• Nenhum resultado encontrado

Em resposta à “definição” do burnout pela enunciação infindável e algo acéfala de sintomas, característica dos primeiros estudos clínicos sobre este síndroma e do uso coloquial deste conceito, é possível distinguir dois grandes tipos de definições científicas do burnout: as definições do burnout como um estado; e as definições do burnout como um processo dinâmico.

As definições de burnout como estado seguem a tradição médica na medida em que procuram uma constelação de sintomas centrais que ocorrem conjuntamente e que representando uma condição negativa permitem identificar o burnout como um síndroma (Schaufeli & Enzmann, 1998). Algumas das definições de burnout como estado especificam ainda a sua etiologia e domínio.

Assim, entre as diversas conceptualizações deste tipo, começaríamos por referir a proposta por Maslach e colaboradores a qual, uma vez operacionalizada no MBI – Maslach Burnout Inventory (1986; 1996), se configura como a mais frequentemente citada e utilizada no campo de estudo do burnout:

“… O burnout é um síndroma de exaustão emocional, despersonalização, e perda de realização pessoal que ocorre em profissionais de ajuda …” (Maslach & Jackson, 1986, p. 1).

A dimensão de exaustão emocional, considerada por Maslach (1993; 1999) como a mais próxima de uma variável de stress, é caracterizada por sentimentos de desgaste e esgotamento dos recursos emocionais. A despersonalização, refere-se à adopção de atitudes negativas, frias, distanciadas, “desumanizadas” (Maslach, 1993; 1999) face aos utentes dos serviços. Por último, a

falta de realização pessoal corresponde à diminuição de sentimentos de competência e eficácia profissional (Maslach, 1993; 1999). O domínio do burnout é também especificado, restringindo-se às profissões de ajuda.

Uma outra definição de burnout como estado que gostaríamos de destacar, é fornecida por Brill (1984) e considerada como uma das mais precisas por diversos autores (Schaufeli & Buunk, 1996 e Schaufeli & Enzmann, 1998), na medida em que faz referência à sua etiologia e sintomas e explicita critérios para o seu diagnóstico:

“… O burnout é um estado disfórico mediado pelas expectativas e relacionado com o trabalho [que surge] num individuo sem psicopatologia maior, o qual (1) funcionou por algum tempo na mesma situação de trabalho com níveis de desempenho e afectivos adequados e (2) não recuperará os níveis [de funcionamento] prévios sem ajuda exterior ou alterações ambientais …” (Brill, 1984, p. 15).

Sem pretendermos ser exaustivos, salientaríamos apenas que as definições de burnout como estado apresentam, segundo diversos autores (Maslach & Schaufeli, 1993; Schaufeli & Buunk, 1996; Schaufeli & Enzmann, 1998), um conjunto de asserções comuns relativamente às manifestações e etiologia deste síndroma:

1. O burnout manifesta-se essencialmente por sintomas disfóricos, sobretudo do foro emocional, mental e comportamental, e não tanto físico, e em que predomina a exaustão. As manifestações do burnout relacionam-se com o trabalho e incluem ainda atitudes e comportamentos negativos face a terceiros e uma diminuição do desempenho e eficácia profissionais.

2. O burnout afecta indivíduos “normais”, isto é, que anteriormente funcionavam a níveis adequados e que não manifestavam qualquer psicopatologia. Sendo um síndroma relacionado com o trabalho, na sua etiologia participam de forma marcada expectativas desajustadas e elevadas exigências emocionais.

Quanto às definições do burnout como processo dinâmico, gostaríamos de chamar a atenção para o facto de a definição de burnout como estado proposta por Maslach e Jackson (1986), ter originado um conjunto de estudos que de facto levaram à sua conceptualização posterior como processo (Leiter & Maslach, 1988; Golembiewski et al, 1993 e 1994; Leiter, 1993; Gil-Monte & Peiró, 1997; Gil-Monte et al, 1998; entre outros autores), muito embora haja alguma polémica quanto à ordem sequencial com que se sucedem os três tipos de sintomas envolvidos no processo de burnout.

Por exemplo, Golembiweski e colaboradores (1993; 1994) propõem um modelo em oito fases - pela dicotomização, em função da mediana, das pontuações nas três escalas do MBI, estas são classificadas como altas ou baixas e seguidamente combinadas de oito formas diferentes - que traduz a "virulência progressiva" do burnout (Golembiewski et al, 1993) e que obedece a uma sequência diferente da proposta por Maslach (1982): às atitudes de despersonalização, seguem-se a falta de realização pessoal no trabalho e finalmente os sentimentos de exaustão emocional.

