Capítulo 2 Em torno das Redes Sociais: Atores Sociais, Postagens e Conversação em
2.1 Possibilidades interpretativas acerca dos processos de engajamentos dentro das
Manuel Castells (2013), em Redes de Indignação e Esperança: movimentos
sociais na era da internet, demonstra que as emoções são catalizadoras de mobilizações
coletivas. São capazes de dar o tom ao dinamismo das interações sociais e aos projetos humanos.
Compartilhando dores e esperança no livre espaço público da internet, conectando-se entre si e concebendo projetos a partir de múltiplas fontes de ser, indivíduos formaram redes, a despeito de suas opiniões pessoais, filiações, organizações. Uniram-se. E sua união os ajudou a superar o medo, essa emoção paralisante em que os poderes constituídos se sustentam para prosperar e se reproduzir, por intimidação ou desestímulo – e, quando necessário, pela violência pura e simples, seja ela disfarçada ou institucional. (CASTELLS, 2013, p. 11)
Segundo João Freire (2013), o Diccionario da Lingua Portugueza, de Antonio Moraes Silva (1813), oferece a seguinte definição para o termo emoção: “Emoção. Motim, alvoroço, união do povo.” (IDEM, p. 664). Já o Diccionario da Lingua Brasileira (1832), de Luiz Maria da Silva Pinto, reitera a informação, de modo ainda mais sucinto: “Emoção. Alvoroço, motim de povo.” (IDEM p. 402). Por conseguinte, emoções são elementos capazes de aglutinar, desencadear a ação no mundo e gerar tensões dialéticas entre objetividade e subjetividade. Lembramos que ao se discutir as
Retóricas do Ódio, Totalitarismos e o Ódio Racial (ver o subcapitulo 1.2), verificamos
que a desassistência emocional, social e econômica levou à falta de confiança do sujeito nas intuições, na sociedade e no mercado, gerando o fortalecimento do totalitarismo, seguido do florescimento do ódio aos judeus e às minorias. A descrença nas instituições propiciou o enfraquecimento do contrato social e a insurgência dos sentimentos de intolerância em relação às diferenças.
As redes naturais da família, amigos e parentes e as redes sociais da escola, igreja, território e instituições - são capazes de despertar emoções diversas, assim como atos de engajamentos em torno das normas de significado e de produção de poder presentes na sociedade civil. Partindo da perspectiva de que os meios comunicacionais são elementos constituintes da rede social humana, capazes de gerar sentido, discurso e
representação cada vez mais crescente na sociedade civil - mais de 100 milhões de brasileiros29 estão conectados às redes sociais postando, curtindo, compartilhando e viralizando fotos, textos, vídeos - e que a cada ano surgem novas funções que geram mais usuários – de modo que se torna necessário, no espaço social, que se reflita sobre o engajamento desses sujeitos nesta plataforma.
Segundo Salustiano (2016), as mídias digitais são espaços extremamente “livres”: diferentes mensagens ali circulam, cada indivíduo podendo como bem quiser se expressar e até mesmo se engajar. Conforme Soares e Monteiro (2015), pode-se definir engajamento como a relação, por meio da interação e da conversação, do consumidor com conteúdo, marcas, serviços ou produtos. A definição de Soares e Monteiro vai ao encontro à definição apresentada por Recuero (2013) no artigo
Engajamento X Audiência no Facebook: uma breve discussão cuja definição de
engajamento é a participação ativa dos usuários nas fanpages por meio da conversação.
O engajamento, pra mim, é uma decorrência do envolvimento das pessoas entre si e com a marca como persona. É a construção de laços mais fortes, de capital social naquele espaço e naquela rede. Com isso, a rede deixa de ser só uma rede social e passa a ser um espaço de comunidade, com cooperação entre os atores. Esses usuários deixam de ser mera audiência e passam a ser construtores do discurso da marca também, porque replicam, comentam, discutem com os amigos e recomendam a marca ou o serviço. (RECUERO, 2013)30
Dessa maneira, engajamento na ambiência virtual pode ser entendido como a base das interações humanas e do comportamento coletivo no qual a relação é definida e redefinida constantemente em uma interface virtual. Cada integrante interpretará a relação em que se engaja de uma maneira individual, construindo seu próprio significado e seus próprios termos. As palavras chaves para o engajamento desse sujeito serão: racionalidade e emoção.
