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2.2 Imagem Corporal

2.2.6 Definições de Identidade e Imagem Corporal

A Imagem Corporal é definida como a representação mental do nosso próprio corpo, ou seja, a maneira como nosso corpo aparece para nós mesmos. Representa assim uma experiência particular, que cada indivíduo vivenciará constantemente e, por meio dela irá dimensionar o sentido de suas ações, de suas percepções, e o fluir de seus impulsos(34).

Essa imagem se refere à identidade do ser humano, do ser corporal. A possibilidade do sujeito em se reconhecer e ser reconhecido, bem como valorizado, pela sua singularidade é primordial para a integridade de sua identidade corporal e é o ponto de partida para o desenvolvimento de uma Imagem Corporal integrada e positiva.

Entende-se aqui por Imagem Corporal integrada e positiva, aquela que possibilite ao sujeito estar no mundo manifestando naturalmente a sua essência e subjetividade. Quando não podemos agir no mundo de acordo com nossa subjetividade, é como se estivéssemos escondendo a energia impulsiva que, como descrito antes, sempre busca continência e consciência para poder ampliar o conteúdo de suas experiências. Desta forma, a ansiedade tem sua origem internamente neste processo de não reconhecimento de sua própria subjetividade. No processo de socialização que se inicia desde a primeira relação objetal (mãe e bebê), somos submetidos às pressões sociais que delimitam nossos movimentos visando resultados previsíveis de recompensas ou punição. No entanto, neste contexto o objetivo é a ordem social, apagando nossa força vital. Por outro lado, quando nossa subjetividade é preservada em nossos movimentos, estaremos aptos a viver em plenitude, alegria e prazer.

Quando estamos direcionados a ordem social, o desenvolvimento da identidade flui para um modelo preestabelecido da identidade, o que segundo Ciampa(42) é chamado de identidade mito, pois apenas reproduzimos o social sem

questionamento e/ou responsabilidade por parte do próprio indivíduo. Ao passo que quando estamos direcionados para a descoberta de nossa singularidade, o reconhecimento e a aceitação de nossas limitações corporais nos diferenciam e nos permite um amadurecimento. Esta busca pela singularidade é o que Ciampa(42) chamou de identidade como emancipatória. Entende-se como

emancipação quando o sujeito se emancipa de valores preconcebidos impostos pela sociedade e apropriados pelo indivíduo, possibilitando assim um agir mais livre e criativo para a realização de suas metas e desejos(36).

Deste modo, nossos movimentos tanto podem estar direcionados para a auto realização, quando existe concordância com a subjetividade, como pode transformar-se em uma agressão corporal, quando não há consciência nem tão pouco satisfação subjetiva com este movimento/ação, nos transformando em “frágeis objetos vulneráveis à demanda externa”(34), o que traz implicações graves

Concluindo, a Imagem Corporal é a representação mental do corpo existencial, ou seja, em toda sua plenitude de fatores tanto internos e subjetivos, como externos, ligados a fatores ambientais e culturais, por exemplo. Ela é sempre dinâmica, porém com a singularidade existencial do ser humano no mundo, que é único no tempo e no espaço.

Todos os projetos e movimentos que realizamos durante a vida, podem ser promissores no desenvolvimento da nossa identidade e Imagem Corporal se forem coerentes com nossa realidade interna, com nossa subjetividade. Para tanto, é necessário estarmos conectados com nossas sensações, para que nossas percepções sejam familiares e ponto de referência no processo de auto diferenciação no mundo, ou seja, sabemos o que sentimos quando agimos e nos movimentamos em uma determinada direção(34).

Para Dolto(5), psicanalista francesa que trabalhava com crianças e suas

famílias, Imagem Corporal é o mediador específico de 3 instâncias psíquicas (id, ego, superego). Esta autora diferencia a imagem do esquema corporal e, portanto, traz contribuições complementares à Schilder acerca dos estudos da Imagem Corporal e que serão bastante utilizadas na presente pesquisa. Segundo Dolto esquema corporal é a realidade de fato, “...sendo de certa forma nosso viver carnal no contato com o mundo físico”(5). Para Dolto o esquema corporal é o

interprete da Imagem Corporal, permitindo que esta última venha ao mundo das relações. O esquema corporal é então um intérprete do corpo, permitindo assim a objetivação de uma intersubjetividade, por meio da linguagem com os outros, sem o esquema corporal permaneceríamos “sempre um fantasma não comunicável”(5).

Assim, se o esquema corporal é algo, em princípio muito semelhante a todos os seres humanos, a Imagem Corporal, por outro lado, é mais peculiar a cada um.

Para Dolto, Imagem Corporal é mais simbólica, é a síntese de nossas experiências emocionais, à nossa história pessoal e é única para cada sujeito.

O Esquema Corporal é em parte inconsciente, mas também pré-consciente e consciente, e é evolutivo no tempo e no espaço, já a Imagem Corporal é iminentemente inconsciente, podendo tornar-se pré-consciente e, quando

associada à linguagem, tornar-se consciente. A autora refere ainda que o sujeito inconsciente desejante em relação ao corpo, existe desde a concepção.

Dolto(5) concebe a Imagem Corporal como a memória inconsciente de todas

as experiências relacionais do indivíduo, mas ao mesmo tempo, afirma que ela é atual, viva e dinâmica pois pode camuflar-se e atualizar-se no aqui e agora por meio da comunicação, seja esta verbal ou por intermédio do desenho, modelagem, invenção musical, plástica, mímica ou gestos. Esta autora utiliza muito o desenho como forma de avaliação da imagem corporal. Não o desenho concreto, mas sim o que a criança fala sobre o desenho que representou.

Para esta autora, a Imagem Corporal é constituída pela articulação dinâmica de 3 organizações psicológicas: a imagem de base, a imagem funcional e a imagem erógena que juntas garantem a imagem do corpo viva e o narcisismo do sujeito a cada estágio de sua evolução. Abordarei mais sobre a dinâmica destas 3 organizações no subcapítulo denominado Organização Psíquica Infantil.