A este nível, da conceptualização e investigação formalizada em publicações científicas, tivemos por objectivo explorar o conteúdo das construções sobre burnout profissional patentes em grandes obras do domínio da psicologia e da medicina, enquanto disciplinas responsáveis pelo estudo científico deste fenómeno. Procedemos então a uma pesquisa documental e respectiva análise de conteúdo.
1. Para realizarmos a pesquisa documental recorremos às bibliotecas da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, do Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos em Lisboa e da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, nas quais consultámos os ficheiros, organizados por títulos, dos livros publicados a partir de 1974, data que, como vimos anteriormente, marca o início do estudo científico do burnout.
Para além do termo "burnout", utilizámos como palavras-chave orientadoras da pesquisa as expressões sinónimas: "malaise" (Esteve & Fracchia, 1988), "épuisement (professionnel)" (Grantham, 1985; Scarfone, 1985) e "usure (professionnel)" (Pronost & Tap, 1997), da língua francesa; "mal-estar" (Esteve, 1992) e "estar quemado" (Gil-Monte & Peiró, 1997), do castelhano; e "esgotamento (profissional)" (McIntyre, 1994; Silvério & Silva, 1996), do português.
Nesta consulta identificámos um único livro subordinado ao tema do burnout (documento nº 5 do quadro nº 3.1). Optámos então por consultar outras obras, designadamente enciclopédias, dicionários e manuais, publicadas entre 1974 e 1997, existentes nas mesmas bibliotecas. As palavras-chave atrás referidas foram novamente utilizadas na pesquisa, desta feita
realizada a partir dos índices de matérias e de assuntos. Foi-nos assim possível identificar treze outros documentos sobre o fenómeno de burnout (ver quadro nº 3.1). Finalmente, tendo constatado que a grande maioria dos documentos recolhidos era do domínio da psicologia, e embora não pretendêssemos alargar a pesquisa a publicações periódicas, retivemos igualmente para análise três artigos relativos ao tema do burnout, publicados por médicos psiquiatras numa revista "médico- psicológica" existente na biblioteca do Hospital Júlio de Matos (ver documentos 6, 11 e 14 do quadro nº 3.1), de forma a incluirmos no nosso corpus documental mais algumas publicações científicas do domínio da medicina.
Quadro nº 3.1
Listagem dos documentos sobre burnout identificados na pesquisa documental 1. Beigel, J. K., & Earle, R. H. (1990). Sucessful Private Practice in the 1990s. NY:
Brunner / Mazel Publishers (burnout pp. 5, 18-19, 39 e 60)
2. Beyer, J. M. (1993). The Cultur of Work Organizations. NJ: Prentice Hall Inc. (burnout pp. 198-199).
3. Corsini, R. J. (Ed.) (1987) Concise Encyclopidia of Psychology. NY: John Wiley and Sons, Inc. (burnout pp.158-159).
4. Esteve, J. M. (1991). Mudanças Sociais e Função Docente. In António Nóvoa (org.) Profissão Professor (pp. 93-124). Porto: Porto Editora 5. Esteve, J. M. (1992). O Mal Estar Docente. Lisboa: Escher
6. Grantham, H. (1985). Le diagnostic différentiel et le traitement du syndrome d`épuisement professionnel ("Burn-out"). In Annales Médico- Psychologiques, 143, 8, 776-781.
7. Hargreaves, A., & Fullan, M. G. (1992). Understanding Teacher Development.NY: Teachers College Press (burnout pp.23-24). 8. Holly, M. L., & McLoughlin, C. S. (Ed.) (1989). Perspectives on Teacher Professional Development. London: The Falmer Press (burnout
pp.59, 173-174).
9. Houston, W.R., Haberman, M., & Sikula, J. (Eds.) (1990). Handbook of Research on Teacher Education. NY: McMillan (burnout pp.425- 426 e 551).
10. Kaplan, H. I., Sadock, B. J., & Grebb, J. A. (1994) Kaplan and Sadock´s Synopsis of Psychiatry (burnout pp. 85 e 381-382). 11. Lebigot, F., & Lafont; B. (1985). Psychologie de l`épuisement professionnel. In Annales Médico-Psychologiques, 143, 8, 769-775. 12. Manstead, A. S. R., & Hewstone, M. (Ed.) (1995).The Blackwell Encyclopedia of Social Psychology. Cambridge: Blackwell Pub. Ltd.
(burnout pp.92-93).
13. O´Brien, R., Dickinson, A., & Rosow, M.(Eds.) (1982).Industrial Behavior Modification: A Management Handbook. NY: Pergamon Press Inc.(burnout pp.292-293).
14. Scarfone, D. (1985). Le syndrome d`épuisement professionnel (burnout): y aurait-il de la fumée sans feu? In Annales Médico- Psychologiques, 143, 8, 754-761.
15. Spodek, B. (1993). Handbook of Research on the Education of Young Children. NY: MacMillan Pub. Company 16. Taylor, S. (1986) Health Psychology. NY: Random House (burnout p.417)
17. Triandis, Dunnette, & Hough (Eds.) (1994).Handbook of Industrial and Organizational Psychology. Palo Alto: Consulting Psychologists Press Inc. (burnout p.51).
