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3. ENTRE OS MUROS DAS ESCOLAS MUNICIPAL, ESTADUAL E PRIVADA

3.1 PESQUISANDO ESCOLAS: QUESTÕES METODOLÓGICAS

3.1.4 Os Limites do Campo como Convite a um Novo Olhar

294 BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011. 279 p.

295 ROCHA, Dércio; DEUSDARÁ, Bruno. Análise de conteúdo e análise de discurso. Alea, v. 7, n. 2, p. 7-12, 2005, p.
17.

296 MACHADO, Érica. Medida socioeducativa de internação: do discurso (eufemista) à prática judicial (perversa) e à execução (mortificadora): um estudo do continuum punitivo sobre adolescentes do sexo feminino em conflito com a lei na cidade do Recife, PE. 2014. 420f. Tese (Doutorado) – Curso de Direito, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2014.

A pesquisa de campo em escolas, por se dar em um cenário vivo e em permanente transformação, não permite o estabelecimento de contornos prévios muito precisos. Por mais que se tente conhecer o ambiente a ser estudado e o tema que servirá de pano de fundo quando da elaboração do projeto, é apenas ao mergulhar no campo que certas surpresas, boas e ruins, desvelam-se, revelando consigo os potenciais e limites do trabalho.

O plano inicial para a presente dissertação contava, além das entrevistas, com a obtenção, junto à Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul, dos dados das ocorrências registradas em um raio de 400m de cada escola ao longo do ano de 2015. A ideia era comparar tais números com as estimativas preenchidas pelos entrevistados nos questionários, visando constatar conexões e/ou diferenças entre os dois. Para tanto, seria necessária a listagem dos registros de cada um dos nove bairros identificados pela mestranda como pertencentes às regiões estudadas. Ao longo do ano, muitas tentativas de contato foram feitas com a SSP/RS, por meio de variados setores, sem qualquer retorno, positivo ou negativo, sobre a possibilidade da pesquisa. A troca da liderança da pasta, nos primeiros dias do mês de setembro, pareceu um sopro de esperança. No entanto, ao ser recebida para conversar sobre o projeto e os dados necessários, a pesquisadora foi informada que a secretaria não possuía o detalhamento dos bairros em que ocorrem ou em que são registradas as ocorrências, o que seria imprescindível para delimitar as áreas de interesse do estudo. Foram apontadas, então, duas alternativas. A primeira seria visitar cada delegacia concernente às regiões dos entornos das escolas, para tentar conseguir os registros. Apesar de interessante, a opção não era viável pelo curto tempo de se dispunha. A segunda alternativa, oferecida por um dos funcionários e aceita pela mestranda, seria contatar a Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul, onde foram realizados levantamentos nesse sentido, quando da constituição das CIPAVES. Ainda que distante da pretensão inicial, esse caminho abriu novas informações e possibilidades à pesquisa, trazendo importantes dados sobre violências nas escolas do RS. A gerente estadual do projeto, Luciane Manfro, mostrou-se, inclusive, bastante aberta e interessada a colaborar com os estudos relativos ao tema, vendo a academia como uma parceira na busca por melhorias na área educacional.

Uma outra limitação, bem menos comprometedora que a primeira, foi a impossibilidade de fotografar os ambientes de cada escola, com suas câmeras, portões, catracas e outros dispositivos adotados como medidas de segurança. Pelo compromisso com a preservação das identidades das instituições, não houve sequer solicitação por parte da pesquisadora para esse tipo de registro. O que há, na tentativa se suprir as figuras, é uma descrição detalhada de cada espaço, das alterações arquitetônicas neles havidas e do que representam em termos de tentativa de prevenção.

Por fim, o que se segue é menos uma limitação, ou encontro com um campo hostil297, e mais uma aparente decepção. Aparente porque, embora inicialmente tenha parecido colocar em risco um ponto importante a ser analisado na pesquisa, acabou, por um outro olhar, mostrando-se, talvez, ainda mais interessante. Como explicitado anteriormente, a judicialização de conflitos é um fenômeno recorrente em Porto Alegre e potencialmente prejudicial a adolescentes, em casos de conflitos de menor lesividade que, ainda assim, podem resultar na aplicação de medidas socioeducativas. Entretanto, apesar de ser presente em grande parte das instituições de ensino da cidade, não o é em nenhuma das três escolas participantes do estudo298. A partir da ideia que se tinha em mente, isso inviabilizava uma análise mais aproximada sobre o assunto, porém, como dizem os versos de Chico Science, “um passo à frente e você não está no mesmo lugar”299.

