3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.2 DELINEAMENTO DA PESQUISA
A pesquisa fenomenológica é uma estratégia de investigação em que o pesquisador identifica a essência das experiências humanas, com respeito a um fenômeno, descritas pelos participantes. De acordo com Moustakas (1994) o entendimento das experiências vividas distingue a fenomenologia como uma filosofia e também como um método e o procedimento envolve o estudo de um pequeno número de indivíduos por meio de um engajamento extensivo e prolongado para desenvolver padrões e relações significativas. A experiência vivida é a fonte da pesquisa fenomenológica, que para desvelar um fenômeno, Machado (1994), diz ser necessário pedir emprestadas as experiências das pessoas e suas reflexões sobre elas. Para Heidegger (1993, p. 57), a expressão fenomenologia significa, antes de tudo, um conceito de método.
Como a análise está vinculada aos indivíduos que interagem com o objeto de pesquisa e pela percepção do pesquisador, gera múltiplas formas de interpretação, pois "cada pesquisador acaba por criar sua própria forma de interpretar, o que é resultado da maneira pela qual ocorre o relacionamento com o objeto de pesquisa” (Vieira, 2009, pp. 4-5). A Figura 11 exemplifica a abordagem fenomenológica de forma mais genérica.
OBJETIVO Descrição, Interpretação e Compreensão de Experiências no Plano Individual e no Plano Geral
Pergunta de pesquisa Como se estrutura uma experiência vivida em uma situação particular?
Coleta de dados Enfoque na experiência vivida: entrevistas e narrativas Análise dos dados Análise por temáticas de significação geral e específica Base epistemológica Filosofia e conhecimento do campo de estudo
Figura 11 - Abordagem Fenomenológica Fonte: Adaptado de Vieira (2009).
A abordagem fenomenológica delimita um pano de fundo ao trabalho que se quer desenvolver. Segundo Espósito (1993, p.64), é “o pano de fundo que serve ao pesquisador como horizonte sobre o qual este se apoia e que lhe garante a possibilidade de uma certa perspectiva”. A perspectiva em questão não busca a quantificação de comportamentos observáveis e controláveis, mas, segundo Bruns (2005), permite encontrar significados atribuídos às experiências vividas. A autora afirma que, ao centrar-se na relação sujeito-objeto-mundo, há uma procura em não reduzir seu objeto de estudo, mas “(...) compreendê-lo em sua facticidade e transcendência, levando em consideração o emaranhado de toda trajetória histórica ...)” (Bruns, 2005, p. 70). Através da descrição do fenômeno investigado pode-se relatar “(...) o percebido na percepção, no fundo onde se dá”. (Bicudo, 2000, p.76). O movimento de aproximação do fenômeno que se quer compreender busca, portanto, compreendê-lo a partir do modo como se mostra e “as chaves para o acesso à compreensão não podem ser buscadas na manipulação e controle (próprios ao método científico) mas, sim, na participação e abertura”. (Espósito, 1994, p.83).
Para Van Manen (1990, p.1), “as próprias questões e a maneira que alguém as compreende são importantes pontos de partidas, e não o método em si”, ele diz que é a questão de pesquisa que indica o caminho metodológico a ser seguido, e esta deve estar clara para o pesquisador. Levando em consideração o objeto desta pesquisa recorreu-se ao método fenomenológico visando responder a questão: Como o comportamento empreendedor pode ser explicado a partir do constructo do capital psicológico e da teoria social cognitiva, na perspectiva da agência humana?
Assim, partir da experiência relatada na trajetória da criação e desenvolvimento do negócio dos integrantes de uma associação, busca-se a compreensão para comportamento empreendedor, e amparou-se da abordagem da Fenomenologia Hermenêutica, que enfatiza o papel do pesquisador e os horizontes de interpretação e que se fundamente nos trabalhos de Heiddeger. A Fenomenologia Hermenêutica vale-se também da análise de textos literários, poesia, correspondência. Esta abordagem apresenta algumas variantes e uma delas é a Abordagem Reflexiva do Mundo Vivido (Dahlberg et al., 2008), que visa expandir a compreensão do ser humano e de suas experiências. Outra variante da fenomenologia hermenêutica é a Análise Fenomenológica Interpretativa (Smith & Osborne, 2003), que tem enfoque ideográfico e visa oferecer insights acerca da maneira como determinada pessoa, em dado contexto atribui sentido ao fenômeno. Aborda também a Análise Crítica da Narrativa, que
focaliza o estudo individual, mas enfatiza a compreensão da história de vida tal como é apresentada (Langdridge, 2007).
A abordagem hermenêutica é uma das mais adotadas na pesquisa fenomenológica no Brasil (Martins & Bicudo, 1989; Bicudo & Espósito, 1994). Quando o pesquisador se abre para o significado que emerge na aproximação com o fenômeno, fundamenta-se na compreensão e interpretação. Surge aí a importância da hermenêutica em sua articulação com o método fenomenológico. A hermenêutica, em sua origem, carrega como referência a palavra grega
hermeios que parece se referir ao Deus-mensageiro Alado. Ao longo da história, a palavra
hermenêutica já recebeu diversos significados e hoje é considerada como compreensão e interpretação dos textos da obra humana. É ela que permite buscar o significado de uma obra, enquanto produção humana, a partir do contexto em que se mostra. (Espósito, 1994).
Para a fenomenologia, a realização de uma pesquisa é sempre um questionamento sobre a maneira como as pessoas experienciam o mundo, para conhecer o mundo em que elas vivem como seres humanos (Van Manen, 1990). Nesse processo de investigação, o primeiro passo a ser dado pelo pesquisador na trajetória da pesquisa é delimitar o contexto, assim como escolher as pessoas que o ajudarão a revelar o fenômeno e iniciar a coleta dos relatos das experiências. Para isto, existem, segundo Alberti (2008), duas técnicas para a história oral: a entrevista temática e a entrevista de história de vida. O uso da história oral, portanto, permite a compreensão dos fenômenos a partir da experiência pessoal, levando os indivíduos a buscar na memória os fatos que para eles foram relevantes. Como na pesquisa fenomenológica a ênfase é colocada na compreensão da experiência vivida dos outros, a entrevista torna-se o procedimento mais adotado nesse tipo pesquisa. Segundo Dale (1996), a entrevista do tipo fenomenológica tem início a partir de uma questão que guiará o processo de coleta; ou seja, é uma questão norteadora e disparadora da entrevista, estritamente implicada com o objetivo da pesquisa. O pesquisador/entrevistador, segundo Dale (1996) encoraja o entrevistado a refletir sobre sua experiência e detalhá-la o máximo possível. A experiência vivida é a fonte e o objeto da pesquisa fenomenológica, que segundo Machado (1994), para desvelar um fenômeno, é necessário pedir emprestadas as experiências das pessoas e suas reflexões sobre elas. Os dados em uma pesquisa de natureza fenomenológica são experiências humanas (Van Manen, 1990). Assim, nesta pesquisa foi enfatizada a compreensão da narrativa da trajetória de empreendedores que compõem a diretoria da Associação Comercial e Empresarial da cidade de Paranavaí (ACIAP), do Conselho da Mulher Empresária (CME), e do Conselho de Jovem Empresário (COJEP).
Com vistas a alcançar o objetivo da pesquisa, os entrevistados foram encorajados a narrar suas trajetórias empreendedoras, guiados por um roteiro aberto (apêndice A), ao mesmo tempo ficando livres para discorrer sua experiência desde o processo de criação e ao longo do desenvolvimento do negócio.