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A BIBLIOTECA E O USUÁRIO SURDO

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Academic year: 2022

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DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

CURSO DE GRADUAÇÃO EM BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO

MARLUS JOSÉ SOARES DOS SANTOS

A BIBLIOTECA E O USUÁRIO SURDO uma questão de inclusão

NITERÓI

2007

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Marlus José Soares dos Santos

A Biblioteca e o usuário surdo:

uma questão de inclusão

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Ciência da Informação do Curso de Biblioteconomia e Documentação da Universidade Federal Fluminense, UFF, como requisito para obtenção do grau de Bacharel em Biblioteconomia e Documentação.

ORIENTADOR: PROFª. MARÍLIA ALVARENGA ROCHA MENDONÇA

Niterói

2007

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Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoatá

S237 Santos, Marlus José Soares dos.

A biblioteca e o usuário surdo : uma questão de inclusão / Marlus José Soares dos Santos. – Niterói, 2007.

40f.

Orientador: Marília Alvarenga Rocha Mendonça Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Biblioteconomia e Documentação) – Universidade Federal Fluminense, 2007.

Bibliografia: 33-36

1. Biblioteca. 2. Usuário de biblioteca. 3. Surdez. 4. Inclusão social. I. Mendonça, Marília Alvarenga Rocha. II. Universidade Federal Fluminense. Instituto de Arte e Comunicação Social. III. Título.

CDD 020

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Marlus José Soares dos Santos

A Biblioteca e o usuário surdo:

uma questão de inclusão

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Ciência da Informação do Curso de Biblioteconomia e Documentação da Universidade Federal Fluminense, UFF, como requisito para obtenção do grau de Bacharel em Biblioteconomia e Documentação.

BANCA EXAMINADORA

Data de Aprovação: \ \

Prof.ª Marília Alvarenga Rocha Mendonça - Orientadora

Data de Aprovação: \ \

Prof.ª Drª Lídia Silva de Freitas

D. Sc. Ciências da Comunicação – IBICT/UFRJ-Eco

Data de Aprovação: \ \

Prof.ª Sandra Borges Badini

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A Deus por tudo o que sou e por tudo o que tenho, visto que não poderia chegar aqui sem Ele. A Ti todo meu louvor e gratidão.

A “mami” chamada carinhosamente por

mim assim. Te amo muito, é para você

este trabalho. Seu sonho se deu hoje.

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Agradecimentos

Primeiramente a Deus. Incansavelmente, a Ti meus agradecimentos e louvor.

Leonice. Ah Leonice! Quantas noites, dias, anos para ver o seu sonho concretizado e ver seu esforço recompensado. “Mami”, você é você. Obrigado hoje e sempre.

À minha madrinha Denise que é mais que uma madrinha, é uma mãezona. Seu incentivo lá atrás me fez chegar aqui. Seu apoio e conselhos foram primordiais. Te amo.

À minha mãe de leite Doralice, ao tio João, aos meus irmãos de leite Daniel, Júnior e Isabela. Como estar com vocês me ajudou a ser a pessoa que sou. Que família maravilhosa. Devo minha vida a vocês e não terei como pagá-la, mas Deus já recompensou ricamente a vida de vocês.

Ao meu padrinho (in memorian) e família. Como foi bom ter vocês por perto. Um exemplo de família para mim. Negros que honraram, acima de tudo, a nossa cor num Brasil cheio de preconceitos. Minha família será espelho da de vocês.

À tia Lea que tantas vezes socorreu-nos indo ficar comigo enquanto mami trabalhava à noite. Que família é esta hein? Obrigado.

À tia Jerônima eu não posso esquecer da minha tia que é a mais querida. Obrigado.

A senhora é também uma das minhas mães.

Aos amigos e irmãos em Cristo da igreja e todos que sempre agüentaram o meu humor ma-ra-vi-lho-so, muito obrigado pelas orações e assistência. Sou grato eternamente a vocês. Deus os recompensará.

Elcio, Ana Carol, Luciana P., Mari, Gisa, Luísa vocês foram mais que amigos.

Trabalhamos juntos, sofremos juntos e o mais importante: formamos-nos juntos, não todos, mas quase todos. Quantos trabalhos viramos a noite fazendo e aqui estamos a nos formar. Adoro vocês. Aos demais colegas que, mesmo entre tapas e beijos, fizeram parte da concretização de um sonho. Valeu mesmo!!

Aos professores do GCI e departamento. Se por eles lá em cima eu cheguei à faculdade, por vocês estou saindo dela. Eles foram o início de uma trajetória e vocês o culminar.

À minha orientadora Marília. Como eu te dei trabalho hein

(sic), professora. Mas eu

agradeço a compreensão pelo computador novo que me abandonou, pelo tempo que se esvaiu, pelos acertos e erros de um trabalho que tem a mão da senhora. Obrigado.

Ao André que me abriu os olhos para a realidade dos surdos, estagiar com você foi muito importante para descobrir um mundo que desconhecia até então. Obrigado.

Ao meu chefe, Antonio Sergio, pelas dicas e “toques” que elucidaram muitas coisas.

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“E disse-lhe o Senhor: Quem fez a boca do homem? Ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor?”

Êxodo: 4:11

“A linguagem verbal é o instrumento por meio do qual os homens adquirem conhecimento sobre a realidade e comunicam uns aos outros a informação assim adquirida e as experiências conexas – emocionais, estéticas, volativas etc., a esta relacionadas.”

Adam Schaff

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RESUMO

Estudo teórico sobre a relação entre o usuário surdo e a biblioteca. Buscou-se, primeiramente, estabelecer os conceitos de surdez x deficiência auditiva. Fez-se um contraponto entre o caráter sociológico cujo aspecto era da acessibilidade e o caráter médico cujo aspecto era da enfermidade. Adotou-se como ponto de vista o caráter sociológico da surdez e, por conseguinte adotou-se o termo surdez como o preferido ao decorrer do trabalho. Traçou-se a mesma diferença quanto ao deficiente auditivo e o surdo. Verificou-se como o próprio surdo via si mesmo enquanto pessoa, com diferenças funcionais em relação ao ouvinte. Observou- se que para sua interação e integração o surdo tende a se agrupar com iguais e nunca com o diferente. Analisou-se como se dá o aprendizado da pessoa surda: o modelo oral, da linguagem de sinais e do bilingüismo. Analisou-se a presença do surdo na sociedade de um modo geral, através de exemplos, como o mostrado no jornal “O Globo”. A partir da inserção do surdo na sociedade fez-se uma ponte entre o surdo e a biblioteca, mostrando a potencialidade deste usuário. Analisou-se o papel educativo da biblioteca no tocante ao usuário surdo. Ademais, observou-se a contribuição da biblioteca no que diz respeito à inclusão social, a inclusão de deficientes, a inclusão do usuário surdo. Buscaram-se exemplos do que se tem feito em termos de inclusão social tanto para surdos, como para deficientes de um modo geral. Sinalizou-se ao que se tem como padrão segundo relato do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Sugeriu-se, então, a adoção dos pontos levantados pelo INES.

Palavras-chave: Biblioteca. Usuário surdo. Inclusão social. Surdez. Surdo. INES.

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ABSTRACT

Theoretical study on the relation between the deaf user and the library. One searched, first, to establish the concepts of deafness x auditory deficiency. A counterpoint between the sociological character whose aspect was of the accessibility and the medical character became whose aspect was of the disease. The sociological character of the deafness was adopted as point of view and, therefore the term was adopted deafness as the preferred one when elapsing of the work. It was traced same deficient difference how much to auditory and the deaf person.

