo de industrialização existente. Baseia-se, mesmo a empreendimentos a serem implantados, nas medidas corretivas. Era todos os casos estudados é dada ênfase à correção . O problema em questão são os diversos rejeitos gerados pelos mais diversos processos produtivos. Estando a empresa em pleno funcionamento, ou ainda na fase de planejamento, o critério de análise não difere. O licenciamento dito “preventivo” nada mais é do que o licenciamento corretivo aplicado a empresas em fase de implantação. Nesta fase é que poderiam ser incentivadas a utilização de “tecnologias limpas”. Nas sistemáticas apresentadas, quase todas calculam taxas baseadas no porte da empresa e seu potencial degradador. Esta forma de cálculo vem do final da década de setenta ou início da década de 80, onde a tônica era a correção dos problemas ambientais. Medida em certa parte correta para a época. Porém em termos de futuro, paliativa. Hoje a tecnologia existente coloca em questionamento muitas das atividades consideradas “poluidoras”.
Pode-se imaginar o caso de uma empresa que presta serviço de tratamento superficial, como por exemplo serviços de galvanoplastia. É uma atividade que com o advento da terceirização deixou as instalações dentro das grandes e médias empresas e passou a ser executada por empresas menores, podendo até estar inserida dentro do contexto de microempresa. Tratamento para os efluentes líquidos existe e é de certa forma simples. O lodo resultante é que é um problema. Porém a empresa não é incentivada, nem obrigada a buscar a sua redução ou o seu aproveitamento. Também não se incentiva, a reutilização do efluente. A princípio o efluente deve atender aos padrões de emissão que constam na legislação. Todavia, os trabalhos de monitoramento são na maioria das vezes, precários. Como não há nenhum benefício ou cobrança legal, é bem mais simples e barato apenas tratar o efluente, depois lançando-o a corpos receptores. O lodo pode ser armazenado até que o governo pense numa solução.
8.2.4 A importância das pequenas atividades
Além dos efluentes das indústrias produzidos em grande escala , também são importantes e constituem-se em fontes com alto potencial poluidor os efluentes produzidos em menor escala ,
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tais como matadouros, estamparias, tinturarias, postos de gasolina etc. A isenção das microempresas é um ponto delicado. De um lado pode-se ter atividades altamente poluidoras nesta categoria. De outro onerar uma microempresa com a implantação de controles ambientais e pagamento de mais uma taxa pode acarretar o seu desaparecimento. Este é caso de que benefícios pela não-poluição poderiam ser altamente positivos. Em São Paulo, a isenção demonstra suas lacunas. O que caracteriza uma microempresa é o seu faturamento e não suas atividades. Não há como deixar de lado o potencial degradador destas pequenas atividades, unicamente pelo seu tamanho. Há quem defenda, e com razão, que deve-se facilitar a implantação de micro e pequenas empresas, mas não existe justificativa para permitir o funcionamento de atividades poluidoras sem a necessidade de implantação de controles ambientais. Neste caso pode-se trabalhar com uma taxação mais suave para estes pequenos empreendimentos. Aqui está uma falha em se formular as taxas de licenciamento baseadas no potencial poluidor, como é feito no estado de Santa Catarina. Seria mais coerente, adotar o sistema desenvolvido em outros estados que têm uma taxa específica , de valor menor, para as microempresas. Uma taxação mais alta pode provocar a evasão das empresas, que podem utilizar-se de subterfúgios ( como por exemplo, maquiagem das atividades desenvolvidas pela empresa no contrato social ) para “escaparem” da legislação. Já é bastante comum encontrar-se empresas que nominalmente são “comércio e representação” quando na realidade são verdadeiras unidades produtivas.
Aqui é que se torna importante a delegação do licenciamento ambiental de diversas atividades industriais para o município. No caso de Santa Catarina, é fato de que a Fatma não tem estrutura para licenciar e/ou fiscalizar todas estas atividades. O principal gestor do espaço de vivência da população, onde são prontamente percebidos e sentidos os resultados positivos e negativos das alterações do ambiente e da qualidade de vida, é o poder público municipal. É ele que detém a competência privativa para a elaboração, implementação e fiscalização de códigos e planos locais de organização territorial, de uso dos espaços públicos e de proteção ambiental - plano diretor, lei de zoneamento, código de obras, de posturas, de saúde, política ambiental do município etc. ( MOISÉS, 1996).
Outro fator a ser considerado é tratamento do esgoto sanitário pelas unidades industriais. A Fatma cobra o tratamento através de sistema individual de esgotamento sanitário. Em geral tratam-se de sistemas compostos de fossas-sépticas seguidas de tratamento complementar, que varia conforme o tipo de disposição final do efluente. Da mesma forma as prefeituras também cobram projetos neste sentido. A lacuna principal é novamente a fiscalização.