REVISÃO DA LITERATURA
3. MODELOS e HIPÓTESES DE INVESTIGAÇÃO
4.4 Definição e Operacionalização dos Constructos
Os modelos apresentados contemplam no seu total cinco constructos distintos, sendo que dois deles são comuns (Organização e Controlo Externo) aos dois modelos apresentados. O modelo inicial que trata a relação dos constructos com a Divulgação Voluntária tem como constructos a Organização; a Monitorização e Controlo; a Administração e a Divulgação Voluntária. O modelo global introduz no modelo inicial o constructo Divulgação Obrigatória como retrato do cumprimento obrigatório realizado.
Como as variáveis propostas são constructos, e não sendo diretamente observáveis, torna-se necessário a clarificação das suas dimensões e escalas. Para apresentarmos os modelos que servem de base a esta investigação foi realizada a revisão da literatura, focalizando a determinação das escalas e medidas também utilizadas pelos estudos já validados e consideradas as mais adequadas aos referidos constructos, por forma a construir o questionário que serviu de base ao estudo (Apêndice 1). Foi possível verificar, ao longo da revisão da literatura realizada, que existem inúmeros estudos, para além dos que tivemos por base na operacionalização dos modelos, que tratam as temáticas das relações entre variáveis, como as que apresentamos nesta investigação (Apêndice 3). Desta forma, usamos medidas baseadas em escalas já desenvolvidas na literatura e fizemos também as adaptações ao nível da estrutura e do conteúdo para se aplicarem à tipologia de organizações sem fins lucrativos desta investigação: as Fundações portuguesas.
4.4.1 Organização
O constructo Organização representa as características organizacionais que as Fundações possuem e que podem ser diferenciadoras das outras organizações (Stone,
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Hager, & Griffin, 2001; Iecovich, 2005). As características que são diferenciadoras prendem-se com os ativos que as Fundações detêm (Ho & Shun Wong, 2001; Gordon et
al., 2002; Behn et al., 2010), a atividade em projetos levados a cabo (Flaherty, 1992), o
tipo de financiamento que recebem (Brown & Trout, 2007; Saxton et al., 2012), ou, ainda, os membros remunerados e voluntários (Bradshaw et al., 1992) que trabalham para a Fundação. Baseados nestes estudos operacionalizamos este constructo utilizando as questões que se apresentam no Quadro 4.
Quadro 5 - Operacionalização do constructo Organização
Fonte: Baseado em Flaherty (1992), Bradshaw et al.(1992), Stone et al. (2001), Ho & Shun Wong (2001), Gordon et al.(2002), Iecovich (2005), Brown & Trout (2007), Behn et al. (2010), Saxton et al. (2012).
Organização
Indicadores Questões Escalas / Medidas
Idade Q1 – Qual o ano de constituição da Fundação Depois de transformada a variável foi determinado o número de anos.
Tamanho Q1 - O valor dos Ativos que a Fundação possuía em 31/12/2012 situa-se entre que valores: ]0 até 200.000€]
]200.000€ - 1.000.000€] ]1.000.000€ - 4.000.000€] ]4.000.000€ - 40.000.000€] > 40.000.000€
(Escala com 5 itens definida com valores de referência do Censo Fundações)
Fundos Públicos
Q2 - O valor dos apoios financeiros que a Fundação recebeu do Estado e das demais pessoas coletivas públicas, no ano 2012 de forma direta ou indireta, situa-se no intervalo: ] 0€ - 1.000€]
]1.000€-100.000€] ]100.000€-1.000.000€] ]1.000.000€-10.000.000€] >10.000.000€
Escala com 5 itens definida com valores de referência do Censo Fundações Membros trabalhadores (remunerados e voluntários)
Q3-Quantos colaboradores com vínculo laboral (contrato trabalho) possuía a Fundação em 31/12/2012.
Número de colaboradores remunerados e voluntários Q4 - Quantos colaboradores em regime de
prestação de serviço a Fundação tinha à data 31/12/2012.