It was verified as the proper deaf person saw itself exactly while person, with functional differences in relation to the listener. It was observed that for its interaction and integration the deaf person tends if to group with equal and never with the different one. It was analyzed as if of the o learning of the deaf person: the verbal model, of the language of signals and the bilinguilism. It was analyzed presence of the deaf person in the society in a general way, through examples, as shown in the periodical “O Globo”. From the insertion of the deaf person in the society a bridge between the deaf person and the library became, showing the potentiality of this user. The educative paper of the library in regards to the deaf user was analyzed. Moreover, observed it contribution of the library in what it says respect to the social inclusion, the inclusion of deficient, the inclusion of the deaf user. Examples of what had searched if it has made in terms of social inclusion in such a way for deaf people, as for deficient in a general way. It was signaled what it is had as standard according to story of the National Institute of Education of Deaf people (INES). It was suggested, then, the adoption of the points raised for INES.

Keywords: Library. Deaf user. Social inclusion. Deafness. Deaf person. INES.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 9

2 A DEFICIÊNCIA AUDITIVA ... 12

2.1 DEFICIENTE AUDITIVO OU SURDO?... 14

2.2 O APRENDIZADO DO INDIVÍDUO SURDO ... 17

2.2.1 Uma realidade cada vez mais presente e a necessidade da inclusão no seio da sociedade ... 22

3 A BIBLIOTECA E A RELAÇÃO COM O USUÁRIO SURDO ... 24

3.1 O PAPEL EDUCATIVO DA BIBLIOTECA ... 26

3.2 A CONTRIBUIÇÃO DA BIBLIOTECA NA INCLUSÃO DE DEFICIENTES ... 27

4 PADRÃO INES. MAS, EXISTE UM PADRÃO? ... 30

5 REFLEXÕES FINAIS ... 31

REFERÊNCIAS ... 33

ANEXO A ... 37

ANEXO B. ... 38

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1 INTRODUÇÃO

Vivemos em um momento, em que está em voga, mais que outrora, a necessidade de incluir o cidadão que se encontra excluído social, econômica e culturalmente. No tocante à informação esta sentença afirmativa é carregada de questões tais como: disponibilidade, acessibilidade, facilidade. Destacamos neste trabalho que o surdo faz parte, assim como, os cegos, cadeirantes, negros, pobres e demais grupos, dos que se encontram à margem da sociedade com características européia, dita e tida como inteligente e capaz.

Constituem-se em um grande grupo onde seus integrantes por serem diferentes, e não incapazes, geram certa apreensão nesta sociedade etnocêntrica, que os vê como indivíduos de pouca inteligência e culturalmente inferiores. Não obstante, demonstram sapiência e aptidões em diferentes áreas nas quais não lhes são computados quaisquer méritos. O surdo, portanto, tem característica que é inerente a sua condição.

O trabalho é um estudo teórico sobre o papel das bibliotecas em geral (destacando-se a pública, universitária, especializada), no que diz respeito à inclusão do usuário surdo em seu meio. Porém, há exemplos práticos que tangenciam tanto o que se fez ou se está fazendo, como o que ainda não é feito. O objetivo deste trabalho é contribuir para uma análise mais aprofundada, a partir do mesmo, para a questão da inclusão do surdo enquanto indivíduo intelectualmente capaz, que freqüente bibliotecas, partindo do princípio que a surdez pode acometer qualquer pessoa.

O trabalho está calcado em números de censos do IBGE e do censo realizado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, realizado em 27 de junho de 2003, onde mostra com clareza os meandros da surdez no Brasil com referência aos números oriundos da Organização Mundial de Saúde (OMS), que estipulou uma amostragem de deficientes dentro da população mundial, como relata este exemplo: “O número de surdos no Brasil era de 166.400, sendo 80 mil mulheres e 86.400 homens. Além disso, cerca de 900 mil pessoas declararam ter grande dificuldade permanente de ouvir. Entre os estados, Roraima tem o menor número de surdos (191 pessoas).” (BRASIL, 2000).

Baseamos, inicialmente, no entendimento do que é a surdez e seus desdobramentos, fazendo-se uma análise do modo como a surdez é vista pela sociedade em geral. Cientifica e sociologicamente procuramos compreender o que é a surdez, como ela se dá (a surdez) e o quanto a concepção científica contribuiu para abandono da sociedade. Buscamos, desta forma, definir a surdez e fizemos um contraponto com a deficiência auditiva.

De igual modo fizemos com a definição de surdo e deficiente auditivo, ou seja, a definição que mais se aproxima da realidade do surdo, sem, entretanto, conceder-lhe quaisquer características de cunho preconceituoso. Pois, o mais freqüente é o homem agir penalizado ao ter contato com alguém que apresente algum tipo de deficiência.

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Ao escolhermos a definição para surdez, onde se encontrou dois pensamentos conflitantes, em que um apontava para uma doença que necessitava de tratamento, de acompanhamento médico, fonoaudiológico e, o outro que dizia ser um processo sociológico, porque o aspecto cognitivo da pessoa não fora afetado e sim diferenciado, o que significaria dizer que o surdo é tão capaz como um ouvinte, nós optamos pela abordagem sociológica por entendermos que estamos caminhando para um momento cuja característica é da inclusão das pessoas e não o segregacionismo.

Porém, não foi fácil, visto que era um pensamento de origem secular (desde o século XVI). Contudo, ao compararmos as literaturas da área observamos que havia uma tendência mais humanista em seus discursos mesmo que pontuando uma abordagem mais secular.

Então adentramos o lado mais sociológico onde pontuamos a maneira que consideramos mais adequada de denominar o deficiente auditivo: se era surdo ou deficiente auditivo. Compreendemos que deficiente vinha justamente da abordagem médica. Enquanto que surdo, era a referência como os próprios surdos se tratavam e, por conseguinte, gostariam de ser entendidos como surdos e não deficientes.

Ao compreendermos que são pessoas com as mesmas possibilidades intelectuais que qualquer ouvinte, buscamos entender que, o aprendizado do surdo dá-se de modo diferente.

Imbuímos-nos na procura de quando se deu os estudos referentes à educação surda.

Encontramos referências datadas do século XVI, onde há os primeiros registros da tentativa de se educar os surdos. Estes registros falam da oralidade, que foi o primeiro modelo de educação de surdos e que perdurou e perdura até o presente século. Porém, era o modelo de educação que trazia conseqüências ao processo de socialização do surdo, visto que o cidadão surdo não ouve, diferente do ouvinte.

Na metade do século XX, mais especificamente nos anos 50 e 60, teve-se a noção da importância da linguagem de sinais e a luta que se encaminhou até seu reconhecimento nos anos 70/80 do referido século. A linguagem dos sinais trouxe ao surdo a possibilidade de se ver como cidadão que possui um grupo social, com os quais poderia se relacionar sem medo de ser diferente.

Ao fim dos anos 70 do século passado, teve início o esboço da terceira modalidade de educação de surdos, o Bilingüismo, porém somente a partir dos anos 1990, esta modalidade foi concebida e adotada. O Bilingüismo pretende reunir as duas modalidades de ensino, fazendo com que o surdo tenha duas línguas, a primeira que é a língua de sinais, e a segunda a língua do país de origem.

Após entendermos a surdez, e, o surdo como indivíduo inteligente, com as mesmas necessidades informacionais que um ouvinte, fomos buscar compreender algumas das características inerentes a uma biblioteca. Observamos que a biblioteca contribui tanto para o ensino como para a socialização das pessoas. Apontamos este caminho de suporte à

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educação e contribuição ao projeto de inclusão de deficientes pautado nos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos que falam da igualdade entre os homens. Nesta socialização/integração, está a pessoa surda como participante de toda a vida da sociedade em geral.

Por último, procuramos entender o modo como o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) faz para atender os surdos que adentram as duas bibliotecas da instituição.

Para isso, foram-nos relatadas as experiências vivenciadas pela biblioteca daquele Instituto no atendimento ao surdo. A partir do exposto, buscamos um padrão de atendimento ao usuário surdo, que o acolha fora do ambiente do INES ou de qualquer outro local especializado, no caso, uma biblioteca pública.

