5 A DIMENSÃO POLÍTICA DO FAZER CIÊNCIA E O CARÁTER SUBVERSIVO DO
6.7 Delineando um horizonte de valores éticos
Há nos depoimentos, momentos em que os cientistas falam sobre seus processos de aprendizagem, lembrando os mestres que conduziram a sua formação, seus professores queridos ou estimulantes, cujas influências foram decisivas em suas vidas e carreiras. Transcritas aqui, podemos observar que essas falas expressam valores recebidos e delineiam um horizonte de valores éticos que reafirma o ideal emancipatório contido nas categorias de Paulo Freire.
Simão Mathias, lembrando-se de sua formação em química e referindo ao professor Heinrich Rheinboldt, afirma com respeito que “ele foi antes de tudo um educador”, com o qual não se aprendia apenas química, “mas também a disciplina no trabalho, o respeito mútuo”. (SBPC, 1998, p. 19).
93 A portuguesa Maria da Conceição Tavares, ao considerar sobre sua formação no Brasil, conta que “naqueles bons tempos havia liberdade acadêmica e era de bom-tom que os professores admitissem divergências, além do mais, a escola era boa”. Teve “o privilégio de ter contato com a elite do pensamento latino-americano, dos liberais conservadores aos reformistas avançados”. Não precisou “ir a Harvard” – explica – para depois ter de se “tropicalizar de novo”, porque foi “discípula dos grandes autodidatas da América Latina e os autodidatas tem uma grande vantagem: ensinam com muito menos preconceitos, porque não são bitolados” (SBPC, 1998, p. 164).
O médico parasitologista e fisiologista Alberto Carvalho e Silva, referindo-se às influências que recebeu em sua formação, lembra-se do professor Samuel Pessoa, em seu segundo ano do curso médico, que “combinava as qualificações de um bom cientista com a preocupação com a saúde pública”, transmitindo “um profundo interesse pelas condições da população pobre, sua exposição a doenças, a missão do governo e a responsabilidade do médico em melhorar essa situação” (SBPC, 1998, p. 270).
Zilton Andrade, um dos pioneiros nas pesquisas sobre males endêmicos no Brasil, também teve oportunidade de estudar com o professor Samuel Pessoa, ao ser admitido num concurso para técnico de laboratório, no instituto de pesquisa fundado por Otávio Mangabeira Filho, na cidade de Salvador, em 1949. Ele conta que “assistir suas aulas e seu trabalho foi definitivo” para sua formação. Em suas palavras: “Vi seu entusiasmo, dedicação à pesquisa e seriedade, sua visão global do que é ciência, a noção de que deve ser feita em benefício do povo, e senti suas preocupações com os problemas sociais” (SBPC, 1998, p. 705-706).
Um dos precursores da moderna bioquímica brasileira, professor José Moura Gonçalves fala sobre sua formação lembrando quando ainda estagiava no laboratório de química fisiológica da faculdade de medicina, em Belo Horizonte, sob orientação do professor Baeta Vianna que ele considerava, “um ótimo professor”, com aulas “atualizadíssimas”. Recorda a “preocupação” do professor Baeta “com o aspecto social da pesquisa científica, como “um traço marcante de sua personalidade” e conta que o professor “criou a Fundação Benjamin Guimarães para o atendimento de crianças tuberculosas e o serviço de assistência universitária”, descrevendo-o como “uma pessoa fascinante”. Considerando que teve uma “formação geral muito boa”, Gonçalves afirma que isso lhe “proporcionou uma visão ampla dos problemas científicos, sob o ponto de vista filosófico, histórico e teológico” (SBPC, 1998, p. 388-399).