A judicialização, como se viu no capítulo anterior, dá-se após a ocorrência de um conflito, muitas vezes pela dificuldade das escolas em resolverem as diferenças havidas entre seus muros. Viu-se, também, que em uma escola onde a gestão de tais conflitos é pautada pelo diálogo, por uma comunicação pacífica e pacifista, dificilmente há a evolução para manifestações violentas, reduzindo consideravelmente as chances de transferir ao poder judiciário a resolução dos problemas escolares. Assim, se inicialmente se atentava para a importância de abordar a judicialização – medida tomada quando frustradas ou ignoradas todas

297 CARVALHO, Salo de. Como não se faz um trabalho de conclusão. São Paulo: Saraiva, 2013, 2ª edição, p. 137.

298 Como se verá na análise das entrevistas, todas já passaram por isso, porém, além de não ser algo que ocorre com regularidade, nas vezes em que ocorreu foi por situações que de fato configuravam atos infracionais de maior gravidade.

299 SCIENCE, Chico. Um Passeio no Mundo Livre. Intérprete: Chico Science e Nação Zumbi. In: CHICO SCIENCE E NAÇÃO ZUMBI. Afrociberdelia. Sony Music, 1996. 1 CD (75 min 07 s). Faixa 6 (3 min e 59 s).

outras instâncias conduzidas pela instituição escolar –, agora o foco é deslocado para o que acontece quando o papel de autoridade pedagógica é de fato desempenhado dentro da escola, por meio da educação, do diálogo e da cooperação, com vistas a prevenir e resolver conflitos de maneira não violenta. Como se verá nos estudos de casos, todos os colégios pesquisados contavam com práticas baseadas na tolerância e na solidariedade, no respeito aos direitos individuais e na garantia e suporte à liberdade de opinião, e se empenhavam em resolver os conflitos diretamente em suas fontes.

Um último ponto a ser comentado, antes de se passar aos estudos de caso, diz respeito à falta de experiência da pesquisadora com o universo escolar, objeto estudado, antes da ida a campo. Desde quando finalizado seu período como aluna de ensino médio, em dezembro de 2006, foram quase inexistentes os contatos diretos com escolas. Mesmo esses 11 anos de colégio não poderiam ser considerados de grande validade para a pesquisa, uma vez que o olhar, por ser de parte, carecia das necessárias isenções e dimensões críticas. O pouco de informações ao qual teve acesso, na última década, advinha de breves relatos de amigos e familiares com crianças em idade escolar, de histórias que desembocavam no atendimento a adolescentes no Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da UFRGS ou de notícias veiculadas na mídia. As representações sociais criadas pela pesquisadora acerca do universo escolar em muito se deviam a isso.

Por óbvio que antes de iniciar a aplicação das entrevistas houve uma aproximação ao tema por meio das leituras de livros e trabalhos acadêmicos da área. No entanto, foi apenas ao chegar nas escolas e iniciar os primeiros contatos com os participantes do estudo que percebeu que, apesar da preparação, havia diferenças substanciais entre o cenário encontrado e os textos lidos e imaginário construído. Descobriu, também logo nas conversas iniciais, que o tema a ser abordado já fazia parte do cotidiano de cada um dos entrevistados, os quais demonstravam domínio do que falavam e uma grande vontade de expor seus sentimentos e opiniões. Deixar o assunto correr livremente foi, muitas vezes, bastante mais rico do que manter a entrevista nos estritos moldes das perguntas pré-estabelecidas.

Um fato curioso, que talvez mereça destaque, diz respeito à insegurança da pesquisadora quanto à forma “certa” de se dirigir às pessoas. Os sete anos – entre graduação e mestrado – em uma faculdade de direito, somados às atuações profissionais no campo jurídico, permeadas por formalidades e burocracias, resultaram em um despercebido distanciamento da coloquialidade ao se comunicar em ambientes menos solenes, mas que ainda envolvessem relações de trabalho ou estudo. Foi apenas ao contatar os setores responsáveis pela participação das escolas e ao ter as primeiras conversas com atores da comunidade escolar, que tal dificuldade se desvelou. Deveria agir de forma solene, como meio de demonstrar respeito pelo interlocutor, ou de modo informal, de acordo com o que parece mais adequado ao ambiente? De um lado, corria o risco de parecer arrogante. De outro, de soar desconsiderada. No entanto, após algumas reflexões e, especialmente, após sentir que os participantes já se consideravam respeitados pelo convite, em si, e pela atenção inicial dispensada quando da apresentação do estudo, optou por uma abordagem mais direta e coloquial.

Assim, ainda que as muitas leituras tenham servido como uma base imprescindível de conhecimento e de dados, e que a atenção à metodologia empregada tenha guiado a pesquisadora em momentos de dúvida, garantindo as ferramentas adequadas e, especialmente, auxiliando-a a manter uma autocrítica permanente, foi o contato com o campo que moldou o trabalho à condição em que hoje se encontra. As distintas experiências das quais foi palco, as falas, os silêncios, o que era previamente esperado, o que surpreendeu e, acima de tudo, as aparentes adversidades foram os grandes responsáveis pelas muitas transformações no olhar da autora, na sua percepção e, consequentemente, na maneira de passar as letras dos dedos ao papel.

3.2 OS ESTUDOS DE CASOS DAS ESCOLAS MUNICIPAL, ESTADUAL E