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2 A DEFICIÊNCIA AUDITIVA

Denomina-se deficiência1 auditiva, segundo afirma o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES):

[...] a diminuição da capacidade de percepção normal dos sons, sendo considerado surdo o indivíduo cuja audição não é funcional na vida comum, e parcialmente surdo, aquele cuja audição, ainda que deficiente, é funcional com ou sem prótese auditiva. (INSTITUTO NACIONAL DE EDUCAÇÃO DE SURDOS, 2007b).

Acerca desta definição, corrobora a abordagem médico-terapêutica que trata a deficiência auditiva como uma enfermidade que necessita de tratamento. Porém, também, acerca desta definição, os surdos trabalham incessantemente contra, pois se trata de uma definição, assim como outras que ao longo do trabalho contemplaremos, que vê o surdo como um deficiente, isto é, não-eficiente.

Há um estudo denominado “Estudo Surdo” exposto por Skliar2 (1998 apud SÁ, 2002), que utiliza o termo surdez ao invés de deficiência, que afirma que o surdo, de modo algum poderia ser considerado um deficiente porque não se trata de uma doença, nem de uma deficiência, mas, sim, de uma diferença. Porém, não é fácil a aplicação deste conceito (Estudo Surdo), visto que o conceito anterior (INES) vem desde o século XVI, quando das primeiras iniciativas na tentativa de ensinar e fazer com que os surdos fossem educados como os demais ouvintes, de acordo com Sá (1999). Abandonar certos estigmas é complicado por mais que a sociedade atual seja completamente diferente da passada.

Quanto ao número de pessoas com algum tipo de surdez, a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (FENEIS) afirma que:

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que em qualquer população humana 10% das pessoas têm algum tipo de deficiência. Os portadores de deficiência auditiva ficariam com 1,5%. Ou seja, para o Brasil de hoje, de população estimada em 160 milhões de habitantes, seríamos 2,4 milhões, desde surdos profundos até portadores de uma deficiência auditiva leve. [...]

O Ministério da Saúde, [...] informa que temos 2 milhões e 250 mil pessoas com deficiência auditiva, segundo estimativa da OMS. (FEDERAÇÃO, 1998, p. 12)

É uma estimativa da OMC, onde se devem levar em conta as mudanças que ocorrem de país para país, todavia, pôde-se observar a exatidão desta análise no tocante ao Brasil (Vale observar que o censo em questão é de 1991. O último censo, realizado em 2000, dá ao

1 Deficiência sf (lat deficientia) 1 Falta, lacuna. 2 Imperfeição, insuficiência. 3 Biol Mutação cromossômica que consiste na perda de um pedaço de cromossomo. D. mental: oligofrenia.

(MICHAELIS, 1998)

2 SKLIAR, Carlos. Um olhar sobre o nosso olhar acerca da surdez e das diferenças. In: . A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Ed. Mediação, 1998. p. 7-32.

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todo o número de 5 milhões e 750 mil pessoas com algum tipo de deficiência auditiva (IBGE, 2007b)).

Deficiência foi o termo utilizado por grandes estudiosos do passado, como J. Piaget, Eduard Huet, V. I. Fleury e Lev S. Vygostky, que contribuíram para um aperfeiçoamento do que nós temos hoje como definição mais humanista. Os surdos como um grupo social, se notabilizam, se compreendem pela igualdade existente entre eles. Os surdos buscam que os ouvintes os compreendam como um grupo diferente dos demais, porém, esta diferença não se traduz numa alusão à sua condição de não ouvir, mas, sim por terem algo que outros não possuem: a linguagem gestual. Como observado em Campello (2006), Sá (1999 e 2002) e Oliveira ([200-]) a definição de deficiente esbarra na relação justamente da não-eficiência, que retira do surdo a capacidade de ser pensante e de um ser que se comunica.

A surdez (termo mais aceito pela comunidade surda) compreende alguns aspectos relacionados à sua incidência que pode ser de modo biológico (menor incidência) ou adquirido. A respeito de ser genético, e ter um caráter mínimo, todavia, cientistas consideram esta possibilidade muito viável e há estudos realizados que abalizam esta possibilidade, enquanto que, a adquirida é a que mais se ocasiona. Interpretando a fala de Sá (1999), a surdez adquirida se dá geralmente em acidentes ocasionados muitas vezes pelo próprio indivíduo que por descuido com sua saúde, ouve som alto, trabalha em ambiente de extremo barulho, enfia objetos nos ouvidos atingindo algumas partes internas que comprometem a audição.

Então, classifica-se a surdez em profunda, severa, leve, congênita e parcial, onde, naquela, existe a perda total da audição, enquanto que, parcial, ouvi-se ruídos, sons pequenos e distantes e é possível o uso do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI), como relata Sá (1999, p. 27): “[...] mas que não conseguem ouvir a voz humana tendo, portanto, adquirido a língua na modalidade oral de forma natural, ainda que, em alguns casos, com a ajuda de aparelhos de amplificação sonora individual (AASI).”.

Por mais que surdez apresente perda da audição em grau que impeça a percepção da voz humana, fazendo uso de métodos, recursos e equipamento para que compreenda a evolução, desenvolvimento da linguagem oral como afirmou o Centro Nacional Especial3 (1984 apud SÁ, 1999), ainda assim, ser reconhecido como um grupo social que se difere tão somente pela linguagem é o que os surdos têm buscado intensamente.

3 BRASIL. Centro Nacional de Educação Especial. Subsídios para organização e funcionamento de serviços de educação especial: área da deficiência. Rio de Janeiro, Fundação de Assistência ao Estudante, 1984.

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2.1 DEFICIENTE AUDITIVO OU SURDO?

Quando nos deparamos com um determinado grupo social que é, de certa forma, excluído da sociedade buscamos tentar suavizar sua condição por nos sentirmos penalizados por sua situação de excluído social. É um exemplo macro de uma realidade em toda nossa sociedade, mas que reflete a situação dos indivíduos que têm a audição reduzida ou simplesmente não ouvem.

A sociedade, de uma maneira geral, chama de deficientes auditivos as pessoas que se encontram privadas de ouvir, por acreditar que, politicamente, está tratando da forma correta. Não somente por isso, mas, também, por acreditar que, sendo assim chamados (deficientes), eles se sintam menos excluídos do contexto da sociedade moderna e também da vida dos que podem ouvir. O sentimento de pena ou a tentativa de minimizar fatos induz à urgência que temos hoje em grande proporção que é a inclusão social, cuja luta encontra-se presente nos mais variados segmentos da vida em sociedade.

A pergunta que se faz é: como o indivíduo que é privado da audição quer ser tratado?

Isto porque não se tem uma concretude na forma correta de distingui-los, de chamá-los, entretanto, ambas as formas estão corretas dependendo da linha de pensamento. Assim é que, existem duas correntes, que caracterizam a surdez de modo diferente: uma encara a surdez como sendo uma concepção clínica (tratando-a como uma doença) e a outra como sendo uma concepção social (acessibilidade), como mostrado por Silva e Pereira:

[...] concepção clínico-terapêutica de surdez, os surdos são vistos como tendo uma deficiência, a qual deve ser curada para que eles possam se aproximar do normal [...]. Na concepção sócio-antropológica, por outro lado, os surdos são vistos como tendo um acesso diferente ao mundo, o que implica em diferenças em relação aos ouvintes. (SILVA; PEREIRA, 2003, p. 174) São concepções distintas, mas que trabalham para o desenvolvimento sociológico, educacional e antropológico do surdo. Na primeira concepção, a surdez é vista como deficiência e, para tanto, faz-se necessário o processo de oralização do surdo, ou seja, o indivíduo surdo é trabalhado para que tenha acesso à língua portuguesa (no Brasil), conferindo à linguagem dos sinais, ou como é conhecida no Brasil, Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), um caráter secundário. Logo, o deficiente auditivo deverá ser oralizado e utilizar- se de aparelho de surdez para se aproximar ao máximo da sociedade ouvinte e participar de tudo que dela provém; a segunda, possui uma visão em que o surdo é um indivíduo que possui uma maneira de se comunicar com o mundo, diferente dos ouvintes, e, para isso, lança mão da linguagem dos sinais, mesmo sem ter um conhecimento prévio dessa modalidade, como afirma Oliveira ([200-], p. 2) em seu estudo: “[...] crianças surdas procuram criar e desenvolver alguma forma de linguagem, mesmo não sendo expostas a nenhuma língua de sinais.”.

