2.2 Imagem Corporal
2.2.3 Percurso Histórico das pesquisas sobre Imagem Corporal
O conhecimento sobre Imagem Corporal foi construído mediante muitas pesquisas desenvolvidas ao logo da história e são importantes para entendermos a complexidade do conceito.
Tavares(34) refere que o interesse no estudo da Imagem Corporal, surgiu
entre os neurologistas no início do século XX, a partir das observações das sequelas de lesões cerebrais como distorções na percepção corporal. Na ocasião descobriram que a forma como cada indivíduo percebe seu corpo estava relacionada a um processo organizado, mas vulnerável às lesões cerebrais.
De acordo com Campana(39), os primeiros estudos ligados a Imagem
Corporal tinham como objetivo descobrir quais estruturas cerebrais eram centrais para manter o reconhecimento do corpo. O foco era descobrir como uma
determinada lesão cerebral poderia interferir na percepção do sujeito sobre seu próprio corpo e o espaço que o envolvia.
Nesta época o fenômeno de membro fantasma também foi muito pesquisado, e muitos neurologistas focalizaram sua atenção na localização dos centros de controle e no reconhecimento da forma pela qual ocorre a auto percepção corporal.
De acordo com jogo(40) o estudo da Imagem Corporal nos dois últimos
séculos teve seu início com Franz Joseph Gall e sua teoria da Frenologia. Para ele o cérebro era dividido em 35 órgãos distintos com especialidades mentais específicas que controlariam funções específicas. Assim, haveria áreas descriminadas para a generosidade, dissimulação etc. que aumentariam ou diminuiriam em decorrência do seu uso. Essa teoria aponta um caráter exclusivamente biológico da mente humana.
Em 1820 Pierre Flourens realizou pesquisas experimentais com animais que o faziam discordar de Gall. Para Flourens todas as regiões cerebrais participam de modo conjunto de cada função cerebral. Assim, uma lesão cerebral poderia atingir todas as funções superiores e propôs que qualquer parte do hemisfério cerebral é capaz de desempenhar todas as funções (39).
A partir da metade do século XIX a hipótese da conexidade celular, levou muitos neurologistas da época como Hughlings Jackson, Karl Wernicke e Charles Sherrington a postular que os neurônios individuais são as unidades sinalizadoras do cérebro e, em geral, estão dispostos em grupos funcionais e se ligam de modo preciso (39).
Wernicke defendeu a ideia de processamento distribuído, uma visão ainda muito atual do funcionamento cerebral que defende que diversos componentes do mesmo comportamento podem vir de diversas regiões cerebrais. Essa teoria explica porque uma afasia (mesmo comportamento: falar), pode ocorrer de formas diferentes dependendo do componente afetado (39). Assim, podemos ter afasia
motora, sensorial e de condução, por exemplo. Hoje sabemos que a lesão em uma via pode ser desempenhada por outra via por meio da neuroplasticidade.
De acordo com Tavares(34), Henry Head deixou importantes pesquisas
sobre Imagem Corporal, pois ele realizou uma descrição de uma série de distorções da experiência corporal em diversas síndromes neurológicas.
Head apud Campana (39) consolidou o significado do termo esquema
corporal, referindo que cada indivíduo constrói um modelo de si e que este modelo está sempre se modificando, se reconstruindo e que cada mudança é absorvida na consciência, relacionando-se com o modelo anterior. Head tinha uma visão sequencial de esquema corporal, visto que a cada mudança desta englobava a anterior para o modelo de esquema corporal atual. Ressalta-se que até aqui não se fazia uma distinção entre os termos de Imagem e esquema corporal, distinção esta que farei em breve no conceito dos termos.
Joseph Gerstmann também se destacou no século XX com a descrição da síndrome de Gerstmann. Para ele a síndrome consistia em uma manifestação consequente à lesão na região parieto occipital do hemisfério dominante levando a sintomas como agnosia dos dedos, desorientação direita/esquerda, agrafia, descalculia. A interpretação à esta descoberta é de que há uma relação entre nossas habilidades e o funcionamento da Imagem Corporal. Embora esta interpretação da síndrome tenha sido desacreditada mais tarde, nos mostra como Gerstmann evidenciou a relação da Imagem Corporal com o funcionamento do sistema nervoso central (39).
Como dito anteriormente, o fenômeno do membro fantasma também chamou a atenção de muitos neurologistas do século passado. Para Head, Pick, Lhermitte e Schilder o fenômeno se dava pela manutenção da Imagem Corporal central que ainda não havia se adaptado à perda do membro em questão (39).
Alguns autores como Paul Schilder, Merleau-Ponty, Le Boulch e Lapierre assumiram o tema da Imagem Corporal de forma bastante abrangente, ampliando o campo de pesquisa atual. Para eles a Imagem Corporal está vinculada aos aspectos fisiológicos, sociais e psicológicos, interferindo na identidade de forma bastante complexa(34).
Paul Schilder(4) merece destaque especial pois em seu livro: “A imagem do
os dias atuais. Este autor declara que seu interesse por Imagem Corporal nasceu das observações clínicas com pacientes com lesão cerebral que apresentavam dificuldades na diferenciação de direita e esquerda. Paul Schilder não via como separados os conceitos de fenomenologia e psicanálise das patologias do cérebro, enxergava a Imagem Corporal além dos aspectos puramente neurológicos, a via sob uma perspectiva sistêmica.
Schilder(4) conceitua Imagem Corporal e Esquema corporal, porém não se
preocupa em distinguir os conceitos como pode ser visto a seguir:
Entende-se por “imagem do corpo humano a figuração de nosso corpo formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós”, e o esquema corporal:
é a imagem tridimensional que todos têm de si mesmos. Podemos chama-la de imagem corporal. Esse termo indica que não estamos tratando de uma mera sensação ou imaginação. Existe uma apercepção do corpo. Indica também que, embora nos tenha chegado através dos sentidos, não se trata de uma mera percepção. Existem figurações e representações mentais envolvidas, mas não é uma mera representação(4).
Neste trecho Schilder(4) clarifica que quando percebemos ou imaginamos
um objeto, não temos uma percepção concreta e objetiva do mesmo, pois sempre há uma personalidade que experimenta a percepção, ou seja, a percepção deste objeto passará pela subjetividade de quem o observa. Este dado confirma assim a visão do autor sobre a imagem corporal como uma experiência existencial e, portanto, subjetiva.
Schilder (4) enfatiza também que a energia libidinal e o corpo são
inseparáveis, a topografia do nosso corpo será a base de emoções fortes, as zonas erógenas desempenharão um papel importante no modelo postural do corpo. E este modelo não é estático, ele está em constante autoconstrução e autodestruição interna, contínua diferenciação e integração. Da mesma forma Schilder refere que o nosso modelo postural de corpo se relaciona
constantemente com o modelo postural do corpo do outro, enfatizando a necessidade de estudar a Psicologia Social.
Em seu livro, Schilder divide a Imagem corporal em parte fisiológica, estrutura libidinal e sociológica. No entanto, sua visão sobre estes 3 aspectos da Imagem Corporal é até hoje considerada de forma integrada e sem fragmentações. Irei explicitar a seguir estes aspectos descrito por Schilder em sua obra.