94 Pioneiro em certas áreas da pesquisa biomédica, Amilcar Vianna Martins atribui ao professor Marques Lisboa boa parte de sua formação científica. Em suas palavras: “Ele exerceu uma influência muito grande sobre mim, mas, curiosamente não do ponto de vista técnico. O professor Marques Lisboa não era um técnico; ele não fazia pesquisa exatamente. Pode-se dizer que era um filósofo”. Martins explica que aprendeu com ele, “máximas importantíssimas, como por exemplo, a de que nunca devemos aceitar o fato consumado”, que é preciso criticar e “só aceitar um dado qualquer depois de analisá-lo bem” (SBPC, 1998, p. 415).
Descrevendo o ambiente na Faculdade de Filosofia na época de seu ingresso, Giuseppe Cilento se lembra do “privilégio de ter convivido com professores como Heinrich Rheinboldt, Heinrich Hauptmann, Giorgio Renato Levi, Ruy Ribeiro Franco, Abraão de Moraes, Paschoal Senise e outros” (SBPC, 1998, p. 431). Menciona lembrar- se sempre “da importância que esses mestres davam às aulas, da dedicação com que as prepravam” e afirma ter aprendido com eles “que ministrar aula é algo muito sério e que o raciocínio é mais importante que o conhecimento”, que “de certa forma, sempre se encontrará à disposição nas bibliotecas”. Entre os valores recebidos, Cilento menciona que “acima de tudo devem estar a seriedade de propósitos, a honestidade científica, o trabalho rigoroso”, e que “a formação científica que se adquire durante o doutorado é, em geral, mais importante que os próprios resultados da pesquisa” (SBPC, 1998:.431-432).
Apontemos os valores que se expressam e se relacionam nas categorias discursivas: o respeito mútuo; a ausência de preconceitos; uma visão ampla e global; o espírito crítico; a importância do raciocínio; a seriedade e honestidade; o rigor e entusiasmo; o interesse pelas condições da população mais pobre; a responsabilidade em melhorar essa situação; a preocupação com o aspecto social da pesquisa científica. Todas essas categorias de discurso e pensamento delineiam um horizonte valores éticos recebidos e compartilhados pelos cientistas.
A noção mais evidente de que a ciência deve ser feita em benefício da população também aparece como valor declarado e transmitido, na fala do professor Warwick Estevão Kerr, cujo nome está associado à formação de grupos e à catalisação de pessoas voltadas para o desenvolvimento científico do Brasil: “Minha intenção foi sempre esta, a de formar grupos fortes de pesquisa, com bons princípios, grande capacidade de trabalho e atuando dentro da filosofia de que a ciência deve ser produzida em benefício da população” (SPBC, 1998, p. 11). Sobre o que pensava ser sua maior contribuição à ciência considerou que “foi a formação de pessoal, não só a de mestres e doutores, mas de todos
95 aqueles alunos de graduação” que ficaram a sua volta, “desde Piracicaba até hoje” (SBPC, 1998, p. 13).
Francisco Iglésias, um dos mais respeitados historiadores do país, também teve em conta a necessidade de se resolver os problemas concretos do país, incluindo em suas reflexões, a crítica ao tratamento que se dá aos problemas sociais brasileiros, além de ironizar sobre o descaso da educação nacional com a sua disciplina: “Quem não domina ciência nenhuma pode muito bem ser professor de história”, o que “não pode é ser professor de oftalmologia, de cirurgia facial...Vejam que azar o meu”. Para ele, “num mundo arrebentando de problemas não faz sentido ficar se preocupando com o sexo dos anjos. A preocupação com problemas concretos provoca uma motivação pessoal muito grande”. Ele critica os “modelos de econometria que trabalham com alta estatística e matemática”, porque embora “perfeitos” e “irretocáveis”, estão “esvaziados de qualquer sentido humano”. Afirma que o Brasil está sofrendo “um dilema hoje”, com a economia “sendo dirigida por tecnocratas destituídos de sentido do social”. Em suas palavras: “Eles não sabem o que é social, não sabem o que é o sofrimento, o que é povo, o que é pobreza” (SBPC, 1998, p. 479-487).