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Ambas as concepções são compostas de características que concedem ao surdo pontos importantes para melhor compreensão de suas necessidades, por parte dos ouvintes.

A oralização é um desses pontos que destacaremos porque, para muitos leigos, o fato de a pessoa ser surda não a impediria de ler. É um erro, pois, em seu processo cognitivo, a formação morfossintática de palavras tem um aspecto próprio que o distingue dos ouvintes, como afirma Fernandes4 (1990 apud OLIVEIRA, [200-], p. 2): “No que se refere à língua portuguesa, [...] a grande maioria das pessoas surdas, já escolarizada, continua demonstrando dificuldades tanto nos níveis fonológico e morfossintático, como nos níveis semântico e pragmático.”.

É comum acreditarmos que a surdez é uma deficiência cuja relevância seja bem menor que um deficiente visual, porém, a questão da linguagem é fundamental para compreensão de mundo e dissipador de dúvidas que Oliveira ([200-], p. 4) aborda claramente “[...] diversos autores afirmam que a linguagem é fator indispensável para o desenvolvimento do raciocínio e a falta de linguagem constitui-se um obstáculo para o desenvolvimento da inteligência.”. No caso dos surdos, vê-se que, a oralidade os impede em variados aspectos (por exemplo:

entender as entrelinhas, o surdo é mais concreto que abstrato) o que para os ouvintes isso não ocorre. Portanto, sendo a oralidade uma capacidade do ser humano de se comunicar e, posteriormente, de se desenvolver como indivíduo, a sua ausência redunda em problemas no tocante à leitura e retarda o processo de aprendizagem como afirma Oliveira:

A ausência de linguagem afeta o desenvolvimento da inteligência em um indivíduo. A palavra tem uma importância excepcional no sentido de dar forma à atividade mental e é fator fundamental de formação da consciência. Ela é capaz de assegurar o processo de abstração e generalização, além de ser veículo de transmissão do saber. (OLIVEIRA, [200-], p. 2),

Exemplo prático disso podemos ver na forma como o surdo concebe uma simples frase que lhe é proposta, num estudo realizado por Sandra Pinto no Colégio de Aplicação do Instituto de Educação de Surdos, cuja finalidade era trabalhar o desenvolvimento da leitura e, destarte, a escrita na língua portuguesa (grifamos em negrito a frase que os alunos surdos escreveram baseados na figura que viam):

[...] procuramos desenvolver programações que tenham por objetivo o favorecimento do desenvolvimento sócio-cognitivo e da criatividade desses alunos buscando suprir suas necessidades primordiais em relação à comunicação. [...] Os peixes matam muito. por sujo, mas muito óleo.

PROIBIDO- joga na lagoa. Morreram muitos peixes sujos de óleo. É proibido jogar óleo na lagoa. [...] Observamos como resultado inicial que o aluno, ao poder reconstruir seu texto, percebe as diferenças estruturais entre as línguas: LIBRAS e Língua Portuguesa escrita. (PINTO, [200-], grifo nosso) Fica patente a diferença que há entre a língua portuguesa e a LIBRAS: o surdo possui uma compreensão muito dificultada ou, quase nenhuma, da língua portuguesa. A leitura de

4 FERNANDES, Eulalia. Problemas lingüísticos e cognitivos do surdo. Rio de Janeiro: Agir, 1990.

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um texto e a escrita do português, para o surdo representam dificuldades visto que se tornam tentativas de decifrar os “códigos” existentes nas palavras. Em um outro estudo feito por Souza5 (1998 apud OLIVEIRA, [200-]), os alunos relatam que preferem uma leitura com gravuras porque estas facilitam a compreensão textual daquela, ao invés de uma leitura direta e sem gravura. Assim é que, um gibi ou qualquer outra história em quadrinhos se encaixa mais com suas características que um livro técnico e/ou sem gravuras.

Um outro ponto que nós podemos observar é a importância da LIBRAS como a primeira língua dos surdos. Esse modo de linguagem insere o surdo no contexto próprio dos que lhe são iguais e comungam das mesmas características. Como supracitado, as crianças surdas tendem, mesmo que não tenham contato com a LIBRAS, a se comunicar através dos sinais que é o método mais prático para socialização desses indivíduos, uma vez que o seu uso independe de aspectos externos como é o caso da linguagem oral. Além disso, segundo Fernandes6 (1994 apud Sá, 1999), LIBRAS são considerados sistemas abstratos, com regras gramaticais que são usadas por surdos dos países que a utilizam, com especificidades tanto fonológicas quanto sintáticas, como no campo da semântica.

Há, mais recentemente, mesmo com essas concepções distintas, a idéia de que a oralidade e a LIBRAS caminhem juntas para plena integração dos surdos à sociedade ouvinte e sua capacitação educacional. Esta proposição, estudada por Sá em seu livro denomina-se educação com Bilingüismo (que veremos mais a frente), isto é, o aprendizado da língua portuguesa e da LIBRAS, sem que uma ou outra sejam tidas como a mais importante no aspecto educativo e cognitivo. No entanto, a Língua Brasileira de Sinais pela adesão imediata do surdo, seria a que os estudos propõem como L1, e, a língua oral (língua do país), a L2, seria a segunda língua.

Este conceito, o Bilingüismo, que tem sido o mais recente dos modelos de ensino nas escolas para surdos e, tratado por psicólogos e pedagogos especialistas nessa área, é a oportunidade que muitos surdos têm de realmente fazer parte, tanto do mercado de trabalho, como do mundo cientifico, sendo não o diferente ou o deficiente (não-eficiente), mas, sim, um cidadão que tem capacidade intelectual similar ao ouvinte, guardadas as devidas proporções quanto ao fato de o surdo estar impedido de ouvir. Redunda esse estudo na confluência dos significados apresentados no título desta seção, onde estariam postas, ambas as designações que buscamos compreender até agora.

5 SOUZA, Regina Maria de. Que palavra te falta?: considerações epistemológicas a partir da surdez.

São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 216.

6 FERNANDES, Eulália. Parecer solicitado pela Federação Nacional de Educação e Integração do Surdo sobre a Língua de Sinais usada nos centros urbanos no Brasil. Revista Integração, Brasília, DF, ano 5, n. 13, 1994.

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2.2 O APRENDIZADO DO INDIVÍDUO SURDO

A reação mais comum de alguém que é surdo, quando se depara com a situação de que ele não consegue aprender da mesma maneira que uma pessoa ouvinte, é se excluir. Ao longo dos séculos, como referido na leitura acadêmica, procurou-se dar à surdez um caráter de doença cujo paciente deveria se tratar porque, clinicamente, ele poderia ter sua saúde restabelecida, como esclarece Sá:

A humanidade demorou a considerar o surdo e para entender que ele podia ser educado, visto se tratar apenas de uma pessoa que apresenta um impedimento sensorial, sendo, portanto, perfeitamente possível que corresponda ao processo educacional. Apenas a partir do século XVI é que se verificam as primeiras tentativas de educação de surdos. (SÁ, 1999, p. 71) Levantamos a questão dos modelos de educação dos surdos que advém desde o século XVI, entrando o século XX e vindo até os dias atuais:

• A oralização a partir do século XVI;

• A linguagem de sinais nos anos de 50 e 60 do século XX;

• E chegando ao final do século XX, um novo modelo denominado Bilingüismo.

