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“As delícias infernais de um paraíso”

A medida que a propaganda comunista rompia as fronteiras de Moscou e espalhava-se pelo mundo,

inclusive no Brasil,55 as ressonâncias do modelo

soviético tornavam-se alvo da preocupação da Igreja. Esse temor alimentou a produção de um imaginário antissoviético apoiado na descrição exaustiva do que seria a “pátria do socialismo” e passou a ser um dos principais elementos da propaganda anticomunista presentes no jornal A Ordem.

Desde 1917, com a efetivação das propostas revolucionárias, os mistérios que cercavam a “pátria de Lênin” despertavam a curiosidade daqueles que pouco sabiam sobre a realidade do novo Estado soviético e cujas poucas informações a que tinham acesso chegavam ao Brasil de forma confusa e bastante deturpada (KONDER, 2009, p 151). Entre livros, notícias e relatos, as impressões em torno da URSS estavam polarizadas entre as descrições simpáticas ao regime e as de caráter anticomunista, que alimentavam debates acalorados em torno do projeto bolchevista.

55 A respeito da recepção das ideias de Marx, no Brasil, ver Konder (2009).

Foi, entretanto, somente a partir da década de 1930, que se acentuou a circulação de ideias e textos em torno do “experimento soviético”, graças, sobretudo, ao aumento de livros publicados em português, tanto traduções como obras de autores nacionais (MOTTA, 2006, p.136). Entre estas últimas, destacamos a publicação, em 1933, de A miragem soviética pelo sacerdote norte-rio-grandense, Pe. J. Cabral.

No livro, Pe. J. Cabral se dedicou a desmistificar a propaganda em torno do modelo soviético, apontado pela propaganda comunista como um “prototipo dos governos do futuro”. O proselitismo comunista, segundo o sacerdote, atingiria tanto aqueles que de fato simpatizavam com o regime bolchevista, como também, os “incautos” e de “boa fé” que acham que “o diabo não é tão feio quanto se pinta” (CABRAL, 1933, p.7-8).

Em sua introdução, a obra do sacerdote norte-rio- grandense fornece um exemplo valioso dos matizes que a elaboração do imaginário anticomunista vai se valer, no jornal:

Exemplo de como se faz a propaganda comunista temo-lo pessoal.

Em fevereiro de 1932, viajavamos pela Great Western, no trecho de Natal a João Pessoa.

Para amenizar o calor de um dia escaldante, dirigimo-nos ao carro- restaurante, à procura de algum refresco.

Aí conversavam, à meia voz, dois individuos, e dessa palestra guardamos um pouco que infra reproduzimos:

– A Rússia é assim: ninguem tem nada;

tudo é do govêrno, do Estado. – E como se vive, então?

– O governo dá tudo de que a gente precisa.

– ?...

– Foi um russo que me informou.

– Quem não ha de gostar disso são esses fazendeiros, senhores de engenho e proprietários.

Aí temos uma explicação simples e terminante que é dada, frequentemente, a quem pergunta algo sobre o comunismo. Essa falsa noção de comunismo é que pretendemos combater (CABRAL, 1933, p.8, grifos do autor).

No campo de disputa em torno de qual moldura seria dada ao retrato da “Rússia Vermelha”, os intelectuais católicos se dedicaram a composição de um retrato fantasmagórico da experiência soviética.

Caberia aos articulistas do jornal “inverter a ordem” da propaganda comunista e mostrar que “o diabo não é tão bonito quanto se diz...”. Esse esforço se verifica já nas primeiras edições do A Ordem, numa tentativa clara de demonstrar a ineficiência do regime soviético, e de produzir uma (contra) propaganda:

Nossos impagaveis communistas têm a mania de engrandecer tudo que se faz na Rússia. Para elles a felicidade alli é completa e a perfeição absoluta. O peor é que às vezes os proprios chefes communistas russos se encarregam de estragar a propaganda deslavada... No seu ultimo relatorio, o novo Commissario do Povo para os transportes, o sr. Kaganovith expõe a atual situação, verdadeiramente desastrosa, em que se encontram as estradas de ferro da URSS, declarando-a um ‘fracasso militar, do qual convem aproveitar os ensinamentos’.

Segundo suas proprias declarações houve em 1934, naquele paiz, 62.000 accidentes. Nos dois primeiros mezes de 1935 a proporção dos acidentes tinha augmentado ainda mais. O numero de mortos foi de centenas e o de feridos de milhares. Mais de 5.000 locomotivas e mais de 64.000 vagões tinham sido destruidos. A produção annual de vagões, entretanto era apenas de 19.000. Aqui é o caso de inverter a ordem: o diabo não é tão bonito quanto de diz...56

Era, de fato, como uma “miragem” que os intelectuais católicos pretendiam que a realidade russa fosse encarada pelos leitores. Para isso, os articulistas do jornal se dedicaram, quase que diariamente, a exposição das características do regime soviético em um encadeamento associativo de imagens pejorativas, que envolviam desde as “impossibilidades práticas” do modelo comunista à chamada “propaganda deslavada” dos revolucionários. Houve, sob esse intuito, uma minuciosa seleção de notícias que pudessem destratar a revolução, seus líderes e o regime por eles estabelecido. Nessa seleção, a imagem depreciada de Moscou expõe o regime soviético como um antimodelo, “incompatível”, “alheio” e “absurdo” aos olhos da civilização-cristã-ocidental.

Em artigo, de 09 de outubro, intitulado Communismo

é aquilo?, assinado por Pe. Herôncio, o jornal lançou

mão de um recurso persuasivo bastante enfático para demonstrar ser o regime bolchevista “absurdo”. O título em forma de interrogação demonstra o questionamento constante a realidade soviética, na mesma medida em que o pronome demonstrativo “aquilo” vem carregado de uma conotação depreciativa. A explicação para o questionamento e o suporte semântico de desprezo a ele emprestado aparecerá na divulgação das chamadas “páginas de sangue” do regime soviético, cujo cenário de caos e barbárie descrito explicariam a incredulidade presente no questionamento.

O sacerdote norte-rio-grandense investiu na imagem de uma “infeliz Rússia” tomada pelo derramamento de sangue de inocentes, como a expressão do horror