Q5 - Quantos voluntários participam, em média por ano, nas atividades da Fundação.
Projetos realizados
Q6 - Quantos projetos/ações realiza a Fundação, em média, por ano.
Escala com 5 itens com o número de projetos feitos por ano – minino 0 e máximo 16 ou mais.
109 4.4.2 Monitorização e Controlo
As entidades que financiam as organizações através de apoios de diversa natureza têm legitimidade para exigir o controlo interno e externo da auditoria (Reheul, et al. ,2012). De acordo com Keating et al. (2005), as auditorias são um importante meio de responsabilização das organizações não lucrativas, perante os doadores, órgãos sociais e entidades financiadoras, para assegurar que os recursos que são gastos vão ao encontro das intenções do doador ou financiadores.
As organizações que recorrerem a técnicas de controlo e monitorização dos fundos recebidos apresentam melhor qualidade de informação e transparência, perante os fundadores, os doadores e a entidades governamentais (Pridgen & Wang, 2012). É também verificado por Calabrese (2011) que as demonstrações financeiras que passam pela auditoria enriquecem a prestação de contas das organizações aos olhos do público e aumentam os poderes reguladores de execução, no sentido de evitar que a fraude financeira ocorra neste setor. Por isso, a informação financeira auditada por razões de ordem obrigatória ou voluntária, bem como os relatórios sobre os fundos atribuídos auditados são frequentemente divulgados pelas instituições sociais (Vermeer et al., 2006). Quadro 6 - Operacionalização do constructo Monitorização e Controlo
Monitorização e Controlo
Indicadores Questões
Certificação Q1 - A Fundação tem Certificação de Contas: S/N
Q2 - A Certificação de Contas é realizada por: (1) Imposição Legal; (2) Opção dos membros órgãos sociais; (3) Imposição estatutária; (4) Outra razão.
(validando para a constituição do indicador de certificação obrigatória apenas as respostas da opção 1 e 3 que representam obrigatoriedade)
Auditoria Q3 - A Fundação realiza Auditorias Internas: S/N
Q4 - A realização da Auditoria Interna é motivada: (1) Por razões de controlo interno; (2) Por ser um complemento à prestação de contas anual; (3) Pela certificação de processos; (4) Outra razão.
(validando para a constituição do indicador de auditoria obrigatória apenas as respostas da opção 1 e 3 que representam obrigatoriedade)
Controlo Voluntário
Q2 - A Certificação de Contas é realizada por: (1) Imposição Legal;
(2) Opção dos membros órgãos sociais; (3) Imposição estatutária; (4) Outra razão.
(validando para a constituição do indicador de certificação voluntária apenas as respostas da opção 2 e 4 que representam uma escolha voluntária)
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Q4 - A realização da Auditoria Interna é motivada: (1) Por razões de controlo interno; (2) Por ser um complemento à prestação de contas anual; (3) Pela certificação de processos; (4) Outra razão. (validando para a constituição do indicador de auditoria voluntária apenas as respostas da opção 2, 3 e 4 que representam uma escolha voluntária)
Fonte: Baseado em Vermeer et al. (2006), Calabrese (2011), Pridgen & Wang (2012), Reheul et al. (2012), Keating et al. (2005).
Tendo por base a literatura, operacionalizamos o constructo através das questões que se apresentam no Quadro 5. Para medir cada um dos indicadores foi utilizada uma classificação dicotómica em que “sim” valia 1 e “não” valia 0.
4.4.3 Administração
A estrutura do conselho de administração é definida na literatura por muitas variáveis como já referida nos capítulos anteriores. Deveremos contudo atender às especificidades de cada organização, já que a escolha das variáveis que mais contribuem para o constructo poderá não ser igual em todas as tipologias dada a diversidade de composição de estruturas de conselhos que este setor tem. Em particular as Fundações têm especificidades nos seus conselhos de administração diferenciadoras (Andrés-Alonso
et al., 2009) das outras tipologias jurídicas que compõe o Terceiro Setor e que podem
fazer mais sentido serem consideradas. Os modelos de explicação da estrutura, anteriormente apontados na literatura, definem como importante a percentagem de membros internos ou externos que estas possuem (Callen et al., 2003). A especificação do constructo não inclui diretamente a variável tamanho do conselho de administração. Contudo indiretamente, pela percentagem de membros internos e remunerados, essa grandeza é tida em conta.
