Investigar instituições que antecederam a
Comissão Nacional de Folclore, cujas atuações foram
desprestigiadas pelos formuladores da ideia de Movimento Folclórico Brasileiro, torna-se importante porque eram a partir das instituições que, no século XX, os folcloristas mediavam suas relações de identidade profissional enquanto intelectuais preocupados com os dilemas culturais do país. Essa tradição de sociedades e academias letradas não era uma novidade no Brasil, pelo menos desde o século XIX, enquanto espaços que conferiam saber e poder. Além da Sociedade Brasileira
de Folclore, outras iniciativas foram realizadas antes
ou depois da existência da ideia de um movimento folclórico oficializado. Ao se organizarem coletivamente em instituições, os folcloristas estavam inseridos dentro de espaços de práticas e sociabilidades que legitimavam suas iniciativas e ações:
A sociabilidade intelectual é entendida como uma prática constitutiva de gru- pos de intelectuais, que definem seus objetivos (culturais e políticos) e formas associativas – muito variáveis e podendo ser mais ou menos institucionalizados –, para atuar no interior de uma sociedade mais ampla. Nessas redes e lugares do- minam tanto dinâmicas organizacionais, que conferem estrutura ao grupo e po-
sições aos que dele participam; como o compartilhamento de sentimentos, sen- sibilidades e valores, que podem produ- zir solidariedades, mas igualmente com- petição (GOMES; HANSEN, 2016, p. 24).
Estabelecer a ideia de uma instituição voltada à
ciência popular sugere que o folclorista desenvolvia
práticas específicas a um campo de saber, a partir das quais orientava seus posicionamentos intelectuais e suas intervenções sociais. Naquele momento, ainda no início da década de 1940, os folcloristas não se pensavam em termos de Movimento Folclórico Brasileiro. Mas nem por isso deixavam de se perceber como integrantes de uma institucionalizada mobilização intelectual em torno do tema. Em 1941/1942, as preocupações estavam mais voltadas para a tarefa intelectual do folclorista, sua função social, os sentidos de suas ações. A criação de instituições folclóricas se mostrava como um artifício necessário e profícuo para a consolidação de um campo de estudos em torno do folclore: um espaço de sociabilidade, fortalecimento e fomento às ideias e aos saberes folclóricos, enquanto disciplina integrante das Ciências Sociais.
No conjunto das possibilidades – por exemplo: folclore, antropologia e etnologia – uma atitude etnográfica parecia irmanar as perspectivas teórico- metodológicas em torno dos estudos culturais em nossa sociedade. É bem verdade que cada um desses campos tem sua própria trajetória, alguns adquirindo mais
prestígio e posições acadêmicas do que outros. Não que estejamos eliminando as fronteiras disciplinares, mas, até meados do século XX, os intelectuais ainda não haviam assumido a especialização dos saberes no rigor do termo. Dessa forma, foi justamente esse tipo de iniciativa de reflexão e orientação teórica e metodológica promovidas pelas instituições que contribuíram para definir contornos disciplinares e especializar as práticas intelectuais. Esse processo não foi rápido nem evolutivo, como sugere a ideia de um movimento linear – tendo sido melhor delimitado apenas com a ampliação do sistema universitário brasileiro, na segunda metade desse mesmo século. Mesmo quando as Universidades se tornaram os espaços apropriados de produção de conhecimento científico, as marginalizadas instituições folclóricas não deixaram de ter existência.