2. Sendo a análise de conteúdo, segundo Berelson, "…uma técnica de investigação
que, através de uma descrição objectiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações, tem por finalidade a interpretação destas…", constitui igualmente "um processo dedutivo ou inferencial a partir de índices ou indicadores" (Berelson, citado por Bradin, 1977, p.19). Para Bardin (1977, p.9) a análise de conteúdo consiste "…num conjunto de instrumentos metodológicos cada vez mais subtís, em constante aperfeiçoamento, que se aplicam a discursos (…) extremamente diversificados…" e cujo denominador comum "…é uma hermenêutica controlada baseada na dedução: a inferência…". Em alternativa à intuição imediata e aleatória, a análise de conteúdo impõe um tempo de latência, bem como o recurso a um conjunto de técnicas que, então sim, permitem a formulação de interpretações (Bardin, 1977).
Do ponto de vista do método, a análise de conteúdo dos documentos científicos consistiu num processo cíclico e interactivo (Miles & Huberman, 1994), ao longo do qual é possível, no entanto, destacar diversos momentos ou estratégias de codificação:
Leitura preliminar
Realizou-se uma primeira leitura dos documentos a fim de entrar em contacto directo com o seu conteúdo e de ter uma percepção global deste (Bardin, 1977; Estrela, 1990). Ao longo desta leitura preliminar foram-se tomando notas à margem, com ideias sobre os diferentes tipos de informação encontrados; estas ideias forneceram pistas para a posterior construção de um sistema de categorias o qual foi evoluindo por adaptações sucessivas, em interacção com o próprio processo de categorização e seus mecanismos de validação.
Determinação das regras de codificação
Dada a natureza e os objectivos do estudo, na elaboração do sistema categorial optou-se pela utilização de procedimentos indutivos, ligados à exploração do texto e à criação, por inferência, de códigos categoriais interpretativos (Miles & Huberman, 1994). Tomando cada documento ou sub-parte deste (sub-capítulo, parágrafo ou conjunto de parágrafos) como "unidade de contexto" e o tema (frase ou conjunto de frases de dimensão variável, desde o parágrafo a um
conjunto de parágrafos) como "unidade de registo" (Bardin, 1977, p. 104), o processo de categorização obedeceu ainda a um critério semântico, de analogia semântica de conteúdo, de tal forma que todas as unidades de registo com um determinado significado foram agrupadas na mesma "categoria temática" (Bardin, 1977, pp. 117 e 118) e adoptou como regra de enumeração a "frequência" de aparição de cada unidade de registo (Bardin, 1977, p. 109). Finalmente, ao longo de todo o processo de codificação procurou-se respeitar um conjunto de regras fundamentais, designadamente de objectividade, coerência, homogeneidade, exaustividade e exclusão mútua (Bardin, 1977, p. 36), no sentido de assegurar a atribuição "…consistente e sem ambiguidades de um fenómeno a uma e uma só categoria…" (Fleet & Cambourne, 1989, pp. 5 e 6).
Codificação aberta
Uma vez estabelecidas as regras de codificação, realizou-se uma primeira tentativa de redução da informação (Marcelo, 1992; Miles & Huberman, 1994; Newman, 1997), mediante a decomposição dos textos em unidades de significado e a classificação destas em função de códigos categoriais (Bardin, 1977). Ao longo deste percurso de condensação significativa dos dados, as categorias assim criadas foram sendo definidas e exemplificadas com um excerto dos próprios documentos.
Codificação por eixos
Seguidamente, realizou-se uma segunda tentativa de codificação dentro do sistema categorial já organizado, mas permanecendo este fléxivel e em adaptação sucessiva mediante a fusão / redefinição ou mesmo introdução de novas categorias (Marcelo, 1992; Miles & Huberman, 1994; Newman, 1997). O sistema categorial foi, assim, sendo progressivamente ajustado ao conteúdo dos documentos.
Codificação selectiva
Dentro das categorias criadas e fazendo uma amostragem de texto codificado, procedeu-se à verificação da consistência interna do processo de codificação (Marcelo, 1992; Miles
& Huberman, 1994; Newman, 1997). Neste sentido, o texto já codificado foi contrastado com nova codificação "cega", feita pelo mesmo codificador, de forma a assegurar a "consistência intra- observador"; a seguir foi novamente contrastado com uma codificação independente realizada por outro codificador, de forma a assegurar também a sua "consistência inter-observador" (Goetz & LeCompt, 1988, p. 221). Em caso de discrepância entre duas codificações procedeu-se por discussão e consenso já que se pretendia "…coincidir na descrição e composição dos acontecimentos e não na determinação da sua frequência…" (Goetz & LeCompte, 1988, p. 221). Desta forma, não se utilizaram quaisquer fórmulas quantitativas de avaliação da consistência interna.
Codificação final
Finalmente, procedeu-se à recodificação do texto dos diversos documentos, de forma a adaptar as codificações anteriores ao "novo" sistema categorial progressivamente apurado (Marcelo, 1992; Miles & Huberman, 1994).
O sistema de categorias assim elaborado, para além de definir os contrornos do discurso científico sobre burnout, esteve na base da construção dos guiões das entrevistas individuais e de grupo posteriormente realizadas e da respectiva análise de conteúdo.