3. ENTRE OS MUROS DAS ESCOLAS MUNICIPAL, ESTADUAL E PRIVADA
3.1 PESQUISANDO ESCOLAS: QUESTÕES METODOLÓGICAS
3.1.1 Delineamento da Pesquisa, Procedimentos e Instrumentos
A pesquisa, como já dito, é de natureza qualitativa, ainda que se tenha lançado mão, de modo complementar, de estudo quantitativo, comparativo e transversal para análise dos dados provenientes do questionário 287 aplicado juntamente às entrevistas. Utilizou-se, também, de modo secundário, estatísticas criminais do Brasil, de outros países e de Porto Alegre. É preciso advertir que essa divisão entre qualitativo e quantitativo não é absoluta, representado apenas um método para facilitar a elaboração e a compreensão do trabalho, uma vez que os dados provenientes dos questionários e as estatísticas se mostraram importantes à análise dos conteúdos das entrevistas.
Quanto à coleta de dados, foram elaboradas entrevistas dirigidas a quatro grupos básicos de amostragem, entendidos como imprescindíveis e suplementares: diretores(as), orientadores(as) educacionais/coordenadores(as) pedagógicos(as), professores(as) e mães/pais. As inquirições foram aplicadas a um universo total de
287 A descrição do questionário utilizado será feita no ponto 3.3, por se entender mais adequado trazê-la juntamente com a abordagem dos resultados obtidos a partir ele.
vinte e um indivíduos. Estava-se, ainda, aberto à possibilidade de ouvir informalmente pessoas específicas cuja importância da troca dialogal sobreviesse ao longo da pesquisa empírica.
Embora os indivíduos – com exceção das diretoras – tenham sido selecionados, nas três instituições, por aqueles responsáveis pelo contato com a pesquisadora, percebeu-se que isso se deu de forma distinta em cada uma delas. Enquanto na escola particular a escala de entrevistas foi elaborada e enviada à autora pela assessora pedagógica, previamente ao início das visitas, na estadual o convite à participação muitas vezes foi feito pela coordenadora pedagógica nos corredores da escola, aproveitando intervalos e períodos ociosos dos convidados que se disponibilizassem a colaborar. Na escola municipal, por fim, parte dos entrevistados foi sugerida pelo professor de sociologia, responsável por mediar as pesquisas envolvendo a instituição, e o restante foi contatado pela orientadora educacional, diretamente no SOE ou na sala dos professores. Os convidados de todos grupos de amostragem aceitaram participar voluntariamente do estudo, sobre o qual receberam as informações correspondentes (finalidade das entrevistas e os objetivos do trabalho, também expostos no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido).
As particularidades de funcionamento de cada instituição serão explicadas mais detidamente no ponto seguinte, mas, para complementar as informações acerca das entrevistas, far-se-á breves comentários sobre os horários e a forma como se deram. As visitas às escolas ocorreram nos mais variados horários. O colégio particular tem aulas pela manhã e à tarde, tendo os encontros sido agendados para os dois turnos. Por sua vez, as escolas municipal e estadual têm aulas da manhã à noite, com entrevistas distribuídas nos três turnos, em ambas. Foi comum nas escolas públicas, em especial na estadual, haver reagendamentos e interrupções das conversas, pelo excesso de atribuição de tarefas aos profissionais dos setores administrativos e técnico-pedagógicos. Em razão da defasagem dos quadros, agravada pela crise do Estado, o que se percebeu foi uma sobreposição de funções, com demandas quase que ininterruptas advindas de diferentes atores da comunidade escolar. No caso da coordenadora pedagógica da instituição estadual, por exemplo, não havia dia em que não houvesse pessoas na sua sala, com outras já no corredor, aguardando para serem atendidas, somando-se isso ao telefone
tocando e a mensagens e e-mails chegando, com solicitações das mais variadas naturezas e problemas de diferentes escalas de gravidade para resolver. Isso se refletiu na duração das entrevistas que, enquanto na escola particular variaram entre 60 e 90 minutos, nas públicas, com poucas exceções, ficaram em cerca de 45 minutos. No entanto, se a sobrecarga era grande, a disposição e a boa vontade sempre pareceram ainda maiores. Muitos profissionais, a despeito das adversidades, trabalham na base da doação e do sacrifício pessoal, por entenderem a importância do papel que exercem e colocarem a formação dos alunos acima do seu próprio bem-estar.
De volta às questões metodológicas, após a transcrição literal dos dados obtidos nas entrevistas – nas quais foi utilizado gravador – e dos diários de campo feitos – em que foram anotadas, ao retornar de cada visita às escolas, conversas informais e percepções e sentimentos pessoais –, os conteúdos foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo, que será explicada pormenorizadamente logo abaixo. A apreciação do material foi entrelaçada pela revisão bibliográfica de livros e artigos e documental de leis, pesquisas e matérias veiculadas em mídias impressas e eletrônicas.
Optou-se por incluir as entrevistas no trabalho por meio de menções específicas, com referência às expressões literais utilizadas pelos entrevistados, e também de forma genérica, como expressões contidas dentro de discursos gerais. Com o objetivo de proteger o sigilo dos dados, os nomes utilizados neste artigo são fictícios, estando as entrevistas catalogadas da seguinte forma: letra referente à escola (M para municipal, E para estadual, P para particular)/letra referente ao grupo de amostragem (A para direção, B para coordenação pedagógica ou orientação educacional, C para professores, D para mães ou pais)/número referente à ordem em que ocorreu a entrevista. Assim, por exemplo, M/C/1 diz respeito à primeira professora entrevistada na escola municipal.
É de se ressalvar que as entrevistas realizadas não se pretendem representativas do pensamento da totalidade de cada uma das escolas, quanto menos da totalidade das escolas de Porto Alegre, especialmente por serem compostas por pessoas, bem como por atenderem públicos, de procedências e experiências bastante distintas.
Para a sustentação de conclusões acerca do tema exposto, será aplicado o método indutivo – uma vez que estas serão mais amplas que o conteúdo das premissas nas quais se basearam. Importante ressaltar a tripla função das entrevistas aplicadas: primeiro, a de aventar questões imprevistas ou pouco exploradas pelo projeto de pesquisa, mas que se afiguram de extrema relevância na esfera microssocial das escolas. Ou seja, representações, histórias e conflitos específicos que só podem ser auferidos adequadamente pelo contato direto com a realidade local. Segundo, a de demonstrar empiricamente algumas linhas de pensamento e ação que, embora não possam efetivamente representar a totalidade das escolas, devem ser consideradas pertinentes por serem demonstrativas daqueles enunciados que são tomados como legítimos e daqueles que não o são. Por fim, em terceiro lugar, a de propiciar o confronto entre discursos que se apresentam conflitantes em um dado momento, justapondo dialeticamente os medos, anseios, imaginários e esperanças dos grupos pesquisados. Ao invés de centrar a análise nos dados brutos da violência, será interrogada a realidade por meio do que se pensa sobre ela, sob o argumento de que as interpretações produzidas interferem nos comportamentos desenvolvidos frente à violência. Desse modo, no lugar de se estimar o grau de “verdade” ou de “realidade” contido nas representações sociais, o que se propõe é analisar até que ponto elas atuam no condicionamento das rotinas e práticas escolares e na constituição e reprodução de ideologias e de políticas públicas. A ideia, portanto, é atentar para a relevância dos aspectos subjetivos acerca da insegurança.