Capítulo 1 – Racismo, Identidade e Negritude: Revisitando as temáticas fundamentais
1.1 As variantes históricas das teorias de raça e racismo
1.1.4 Delimitando conceitos: Racismo e Preconceito
Preconceito, segundo o Dicionário Aurélio 8° ed. de 2013, significa “1. Ideia preconcebida. 2. Suspeita, intolerância, aversão a outras raças, credos, religiões, etc.” (Ferreira, 2013, p. 605). Racismo denota “1. Doutrina que sustenta a superioridade de certas raças. 2. Preconceito ou discriminação em relação a indivíduo (s) considerado (s) de outra raça (s). ” (IDEM, 2013, p. 635). Semanticamente, as duas palavras se apresentam, de certa forma, como sinônimos. Pode-se alegar que racismo é um tipo de preconceito baseado na ideia de supremacia racial.
No entanto, por meio das pesquisas acadêmicas e das falas dos militantes do movimento negro, observa-se uma delimitação entre os dois conceitos. Conforme Djamila Ribeiro15, preconceito e racismo são conceitos diferentes que necessitam ser explicitados para que as pessoas não os confundam:
(...) preconceito é um juízo antecipado que não passa pelo crivo da razão. Preconceito existe em todos os grupos. Todos os grupos podem ter preconceito uns com os outros: uma pessoa não gosta da outra. Isso existe! Agora! O racismo, de fato, é um sistema de opressão. Muito mais profundo que nega direitos numa sociedade, como a nossa, de herança escravocrata à população negra. O sujeito branco cresce numa sociedade onde ele é privilegiado, onde ele acha que os direitos dele são naturais e providencialmente fixados e que não foram construídos à base da opressão de outros grupos.
O professor Muniz Sodré demarca igualmente a diferença entre preconceito e racismo, ao mencionar o preconceito como um ponto de partida para o racismo, mas não o bastante para caracterizá-lo, por mais equívoca que possa parecer essa noção (SODRÉ, 2015). “É preciso existir a ficção de uma realidade identitária (psicológica,
15 Trecho extraído do vídeo do canal “Boi Tempo” em titulado como: “Djamila Ribeiro – Relações interracias a solidão da mulher negra” disponível no link:
social, humana) radicalmente separada – e eventualmente modulável segundo a variedade dos contextos discriminatórios – para que ocorra o racismo” (IDEM, 2015, p. 222). O também professor Carlos Moore abaliza essa diferença demostrando que o preconceito pode não existir em determinadas culturas ou civilizações, diferentemente, do racismo e do sexismo que são sentimentos universais.
Ora, os preconceitos não são necessariamente manifestações de racismo. Pelo contrário: é o racismo que gera os piores e mais violentos preconceitos. Dentre eles, o mais profundo e abrangente é a noção de inferioridade e superioridade racial inata entre os seres humanos. Embora preconceitos de diversos tipos possam desfrutar uma longa existência histórica, como o testemunham claramente os mais antigos livros fundadores de várias religiões à homossexualidade e à mulher, eles podem não ser compartilhadas em determinadas culturas ou civilizações. No entanto, o racismo e o sexismo são perfeitamente universais. (MOORE, 2012, p. 226)
Moore pensa o racismo e o sexismo como fenômenos construídos historicamente e não ideologicamente. Por conseguinte, não seriam eles partes de elaborações intelectuais conscientes, mas de conflitos longínquos, cujas origens se perdem no tempo. “A dinâmica própria do racismo se desenvolve dentro do universo de atitudes, valores, temores e, inclusive, ódios – mesmo quando inconfessos – infiltrando-se em cada poro do corpo social, político, econômico e cultural. ” (IDEM, 2012, p. 226). Em Moore, percebe-se, o racismo se construiu ao longo de conflitos históricos entre tribos estranhas e rivais entre si.
Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica, que viveu o contexto político da Alemanha nazista, compreende o racismo como uma arma ideológica política que engendra conflitos civis em qualquer país (ARENDT, 2012, p. 236). A conceituação de racismo por Arendt assinala um fenômeno de construção intelectual capaz de destruir nações.
Embora seja óbvio que o racismo é a principal arma ideológica da política imperialista, ainda se crê na antiga e errada noção de que o racismo é uma espécie de exagerado nacionalismo. Contudo, valiosos trabalhos de estudiosos, especialmente na França, provaram que o racismo não é apenas um fenômeno anacional, mas tende a destruir a estrutura política da nação. (IDEM, 2012, p. 236)
No entrelaçamento das visões de Hannah Arendt e Carlos Moore pode-se avaliar o quanto as conceituações de racismo refletem o seu contexto histórico, juntamente com a entrada em cena neste contexto de novas pesquisas. Em vista de Arendt, o conceito mais atual de Moore inclui o racismo fenotípico, com influência de Cheikh Anta Diop e demais teóricos dessa corrente.
No campo da psicologia social, a partir da visão do professor Bernardo Jablonski, racismo e preconceito são mostrados como conceitos similares.