Primeiramente, a proposta de oralização se deu, a partir do século XVI, quando o surdo era visto como um indivíduo pouco capaz e/ou com uma enfermidade e, era necessário ser tratado e “curado” para que tivesse sua aceitação na sociedade.

A conceitualização da oralização tomou corpo a partir de Lev S. Vygotsky, renomado psicólogo russo do início do século XX, e outros grandes pensadores que discutiram o como fazer para dar ao surdo condições de, segundo concepções antigas, se adaptarem ao mundo dos ouvintes. Ou seja, caberia então ao deficiente auditivo adaptar-se ao contexto encontrado, devendo ser oralizado entrando numa escola comum ou em uma especializada, mas que fizesse uso da oralização. Não sendo permitido a abordagem gestual que consistia numa modalidade de atraso e não era considerada uma linguagem propriamente dita, porque não continha em seu bojo a palavra como expressou Vygostky7 (1987, apud SÁ, 1999, p. 44):

“Uma palavra desprovida de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento não expresso por palavras permanece uma sombra.”.

Buscou-se abolir e impedir o crescimento da linguagem gestual em detrimento da oralização porque não haveria avanço se as crianças continuassem a serem educadas através da linguagem gestual. Caso pretendessem obter avanços significativos com os surdos e, posteriormente, sua inclusão na sociedade, era necessário ater-se a uma linguagem, nesse caso a oral, ao invés da outra. Porém, somente criou-se uma grande barreira junto aos surdos

7 VYGOSTKY, Lev S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

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e em sua carência em aprender, como informa Sá (1999, p. 84), segundo resposta de um aluno entrevistado através de um estudo onde se pretendem identificar as opiniões dos surdos sobre a modalidade oral: “Quando eu era criança, no INES, ficava tentando aprender no oralismo e não entrava nada. Na conseguia entender o que estava no quadro. Parei no 2º grau, mas o português ainda é muito difícil.”.

Essa fala de um aluno surdo comprovando que o oralismo, por si só, não responderia às questões e dúvidas lançadas pelo colegiado surdo, e, tampouco, concederia ao surdo condição necessária para se inserir entre os ouvintes, em consonância a outras respostas negativas do referido estudo, contribuíram para reforçar tão somente a dificuldade que o aluno surdo tem quando é considerado como um aluno normal, isto é, um aluno ouvinte. E decerto ninguém gostaria de ser tido pelos colegas como incapaz, ou pior, quando o próprio surdo se sente potencialmente incapaz frente ao que lhe é proposto, não conseguindo responder à altura o que lhe fora pedido.

As cognições são distintas quanto ao aprendizado, não cabendo, portanto, por como pares pessoas cuja metodologia usada para aprendizado acadêmico e educacional seja completamente diferente como relata Pimenta e Fávero:

Assim, a dificuldade do surdo, como apontada nas pesquisas educacionais, no que se refere aos processos de categorização, por exemplo, e ao desenvolvimento cognitivo, de um modo geral, pode ser mais adequadamente explicada por meio da pobreza comunicativa que caracteriza o sistema educativo ao qual ele foi submetido, do que ao processo supostamente natural de seu desenvolvimento cognitivo. (PIMENTA; FÁVERO, 2005, p. 79) A questão da oralização é muito interessante porque, como indivíduos, segundo Wrigley8 (1996 apud SÁ, 2002), alegam que a surdez de nascença signifique não se contaminar pelo mundo dos ouvintes e seus métodos cognitivos. Assim, alguém que tenha passado sua infância e juventude no meio dos que ouvem e, de repente, se vê numa situação de perda da audição, é comum que este perca gradativamente a relação entre os sons e as letras, como relatou informalmente certa professora cujo aluno, depois de ter passado pela infância e adolescência como ouvinte, sofreu um acidente e perdeu a audição. Deste momento em diante fora perdendo a capacidade de se comunicar oralmente o que lhe trouxe conseqüências dantescas, pois dava a entender que não tinha aprendido a língua portuguesa.

A oralização tem um caráter fundamental para o surdo no tocante a sua inserção no mundo dos ouvintes. A língua em que todas as situações cotidianas se resolvem é a língua portuguesa, composta pela modalidade oral e escrita, todavia, quem não consegue ao menos saber o básico de ambas tende a estar marginalizado.

8 WRIGLEY, Owen. The politics of deafness. Washington: Gallaedet University Press, 1996.

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Por ser surdo a tendência natural é usufruir da modalidade gestual que é o modo como as crianças desde cedo procuram se entender, se comunicar, como bem relatado por Oliveira ([200-]) numa citação anterior onde crianças surdas desenvolviam a linguagem gestual que se adequava ao contexto social que as envolviam, mesmo não tendo tido contato algum com a LIBRAS. Não obstante, como grupo que possui os mesmos hábitos e fatores cognitivos e metalingüísticos semelhantes, nada mais próximo a esta realidade observada que trabalhar a linguagem gestual, ou a LIBRAS para os surdos brasileiros, nas escolas onde se tenham alunos surdos ou como o INES, locais especializados no atendimento ao surdo.

No tocante a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), observamos, em parágrafos anteriores, que as crianças surdas se utilizam de meios, gestos não convencionais, para se comunicarem e compreenderem o que seus colegas querem expressar. Vimos, portanto, que é o mais comum a aproximação delas com a língua de sinais, porque qualquer indivíduo tende a se aproximar de seus pares e não o contrario. A LIBRAS dá ao surdo, de modo sedimentado, esta condição de igualdade entre um surdo e outro surdo. É, portanto, a LIBRAS que responde ao que a língua oral não consegue responder. Pimenta e Fávero acreditam que:

[...] a língua de sinais é um veiculo adequado para o surdo construir seu conhecimento, uma vez que, por meio da língua de sinais é possível a expressão de conteúdos sutis, complexos ou abstratos, de modo que os seus usuários podem discutir qualquer área do conhecimento, da filosofia à política, utilizando-se dos seus recursos, como qualquer outra língua, para consolidar a comunicação, isto é, para conferir conteúdo significante aos objetos do mundo e às pessoas. Ou seja: não só é inadequado se afirmar que línguas de sinais, como a LIBRAS, são prejudiciais ao desenvolvimento psicológico do surdo, como tal afirmação não tem, hoje, nenhum respaldo em pesquisas. [...] a língua de sinais é um rico instrumento para o desenvolvimento psicológico do sujeito que é surdo. (PIMENTA; FÁVERO, 2005, p. 79)

É, portanto, na modalidade de sinais que há uma maior interação entre os surdos, porque não há esforço dispendioso algum a ser feito pelo surdo em seu aprendizado e, como citado acima, a LIBRAS cobre as diversas áreas do conhecimento humano, pois, assim como em outra língua qualquer há símbolos e simbologias referentes a tais e tais assuntos, é claro, respeitando-se as devidas proporções. Pois, como foi dito por Rodrigues9 (1993 apud SÁ, 1999, p. 172): “Se a Língua de Sinais é organizada no cérebro da mesma forma que a língua oral, então do ponto de vista biológico a Língua de Sinais é uma língua natural.”.

A abordagem gestual-visual é a defendida por surdos como a sua língua materna ou natural, por entenderem que não se encaixam no contexto oral. Não obstante, a oralidade como já dissemos, tem por principal característica, dar ao surdo o conhecimento da língua portuguesa e das expressões idiomáticas da língua do país onde o surdo se encontra. Por

9 RODRIGUES, Norberto. Organização neural da linguagem. In: MOURA, M. C. et al. Língua de sinais e educação de surdos. São Paulo: Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, 1993. (Série de Neuropsicologia, v. 3)

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exemplo, aqui no Brasil uma palavra contida em nosso vocábulo e que não se encontra em algumas línguas é saudade. A pessoa surda em seu grupo designa um símbolo que é referente à palavra saudade, sendo então compreensível para o grupo que aquela simbologia significa que a pessoa está falando de saudade.