Com o objetivo de avaliar o contributo no conselho de administração do número de internos usamos os contributos dos modelos propostos pela literatura para o setor não lucrativo (Cornforth & Simpson, 2002; Prybil, 2006; Saxton et al., 2012). O número de membros com remuneração no conselho de administração, foi definido na percentagem do tamanho do CA., já que a possibilidade de remuneração é uma particularidade das
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Fundações27. Por fim, a influência da remuneração do CEO enquanto responsável que assume a liderança das operações diárias para o cumprimento da missão, definida pela existência ou não de remuneração do CEO (Barragato, 2002; Eng & Mak, 2003; Cardinaels, 2009, Brickley et al., 2010, Ackerman et al., 2012).
Desta forma operacionalizamos o constructo através das questões que se apresentam no quadro 6.
Quadro 7 - Operacionalização do constructo Administração Administração
Indicadores Questões
Internos Q1 - Número de membros internos do CA que trabalham apenas e exclusivamente para a Fundação.
(Valores apresentados em % do CA que são internos)
RemunCA Q2 - Número de membros do CA que possuem remuneração da Fundação
(Valores apresentados em % do CA que têm remuneração
RemunCEO Q3 - O Administrador Executivo tem remuneração mensal na Fundação?
Sim/Não
(classificação dicotómica em que sim valia 1 e não valia 0.
Não Executivos Q4 - Número de membros não executivos do CA (Valores apresentados em % do CA que são não executivos)
Fonte : Baseado em Barragato (2002), Cornforth & Simpson (2002), Callen et al. (2003), Eng & Mak (2003), Prybil (2006), Andrés-Alonso et al. (2009) Cardinaels (2009), Brickley et al. (2010), Ackerman et al. (2012) Saxton et al. (2012).
4.4.4 Divulgação Voluntária
A divulgação voluntária no setor não lucrativo, e em particular neste estudo, das Fundações foi debatido no ponto 2.3 Prestação de Contas e Informação Divulgada. Na construção de índices de divulgação voluntária, a revisão da bibliografia apresenta alguns estudos que servem de base (Ho & Shun Wong, 2001; Eng & Mak, 2003; Babío Arcay & Muiño Vázquez, 2005; Chau & Gray, 2010; Cheung, Jiang, & Tan, 2010; Alves, Rodrigues & Canadas, 2012) a alguns índices que foram construídos a partir da informação dos relatórios de gestão e outros a partir da divulgação realizada nas páginas
27 Apenas não poderão receber qualquer tipo de retribuição ou compensação por esses serviços os titulares
de cargos públicos, designados para acumular uma posição num conselho de administração de uma Fundação criada ou patrocinada pela mesma entidade pública.
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da internet. Assim, os estudos levados a cabo na área da divulgação voluntária para as entidades do setor não lucrativo (Parsons, 2007; Atan et al., 2012; Saxton et al., 2012; Tremblay-Boire & Prakash, 2015) elaboram os seus índices tendo em conta a informação relatada anualmente ou na informação que divulgam na página.
O índice de divulgação voluntária que utilizamos como referência foi baseado no
Statement of Recommended Practice (SORP, 2005), em vigor no Reino Unido, para a
contabilidade do setor não lucrativo (Charity Commission, 2005). O constructo Divulgação Voluntária teve por base a utilização desse conjunto de indicadores que fazem parte dos indicadores de divulgação do SORP (2005) e a sua verificação de divulgação, como informação separada, no relato anual que realizam. O SORP (2005) é constituído por sete índices parciais, considerando-se um total de 31 indicadores para a contabilidade do setor não lucrativo classificados como segue:
Índice 1 - Informações sobre a Administração; Índice 2 - Estrutura e Governo; Índice 3