(...) as palavras racismo, sexismo ou segregacionismo. Todos esses termos referem-se, de uma forma ou de outra, a atitudes ou comportamentos negativos direcionados a indivíduos ou grupos, baseados num julgamento prévio, mantido mesmo diante de fatos que o contradigam” (JABLONSKI, 2012, p. 135).
Na psicologia social o preconceito, é algo tão velho quanto a humanidade, ancora-se em estereótipos ou conjunto de crenças – corretos ou não – que atribuímos a indivíduos.
Importante, como consequência da visão da psicologia social, é perceber que na delimitação distinta, própria a cada área de estudo - o termo, aqui, ganha uma carga afetiva, e torna-se algo que pode ser “contido”, a partir da não manifestação de atos discriminatórios.
Tecnicamente, o preconceito pode ser positivo ou neutro. Pode-se ser, por exemplo, a favor ou contra estrangeiros, dependendo de sua nacionalidade: vamos supor que, em princípio, suecos teriam a faculdade de despertar sentimentos positivos, e argentinos, em contrapartida, sentimentos negativos. No entanto, em psicologia social o termo é usado apenas no caso de atitudes negativas. Assim o preconceito poderia ser definido como uma atitude hostil ou negativa em relação a um determinado grupo, não levando necessariamente, pois, a atos hostis ou comportamentos discriminatórios. (JABLONSKI, 2012, p. 150)
Além do mais, cabe ressaltar a visão de que dentro do estudo do preconceito pela psicologia social, o preconceito é criado e mantido por forças culturais e sociais. Normas sociais aprendidas e repassadas por meio de diversos canais – família, escola, crença religiosa, arte, mídia – ratificam preconceitos e estereótipos negativos do grupo.
As normas sociais são aprendidas em casa, nas escolas, nas instituições religiosas, com colegas e através da mídia e das artes. Passadas de geração a geração, nos instruem aberta ou sutilmente sobre o que pensar, como reagir afetivamente ou como agir no mundo. Basta que seja uma sociedade que acredite em certos tipos de estereótipos depreciativos ou veja como normal o trato diferenciado a determinados grupos étnicos, regionais, ou, ainda, a mulheres ou a praticantes de uma religião (JABLONSKI, 2012, p. 157)
Isto posto, de geração a geração, certas normas sociais da cultura respaldam o preconceito. No passo do discurso preconceituoso por meio da aprendizagem, a sedimentação de ideias depreciativas em relação ao outro (racismo, sexismo, homofobia) aconteceria de forma simples e fácil, naturalmente incorporada à educação e
à conduta do cidadão. Sendo assim, quaisquer críticas ao discurso preconceituoso, no intuito de manter o status quo, estariam inibidas, pois inacessíveis.
Conclui-se assim, conforme Agnes Heller (2008), que o preconceito, em nome dos benefícios da classe dominante e através da coesão da estrutura social que lhe beneficia, mobilize os cidadãos a seu favor. “A maioria dos preconceitos, embora nem todos, são produtos das classes dominantes, mesmo quando essas pretendem, na esfera do para-si, contar com uma imagem do mundo relativamente isenta de preconceitos e desenvolver as ações correspondentes” (HELLER, 2008, p.77).
Os dados e as reflexões apresentados em torno dos dois conceitos apresentam o fato em comum de serem manifestações de interesses grupais de forma a moldar as normas e toda a estrutura social. Qualquer que seja a sua variante, racismo e preconceito constituem abominações aos olhos de todos aqueles que anseiam por viver em amor e respeito ao próximo independentemente da sua cor, sexo, idade, profissão, escolaridade, raça etc.
Deve-se conservar em mente que, mais cedo ou mais tarde, a vítima de discriminação virá a saber que teve o seu “eu” moldado por discursos racistas ou preconceituosos que a impediram de viver em plenitude, ao incorporar como suas, ideias depreciativas que lhe impuseram no intuito de inibir qualquer manifestação contrária ao padrão de conduta estabelecido. Como o sujeito negro que um dia irá perceber a violência constante e cruel e contínua que nunca percebeu, pois a naturalizou e que Costa integralmente registra:
o sujeito violentado é o que sabe ou virá a saber, sente ou virá a sentir que foi submetido a uma coerção e a uma dor absolutamente desnecessárias ao crescimento, desenvolvimento e manutenção de seu bem-estar, enquanto ser psíquico” (COSTA, 1984, p. 12-13 apud VILHENA, 2006, p. 77).
Em suma, observamos que o racismo pode ser distinguindo do preconceito. Pelo fato de ser um processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo ou coletivo social que é definido diferente por apresentar determinado fenótipo, já o preconceito é algo mais profundo – próximo da agressividade -, que não passa pelo crivo da razão e que todos são capazes de ter, nem que seja, com relação às pessoas preconceituosas. Sendo assim, o racismo engloba os processos de discriminação e de exclusão social, enquanto que o preconceito permanece normalmente como uma atitude.