Michel Maffesoli, sociólogo francês, em entrevista ao jornal Zero Hora afirmou que a internet e as redes sem fio como plataformas de interação comunicacional resultam em uma nova forma de engajamento que, nascido das relações sociais dentro da ambiência virtual, foi depois ampliado aos espaços públicos, quando necessário:
Na França, por exemplo, (tem-se) o movimento contra os aluguéis caros. O que vemos entre os "indignados" não é mais engajamento, porque engajamento é racional. Aqui a indignação é emocional. E o
29 Dado extraído do link: http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2017/07/mais-de-100-milhoes-de- brasileiros-estao-conectados-nas-redes-sociais.html Acesso em nov. de 2017.
30 Citação extraída do link: http://www.raquelrecuero.com/arquivos/2013/03/engajamento-x-audiencia- no-facebook.html Acesso em nov. 2017.
emocional vai ser forte, pontual e processado rapidamente até outro pretexto surgir (MAFFESOLI, 2013)31.
Maffesoli ressalta a importância de emoções como a indignação e o entusiasmo na formulação de movimentos sociais dentro, e depois, fora do espaço virtual. No cenário político de uma sociedade igualitária, de acordo com o sociólogo francês, em que à desesperança se aliam as emoções amplificadas no espaço digital, acaba por ocorrer a perda do poder de controle por parte do Estado e por parte das empresas de comunicação. Com isso, tais ambiências se convertem em espaços livres para formulação de discursos racionais (retórica fortemente articulada) e irracionais (sem razões éticas suficientes e sustentados pela emoção) que atraem os mais diversos tipos de sujeitos.
Examinando os enunciados digitais verifica-se certo predomínio na formulação de discursos com posições binárias: “certo” e “errado”, “direita” e “esquerda”, “vermelho” e “azul” e “bonito” e “feio”, facilmente capazes de desencadear conflitos sociais. Esses discursos, por vezes, reflexos de contextos sociais, culturais, econômicos e políticos, são produzidos por fomentadores de opinião, os quais, neste caso, serão chamados nessa pesquisa de ideólogos reacionários. Eles são representantes de camadas sociais que tendem a produzir um “falso” consenso entre os segmentos médios urbanos mais escolarizados, de maneira a manter os seus interesses e a reprodução eterna da hierarquia social de hegemonia dominante, valendo-se da pós-verdade32 para angariar usuários e causar engajamento civil. Os ideólogos podem ser representados por Fernando Holiday, Jair Bolsonaro, Raquel Sherazade entre outros que, por meio da combinação do racionalismo e do emocional, constroem discursos com o objetivo de manipular a opinião pública, angariar seguidores e criar disputas.
Como a cultura do ódio é direcionada para os grupos minoritários que lutam contra a imposição dos valores hegemônicos dentro da sociedade civil - negros, homossexuais, mulheres, povos indígenas, ambientalistas, antineoliberalistas (PAIVA e BARBALHO, 2013), o discurso produzido pelos ideólogos nas redes sociais é capaz de causar a destruição de relações familiares e de amizades, jogando as pessoas dentro de uma arena de ódio. Possuem igualmente a capacidade de fortalecer o preconceito de raça, cor, etnia, religião, orientação sexual e/ou procedência nacional. Tais discursos se
31 Citação extraída do link: http://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-maffesoli-a-retomada-das- manifestacoes-juvenis Acesso em nov. de 2017.
32 Segundo a Oxford Dictionaries, o termo “pós-verdade” significa: que se relaciona ou denota
circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. (Tradução Livre) Informação extraída do site:
apresentam como problemáticos pois ao caírem no espaço virtual tornam-se “verdades” que geram engajamento em sujeitos capazes de formarem fanpages de ódio explícito contra determinado segmento social; em contrapartida, levam aos extremos, como o suicídio de pessoas que veem suas vidas destruídas por uma mentira viralizada com status de verdade no Facebook33.