Por seu lado, Leiter (1993), cujo modelo tem recebido o maior suporte empírico (Lee & Ashforth, 1996; Byrne, 1999), encara o burnout como uma resposta complexa às exigências e recursos profissionais, composta pelas três dimensões definidas por Maslach e Jackson (1986), e cuja sucessão ao longo do tempo equaciona da seguinte forma:

“… a exaustão emocional surge primeiro em resposta a ambientes exigentes, quando os trabalhadores de ajuda são subjugados pelas exigências pessoais do trabalho. O aumento da exaustão por sua vez dá origem à despersonalização quando os trabalhadores tentam ganhar distância emocional dos utentes dos serviços como forma de lidar com a exaustão (…) enquanto que a presença de recursos influencia a realização pessoal (…) a componente de perda de realização pessoal do burnout desenvolve-se paralelamente à componente de exaustão emocional na medida em que surgem como reacções a aspectos diferentes do ambiente de trabalho…” (Leiter, 1993, pp. 244-246).

No entanto, as primeiras definições de burnout como processo dinâmico devem-se a autores como Edelwich e Brodsky (1980) e Cherniss (1980a). Veja-se a título de exemplo a proposta de conceptualização feita por este último, a qual, diríamos, encara o burnout como uma forma particular de stress profissional, envolvendo mecanismos defensivos de coping:

“… O primeiro estádio envolve um desequilíbrio entre os recursos e as exigências (stress). O segundo estádio consiste na tensão emocional, fadiga e exaustão imediata, a curto prazo (strain). O terceiro estádio consiste num conjunto de mudanças de atitude e comportamento tais como a tendência para tratar os clientes de forma distanciada e mecânica, ou a preocupação cínica com a satisfação das necessidades pessoais (coping defensivo)…" (Cherniss, 1980a, p. 17).

Uma última definição de burnout como processo, destacada por diversos autores, é- nos sugerida por Etzion (1987, p. 16-17, citado por Schaufeli & Buunk, 1996, p. 316) e introduz na conceptualização do burnout a perspectiva sobre o impacto do stress resultante dos "aborrecimentos diários" (hassles):

“… desajustamentos contínuos, dificilmente reconhecíveis e em grande medida negados entre características pessoais e ambientais são a fonte de um processo lento e oculto de erosão psicológica. Ao contrário de outros fenómenos geradores de stress, os ministressores (2) (mini-stressors) do desajustamento não causam alarme e raramente são sujeitos a quaisquer esforços de coping. Desta forma, o processo de erosão pode persistir por um longo período de tempo sem ser detectado …”.

Em suma, e de acordo com Schaufeli e Buunk (1996) e Schaufeli e Enzmann (1998), as definições de burnout como processo conduzem a uma conceptualização do burnout como resposta ao stress profissional, a qual comporta em si mesma mecanismos de coping perversos no sentido em que contribuem de forma fundamental para o desenvolvimento do próprio burnout. Neste pano de fundo, destaca-se o peso da discrepância entre os ideais e a realidade da vida profissional, na construção do stress profissional que conduz ao processo de burnout; destaca-se

igualmente o facto de este stress poder ser conscientemente sentido pelo indivíduo ou, pelo contrário, ser “silencioso” e não ser reconhecido como tal durante muito tempo.

Apesar de os dois tipos de definição – estado e processo – serem complementares, na medida em que as definições de burnout como estado “… descrevem o estado final do processo de burnout …” (Schaufeli & Enzmann, 1998, p. 31), muitos autores de referência no campo de estudo do burnout alertam para as limitações conceptuais decorrentes do primeiro tipo de definição e para as vantagens da adopção de perspectivas processuais sobre o burnout. Por exemplo, Hallsten (1993) considera que as definições do burnout que o identificam com estados de afectividade negativa são demasiado abrangentes e pouco elucidativas em termos conceptuais – “… Um fenómeno requer uma etiologia, determinados sintomas e um desenvolvimento …” (Hallsten, 1993, p. 98). Na mesma linha, Price e Murphy (1984, citados por Gil-Monte & Peiró, 1997, p. 15) consideram que, embora possa ter utilidade coloquial, a conceptualização do burnout como

estado é difícil de operacionalizar e tem dificultado a sua compreensão, designadamente como fenómeno distinto de outros fenómenos psicológicos semelhantes.

Embora a possibilidade de distinguir o conceito de burnout relativamente a fenómenos psicológicos próximos seja uma questão naturalmente relevante – “… O burnout é um fenómeno verdadeiramente "novo" ou é apenas vinho velho em garrafas novas?…" (Schaufeli & Enzmann, 1998, p. 37) – a resposta possível parece-nos encontrar-se na definição teórica do burnout e das suas relações de continuidade e descontinuidade com os outros conceitos, e não tanto numa distinção liminar e absoluta. Nesta perspectiva, passamos a analisar a relação do burnout com os dois conceitos afins mais importantes: stress (profissional) e depressão (para uma análise alargada a outros conceitos afins ver, por exemplo, Wallot, 1987; Esteve, 1992; Pines, 1993).

Continuidades e descontinuidades do conceito de burnout