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DEFICIENTE AUDITIVO OU SURDO?

No documento A BIBLIOTECA E O USUÁRIO SURDO (páginas 16-19)

2 A DEFICIÊNCIA AUDITIVA

2.1 DEFICIENTE AUDITIVO OU SURDO?

Quando nos deparamos com um determinado grupo social que é, de certa forma, excluído da sociedade buscamos tentar suavizar sua condição por nos sentirmos penalizados por sua situação de excluído social. É um exemplo macro de uma realidade em toda nossa sociedade, mas que reflete a situação dos indivíduos que têm a audição reduzida ou simplesmente não ouvem.

A sociedade, de uma maneira geral, chama de deficientes auditivos as pessoas que se encontram privadas de ouvir, por acreditar que, politicamente, está tratando da forma correta. Não somente por isso, mas, também, por acreditar que, sendo assim chamados (deficientes), eles se sintam menos excluídos do contexto da sociedade moderna e também da vida dos que podem ouvir. O sentimento de pena ou a tentativa de minimizar fatos induz à urgência que temos hoje em grande proporção que é a inclusão social, cuja luta encontra-se presente nos mais variados segmentos da vida em sociedade.

A pergunta que se faz é: como o indivíduo que é privado da audição quer ser tratado?

Isto porque não se tem uma concretude na forma correta de distingui-los, de chamá-los, entretanto, ambas as formas estão corretas dependendo da linha de pensamento. Assim é que, existem duas correntes, que caracterizam a surdez de modo diferente: uma encara a surdez como sendo uma concepção clínica (tratando-a como uma doença) e a outra como sendo uma concepção social (acessibilidade), como mostrado por Silva e Pereira:

[...] concepção clínico-terapêutica de surdez, os surdos são vistos como tendo uma deficiência, a qual deve ser curada para que eles possam se aproximar do normal [...]. Na concepção sócio-antropológica, por outro lado, os surdos são vistos como tendo um acesso diferente ao mundo, o que implica em diferenças em relação aos ouvintes. (SILVA; PEREIRA, 2003, p. 174) São concepções distintas, mas que trabalham para o desenvolvimento sociológico, educacional e antropológico do surdo. Na primeira concepção, a surdez é vista como deficiência e, para tanto, faz-se necessário o processo de oralização do surdo, ou seja, o indivíduo surdo é trabalhado para que tenha acesso à língua portuguesa (no Brasil), conferindo à linguagem dos sinais, ou como é conhecida no Brasil, Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), um caráter secundário. Logo, o deficiente auditivo deverá ser oralizado e utilizar- se de aparelho de surdez para se aproximar ao máximo da sociedade ouvinte e participar de tudo que dela provém; a segunda, possui uma visão em que o surdo é um indivíduo que possui uma maneira de se comunicar com o mundo, diferente dos ouvintes, e, para isso, lança mão da linguagem dos sinais, mesmo sem ter um conhecimento prévio dessa modalidade, como afirma Oliveira ([200-], p. 2) em seu estudo: “[...] crianças surdas procuram criar e desenvolver alguma forma de linguagem, mesmo não sendo expostas a nenhuma língua de sinais.”.

Ambas as concepções são compostas de características que concedem ao surdo pontos importantes para melhor compreensão de suas necessidades, por parte dos ouvintes.

A oralização é um desses pontos que destacaremos porque, para muitos leigos, o fato de a pessoa ser surda não a impediria de ler. É um erro, pois, em seu processo cognitivo, a formação morfossintática de palavras tem um aspecto próprio que o distingue dos ouvintes, como afirma Fernandes4 (1990 apud OLIVEIRA, [200-], p. 2): “No que se refere à língua portuguesa, [...] a grande maioria das pessoas surdas, já escolarizada, continua demonstrando dificuldades tanto nos níveis fonológico e morfossintático, como nos níveis semântico e pragmático.”.

É comum acreditarmos que a surdez é uma deficiência cuja relevância seja bem menor que um deficiente visual, porém, a questão da linguagem é fundamental para compreensão de mundo e dissipador de dúvidas que Oliveira ([200-], p. 4) aborda claramente “[...] diversos autores afirmam que a linguagem é fator indispensável para o desenvolvimento do raciocínio e a falta de linguagem constitui-se um obstáculo para o desenvolvimento da inteligência.”. No caso dos surdos, vê-se que, a oralidade os impede em variados aspectos (por exemplo:

entender as entrelinhas, o surdo é mais concreto que abstrato) o que para os ouvintes isso não ocorre. Portanto, sendo a oralidade uma capacidade do ser humano de se comunicar e, posteriormente, de se desenvolver como indivíduo, a sua ausência redunda em problemas no tocante à leitura e retarda o processo de aprendizagem como afirma Oliveira:

A ausência de linguagem afeta o desenvolvimento da inteligência em um indivíduo. A palavra tem uma importância excepcional no sentido de dar forma à atividade mental e é fator fundamental de formação da consciência. Ela é capaz de assegurar o processo de abstração e generalização, além de ser veículo de transmissão do saber. (OLIVEIRA, [200-], p. 2),

Exemplo prático disso podemos ver na forma como o surdo concebe uma simples frase que lhe é proposta, num estudo realizado por Sandra Pinto no Colégio de Aplicação do Instituto de Educação de Surdos, cuja finalidade era trabalhar o desenvolvimento da leitura e, destarte, a escrita na língua portuguesa (grifamos em negrito a frase que os alunos surdos escreveram baseados na figura que viam):

[...] procuramos desenvolver programações que tenham por objetivo o favorecimento do desenvolvimento sócio-cognitivo e da criatividade desses alunos buscando suprir suas necessidades primordiais em relação à comunicação. [...] Os peixes matam muito. por sujo, mas muito óleo.

PROIBIDO- joga na lagoa. Morreram muitos peixes sujos de óleo. É proibido jogar óleo na lagoa. [...] Observamos como resultado inicial que o aluno, ao poder reconstruir seu texto, percebe as diferenças estruturais entre as línguas: LIBRAS e Língua Portuguesa escrita. (PINTO, [200-], grifo nosso) Fica patente a diferença que há entre a língua portuguesa e a LIBRAS: o surdo possui uma compreensão muito dificultada ou, quase nenhuma, da língua portuguesa. A leitura de

4 FERNANDES, Eulalia. Problemas lingüísticos e cognitivos do surdo. Rio de Janeiro: Agir, 1990.

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um texto e a escrita do português, para o surdo representam dificuldades visto que se tornam tentativas de decifrar os “códigos” existentes nas palavras. Em um outro estudo feito por Souza5 (1998 apud OLIVEIRA, [200-]), os alunos relatam que preferem uma leitura com gravuras porque estas facilitam a compreensão textual daquela, ao invés de uma leitura direta e sem gravura. Assim é que, um gibi ou qualquer outra história em quadrinhos se encaixa mais com suas características que um livro técnico e/ou sem gravuras.

Um outro ponto que nós podemos observar é a importância da LIBRAS como a primeira língua dos surdos. Esse modo de linguagem insere o surdo no contexto próprio dos que lhe são iguais e comungam das mesmas características. Como supracitado, as crianças surdas tendem, mesmo que não tenham contato com a LIBRAS, a se comunicar através dos sinais que é o método mais prático para socialização desses indivíduos, uma vez que o seu uso independe de aspectos externos como é o caso da linguagem oral. Além disso, segundo Fernandes6 (1994 apud Sá, 1999), LIBRAS são considerados sistemas abstratos, com regras gramaticais que são usadas por surdos dos países que a utilizam, com especificidades tanto fonológicas quanto sintáticas, como no campo da semântica.

Há, mais recentemente, mesmo com essas concepções distintas, a idéia de que a oralidade e a LIBRAS caminhem juntas para plena integração dos surdos à sociedade ouvinte e sua capacitação educacional. Esta proposição, estudada por Sá em seu livro denomina-se educação com Bilingüismo (que veremos mais a frente), isto é, o aprendizado da língua portuguesa e da LIBRAS, sem que uma ou outra sejam tidas como a mais importante no aspecto educativo e cognitivo. No entanto, a Língua Brasileira de Sinais pela adesão imediata do surdo, seria a que os estudos propõem como L1, e, a língua oral (língua do país), a L2, seria a segunda língua.

Este conceito, o Bilingüismo, que tem sido o mais recente dos modelos de ensino nas escolas para surdos e, tratado por psicólogos e pedagogos especialistas nessa área, é a oportunidade que muitos surdos têm de realmente fazer parte, tanto do mercado de trabalho, como do mundo cientifico, sendo não o diferente ou o deficiente (não-eficiente), mas, sim, um cidadão que tem capacidade intelectual similar ao ouvinte, guardadas as devidas proporções quanto ao fato de o surdo estar impedido de ouvir. Redunda esse estudo na confluência dos significados apresentados no título desta seção, onde estariam postas, ambas as designações que buscamos compreender até agora.

5 SOUZA, Regina Maria de. Que palavra te falta?: considerações epistemológicas a partir da surdez.

São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 216.

6 FERNANDES, Eulália. Parecer solicitado pela Federação Nacional de Educação e Integração do Surdo sobre a Língua de Sinais usada nos centros urbanos no Brasil. Revista Integração, Brasília, DF, ano 5, n. 13, 1994.

No documento A BIBLIOTECA E O USUÁRIO SURDO (páginas 16-19)

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