É fato que a LIBRAS é mais acessível à pessoa surda, mas sem o conhecimento da língua oral é como se algo estivesse incompleto. Alguns fatores são ainda preponderantes para o uso da LIBRAS. Um deles é a maior integração entre os surdos e, outro é a redução da evasão escolar. Se fosse apenas utilizada a modalidade oral, o número de evasivos cresceria potencialmente (OLIVEIRA, [200-]). A resposta ao encorajamento do uso da LIBRAS é muito satisfatório. Em Sá há uma resposta para essa necessidade do surdo utilizar a linguagem de sinais “A criança surda precisa, o mais precocemente possível, estabelecer relações com o significado lingüístico pela via que lhe está preservada: a via visual. [...] As famílias precisam, portanto, desde muito cedo, entender estas questões.” Sá (1999, p. 177).

Contudo, uma abordagem não caminha sem a outra. A linguagem oral faz-se mister a medida que o cidadão surdo adentra o universo dos ouvintes integrando-se aos seus sistemas cognitivos. Todavia, para que o surdo tenha um aprendizado facilitado e um aporte intelectual satisfatório a linguagem de sinais é imprescindível por identificá-lo junto a um grupo, já que ele não é ouvinte e, destarte, não goza das mesmas características de um ouvinte.

Segundo Gomes e Danesi ([2000?]), os surdos são capazes de construir seqüências complexas com a Língua de Sinais. Todavia, quando necessitam fazer o mesmo com a língua escrita, apresentam grandes dificuldades pelo pouco domínio da língua portuguesa. Ainda segundo Gomes e Danesi ([2000?]), as conseqüências desse domínio pouco da língua portuguesa, dá-se na dificuldade de organização sintática, omissão ou substituição dos elementos gramaticais, dificuldade na conjugação de verbos, limitação no campo léxico e grande dificuldade para designar número, gênero e pessoa.

O terceiro estudo denomina-se Bilingüismo. Mas o que vem a ser o Bilingüismo10? Significa a adoção ou aporte de duas línguas para os surdos, sendo que a primeira que seria considerada a língua materna, seria a Linguagem dos Sinais e a segunda a Língua Nativa da localidade onde a pessoa surda se encontra. Em Sá (1999), Nicolucci; Dias (2006) e demais autores é ressaltada a importância de se submeter a criança surda em contato a esta realidade bilíngüe para torná-lo apto para as oportunidades que serão abertas em sua frente.

Os estudos do Bilingüismo datam do fim da década de 1970, segundo consideram Sá (1999), Campello (2006), bem como, tratam de compor-se da linguagem de sinais e da linguagem oral. É então que, segundo pontuam vários autores, o Bilingüismo serve como

10 Bilingüismo sm (bilíngüe+ismo) 1 Caráter de bilíngüe. 2 Capacidade de um individuo usar duas línguas distintas, como se fossem a sua língua materna, optando por uma ou outra conforme a situação do momento (Matoso Câmara). Michaelis (1998)

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ponte entre uma e outra modalidade e coaduna ambas no desenvolvimento intelectual do surdo. Ao que Lacerda11 (1998 apud NICOLUCCI; DIAS, 2006) reflete como um estímulo ao desenvolvimento do processo cognitivo-lingüístico que torna o individuo surdo a ponto de ser comparado ao ouvinte, porém com a sua capacidade ampliada visto que estabelece uma harmonia entre a língua de sinais e a língua oral tornando-o competente nas duas línguas.

Carece, então, de todo um sistema que esteja preparado para concepção desta modalidade bilíngüe, como relata Nicolucci e Dias (2006) em recente estudo no interior de São Paulo, numa escola pública do ensino fundamental, num ambiente de 32 alunos ouvintes, um surdo, os pais do aluno surdo, um professor proficiente em LIBRAS, um educador surdo, uma professora gestora, uma professora regente de classe normal. Todos conviveram durante um ano e concederam todo amparo necessário ao aluno surdo para seu desempenho num ambiente em que ele era minoria como aconteceria se ele estivesse numa situação cotidiana, fora da escola.

Importante observar que num primeiro momento houve resistência por parte do aluno surdo porque se via como minoria, entretanto, a partir do instante em que percebeu que existia alguém com características comuns a ele e os demais alunos aprendendo a sua língua, o trabalho foi sendo realizado plenamente. Isto se deu porque a presença da educadora surda trouxe a ele segurança para acompanhar o processo educacional proposto, que era ajustar a LIBRAS ao português e desenvolver o seu desempenho cognitivo como relatou Nicolucci e Dias:

[...] pôde-se observar que o aluno surdo, inicialmente, não sabia o alfabeto digital e demonstrava não querer aprendê-lo [...]. A partir do momento que a classe começou a aprender os sinais, o aluno surdo começou a participar dos grupos, a realizar suas atividades e a ensinar os sinais aos colegas.

(NICOLUCCI; DIAS, 2006, p. 123-124)

Neste caso, o Bilingüismo proporcionou ao surdo menor interesse em aprender a língua oral, porque simplesmente lhe fora preservado o processo visual. Portanto, assiste-lhe maior condição de inserção na sociedade ouvinte e prosseguimento em seus estudos, visto que o processo cognitivo se altera por conta da diferença de linguagem e não intelectualmente. A abordagem do Bilingüismo, então, trabalha essa diferença de linguagem colocando o surdo no contexto de seus pares e concatenado ao mundo dos ouvintes. O que significa dizer que a LIBRAS por si só não garante ao indivíduo surdo condições exeqüíveis de se fazer presente entre os ouvintes, não obstante, se ele souber o português escrito e falado. Portanto, a oralização é premissa tanto quanto a LIBRAS.

11 LACERDA, C. B. Um pouco da história das diferentes abordagens na educação dos surdos.

Cadernos Cedes, Campinas, vol. 19, n.46, set., 1998.

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2.2.1 Uma realidade cada vez mais presente e a necessidade da inclusão no seio da sociedade

Os surdos se diferem dos ouvintes por um aspecto simples e ao mesmo tempo importante, a audição. O que significa dizer que não são inferiores aos ouvintes no tocante à inteligência, apenas seu aprendizado difere do nosso. Como vimos, há sim, uma dificuldade na linguagem, mas que se trabalhada corretamente tem um fator preponderante para evolução educacional e sociológica do surdo. Quanto à parte sociológica, o jornal O Globo, por exemplo, apresentou uma situação onde se observou que até na relação comercial os surdos possuem relevância frente aos empresários: “Como todos os outros clientes de operadoras de telefonia, deficientes auditivos também usam celulares – ainda que para enviar e receber mensagens de texto, mantendo o aparelho no alerta vibratório.” O Globo (BOA CHANCE, 2006, p. 6).

Nas várias visões acerca da surdez, o surdo tem uma necessidade que o distingue dos demais, sejam eles cegos, deficientes físicos ou portador de outro tipo de deficiência (paralisia cerebral): não podem ouvir. Não se pode renegá-los (os surdos) a uma subposição na sociedade pelo fato de serem “diferentes”, mesmo sendo historicamente comprovado que todo diferente acaba perpassando por dificuldades de inclusão e aceitação pelo grupo social majoritário ao qual irá pertencer. A constatação de Sá é brilhante e elucida essa questão:

A história dos surdos começa muda, apagada e triste. Começa semelhantemente à história de diversos segmentos minoritários de pessoas que se caracterizam por algum tipo de estranheza, como que denunciando a dificuldade que o homem tem de aceitar o diferente, o deficiente, o trabalhoso, o feio, o imperfeito. (SÁ, 1999, p. 71)

Não há como negar que é justamente o exposto nas palavras de Sá, na citação acima, que ocorre nas diversas esferas de nossa sociedade. Como a biblioteca de um modo geral está inserida na sociedade, o presente trabalho é pautado no que diz a Organização das Nações Unidas, a ONU, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu artigo XXVII:

“Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios.”. E no que expôs Suaiden (1995, p. 21): “[...] a biblioteca pública é uma mostra da fé que tem a democracia na educação de todos como um processo contínuo ao longo da vida, assim como na atitude de todo o mundo para conhecer as conquistas da humanidade no campo do saber e da cultura.”.