No caso dos coletivos negros, os discursos de ódio despertam práticas racistas, perseguição da cultura afro, acirramento de conflitos sociais no espaço público e virtual, deslegitimação das ações afirmativas, fortalecimento do mito da democracia racial e o engajamento de indivíduos na perpetuação do racismo, devido ao ressentimento e ao ódio à democracia.
De acordo com Jacques Rancière (2014), o ódio à democracia decorre da mira rancorosa daqueles sujeitos que munidos de títulos, seja de nascimento, de riqueza ou de conhecimento, não conseguem aceitar que a essência da democracia, - a pressuposição da igualdade - incida na prática do regime democrático na esfera da política, ou seja, a ausência de títulos para ingressar nas classes dirigentes.
Se atrelarmos a análise de Rancière (2014) à noção contemporânea de minoria e às características básicas deste grupo na clássica democracia representativa apresentada por Muniz Sodré (2013), entenderemos o porquê do florescimento do ódio neste século, especialmente, ao coletivo negro que vem reivindicando cada vez maior participação nas ações civis, resultado das políticas de ações afirmativas concretizadas pelas cotas raciais.
Conforme Sodré (2013), as características básicas de uma minoria são:
1. Vulnerabilidade jurídico-social - O grupo dito minoritário não é institucionalizado pelas regras do ordenamento jurídico-social vigente. Por isso, pode ser considerado “vulnerável”, diante da legitimidade institucional e diante das políticas públicas. Donde sua luta por uma voz, isto é, pelo reconhecimento societário de seu discurso.
2. Identidade in statu nascendi - Do ponto de vista de sua identificação social, a minoria apresenta-se sempre in statu nascendi, isto é, na condição de uma entidade em formação que se alimenta da força e do ânimo dos estados nascentes. Mesmo quando já existe há muito tempo, a minoria vive desse eterno recomeço. Por exemplo, um grupo como o dos curdos (Iraque), mesmo numeroso e antigo, constitui-se minoria ativa no interior do território nacional iraquiano. Nos Estados Unidos, os negros já puderam ser caracterizados como
33 Exemplos: A história que o cantor, MC Catra, tinha realizado vasectomia.
http://g1.globo.com/musica/noticia/2016/01/mr-catra-desmente-vasectomia-e-diz-que-foi-alvo-de- pegadinha.html e A vacina contra a rubéola seria a causadora da microcefalia:
http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2015/12/microcefalia-nao-tem-relacao-com-vacina-de-rubeola-veja- boatos.html. Acesso dez/2016
minoria, mas resta determinar o seu status atual na luta contra- hegemônica.
3. Luta contra-hegemônica - Uma minoria luta pela redução do poder hegemônico, mas em princípio sem objetivo de tomada do poder pelas armas. Nas tecnodemocracias ocidentais, a mídia é um dos principais "territórios" dessa luta. Há até mesmo o risco de que as ações minoritárias possam ser empreendidas apenas em virtude de sua repercussão midiática, o que de algum modo esvaziaria a possível ação no nível das instituições da sociedade global.
4. Estratégias discursivas - Estratégias de discurso e de ações demonstrativas (passeatas, invasões episódicas, gestos simbólicos, manifestos, revistas, jornais, programas de televisão, campanhas pela internet) são os principais recursos de luta atualmente.
(SODRÉ, 2005, p.13)
Desse modo, o discurso de ódio tem florescido à sombra da crise contemporânea da democracia e do crescimento das lutas minoritárias pelo respeito às diferenças na obtenção de uma justiça igualitária, na recusa do consentimento das hierarquias estabelecidas, no desmantelamento das armadilhas discursivas do ódio e da luta pela obtenção de voz nas instâncias decisórias do poder. Assim sendo, “(...) minoria é uma recusa de consentimento, é uma voz de dissenso em busca de uma abertura contra hegemônica no círculo fechado das determinações societárias.” (Ibidem, 2005, p.12).
2.2 A Esfera Pública e a Esfera Digital: redimensionamentos do debate acerca do