Quando os Estatutos da Sociedade Brasileira de
Folclore foram republicados, em 1949, o quadro de
associados incluía, genericamente, etnógrafos que atuavam em mais de uma possibilidade de campo nas Ciências Sociais. Entre os vivos os já falecidos, podemos citar: Artur Ramos, Franz Boas, Gustavo Barroso, Joaquim Ribeiro, José Leite de Vasconcelos, Leonardo Mota, Mário de Andrade, Raffaele Corso, Roger Bastide, Ramon Menendez Pidal, Stith Thompson e, inclusive, Renato Almeida (presidente da Comissão
Nacional de Folclore). Os Estatutos seguiam os mesmos
moldes da versão anterior, mas os artigos estatutários foram reduzidos ao número de oito apenas, com
preocupações mais voltadas para eleições e reuniões. Um dos aspectos mais relevantes que essa versão do documento possui é uma extensa lista de sete páginas, contendo os nomes e os endereços de seus sócios, com o intuito de facilitar o intercâmbio de ideias entre si. (ESTATUTOS, 1949, p. 7-13)
Essa ampla articulação da Sociedade Brasileira de
Folclore, inclusive no exterior, é um aspecto que nosso
projeto de pesquisa está a investigar neste momento, de modo que seus significados são considerações ainda em construção e que serão tratados quando oportuno. Por ora, finalizaremos momentaneamente esta reflexão com o questionamento que nos serve de título, presente nos Estatutos da Sociedade Brasileira
de Folclore, versão de 1942: qual seria a tarefa
intelectual do folclorista no Brasil dos anos 1940? Ao acompanharmos a trajetória da Sociedade Brasileira de
Folclore, verifica-se a consolidação intelectual de seu
presidente, Luís da Câmara Cascudo. Os Estatutos da SBF, na versão de 1949, fazem uma menção explícita a Cascudo como folclorista prestigiado e orientador de seus pares: “atendendo aos relevantes serviços prestados pelo atual Presidente Fundador ao Folk Lore Brasileiro e sua expansão no exterior, a S.B.F.L declara-o Presidente Perpétuo e Orientador dos estudos na especialidade” (ESTATUTOS, 1949, p. 3).
Em grande medida, o folclorista que Câmara Cascudo personifica tinha uma tarefa, uma missão intelectual a ser desempenhada. Ele seria um intelectual que, de forma associativa, promovia um
trabalho de registro e salvaguarda cultural, cujos procedimentos foram publicados nos Estatutos da
Sociedade Brasileira de Folclore. No contexto dos anos
1940, seu papel era fundar instituições, aproximar e reunir estudiosos do tema, definir os sentidos e as regras teórico-metodológicas, realizar inquéritos e coletas, sistematizar e arquivar as informações, proporcionar a realização de estudos comparativos e, assim, delimitar um campo intelectual, defini-lo como disciplina científica.
Para Cascudo, em entrevista dada nessa época, “naturalmente o conceito de Folclore e do Folclorista é difícil de precisar-se” (CASCUDO, 1944). Ele assim se referia porque as definições estavam em construção, não sendo ainda consensuais. Suas iniciativas institucionais se justificavam nessa busca por dar contornos mais precisos ao folclore e a suas próprias ações enquanto intelectual, naquilo que chamou de “campanha pela valorização do Folclore brasileiro” (CASCUDO, 1944). Para usarmos uma expressão própria da chamada história dos conceitos, a época era de muitos horizontes de expectativas; e o Movimento Folclórico Brasileiro não poderia existir prescindindo integralmente dos espaços de experiências de seu próprio campo (KOSELLEK, 2006). Ignorar alguns, reduzir o alcance de outros, esquecer de mencionar outros mais é uma estratégia política, inscrita em uma memória disciplinar. Na dinâmica do folclore
em movimento, pois, movimentemos também suas
história. Isso nos leva ao Cascudo dos anos 1940, entendendo que o processo de institucionalização dos estudos folclóricos estava em curso e, mesmo lento, ele não poderia passar indiferente:
Para isto é preciso tempo, cuidado, atenção. O lema da Sociedade Brasileira de Folclore é pedibus lentus, tenax cursus.45 Mesmo
lentamente, anda-se sempre, teimosa, obstinada, serenamente. Assim mesmo vive e persiste o Folclore através das civilizações disparatadas e das orientações desnorteantes (CASCUDO, 1944).
Referências
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(Nordeste 1920-1950). São Paulo: Intermeios, 2013a. ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. “O morto
vestido para um ato inaugural”: procedimentos e
práticas dos estudos de folclore e de cultura popular. São Paulo: Intermeios, 2013b.
45 Nos Estatutos da Sociedade Brasileira de Folclore de 1942 apa- rece grafado Pedibus tardus, tenax cursu. Tradução convencional: “Os passos podem ser lentos, mas a marcha é firme”.
BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia de Bolso, 2010.
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