Para o atendimento ao surdo, que é um usuário em potencial, deve-se ter uma visão de que ele é passível de querer acessar as informações contidas em uma biblioteca não especializada, pois, inclusive como mostrado no jornal O Globo, há a noção de valor comercial deste grupo de indivíduos. Considerando, será que a biblioteca, com sua característica de

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livre acesso a todas as pessoas, está preparada para assistí-los? Será que a inclusão do deficiente, no caso específico do surdo, é algo trabalhado nas bibliotecas de um modo geral?

Há condições mínimas para um atendimento razoável, básico ao usuário surdo?

Portanto, o surdo está presente em muitos lugares e infelizmente tem ocupado posições aquém dos ouvintes por serem surdos. O que está em desacordo com a proposição exemplificada por Felipe (2006, p. 34): “‘Sociedade Inclusiva’, que é conceituada como aquela sociedade para todos, ou seja, uma sociedade que deve se adaptar às pessoas e não as pessoas à sociedade.”. É uma dificuldade, porém, reiteramos, que trabalhada corretamente, traz excelentes resultados que estimulam outros deficientes a buscarem os mesmos direitos e nessa questão a biblioteca apresentar-se-á de modo importantíssimo como diz Oliveira:

Percebe-se que se uma biblioteca visa atender a esta população, faz-se necessária a presença de um acervo específico. O portador de surdez tem as mesmas possibilidades de desenvolvimento que a pessoa ouvinte, precisando, somente, que tenha suas necessidades especiais supridas.

(OLIVEIRA, [200-], p. 7)

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3 A BIBLIOTECA E A RELAÇÃO COM O USUÁRIO SURDO

A Biblioteca, de um modo geral, é institucionalmente um lugar de saber, de informação, de conhecimento, local cujas necessidades intelectuais do cidadão ainda podem ser mitigadas. Onde quem quer pode se encaminhar (para lá) e pesquisar o que é de seu interesse. É claro que, não é somente na biblioteca que isto acontece, pois existem outros locais como centros de documentação, centros de informação e a própria internet e seu grandioso volume de informações. Porém, por ainda concentrar a maior parcela de indivíduos que procuram seus serviços e contribuem para enriquecimento holístico da própria biblioteca é que este local tem por responsabilidade levar ao cidadão uma contribuição àquilo que o mesmo espera e anseia, ou seja, uma via de duas mãos.

A biblioteca tem uma relação com a comunidade que a cerca que se dá de acordo com aquilo que é mais necessário àquela comunidade. Logo, as características da comunidade no entorno da biblioteca deveriam condicionar o que há em seu acervo. Contudo, é importante considerar não somente o acervo em questão, mas, também, a disponibilização de serviços que atendam a cultura desta comunidade.

Numa comunidade que abrigue uma população de pessoas surdas acima do estimado pela OMS (como veremos a frente), este dado deveria ser um elemento preponderante no planejamento do trabalho com este público em potencial. Por exemplo, segundo Suaiden (1995), se a comunidade em questão, onde está localizada a biblioteca, tiver um grupo grande de mulheres que costuram para sobreviver, nada mais normal que, em seu acervo, tenha algo referente à corte e costura. Pois, assim, a biblioteca estará contribuindo para a melhoria dessa comunidade, considerando a atividade realizada por este público. Tomando como referência dois tipos de bibliotecas (universitária e pública) que tem um escopo de usuários variados, observamos a importância de a biblioteca quanto à sua atuação para a integração do usuário surdo.

No caso da biblioteca pública, são diversas razões que fazem com que a mesma tenha esta importância perante a sociedade, como mostra Suaiden (1995, p. 21): “A biblioteca pública é o principal meio de dar a todo mundo livre acesso à soma dos conhecimentos e das idéias do homem às criações de sua imaginação.”. É uma visão que não está defasada em relação ao mundo informatizado de hoje. Isto porque, hoje, há outros tipos de bibliotecas (virtuais, por exemplo) que podem proporcionar ao individuo tal acesso às condições expressas na citação acima, como: orientação, informação que pode se tornar conhecimento ou não, debate cultural, inserção social, arregimento intelectual. Porém, nem todos têm acesso à internet e, por conseguinte, às informações depositadas na web. Todavia, o caráter

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de acesso a todos, indistintamente, ainda é inerente à própria biblioteca pública, como afirma Suaiden:

A biblioteca pública, mantida pelo governo, tem por objetivo primordial preservar e difundir o conhecimento, principalmente no que se refere à cultura local, e dentre todos os tipos de bibliotecas é a única que possui realmente características de uma instituição social, tanto pela amplitude de seu campo de ação como pela diversificação de seus usuários. (SUAIDEN, 1995, p. 19- 20)

As bibliotecas públicas, que atendem, por exemplo, de donas de casa a estudantes (os mais variados possíveis), no que tange ao serviço de referência, tem por normalidade não dispor de profissionais que estejam engajados com a realidade dos surdos, isto porque em muitas bibliotecas a presença do surdo não é fator comum, excetuando, é claro, as bibliotecas de centros especializados em surdez.

É evidente que nem sempre a realidade se alia com a teoria, pois na teoria o nome biblioteca pública é sinônimo de acessibilidade, ou seja, aberta a todas as pessoas, sem qualquer tipo de discriminação, segundo opinião de Suaiden (1995). Todavia, nem sempre se encontra essa característica expressa em seus serviços.

Quanto à biblioteca universitária, tem-se que o papel de disseminadora da produção intelectual (conhecimento), está concatenado ao ambiente de sua localização. Isto é, no meio acadêmico, onde professores, alunos, pesquisadores e todo um escopo de pessoas que constroem o conhecimento, depositam suas idéias, como afirma Mazzoni et al. (2001, p. 29):

“Os ambiente universitários estão associados à produção e disseminação do conhecimento, destacando-se a informação como um dos elementos relevantes deste processo.”.

O papel relevante que exerce a biblioteca universitária por ser um centro de excelência é corroborado por Pupo e Vicentini, quando afimam que:

Repensando o compromisso da universidade, na capacitação de pessoal, implementando pesquisas em ciência e tecnologia, que contribuam efetivamente para o desenvolvimento nacional; e, considerando o importante papel que exerce a biblioteca universitária, enquanto agente mediador entre o conhecimento gerado e o usuário – que a partir da informação obtida poderá gerar um novo conhecimento ou produto – é imperiosa a reflexão sobre a função social da biblioteca, no sentido de contribuir ao cumprimento das leis, normas e recomendações pertinentes às pessoas portadores de deficiência – PPD que anseiam pela oportunidade de pesquisar, aperfeiçoar e gerar novos conhecimentos. (PUPO; VICENTINI, 2002, p. 2)

Há alguns aportes intrínsecos à biblioteca que compõem o ambiente biblioteconômico que contribui, destarte, para o aperfeiçoamento dos serviços prestados. Um desses aportes é justamente o serviço de referência, no qual o bibliotecário tem o contato com o usuário.

Permitir ao usuário o contato com a informação, com o dado, responder a um simples questionamento ou a algo mais complexo, indicar, quando muito, outro lugar onde o usuário encontrará o que procura, são idiossincrasias do serviço de referência.

