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3. Abuso do direito de demandar

4.4. Definição de verdade

Que a verdade é antônimo da mentira, ninguém nega.

Mas o que é verdade? Nem sempre também sabemos definir com precisão o que vem a ser a mentira.

A mentira pode ser sinônimo do que é falso, ou daquilo que não é verdadeiro. Mas estamos andando em círculos.

A verdade indicativa desta dissertação será a verdade processual. É esta que devemos trabalhar. E é a verdade processual tendo como foco a lisura processual que irá desembocar na responsabilidade processual daquele que a descumprir.

Dentro desta definição de “verdade processual”, alguns processualistas a coligam como sendo “verdade subjetiva”, dependente da boa-fé (boa-fé se presume, mas a má-fé deverá sempre ser comprovada).

Pensamos que a verdade processual deve ser sempre vista em um conjunto, em todas as peças processuais e condutas praticadas pelas partes e pelos seus advogados, ao longo da pendenga.

Esta verdade, diga-se como dever de veracidade, vem de tempos remotos e contam alguns doutrinadores que seu nascedouro veio do velho testamento, ou melhor dizendo, dos tempos bíblicos.

Conta Alfredo Buzaid7 5 que: “O dever de dizer a verdade e de não mentir remonta aos primórdios da civilização. Prezaram-nos o Velho Testamento, o Direito através dos tempos e a doutrina dos filósofos e pensadores. No livro do Êxodo, já se advertia: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” e fugirás à mentira; no Levítico se preceituava: “Não mentirás, nem cada um engane o seu próximo”; nos Salmos se apregoava: “Perderás a todos os que proferem a mentira”; nos Provérbios se insistia: “Os lábios mentirosos são abominação para o Senhor, mas os que obram fielmente lhe agradam”. E assim também no

Eclesiático: “A mentira é no homem um opróbrio que muito o deslustra e ela se achará incessantemente na boca da gente sem criação”.

7 5 Processo e verdade no direito brasileiro. Revista de processo. Volume 47,

jun/set 1987.

Objetivando deixar este capítulo um pouco mais intrigante, já que conhecer a verdade pura de um processo é privilégio para poucos, iremos nos socorrer da doutrina criminal.

Em hipótese alguma estamos desprestigiando a civilista, mas o processo penal exige um esforço maior para a aproximação da verdade, pois sua conseqüência poderá ser imensurável se houver a condenação de um inocente ou a liberação de um culpado.

Com tal objetivo são os autores que tentam definir a verdade no processo penal.

Há muito, os filósofos entrelaçam a verdade com a inteligência e a percepção da realidade.

Em uma passagem do seu livro “A busca da verdade no processo penal”7 6, Marco Antonio de Barros cita Walter Brugger, Aristóteles e São Tomás de Aquino, este último definindo “A verdade é o que é”.

7 6 Editora Revista dos Tribunais, 2002, p. 14.

E depois explica: “A verdade, na sua definição comum, é a adequação ou conformidade entre o intelecto e a realidade. O intelecto, o conhecimento intelectual. A realidade é o ser. Na correspondência entre o intelecto e o ser firma-se a adequação de idéias constitutivas do objetivo (adaequatio intellectus et rei). Assim sendo, a verdade exige só a adequação (adaequatio) ao objetivo formal considerado em cada caso. O verdadeiro se encontra princilpalmente na inteligência e secundariamente nas coisas. Aliás, como conceito de valor, a palavra verdade tem um sentido axiológico que corresponde ao valor do verdadeiro. Ensina Miguel Reale que toda ação, seja ela de natureza teorética, estética ou ética, tende a um valor, que se destina a realizá-lo, garanti-lo ou negá-lo. Por isso, dentre os valores fundamentais que gravitam que em torno do valor primordial, que é o próprio homem como pessoa, destaca-se o valor do verdadeiro, que vem a ser a verdade em sua dimensão espiritual”.

Então, utilizando-se da definição já por Maladesta que a “verdade é fruto da inteligência humana”, podemos trabalhar com a informação de que a verdade como sendo aquela ocorrência de fato, só será perceptível pelo juiz dependendo da sua formação acadêmica.

Embora, pareça estranho, a busca desta verdade corresponderá a uma infinidade de valores intrínsecos da pessoa que julga.

Isto porque a leitura que se fará de cada caso concreto a ser analisado virá carregada de conceitos ‘preconcebidos’ que comporão a formação intelectual do magistrado.

Um exemplo simples é o do julgador que durante algum tempo estagiou em escritório de advocacia ou anteriormente foi advogado militante antes de escolher a carreira da magistratura.

Sua percepção sobre lealdade, boa-fé ou combatividade às decisões judiciais certamente serão diversas daquele que durante sua vida acadêmica esteve apenas de um lado da justiça.

Há de se ressaltar, aproveitando este momento, que muitas vezes o próprio advogado não conhece a verdade ou aquilo que é passado pelo seu cliente, tem uma percepção diversa do que está sendo transmitido.

Portanto, não se pode responsabilizar o advogado – não o magistrado – de que as mentiras ditas no processo são de sua autoria.

Apenas no processo civil romano, as sanções impostas às partes mentirosas eram também aplicadas ao seu advogado, já que este, em razão de sua missão, tinha o dever de buscar a verdade.

Em virtude deste dever, caso o advogado descobrisse que seu cliente estava mentindo, tinha o dever de renunciar ao mandato.

O que por sua vez seria estranho, pois toda vez que um advogado renunciasse, a conclusão a que se chegaria era a de que seu então cliente não passava de um mentiroso.

Como conseqüência, ocorreria fatalmente a quebra do sigilo profissional.

O fato é que a verdade somente irá ser traduzida com as provas que a comprovam. Parece haver redundância na afirmação.

Mas a verdade somente se comprova com a Prova.

Esta sim acabará indicando a verdade processual.

Malatesta afirma bem este posicionamento7 7 ao estudar a prova em relação à verdade: “A prova, portanto, em geral, é a

relação concreta entre a verdade e o espírito humano nas suas especiais determinações de credibilidade, probabilidade e certeza”.

Mais ainda, continua o autor: “A prova, dissemos, é, em conclusão, a relação particular e concreta entre a convicção e a verdade7 8”.

Lopes da Costa7 9, citando Garsonnet et Bru e Baudry- Lacantinerie, respectivamente, aduz: “Provar é estabelecer a verdade de um fato contestado, para dele fazer depender o direito” e “Prova é a demonstração da exatidão de um fato que serve de fundamento a um pretendido direito”.

7 7 Malatesta, Nicola Framarino Dei. A lógica das provas em matéria criminal,

vol. 1, p. 87.

7 8 Malatesta, Nicola Framarino Dei. A lógica das provas em matéria criminal,

vol. 1, p. 91.

7 9 Lopes da Costa, A.A. Direito Processual Civil Brasileiro, 2ª ed., vol. 3, p. 68.

E conclui: “Como o fato é a matéria das alegações da parte, tanto faz referir a prova à verdade dos fatos, como à verdade das afirmações. Os aspectos são inseparáveis”.

Dadas estas informações, partiremos para o próximo ponto:

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