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O serviço de referência tem por característica não ver rostos, cor, aparência, idade, capacidade intelectual, sobretudo, se a pessoa é cega, surda ou cadeirante. No que diz Figueiredo (1992) e Grogan (1995), quando do processo de referência, a respeito da parte denominada “A questão inicial” em Grogan (1995, p. 52) diz que: “Uma das maneiras pelas quais os seres humanos adquirem conhecimento é fazendo perguntas [...]”. Logo, haveria certa dificuldade quanto ao usuário surdo, pois, seria necessária a comunicação entre qualquer usuário e o bibliotecário. Acreditamos que o surdo, especialmente o não oralizado, teria esta dificuldade por aquilo que explicitamos acerca do aprendizado da pessoa surda, referente a este tipo de surdez, que é a dificuldade quando o surdo não compreende a língua portuguesa, que se constitui no instrumento para comunicação, (GROGAN, 1995, p. 52): “[...]

se o usuário potencial decide perguntar a alguém, torna-se necessário obviamente dar à pergunta uma forma intelectual mais nítida, descrevê-la com palavras, e formulá-la como uma questão.”.

3.1 O PAPEL EDUCATIVO DA BIBLIOTECA

Existe ainda no Brasil a crença de que a biblioteca não participa do processo educativo das pessoas, ficando este a cargo do professor e do livro didático. Todavia, Borba12 (2000 apud Garcez 2007, p. 28) expressa algo diferente disso: “a biblioteca [...] é, no sistema educativo, indispensável para o desenvolvimento curricular e como tal deve responder de forma satisfatória e eficiente os seus serviços à comunidade na qual ela está inserida.”.

As escolas de modo geral, em sua maioria, relegam à biblioteca um papel secundário no momento chave da construção intelectual do homem que são o ensino primário e o secundário. É a partir desses dois pontos, que se estrutura o saber, o aprendizado dentro do homem, suas concepções de mundo, suas cognições de modo que ele consiga traçar um panorama, em qualquer área. Para haver êxito no aprendizado a participação da biblioteca é realmente imprescindível, como fala Pacheco:

Entretanto, só se consegue bons ‘resultados’,[...], quando existe a preocupação com experiências de aprendizagem, criatividade para construir conhecimentos e habilidades para saber ‘acessar’ fontes de informação sobre os mais variados assuntos. [...] Levando-se em consideração que a criança precisa ter contato com a biblioteca desde pequena e ainda possuir competências para a sua adequada utilização, desenvolveu-se atividade especifica com intuito de levar as crianças a compreenderem que os materiais

12 BORBA, M. S. de A. Adolescência e leitura: a contribuição da escola e da biblioteca escolar. In:

CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 19., 2000, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: Associação Riograndense de Bibliotecários, 2000. 1 CDROM.

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são organizados em determinada ordem, favorecendo a independência para movimentarem-se facilmente e encontrar os livros que desejam na biblioteca.

(PACHECO, 2007, p. 304-305)

O relato, por exemplo, da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que regulamenta a educação no Brasil, apresenta-se como uma ponte ao que se pretende chegar neste trabalho que é sinalizar para a contribuição da biblioteca para a inserção do surdo como um cidadão cujas diferenças estão somente no campo cognitivo. Pois, relacionado à lei de cotas em que se busca uma igualdade entre cidadãos brasileiros, ou como querem muitos, justificação/justificativa pelos anos de descaso com a minoria étnica do país. Assim é que, a biblioteca poderia ser, em conformidade com as leis de cotas, expressas na LDB, esteio para não somente esta justificativa, mas, também, alicerce educativo pra uma minoria excluída da sociedade, como é o caso dos surdos. E neste alicerce educativo, Ribeiro13 (1984 apud GARCEZ, 2007) elucida de modo brilhante:

A biblioteca [...] possui as funções educativa e cultural. A primeira auxilia a ação do aluno e a do professor e, a segunda complementa a educação formal, ao oferecer possibilidades de leitura, colaborando para que os alunos ampliem os conhecimentos e as idéias acerca do mundo, além de incentivar o gosto pela leitura na comunidade escolar. (GARCEZ, 2007, p. 29)

3.2 A CONTRIBUIÇÃO DA BIBLIOTECA NA INCLUSÃO DE DEFICIENTES

Por tudo o que foi visto, cabe à biblioteca o papel imprescindível de incluir aqueles que se encontram à margem da sociedade. Isto porque preconceito e estigmas na teoria não caberiam no universo de uma biblioteca, principalmente por ser uma instituição cujas sinalizações são percebidas em várias esferas da sociedade. Ademais, um público variado (profissionais, estudantes, donas de casa, pesquisadores) tem acesso ao seu interior o que facilita o conhecimento de uma atividade que esteja acontecendo em uma biblioteca.

Tomando assim, notoriedade em outros lugares.

Assim é que ressaltamos o dito por Amaral:

No sentido de minimizar manipulações danosas de dominação e poder, a expansão dos serviços bibliotecários deve ser vista de forma a possibilitar a democratização dos avanços científicos e tecnológicos, distribuindo-os de forma mais eficiente e eqüitativa, permitindo a evolução da sociedade em busca do bem-estar coletivo. (AMARAL, 1995, p. 2)

Em um estudo realizado na Universidade Federal de Santa Catarina (USFC) por Mazzoni et al. (2001) onde se discutiu a respeito da acessibilidade, foi percebido o grau de

13 RIBEIRO, M. S. P. Desenvolvimento de coleção na biblioteca escolar: uma contribuição à formação crítica sócio-cultural do educando. Transinformação, São Paulo, v.6, n.1/2/3, p. 60-73, jan./dez. 1994.

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importância da instituição Universidade no tocante ao seu papel frente à inclusão dos deficientes, tanto físico como sensitivo (surdo e cego) tanto em ações no plano físico, ou seja, se há rampas que propiciem a facilidade de locomoção, como no plano da informação como documentos transcritos para o braile, e até mesmo intérpretes em LIBRAS. A fim de mostrar que o deficiente possui, como explicitado anteriormente, capacidade intelectual suficiente para fazer parte de toda a vida da sociedade, não apenas nos serviços secundários, mas, também, como contribuinte para geração de conhecimento como expressa Mazzoni et al. (2001, p. 33)

“[...] deve-se lembrar que ela pode ser inclusive o palestrante, o convidado especial, o artista em destaque, ou o professor responsável pelas aulas.”.

Assim como a Universidade, cujo caráter intrínseco está a formação acadêmica do cidadão mediante a universalização do conhecimento. Na biblioteca, também está a universalização do conhecimento. Pois, há a interação entre as várias camadas da comunidade e a própria biblioteca, onde esta presta seus serviços àquela e, não somente por isso, mas, também, pelo livre acesso à informação, ao conhecimento.

É importante compreender que a inclusão social deve ser incentivada primeiramente pela própria biblioteca pública. Baseamos essa afirmação no que diz o artigo XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (1948): “Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.”. Este artigo diz respeito à transmissão de informações e idéias, que não necessariamente estão vinculadas à instituição biblioteca, porém, ainda hoje, no século XXI, é de conhecimento da população em geral, que boa parte do conhecimento estabelecido encontra-se numa biblioteca.

Em certa biblioteca da cidade de Niterói, por exemplo, que possui em torno de 460 mil habitantes, sendo 17 mil surdos14 (IBGE, 2007a, 2007c), que mostra uma percentagem de 3,69% (acima dos 1,5%, estimado pela OMC) de pessoas surdas em relação ao número total de habitantes da cidade de Niterói, há um interesse por parte do corpo de profissionais bibliotecários em atender de modo satisfatório esta parcela de público. Porém, como não há procura por parte dos usuários surdos, não há condições suficientes de atendimento que possam ser consideradas, tampouco há investimentos. Todavia, para que haja a ida do surdo a uma biblioteca, faz-se necessário que, a biblioteca, esteja preparada pra recebê-lo, e não o contrario, esperando a sua ida para assim poder se adequar. Ademais, ainda em Niterói, na Universidade Federal Fluminense, há um projeto denominado Sensibiliza UFF15 que busca trazer ao conhecimento tanto do corpo docente da universidade, como do corpo administrativo

14 Ver tabelas no Anexo, ao final do trabalho.

15 Ver detalhes a que se propõe o projeto, no Anexo, ao final do trabalho.

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